Capitulo 86: Uma conversa sobre um nome
Os lobos aguardaram e pensaram consigo mesmos, aquele era o seu líder? O Hobgoblin venceu a luta, o cadáver no chão servindo como prova irrefutável do que acabara de ocorrer, mas isso fazia do Monstro Verde o mais forte? Era difícil aceitar isso como fato, ele usou um truque sujo para vencer, atitude que nas palavras de Caipora era covarde, então era mais fraco que o antigo líder. O ideal era serem liderados pelo mais forte, não pelo mais trapaceiro. Se existia um ponto positivo, seria talvez dizer que o Monstro Verde era mais inteligente, porém nem disso tinham certeza.
Olharam para seu possível novo líder, (ainda iriam debater entre eles mesmos independente do que Curupira dissesse, afinal aquilo não foi vitória por força) “ele”
mastigava a carne do Homem Lobo recém falecido sem o menor respeito pela criatura. Seus olhos vagaram para os pés virados e então para a matilha, cuspiu um tufo de pêlo alaranjado no chão próximo ao corpo sem vida.
— Conversaremos em breve, esperem por mim. — ordenou como se já os comandasse e caminhou na direção em que estavam Curupira e Caipora.
O guardião das matas saltou do alto e caiu em pé ao lado do monstro verde provocando um som pesado ao fazê-lo, a garota vermelha seguiu seu exemplo, embora com mais suavidade e menos barulho. Ela saltou alegremente acompanhando os dois como se qualquer que fosse o assunto deles também lhe fizesse respeito, mesmo que não fizesse. A figura mítica e descabelada às vezes dava cambalhotas desnecessárias e seguia em frente, |ele| começou a pensar que ela era incapaz de se manter quieta.
O Curupira apenas se afastou para dar tempo a matilha de lamentar o seu morto e decidir o que iriam fazer. Em uma situação normal, o Monstro Verde assumiria imediatamente como líder, mas aquela batalha foi longe de ser normal e os pés virados não se surpreenderia se a alcateia resolvesse se revoltar.
Parou entre duas grandes árvores, não havia muito espaço ali, apenas o suficiente para os três. Em frentes a eles um conjunto de raízes das duas árvores se uniram para formar uma parede natural, o que transformava aquilo em um beco sem saída. Uma moita chamava atenção, um arbusto grande carregado de frutas cheias e roliças, capazes de encher a palma de uma mão. Curiosamente, todos tomaram a maior distância possível do arbusto.
— Então kurumin, o que quer?
— Eu…
— Sem rodeios, sem palavras bonitas ou desnecessárias, seja direto. — interrompeu o Curupira parecendo mais entediado do que qualquer coisa.
— Eu quero um nome. — curto e direto ao ponto como foi exigido.
O pés virados sorriu maliciosamente enquanto a Caipora bufou.
— Então crie, kurumin é uma criatura esperta, pode fazer isso sozinho, ou precisa de ajuda?
— Entendeu bem o que eu pretendi transmitir, quero que um dos seus deuses me dê um nome — falou encarando os olhos de Curupira.
— Hunf — bufou como se ouvisse algo engracado, divertido mesmo que nao devesse ver dessa forma, Cocando seu peito ruivo, falou — Mas pensei que kurumin achava a existencia de deuses, uma ideia idiota, nao é?
Sim, de fato sempre achou, mas isso o fez estreitar seus olhos com desconfiança, pois esse fato nunca foi dito para o próprio guardião das florestas, esse conhecimento não devia ser de conhecimento do pés virados.
— Como você sabe disso?
— Os deuses de quem kurumin não gosta também tem ouvidos, eles ouvem as coisas sendo ditas. — disse como se esse fosse um enigma para o Hobgoblin resolver.
Silêncio ocupou o ambiente, só interrompido pela caipora que saiu correndo quando algo pareceu chamar sua atenção. Definitivamente, ela era incapaz de ficar quieta por muito tempo, seu corpo implorando para se mover a todo momento. Os dois sozinhos se encararam, Curupira coçou sua pele calmamente. O Monstro Verde pensou por alguns segundos e então levantou as mãos em sinal de rendimento.
— Peço perdão a eles se os ofendi.
Sua voz parecia sincera, mas ambos sabiam que aquilo era uma mentira.
— Como você gosta tanto, vamos direto ao ponto, não seria bom? — disse cruzando os braços e encostando suas costas em um dos troncos. — O que você quer para me ajudar?
Antes que pudesse responder, a Caipora voltou sorrindo, em sua mão direita segurava um calango. Sem dó ou cuidado, jogou o pobre animal no arbusto cheio de frutas, ela olhou sorrindo e suspirou desanimada quando nada aconteceu, Desanimada, a garota vermelha saiu correndo.
Sem mais distrações, os dois voltaram a se olhar. A mão esquerda do ruivo estava em sua cintura coçando o seu quadril e o Hobgoblin começou a questionar internamente se o guardião carregava alguma doença de pele. Sarna talvez, Garoto Sarnento, não foi essa a tradução que Lauany deu para o nome Curupira?
— Kurumin não pode me dar nada para me fazer ajudar, pois não há nada que eu possa fazer. Os deuses dão a bênção para aqueles que provam ter o poder para cumprir suas missões ou aos que merecem. — disse levando uma mão a coçar as costas, com certeza ele tinha uma doença de pele. — Kurumin não sabe, mas tem outra pessoa na floresta querendo a atenção dos deuses.
— Quem?
— Você a conhece, pelo menos por nome.
— Matinta Pereira. — um trovão foi ouvido no céu quando o nome foi falado.
— Acho que vai chover. — foi a resposta do pés virados.
Caipora retornou dessa vez com uma serpente fina e não muito grande em suas mãos, a criatura mordia o seu pulso com firmeza, mas a garota demonstrou dar importância nula para o fato. Pela segunda vez jogou um animal no arbusto para o qual olhou com expectativas. Saiu frustrada e batendo os pés quando nada aconteceu.
Os dois a observaram sem muito interesse, apesar de terem entendido o que ela pretendia fazer. Decidindo que as ações de Caipora não eram importantes para eles, voltaram a se olhar prontos para continuar o diálogo entre eles.
— Então, o que pode me dizer sobre as ações de Matinta Pereira — perguntou ignorando o segundo trovão que veio junto do nome.

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