Índice de Capítulo

    Já tendo se despedido de Merlin, Mayck acompanhou Saki até a casa dela. O horário passava das quatro horas e logo a cidade voltaria às atividades. 

    O esconderijo de Otohiko, onde eles estavam, ficava em um prédio que não era usado há muito tempo, mas não estava abandonado. Por isso, Otohiko não permanecia lá o tempo todo, como Merlim explicou. 

    Assim que saíram, tiveram que ser o mais cautelosos possível. Quando viam grupos de portadores ou da Strike Down, eles se escondiam rapidamente. E foi assim que se seguiu até chegarem à frente da casa de Saki. 

    “E então? Como você planeja entrar?” Com as mãos no bolso de seu moletom — que ele trocara mais cedo —, Mayck olhou com dúvida para a garota. 

    “Hum? Pela porta da frente, ué…” Sua cabeça inclinou-se com a resposta que deveria ser óbvia, mas, aparentemente, não era, já que Mayck levantou uma sobrancelha. 

    “Você tem certeza? São quatro da manhã, sabe. Seus pais não vão desconfiar?”

    “Ah, era isso…” ela entendeu e deu um sorriso amargo. “Não há problemas com isso…”

    Mayck franziu o cenho, enquanto imaginava os motivos.

    “É que… bem… meus pais não estão em casa nesse momento, então está tudo bem.”

    “Entendi. Eles trabalham durante a noite?”

    “… É… meio que sim…”

    O garoto ainda tinha muitas coisas a perguntar sobre isso, mas ele sentiu que Saki estava na defensiva sobre lhe responder, então ele decidiu encerrar por ali, antes que as coisas piorassem. 

    “Certo, então eu me despeço aqui. Lembre-se do que nós conversamos, okay?”

    “… Sim… eu vou me lembrar.”

    Mayck assentiu e disse “está bem” e deu as costas, acenando antes de começar a andar. 

    “Nos vemos na escola. Boa noite.”

    “Sim. Até mais…” Com seu sorriso sem brilho ainda no rosto, ela observou Mayck se afastar. 

    Estar com ele ainda a deixava nervosa, mas era um nervosismo que ela gostava de sentir. No entanto, tal sentimento desapareceu quando ele sumiu de sua vista e ela se viu em frente ao seu cativeiro habitual.

    Talvez alguma coisa mude… eu espero que sim. 

    Um suspiro melancólico escapou de sua boca, como um suspiro de alguém que já não tinha mais esperanças. 

    O cheiro de álcool e tabaco impregnou suas narinas assim que entrou. Sem perceber, ela chutou uma latinha na entrada, que, por sua vez, bateu em uma garrafa de vidro jogada no chão. 

    Então ela já está aqui?

    Embora especulasse isso, aquele lixo poderia estar ali o dia inteiro.

    Ao acender a luz, toda a bagunça no corredor em frente à porta ficou visível. Bitucas de cigarro, garrafas de cerveja e de várias outras bebidas fortes jogadas, outras quebradas, pelo chão. 

    Andar ali parecia como um labirinto: ela tinha que procurar o melhor lugar para pisar e não fazer barulho. 

    Na sala, sua mãe roncava pesadamente, devido aos efeitos das drogas lícitas que ela consumiu no decorrer do dia. 

    Havia muitas outras garrafas e bitucas perto de onde ela estava. 

    Saki parou por um breve momento. Doía seu coração ver sua mãe assim, mas também dava uma leve irritação. 

    Por que ela não pode se conter?

    Sem demora, ela pegou alguns sacos plásticos e começou a tirar a bagunça para fora, deixando tudo em um saco de lixo maior e pondo em um lugar da calçada onde a coleta de lixo seria realizada. 

    Sua vida foi assim todos os dias, desde que seu pai jogou tudo pro alto e decidiu se casar com outra mulher que conheceu em sua vida de apostas e bebedeiras dois anos atrás; ele também conheceu Haruka, mãe de Saki, dessa mesma forma. 

    Foi tudo questão de satisfação momentânea. Haruka engravidou e foi abandonada pelo homem que nem chegou a ser o seu marido e que só aparecia nos fins de semana, e muito raramente. 

    Ele também era um homem violento e foi tal o exemplo que ele passou para a filha. Haruka também tinha a cabeça quente, então Saki cresceu num ambiente um tanto quanto caótico e só soube resolver as coisas da forma mais impositiva possível. 

    Conversar com Mayck a deixou com um sentimento bom. Bom o bastante para fazê-la sorrir e cantarolar mesmo em um lugar tão desordenado.

    Ela sentia que, aos poucos, estava caminhando para recuperar algo que ela tinha perdido

    Após mais de meia hora, a garota limpou o suor de sua testa; o trabalho daquela manhã estava terminado. 

    De repente, sua barriga roncou.

    É mesmo… eu acabei pulando o jantar. 

    Abrindo a geladeira na cozinha recém organizada, ela viu apenas duas caixas de leite, alguns ovos, uma garrafa com suco e mais alguns ingredientes básicos. 

    Eu tenho que fazer as compras amanhã.

    Devido ao estado de sua mãe, Saki tinha que conseguir dinheiro de alguma forma, então, pela manhã e pela noite, ela fazia trabalhos domésticos para seus vizinhos e conseguia o suficiente para se manter por alguns dias. 

    Ela teve que esconder o dinheiro de sua mãe, que gastava tudo em álcool e cigarros com a quantia que seu pai deixara para ela, mas que se esgotaria em breve. 

    Olhando o relógio, eram cinco da manhã. Não fazia sentido ir dormir, já que ela teria de se levantar alguns minutos depois, então ela apenas esperou dar o horário e ir para seu primeiro trabalho do dia, depois, para a escola. 

    Por ora… eu vou tomar um banho. 

    Ela decidiu após cheirar o próprio cabelo e sentir um forte odor, fazendo uma expressão amarga.

    <—Da·Si—>

    O céu nublado ainda não havia se dispersado. Parecia que o dia inteiro faria frio, assim como no dia anterior. 

    Mayck estava a poucos metros de sua casa, já que Saki não morava muito longe, então ele poderia se confortar em seu quarto em breve. 

    Enquanto andava lento e tediosamente, havia algumas questões que permaneciam em branco em sua mente. A forma como Saki falou sobre os pais dela deixou uma impressão forte de que algo estava errado. 

    Todos tinham problemas familiares, isso era um fato, o verdadeiro problema estava no ponto em que o problema se aprofundou. Em casos extremos, a vida social e pessoal de um indivíduo ficaria ameaçada, devido às circunstâncias da família. 

    Talvez algo esteja fora dos eixos… eu posso tentar descobrir uma outra hora. 

    Ele não era do tipo que gostava de se meter em assuntos pessoais, mas estava se importando mais do que imaginava. Como as coisas chegaram a tal ponto, ele se perguntava, será que havia recuperado sua empatia?

    Saki fora uma garota ruim desde que ele se lembrava, mas ela havia mudado drasticamente quando se reencontraram um ano atrás. Embora ele tenha notado tal mudança, um desejo de vingança ainda queimava dentro dele, e ele a realizou sem hesitação. 

    Talvez eu deva me desculpar?

    Usou o amor que Rito sentia por ela para fazê-la o trair e simplesmente abandoná-la depois, sem apoio nenhum. Daí pra frente, Saki ficou mais isolada do que antes; sua amizade com Rito esfriou e ela não conseguia encarar Mayck de forma alguma. 

    Naquele ponto, o garoto sabia que tinha ido longe demais para uma vingança de brigas de crianças. 

    “Eu posso me redimir… de alguma forma. Vou pensar em algo”, ele disse a si mesmo. 

    De repente, duas luzes, uma amarela e uma vermelha o iluminaram pelas costas, ao mesmo tempo que o som do motor parecia desnecessariamente barulhento.

    Um carro parou ao lado dele. Não era um carro comum. Apenas a cor branca e preta do pára-choque foram o suficiente para o garoto saber do que se tratava. 

    “Ei, garoto. O que está fazendo na rua a essa hora?”,  o policial, dirigindo o veículo, o perguntou.

    “Hm… eu acabei acordando muito cedo, então decidi dar uma caminhada…” 

    Mayck pensou rapidamente na desculpa. Sendo quase cinco da manhã não seria totalmente inviável, mas, assim que se virou para o homem, percebeu que era alguém que conhecia. 

    “Mayck?”

    “Ah… Nakata-san.”

    “Há quanto tempo não te vejo. Você não tem aparecido na delegacia ultimamente.” Um sorriso calmo apareceu na face do homem, que tinha uma postura séria. Seus cabelos escuros e curtos, olhos naturalmente estreitos e castanhos claros. 

    “É mesmo, né…” Mayck também sorriu, para não deixar o clima estranho.

    “Apareça mais vezes por lá… quer dizer, quando não estivermos tão ocupados. Recentemente está uma correria. Hahaha.”

    “Com tudo o que eu vejo na televisão, imagino que esteja mesmo. Quando tudo se acalmar, eu passo por lá.”

    “Sim. Fico feliz em te ver. Mas, mudando de assunto, é bom fazer uma caminhada de vez em quando, porém é melhor que você evite fazer isso tão cedo. As coisas estão perigosas nos dias atuais.”

    Nataka continuou a falar sobre os perigos de estar sozinho durante a noite, no entanto, suas palavras não alcançaram mais o garoto, sua atenção tinha sido levada para outra coisa mais importante. 

    Era uma figura de forma bizarra. Seu corpo parecia uma massa negra que tentava se manter em uma forma humana, um único olho de boneco de pano no que parecia ser seu rosto. Não havia boca, mas ele passava a impressão de que conseguiria uma assim que necessário. 

    Ele estava do outro lado do carro, olhando-os de cima. Talvez estivesse curioso quanto ao assunto discutido entre os dois humanos, ou estivesse fascinado pelas luzes vermelhas do veículo, que piscavam sem parar. 

    Por favor, de novo não. 

    Ele começou a ficar nervoso e a suar frio.

    Mayck torcia para que o monstro apenas fosse embora. Nem era a identidade dos portadores que estava em risco ali, até porque se tivesse que lutar, ele e o policial seriam mortos rapidamente — nenhuma informação seria transmitida, a não ser por testemunhas oculares. 

    Em todo o caso, o garoto tentava se manter firme e sem perder a compostura. Nakata era conhecido por ser um grande falador, e quando ele dava um sermão não tinha quem o parasse. 

    Por estar tão concentrado, ele não viu essa aberração… Isso é bom, eu acho. Essa coisa não tá mostrando nenhuma hostilidade, então talvez ele não nos ataque. Mas é melhor eu ficar atento. 

    A respiração de Mayck estava lenta, mas seu peito pulsava com os batimentos fortes do coração, que queria fazê-lo reagir, mas sua racionalidade o mandava ficar em silêncio.

    Poucos segundos pareciam horas. A criatura movia sua cabeça ao redor deles, observando-os atentamente. Ele atravessou o teto do carro como um fantasma e rodeou o policial. 

    Nakata não parecia estar vendo-o. Isso deixou Mayck ainda mais preocupado. Não sabia se aquilo era uma criatura espiritual ou se ele estava ficando alucinado. 

    Se acalme… deve ser uma habilidade dele. Não entra em pânico. 

    Sendo um mundo tão curioso quanto aquele, tal habilidade era possível. Um monstro que ficava intangível e podia decidir quem o veria. 

    Mas porque só eu estou vendo ele…?

    Enquanto uma gota de suor escorria lentamente por seu rosto, suas mãos tremiam, e um calafrio percorria seu corpo como uma assombração que o examinava severamente. 

    Até que o monstro fez um movimento diferente dos outros. Ele estendeu sua mão e a passou por dentro da cabeça do policial, o qual ficou sonolento de repente e simplesmente caiu sobre o volante. 

    O som da buzina ecoou pela rua.

    “Nakata…-san?” Preocupado e assustado, Mayck tocou seu ombro e o chacoalhou suavemente. Um ronco pesado saiu da boca do homem. 

    Ele só está dormindo… O que foi que essa coisa fez?

    Ele se recusava a olhar para a criatura, mas sua curiosidade falou mais alto. Foi quando ele notou aquele olho quase enterrado em seu rosto, de forma literal. 

    Um ar gélido soprou sobre ele e a criatura, lentamente, estendeu sua mão e transpassou o peito de Mayck, retirando-a em seguida. 

    Num primeiro momento, nada parecia ter acontecido — nenhuma sensação, nenhum efeito. Entretanto, quando Mayck pensou isso, ele já estava de joelhos ao lado da porta do carro. 

    Hein…?

    Ele não conseguiu acompanhar o que havia acontecido. Suas pernas ficaram completamente sem forças e uma sensação parecida com a fome se apossou dele; um vazio sem explicação. 

    O que está acontecendo? Por que foi que eu caí…? 

    Seus olhos começaram a lacrimejar sem parar e um sentimento amargo invadiu seu coração, de forma que parecia esmagá-lo. Ele olhou para cima. A criatura olhava para ele enquanto seu único olho tomava a forma de um sorriso doentio. 

    Mayck cerrou os dentes com força. 

    Que merda você fez?!

    Na mão da criatura, um objeto reluzente, sem forma e que parecia mais cheio que o garoto, flutuava suavemente. Ela pertencia a ele. Ele teve certeza imediatamente. Não sabia o que era, mas pertencia unicamente a ele. 

    “Devolve…” 

    Mayck estendeu sua mão, tentando alcançar o objeto que o deveria preencher, mas estava sem forças. A criatura retraiu sua mão e escondeu aquele bendito objeto, como se dissesse para o garoto ir buscá-lo. Ele desapareceu com um vento gélido e apavorante que arrepiou todo o corpo do garoto. 

    ****

    Ele não sabia quanto tempo havia se passado. O sol já estava raiando entre as nuvens e aquecendo a pele de seu rosto desolado por algum motivo. 

    Ele estava caminhando como alguém que havia desistido da vida e carregava todos os pecados da humanidade — pelo menos ele sabia para onde estava indo. 

    Não demorou muito tempo para chegar em sua casa e entrar sem hesitação. Na verdade ele nem se importava se havia alcançado sua residência. 

    “Mayck? Você estava fora de casa? Por isso não saiu quando eu chamei, não é?” Mãos nos quadris, Haruna apontou com uma certa quantidade de irritação. Ela havia o chamado mais de três vezes e não obteve resposta. 

    Era um motivo plausível, mas o garoto não estava em posição de falar sobre isso. Tais palavras nem chegaram a ele. Apenas subiu as escadas silenciosamente, enquanto a garota chamava sua atenção. 

    Suzune também veio da cozinha, curiosa sobre o que estava havendo, mas apenas recebeu um olhar confuso de Haruna.

    O que está havendo…?

    O garoto caiu em sua cama e não tinha absolutamente nenhuma vontade de levantar. Seus olhos foram para o relógio digital na escrivaninha ao lado da cama, o qual marcava sete horas.

    Já passou da hora de levantar… mas acabei de deitar.

    Seus olhos sem vida contando quantas vezes os dois pontos entre os números do relógio piscavam…

    “Hmm…” Um som cansado e rouco saiu de sua boca fechada.

    Sua mente estava nublada. Talvez devido aos efeitos de ter gastado quase toda a sua energia mais cedo, mas ele simplesmente adormeceu novamente. 

    Quando acordou, o sol já brilhava mais forte, embora parecesse que seria tapado pelas nuvens de chuva em breve, mas ele já se sentia mais disposto que antes. Sentindo fome, ele se levantou e foi até a cozinha. 

    Um copo e uma caixa de leite. Enquanto encarava o copo transbordando com ele, sua mente clareou repentinamente. 

    Mas que merda eu tô fazendo? Aquela coisa roubou metade da minha alma, não foi? Então por que eu tô aqui parado?

    A última visão do monstro sorrindo para ele veio das suas lembranças.

    “Aquele maldito…” Seus punhos apertaram a caixa, fazendo o resto do leite derramar por toda a mesa e o chão. 

    “Eu vou atrás de você.”

    Já eram mais de duas da tarde. Não tendo mais como ir para a escola, ele decidiu voltar até o local onde estava quando acordou pela manhã. O policial não estava mais lá, mesmo que estivesse quando ele saiu. 

    Ele se encostou em um poste, de braços cruzados e uma mão cobrindo a boca. Sua postura era mais séria que o normal. Quem o visse passaria longe apenas por ver seu olhar. 

    Eu estava conversando com Nakata-san aqui e aquela coisa que apareceu levou metade da minha alma. Ele quer que eu vá atrás? É algum tipo de diversão pra ele?

    Mayck pensou se o Ninkai tivesse levado a alma de Nakata também. 

    É possível, já que ele desmaiou quando foi tocado. 

    “Mas pra encontrar ele… onde eu deveria ir? Só sentar e esperar ele aparecer?”

    Teria que lidar com uma criatura que podia lhe fazer mal sem nem tocá-lo. Tendo posse de sua alma, o monstro poderia danificá-la e devolvê-la, criando danos irreversíveis. 

    Por isso, buscá-la seria sua prioridade acima de todas as outras coisas. 

    O melhor momento para encontrá-los é óbvio. Eu me pergunto se a falta de parte da minha alma afetou meus poderes… nesse caso, eu precisaria de ajuda…

    ID era como sua própria existência. Então seu estado espiritual afetava e muito suas habilidades. 

    E se eu… Pode ser perigoso, mas vai ser uma boa tarefa para ela. Assim, eu já dou um jeito de ensiná-la a usar seu poder. Só preciso tomar cuidado para Nikkie não descobrir. 

    “Isso.” 

    Tendo se decidido, ele retornou para sua casa, onde ficou pelo resto do dia, bolando planos e tendo ideias do que fazer quanto ao evento que se iniciou de repente.

    Tediosamente, ele preparou o jantar. Como havia passado o dia inteiro em casa, era o mínimo que deveria fazer. Em alguns minutos, Haruna chegaria, depois a Suzune. 

    Com o trabalho que a polícia estava tendo, Takashi, talvez, nem voltaria naquela noite, então Mayck deixou a refeição dele separada e pôs na geladeira. 

    Eu já jantei… então vou poder passar um bom tempo fora depois. Só preciso me certificar de trancar meu quarto e voltar o mais rápido possível dessa vez. 

    Haruna não havia desconfiado de nada, mas vacilar do mesmo jeito duas vezes aumentaria suas chances de ser descoberto. Apesar de estar bastante abalado mentalmente, ele ainda mantinha sua consciência de que não deveria pôr outras pessoas em risco. 

    De repente, a porta se abriu e Haruna entrou. 

    “Cheguei”, ela anunciou sem nenhum sentimento em especial. Ela já sabia que Mayck estava ali, já que seus sapatos eram os únicos perto da entrada. 

    “Bem vinda de volta.” O garoto enxugou suas mãos e observou a garota subir as escadas. “O jantar está pronto, se quiser…” 

    Quando ela se virou, ele se deparou com um olhar estranho vindo dela. Não parecia a irritação de sempre, ela parecia querer lhe perguntar algo. Sua cabeça se inclinou levemente e ele levantou uma sobrancelha, como se perguntasse “O que foi?”.

    “Não é nada.” Ela continuou a subir após um suspiro.

    Foi um comportamento estranho, mas ele decidiu ignorar por ora. Tinha outras coisas em que se concentrar.  

    Suzune chegou algum tempo depois, como o esperado e as horas se passaram. No tempo determinado, Mayck saiu de casa após enviar uma mensagem para Saki, pedindo para se encontrarem na estação. 

    Não demorou muito para ele chegar até lá, mesmo andando calmamente. Ele esperou um tempo e uma Saki visivelmente cansada e ofegante se aproximou dele, desculpando-se logo que o viu, como certa timidez na voz. 

    “De-desculpa, Mayck… eu tive uns probleminhas, então acabei me atrasando…”

    “Uh-uh. Não se preocupe.” Ele a analisou rapidamente. “Não é como se eu estivesse com pressa.”

    A resposta fez a garota suspirar de alívio. Ela tinha pensado que ele poderia ficar bravo ou decepcionado com sua demora, então acabou ficando feliz por ter sido compreendida. 

    Ela recuperou seu fôlego.

    “Que tal irmos andando? Temos que conversar algo no caminho.”

    Um olhar grudado na garota antes de se virar completamente, esperando que ela o seguisse. Ele havia notado um corte que ia do pescoço em direção ao ombro da garota, a qual tentou esconder com um moletom, mas ela não percebeu que havia dado errado. 

    Além do mais, parecia ter sido feito recentemente.

    Sem tocar no assunto, eles seguiram pela calçada, aparentemente sem rumo. Isso, no entanto, era perfeito para eles discutirem o tópico pelo qual se reuniram. 

    Após algum tempo de silêncio, Mayck abriu a boca, exalando um suspiro quase silencioso. Essa ação fez Saki imaginar que estava sendo um incômodo, então ela rapidamente se alertou.

    Essa não… Desse jeito ele vai acabar ficando entediado e vamos parar por aqui. Mas por que ele me chamou mesmo? Ele tem algo importante a me dizer? É melhor eu falar alguma coisa?

    Sua mente estava quase entrando em curto e ela acabou perdendo o autocontrole. 

    “Ho-ho-hoje está bem frio, né…?” Um riso sem graça no ápice do desespero.

    “Hum? Bom, é verdade.”

    A conversa acabou. Saki gritava internamente, chamando a si mesma de idiota. 

    Por que eu toquei num assunto tão nada a ver? Preciso de outro assunto… rápido… do que ele gosta de falar?

    Por mais que ela tentasse descobrir algo em sua mente, ela percebeu que não se lembrava nenhuma vez de ter visto Mayck puxando assunto com alguém. Quando estavam juntos, era sempre ela que tomava a iniciativa para conversas longas e também apenas sobre assuntos que ela gostava ou estava em alta. 

    Eu não sei nada sobre ele…

    Ela cobriu a boca com o colarinho de seu moletom branco, seu semblante entristecido. 

    Foi quase um ano, o tempo que eles passaram juntos, mas ela apenas olhou para o próprio lado e nunca pensou em saber mais sobre o garoto. 

    Talvez seja por isso que ele agiu estranho comigo antes de terminarmos. 

    Ela lançou um olhar de relance para a face sem expressão de Mayck, e, de repente, ele falou com ela. 

    “Não precisa ficar tão nervosa. Eu vou te ensinar tudo o que eu sei sobre eles.”

    “Quê?”

    “Hein? Você está nervosa… não está?”

    Saki pensou no significado daquilo e só então entendeu sobre o que ele estava falando. 

    “Ah, sim… um pouco. Eu estou… com um pouco de medo.”

    “Não é surpresa. Ver aquele tipo de coisa e conseguir estar de pé aqui já é incrível por si só. Por onde você quer que eu comece a explicar?”

    “Por onde…” ela ponderou por um momento. Se podia perguntar qualquer coisa, então não era a hora perfeita para aprender sobre ele? Foi o que ela pensou. “E-então… pode me falar sobre você primeiro?”

    “Sobre mim? Bom, tudo bem. Eu sou um dos milhões de portadores que vivem por aí e lutam contra esses monstros chamados de Ninkais.”

    “Há quanto tempo você faz isso?”

    “Não faz muito. Eu comecei na última primavera e hoje estou auxiliando um grupo chamado Black Room. Vou te dizer mais detalhes depois. Primeiro, as IDs são divididas em três grupos: Combate, Suporte e Suprimento. Cada uma delas tem suas especificações. A minha, por exemplo, é de combate. Se eu for chutar, diria que a sua é de suporte.”

    Saki movimentou sua cabeça para cima e para baixo, implicando que estava entendendo. 

    “Mas o que é exatamente o grupo de suporte?”

    “São poderes mais específicos com o intuito de auxiliar algo ou alguém. O próprio usuário ou outra pessoa. IDs desse grupo tendem a ser bem versáteis, então pode usar elas em lutas sem muitos problemas.”

    Ela acenou outra vez. 

    A partir disso, Mayck contou a ela o motivo de tê-la chamado naquele horário. Eles precisavam aprender mais sobre a ID dela e qual a melhor forma de fazer isso se não fosse lutando?

    A ideia assustou a garota, e muito. Mas ela ficou confortável quando ouviu que Mayck lhe daria ajudaria e não deixaria nada ruim acontecer com ela. 

    Já havia testemunhado parte do poder do garoto, então podia acreditar nele. Por outro lado, ele torcia para não se encontrar com nenhum monstro fora do ranque S ou abaixo. 

    Saki não daria conta. E, talvez, nem ele, já que ainda sentia os efeitos das lutas anteriores — uma leve dor de cabeça e um cansaço misterioso.

    “Mas, Mayck, o que esses Ninkais são de verdade? Eles não são monstros de outro mundo, ou são?”

    “Uh-uh. Não. A verdade é bem mais assustadora. Eles são daqui mesmo, do nosso mundo. Foram criados por uma galera que queria fazer besteira em todo o mundo.”

    “Isso é horrível… como eles puderam criar coisas assim?”

    “Vai saber. Bom, nós temos que começar da forma mais simples. É bem clichê, mas IDs costumam aflorar em momentos de crise. Entende o que quero dizer?”

    “Hmm…” Ela não entendeu, então Mayck decidiu simplificar as coisas e ambos pararam de caminhar. 

    Já estavam em um lugar aberto e silencioso da cidade, longe das zonas comerciais. 

    Mayck se virou para ela e falou:

    “Resumindo, nós vamos lutar contra um monstro.”

    “Hein?!”

    “Fica tranquila. Eu vou estar aqui. Você pode confiar em mim?”

    “Eu…” Seu olhar caiu para o chão.

    Ela queria confiar, mas seu corpo hesitou. Ela juntou as mãos, enquanto refletia profundamente em dizer sim ou não. Seu coração vacilava, mas era justificável. Só de pensar em encarar outra coisa como a anterior, seu corpo estremecia. 

    Eu não quero fazer isso… mas eu preciso. Essa é a única forma de eu mudar minha vida… 

    Era o momento de tomar a decisão que mudaria sua vida. Aceitando a realidade, ela suspirou profundamente.

    “Eu confio.” A mesma determinação que ela tinha mais cedo surgiu em seus olhos e pegou Mayck de surpresa.

    “Perfeito. Então vamos encontrar nossa cobaia… Talvez nem seja necessário.” Ele reformulou sua frase ao perceber que um monstro já estava bem próximo a eles, esgueirando-se lentamente pela rua.

    As luzes dos postes começaram a piscar por motivos que eram um mistério, mas isso sempre acontecia.

    Eu sempre me perguntei de onde eles vem…

    “Bom, Saki, é o seguinte, essa coisa é conhecida como Eye Thief. Basicamente ele vai tentar roubar seus olhos, então fique atenta.”

    “Hm? Ele rouba os olhos? Espera, me explique direito.”

    “Ele não é muito rápido, mas consegue te alcançar rapidinho com o pulo dele”, o garoto avisou enquanto se afastava cada vez mais. “Eu vou te observar daqui. Se sair de controle eu vou te ajudar, então fique tranquila e dê um jeito nele.”

    “Quê?!” Ela se viu sendo jogada para fazer um trabalho totalmente confuso.

    Era pouca informação para ela. O que ela deveria fazer? Mayck havia lhe dado o limão, então era só fazer a limonada, o problema era que o limão estava pela metade. 

    “Espera, é sério! O que eu tenho que fazer…” Ela mal pode se expressar e o Ninkai já saltou sobre ela, pronto para tirar dela seus órgãos responsáveis pela visão. 

    Ela levantou sua voz em um grito único e desesperado quando começou a correr por sua vida.

    O Ninkai não a deixaria fugir. Ele dava saltos incrivelmente altos e impedia todas as saídas que a garota tentava buscar, fazendo-a correr praticamente em círculos. 

    Ela poderia correr até Mayck, mas ela não o viu no lugar para onde ele se dirigiu quando a deixou. 

    Enquanto isso tudo se desenrolava, Mayck apenas a observava de cima de um edifício. Apesar de parecer desinteressado, ele estava atento a qualquer movimento que colocasse a vida de Saki mais em risco do que já estava. 

    Ele não queria ser mal com ela, mas aquele era o jeito mais rápido de fazer alguém despertar uma ID. Era um método sujo; ele sabia bem disso. Nikkie e todos os outros o odiariam por estar fazendo aquilo com Saki, mesmo que ele tivesse um motivo. 

    Vai ficar tudo bem. Assim que eu perceber que não dá mais, eu vou apenas tirá-la de lá e tentar outra coisa.

    “Mas, bem, eu acho que ela vai ficar incrivelmente irritada depois disso.”

    Ele decidiu se preparar. Sem metade da sua alma, ele sentia seu poder reduzido e isso se refletiu no fato de que apenas seu olho direito mudou quando ele ativou sua chave de comando, e nem mesmo seu espaço apareceu. 

    “Eu estou em uma péssima condição.”

    Ele voltou sua atenção para a disputa no meio da rua. Saki já estava chegando no seu limite, estava arfando, mesmo que fosse bem atlética. Parecia que esse era o plano do Ninkai — fazê-la se cansar para depois capturá-la sem esforço. 

    A garota corria de um lado para o outro de forma extremamente humilhante. Ela repetia em sua mente o tempo todo que Mayck a salvaria. 

    Até que a exaustão a dominou por completo, suas pernas fraquejaram e ela caiu, ralando seus joelhos e mãos, que protegiam seu rosto. 

    “Ah não…!” 

    Ela não tinha mais força para levantar. Tentava recuperar desesperadamente o fôlego, mas não conseguia o suficiente para levantar e mesmo que conseguisse, não poderia fugir mais. 

    A partir dali, ela só podia esperar Mayck aparecer para protegê-la. Apesar da dor, ela tentava se manter a mais calma possível. 

    Está tudo bem. Ele vai me ajudar. 

    Ela desistiu de se mover e apenas encolheu suas pernas e esperou. Não podia negar que estava tremendo e que o frio aterrorizante da morte estava sobre ela.

    O Ninkai começou a se aproximar lentamente. Seus olhos vermelhos identificaram sua presa e localizaram os olhos dela. 

    Um cheiro podre impregnou as narinas da garota e um som parecido com um sussurro veio da criatura.

    Ela se aproximava cada vez mais. Os batimentos de Saki também aceleravam em um ritmo constante. 

    Ele já está vindo. É só um teste… eu tenho certeza… ele vai me ajudar, ela martelava em sua mente. 

    No entanto, a ajuda não veio. O monstro já estava a poucos centímetros dela, preparado para arrancar os olhos dela com um órgão que parecia uma espécie de mangueira para sugar os glóbulos oculares e arrancá-los da forma mais dolorosa possível.

    … Ele vai vir…

    Seu corpo inclinou-se para trás, numa última tentativa de se manter longe daquilo que estava prestes a torturá-la.

    Encarando um daqueles monstros pela segunda vez, os olhos da garota se arregalaram e começaram a lacrimejar. Um calafrio percorreu seu corpo trêmulo e seus dedos se arrastaram no asfalto. 

    Por que ele não está vindo…? Ele me disse para confiar nele…!

    O pouco ar que passava por suas narinas não era o suficiente para fazê-la se acalmar; nada faria naquele momento, no entanto. 

    “Não…!”

    Sua fala raspou por sua garganta. 

    “Eu não quero isso…!”

    O monstro preparou seu órgão parecido com o focinho de um tamanduá, um líquido pegajoso escorria dele e pingava no chão, e logo pingou nas calças de Saki. 

    “Eu não quero morrer…!”

    Num rápido movimento, mirando os olhos, o Ninkai se lançou contra a garota, que só teve uma reação espontânea:

    “Sai de perto de mim!” Sua voz se elevou mais do que ela aguentava e seu grito ecoou por todos os arredores. 

    Silêncio…

    Em um segundo, o Ninkai ficou paralisado, no outro ele foi arremessado por uma força invisível e se chocou brutalmente contra a parede de um edifício, o que fez seu corpo se destruir; sangue e carne voaram para todos os lados, criando uma poça vermelha enorme e fedorenta.

    Mayck ficou abismado. Não podia acreditar no que havia acontecido. 

    “Isso foi…”

    Sem que ele percebesse, um sorriso surgiu em seu rosto. 

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