Capítulo 72 - Retratos de uma Alma
Dylan e Emilly foram engolidos pelas entranhas daquela fenda, caindo em um abismo interminável. O tempo perdeu sua linearidade, distorcendo-se como um elástico. Com cada segundo que passava, a sensação de queda aumentava, um peso esmagador que os puxava para as profundezas do desconhecido.
A escuridão ao redor era total, um vazio que consumia tudo e todos. Não existia som, odor ou qualquer outro estímulo sensorial. Era apenas o vazio, um abismo sem fim que parecia se alargar mais e mais, tragando-os como um oceano sem fronteiras.
A única fonte de luz era um brilho fraco e ameaçador vindo de uma fenda distante. Era uma luz, como uma estrela distante, tão fraca que era praticamente invisível. No entanto, ainda havia luz, e qualquer indício de brilho em uma escuridão tão completa era um sinal de esperança.
Os olhos de Emilly, atraídos por essa aparição etérea, foram chamuscados por sua intensidade crescente, forçando-a a protegê-los.
Ela abriu os olhos devagar, descortinando um mundo coberto por uma névoa. Essa névoa confusa se prendia aos seus sentidos enquanto tentava se levantar, seu corpo resistindo ao solo inexplorado.
Aos poucos, tudo ao redor ganhou nitidez, transformando-se em uma cena que era ao mesmo tempo desconcertantemente familiar e estranha.
Era um cenário marcado nas profundezas de sua memória, um eco perturbador de uma existência já vivida e uma lembrança fantasmagórica agora materializada.
Emilly estava sentada no chão, enquanto um cobertor azul claro a cobria parcialmente. Ela levantou-se lentamente, sentindo o chão frio contra seus pés descalços, e olhou ao redor, reconhecendo cada detalhe familiar de seu refúgio.
— Meu quarto…
O ambiente estava bagunçado, como se um furacão tivesse passado por ali. Livros estavam espalhados em uma estante à direita, alguns empilhados de forma desordenada, outros abertos como se tivessem sido abandonados no meio de uma leitura.
À esquerda, uma mesa de cabeceira segurava uma lâmpada vermelha, cuja luz havia se apagado durante a noite, deixando o quarto na penumbra. Em cima da cama, uma bandeja com restos de café da manhã sugeria uma refeição tomada às pressas ou esquecida, com migalhas e um copo de suco ainda pela metade.
A luz fraca que vinha da janela ao fundo espalhava um brilho suave pelo quarto, tingindo tudo com um tom melancólico. As cortinas azuis estavam semiabertas, revelando o céu nublado daquela manhã.
No canto do quarto, repousava um grande espelho. Emilly aproximou-se e deixou cair o cobertor quando encarou o reflexo de uma adolescente de quatorze anos, um vislumbre de uma versão de si mesma há muito desvanecida.
Seus cabelos castanhos escuros com mechas cinzas desgrenhados derramavam-se sobre os ombros, e ela vestia uma camiseta preta com o emblemático símbolo do Nirvana, contrastando com seus shorts brancos surrados.
— O quê? Como?
A perplexidade pintou seu rosto enquanto suas mãos apalparam os seus contornos, buscando alguma prova tangível da realidade.
— É um sonho. Tem que ser um sonho.
Ela se aproximou, franzindo a testa, buscando alguma imperfeição no vidro que justificasse a anomalia. Eventualmente, sua mente disparou, passando por memórias como se folheasse um álbum de fotografias antigas.
A infância, uma época de inocência e maravilha, era para ela um deserto desolado. Uma pária em um mundo de pares, ela era uma nuvem de tempestade, trazendo ruína para tudo que tocava. O riso de outras crianças era uma melodia distante, um canto de sereia assombroso que a chamava de uma costa que ela nunca poderia alcançar.
A adolescência, uma estação de florescimento e esperança, era para ela um deserto árido. Um coração ingênuo, ansiando por conexão, era explorado com uma eficiência cruel. O amor, uma flor frágil, era pisoteado pelas botas indiferentes de um enganador.
Emilly caiu vítima de seu engano, seu coração uma ferida aberta convidando o veneno de suas mentiras. Em sua vulnerabilidade, ela era uma tela sobre a qual ele pintou uma obra-prima de manipulação, moldando-a em um instrumento para seus próprios desejos.
A lembrança de um precipício era um abismo que ela não ousava explorar. Lembrar-se do momento exato em que o mundo se reduziu a uma única e aterrorizante opção – pular da varanda – era um acúmulo de sentimentos negativos que ela temia que a engolisse inteira. Essa foi uma cicatriz, profunda e crua, que qualquer tentativa de sondagem apenas reabriria e infectaria.
Um soluço fugiu de seus lábios. O mundo, por um instante, desvaneceu-se em um emaranhado de lágrimas e o espelho se estilhaçou. Através de seus cacos, cada fragmento refletia um aspecto de sua angústia. Eram faces de perda, de anseio, de uma existência não experimentada, um coro de clamores mudos.
Ela cambaleou para trás e caiu sentada no chão. Sua mão se estendia cegamente em busca de apoio. O quarto girava ao seu redor, um carrossel vertiginoso de dor e confusão. O espelho havia se tornado uma prisão, prendendo-a em um labirinto de arrependimento.
O fardo desses horrores não revelados era uma presença constante. Era como a dor fantasma de um ferimento já cicatrizado, mas que deixara um vazio lancinante. Emilly aprendera a sepultar seus demônios, a erguer uma fortaleza em volta de seu coração.
Entretanto, as muralhas dessa fortaleza ruíam, pedra por pedra.
— Não dá mais, não dá mais…
Um caco de vidro, irregular e ameaçador, jazia a seus pés. Com uma resignação fatalista, ela apanhou o caco e levantou, sua ponta gelada pressionando contra a pele quente de seu pescoço.
O mundo se contraiu em um único ponto ofuscante. Uma vida inteira de dor, perda e traição condensada neste momento singular.
Uma respiração, um sussurro, uma batida de coração – esses eram os únicos sons no quarto. O tempo, em sua cruel indiferença, parecia parar. O caco tremeu em sua mão, um equilíbrio delicado entre a vida e a morte. E então, como se puxado por uma força invisível, seus dedos se apertaram.
— Droga!
Ela lançou o caco para longe. Encostou a cabeça na beira fria da cama, pressionou os olhos com as mãos e passou os dedos sobre as pálpebras, esticando ligeiramente a pele.
— Ainda posso… resistir. Se não for por ele, que seja por mim.
Uma inspiração brusca precedeu sua subida. Apoiando o braço na beirada, Emilly se levantou. O quarto se inclinou, breve e desorientadora. Então, um som – imperceptível a princípio, um mero sussurro no silêncio – chamou sua atenção. Era de além da porta, uma intrusão estrangeira em sua solidão.
— Eu ainda estou em uma missão, né? Não posso fazer nenhuma merda. Tenho que ir até o fim.
Ao abrir a porta, Emilly entrou em um corredor no segundo andar, banhado pela luz natural que vinha das janelas altas. O piso de madeira clara, polido até brilhar, refletia a luz do sol, contribuindo para um ambiente acolhedor e tranquilo.
Adornando as paredes, havia uma notável variedade de porta-retratos, todos com memórias queridas da vida de Emilly na companhia dos pais e do irmão.
As fotografias estavam exibidas em sequência cronológica, começando com instantâneos de seus primeiros anos. Uma delas mostrava Emilly ainda bebê, abraçada aos braços da mãe, sorrindo para a câmera. Ao lado desta, outra foto mostrava ela e seu pai rindo durante um piquenique no parque. Mais adiante, uma montagem de comemorações de aniversários, férias em família e momentos da vida cotidiana teceram uma história pictórica de amor e união familiar.
— Tudo mudou. — disse enquanto seus dedos deslizavam suavemente sobre a borda prateada da moldura fotográfica que repousava sobre a estante.
Pegou-a com cuidado, como se o ato de segurar aquele pedaço de sua história pudesse de alguma forma reavivar o passado. Seus olhos se fixaram na imagem que parecia congelar um momento de pura ternura e amor.
Na fotografia em preto e branco, uma versão recém-nascida de si mesma estava embalada carinhosamente nos braços de sua mãe e avó. As duas mulheres se inclinavam sobre ela, com os rostos radiantes de ternura, enquanto beijavam suavemente a cabeça do bebê.
A imagem capturou um momento congelado no tempo, um instante de pura alegria e afeto que pertencia a uma época passada.
Suas mãos tremeram levemente enquanto seus olhos examinavam os detalhes da foto: sua mãe, jovem e vibrante, com um sorriso que poderia iluminar qualquer ambiente, e sua avó, cujo olhar era caloroso e suas mãos sempre souberam como acalmar e proteger.
Emilly sentiu uma onda de saudade e melancolia.
— Eu deveria ter sido menos rigorosa. Você me ofereceu todo o carinho que esse mundo não tem, mas… — Uma lágrima pingou em cima de sua avó. — Fui estúpida. Nunca dei a importância que merecia.
Ela sempre manteve distância de sua avó, especialmente em questões de afeto e cuidado. Esse distanciamento só aumentou com o tempo. Quando adolescente, Emilly a via como antiquada, com opiniões e conselhos que eram inadequados para o mundo contemporâneo. O carinho e a atenção dela foram percebidos como intrusivos, e Emilly reagiu a todas as tentativas de aproximação com indiferença e desprezo.
Apesar da indiferença e do comportamento áspero de Emilly, sua avó sempre expressou amor. Ela nunca hesitava em oferecer uma palavra gentil, um conselho sábio e uma mão amiga. Emilly se lembrava das noites em que ela a esperava, garantindo seu retorno em segurança.
Se lembrava das manhãs de domingo, quando sua avó preparava seu café favorito, desejando um momento de paz e diálogo, embora Emilly muitas vezes saísse correndo sem expressar gratidão.
O distanciamento gelado servia como seu escudo, um bastião erguido contra o mundo. Em seu refúgio glacial, ela se isolou do calor dos laços humanos. A mulher na fotografia, cujas mãos pareciam oferecer consolo, tornou-se o espectro de uma vida que Emilly havia jogado fora de forma irresponsável.
— Me desculpa.
Segurando o porta-retratos em seu peito, Emilly desejou que a proximidade física pudesse voltar no tempo e reparar as mágoas do passado.
— Se ao menos eu pudesse te dizer o quanto sinto sua falta, o quanto lamento por não ter te valorizado mais. — sussurrou, enquanto as lágrimas caíam livremente. — Me desculpa…
As palavras não ditas, os gestos não feitos, os momentos não compartilhados – todos gritavam em sua mente. Emilly compreendia que a vida era efêmera, e que as pessoas que amam não são eternas. Mas essa compreensão veio tarde demais.
Apesar da dor, esse momento de reflexão semeou uma semente de mudança dentro dela. Ela entendeu que, embora não pudesse alterar o passado, poderia fazer a escolha de melhorar a si mesma no presente e no futuro, nutrindo o amor e a compaixão que uma vez lhe foram dados.
Com um suspiro profundo, ela recolocou a moldura no lugar, ajustando-a cuidadosamente para que ficasse perfeitamente alinhada com os outros quadros. Embora o tempo tivesse mudado muitas coisas, as memórias permaneciam vivas, gravadas não apenas em papel, mas em seu coração.
— Obrigada por tudo.
Em direção às escadas, Emilly descia para a sala. Uma visão familiar a esperava: no centro tinha um tapete com várias peças de Lego espalhadas e outros bonecos de super-heróis sobre, formando uma pequena desordem colorida.
— Isso é coisa do meu primo, com certeza. Ele é como um furacão.
Emilly atravessou a sala com cuidado para não pisar nas peças. Os detalhes dos brinquedos refletiam a cultura pop americana, com super-heróis icônicos como Homem de Ferro e Capitão América.
Ela foi até a cozinha, saudada pelo aroma convidativo de café fresco e torrada. Emilly observou sua mãe preparar a mesa para o café da manhã.
A mulher possuía uma beleza calma e brilhante. Seus longos e ondulados cabelos castanhos caíam suavemente sobre seus ombros, delineando um rosto suave e elegante. Ela estava vestida com um vestido leve e arejado que acentuava sua estrutura esbelta e a plenitude de sua gravidez. Uma mão acariciava ternamente sua barriga proeminente, enquanto a outra arrumava a mesa.
— Você veio. — disse ela, sem olhá-la. — Bom dia, Emilly.
O rosto dela mudou para um rosto cansado.
— Bom dia… mãe.

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