De repente, meu corpo inteiro estremeceu. Tentei andar, ou apalpar, mas nenhum muscúlo sequer se dava trabalho.

    Não havia luz. Não havia forma. Nem sequer a sensação de espaço. Só um vazio espesso demais para ser escuridão.

    Caramba, meus pensamentos tavam fazendo mais barulho, era mais do que ausência de som.

    Foquei, e tudo que me restava era encarar um homem robusto que escondia seu rosto com sua mão calejada.

    Marcius?

    O que esse infernoso fez…

    Merda. Isso era o real significado de insanidade.

    Então ele deslizou sua mão em seu rosto, de cima para baixo, e levou consigo sua face.

    Era estranho, não, era bizarro.

    Ele posicionou sua mão acima de seu queixo quadrado. Entre suas pregas palmares, a maior, bem no centro, se dividiu. Dali uma boca surgiu.  Seus lábios se afinaram e seus dentes apontaram, então uma voz rouca e muito agressiva se dirigiu a mim.

    — Coma a vida, pequena centelha.

    Como é? 

    Minha voz ressoou em minha mente.

    — Devore-a, assimile-a e usurpe-a dos mais fracos.

     Marcius? O que está acontecendo?

    —  O mundo lá fora pode ser luminescente demais, extenso demais, até mesmo extraordinário demais. Contudo, nada e nem ninguém pode ser mais absoluto do que a própria inexistência.

    A aflição percorria meu corpo, como uma serpente a rastejar. Aquilo jamais seria ele. 

    Subitamente, algo rasgou minhas bochechas. Eu queria gritar, queria espernear, contudo eu estava estático.

    Senti o gosto do choro e do sangue, tudo junto.

    Então, aquela invasiva voz retornou a me atormentar.

    — Esse seu olhar não é bom. Você ainda está fresco. Muito fresco. 

    Sua essência ameaçadora permanecia intacta, agora próxima demais de mim. Não havia sentido. O torso de Marcius não se movia. Aqueles malditos lábios, tampouco.

    Baixei o olhar — e entendi.

    Havia outra boca em meu rosto.

    Eu fedia a medo. A presença daquele ser me esmagava, como se meu corpo tentasse encolher para caber em algum lugar que não existia.

    — AHHHHH! — minha alma gritou por mim.

    — Com isso… você conseguiu quebrar o celibato do silêncio.

    — O que diabos é você?! — perguntei, a voz abafada.

    — Não posso ser definido por conceitos mundanos. Ainda assim, farei um esforço. Usarei suas gírias. Nós somos Devoradores. E, ainda assim, você insiste em negar sua própria essência.

    — Eu não sei do que você está falando…

    Seu sorriso enviou arrepios pelo meu corpo. Eu era pele de cordeiro diante de um predador sádico, enquanto ele se apropriava da voz — e do corpo — do meu professor.

    —  Não se preocupe, farei você compreender o quão inútil é fugir de si mesmo.

    Sua mão esquerda se ergueu, ela travou quando chegou a altura dos ombros.

    — NÃO FAÇA ISSO!

    Eu desesperei, nunca pensei que um dia perderia a postura.

    — Um aleijado? — A boca disse com desprezo.

    Seu braço tremia, estava à beira do colapso.

    Eu também tremia, porém, por tentar me livrar dessa maldita imponência.

    — NÃO! 

    O estalar de ossos quebrou meu coração. Seu braço estava mole, mas este monstro não se importou e continuou empurrando o braço morto até o meio das costas.

    — A essência do próprio Égide, florescida em um corpo aleijado? Deplorável. 

    Ele segurava, entre os dedos, uma esfera ciana arrancada da coluna de Marcius.

    Aquele local… ele tirou isso da Marca do Marcius?!

    — Esse amargor… O velho e imutável Égide. 

    Ele caminhou a passos lentos até mim, cada pisar, fez o ambiente ecoar como o rescaldo de uma pedra lançada na lagoa.

    — Eles chamam isso de Marco. Eu chamo isso de nosso. Não existe essência nesse mundo que não seja nossa, pequena centelha.

    Ele sorria pelo receptáculo, enquanto me atormentava com sua voz bem debaixo de meu nariz. 

    — Coma — Proferiu pausadamente enquanto forçava o orbe a minha goela a baixo.

    Eu o rejeitei. A ânsia misturada com a repulsa, aumentava ainda mais meu desespero.

    Como eu poderia comer aquilo? 

    ‘Aquilo’ não era meu, e se isso for realmente o Marco de Marcius, eu seria tão insano quanto ele.

    Essa fome que transbordava do meu estômago foi a maior larica que experimentei em toda minha vida. 

    O Devorador suspirou por não conseguir alcançar seu objetivo. Minha vontade era rasa. Não fui eu quem o combateu. Então ele continuou a forçar até eu engasgar, mas de nada adiantou — talvez eu já estivesse cheio.

    Meu peito arfava, lutando para recuperar o fôlego, enquanto uma onda de náusea começava a subir. Da aflição, uma rosa desabrochou nas extremidades de meu corpo, seus espinhos faziam meus dedos se retorcerem como engrenagens emperradas.

    — Você não me deixa outra escolha. Parece que vou ter que te esvaziar primeiro…

    — Não… encoste… em mim — Ofeguei em meio a fala. Mas era nítido a irrelevância de qualquer decisão minha.

    Eu não podia deixar isso barato, se deixasse, acabaria por entregar completamente meu corpo a esse desgraçado. 

    Eu precisava agir.

    — Ainda tem certeza que quer pestanejar? — Ele interrompeu meus pensamentos com o retorno de sua voz ao meu rosto.

    Abruptamente, eu fui perfurado em meu pescoço por garras, silenciadas pelo próprio vazio.

    — Você achou mesmo que seres de luminescência teriam compreensão de meu domínio? Shhh… não pense demais, apenas sinta a inexistência, só então o vazio preencherá a sua alma.

    Sem piedade, o Devorador rasgou minha garganta. Puxou a mão até arregaçar e expor meu estômago. Eu gritei — gritei até ficar rouco.

    Minha visão se encheu de inúmeras centelhas espalhadas ao redor, lançadas pela implosão daquele corte. Seu brilho dourado tomou tudo à minha frente.

    Elas puxavam meu olhar. E despertavam em mim uma vontade avassaladora de devorá-las.

    Não sei como. Nem por quê. A dor se esvaiu. O ódio se apagou. Eu não sentia nada — exceto o desejo de reaver cada uma daquelas esferas.

    — Você vê? Toda a vida que esvaiu de seu interior. Suas dores, suas alegrias, suas vontades, suas esperanças… Cada feito, cada vivência, cada sonho condensado nessas essências vivas — o Devorador falou, entusiasmado.

    — Você fala demais… eu ainda estou vivo, imbecil. Detesto quem deixa o serviço pela metade.

    A mão obscura se materializou ao redor do meu pescoço, apertando com força. Fui erguido entre dois mundos. Minha visão escurecia, e o vazio tentava se enturmar.

    A voz soturna do Devorador sussurrou diretamente em meu ouvido.

    — Você é mais resistente do que eu antecipei, pequena centelha. Surpreendente, de fato.

    A voz soturna do Devorador sussurrou diretamente em meu ouvido.

    — Você é mais resistente do que eu antecipei, pequena centelha. Surpreendente, de fato.

    Era gélido. E pressionava com força.

    Eu podia sentir — mas não estava. Não tinha como estar sendo sufocado por algo que não existe.

    Meu estômago estava arregaçado. Ele me arrombou… que merda.

    Eu não vou ceder a algo que não existe.

    Entre a pressão de suas garras no meu pescoço, algo borbulhava no meu estômago. Eu estava apresentando ao nada o calor do que existe.

    Então agarrei a ausência e apertei até que ele falhasse.

    E tudo o que ele fez foi continuar com sua fala dissonante.

    — Você, Theo… é uma ótima faca.

    No exato momento em que o sino de Orin ecoou, a obscuridade que me cercava pareceu recuar como maré. A mão do Devorador se desfez do meu pescoço, dissolvendo-se na escuridão que retornava para o meu próprio âmago. Fui deixado, ofegante e atordoado, enquanto as sombras retrocediam, revelando o ambiente já conhecido à minha volta.

    Enquanto o mundo voltava ao foco, duas coisas eram certas.

    Se isso for real, eu estava fodido.

    E não poderia contar a ninguém que eu fui arrombado.

    A sensação que aquele encontro deixou era errada, como se algo maior tivesse me alcançado, e decidido não ir embora.

    Minhas mãos tremiam, e o orbe ciano pulsava com um brilho baixo — vivo demais para ser ignorado.

    — Theo, o que está acontecendo? — perguntou Marcius.

    Olhei para minhas mãos e as fechei de imediato, como se isso pudesse esconder alguma coisa.

    — Theo. O que está acontecendo?

    Deixa eu pensar um pouco, caramba.

    Ergui o olhar. Ele estava inquieto demais.

    Como quem sabe apenas do V da verdade… e prefere não completar o resto.

    — Seja lá o que estiver acontecendo. Você precisa se controlar.

    Apertei os punhos. A presença da esfera não cedia.

    Que saco.

    Eu estava me segurando… para não comê-lo.

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