Capítulo 73 - O Sonho que Não Acaba
— O macaco não está aqui.
Nicholas afastou um denso emaranhado de galhos, sentindo as folhas roçarem em seu braço enquanto vasculhava a vegetação rasteira. A floresta ao redor era densa, o ar carregado com o aroma de terra úmida e folhas decompostas.
— Não está em lugar algum. — falou, deixando os galhos voltarem a sua posição original.
Zoe, que estava alguns passos atrás, agachou-se junto a um tronco coberto de musgo, seus dedos percorrendo as sutis marcas na terra macia. Nicholas a observou, sua testa vincada pela impaciência.
— Deixa essa merda de lado e me ajude a encontrar a coisa que tô procurando. Preciso sair daqui.
Eles haviam estado na busca por horas, e quanto mais se adentravam na floresta, mais ela parecia se fechar em torno deles, como se quisesse engoli-los por completo.
Zoe levantou-se, limpando as mãos em seu shorts, manchando-o com terra. Ela olhou para ele, depois para o caminho à sua frente. Franziu os olhos para as árvores, que eram apenas um borrão verde. Parecia não se importar com a incapacidade de ver claramente.
— Que porra você está olhando? Não tem nada.
Ela se virou para uma plateia imaginária, ostentando um sorriso largo e forçado.
— Ei, pessoal! Podem chamar o mapa para mim? Vamos lá, repitam comigo! Mapa! Mapa! Mapa!
O silêncio tomou conta da floresta. Ao longe, um corvo grosnou, como se zombasse deles. Zoe esperou, ainda sorrindo, como se escutasse aplausos silenciosos.
— Mais alto!
— Você não pode simplesmente…
Zoe começou a bater palmas e entoou uma canção.
— Mapa! Diga comigo! MAPA!
Ele exalou, tentando estabilizar o ódio borbulhando dentro de si, mas disse sem entusiasmo:
— Mapa.
Um zumbido quase inaudível captou a atenção dele. Olhou para trás e percebeu algo se aproximando rapidamente. Desviou-se e viu um pedaço de papel amassado deslizando à sua frente e sobrevoando a cabeça de Zoe. Ao desdobrar-se, encontrou o mapa manchado de café e com as bordas rasgadas.
— Aqui está! — exclamou ela, agarrando o mapa e fingindo exibi-lo para Nicholas, que nem se deu ao trabalho de olhar. — Temos que visitar três lugares: o Bosque, o Vale dos Ecos e, por fim, a Cabana Abandonada. Legal, não é?
O homem não respondeu; ele estava demasiado absorto, questionando-se por que havia concordado com aquilo.
Zoe amarrotou o papel e descartou-o sem lhe dar outra olhada, perdendo o interesse.
— Vamos lá, temos que encontrar o Bosque! Deve estar por aqui!
Ela indicou de forma imprecisa em direção às árvores densas, sem fixar-se em um ponto específico.
— Você tem certeza de que esse é o caminho correto? — Nicholas perguntou, lutando para manter sua irritação sob controle.
— Absolutamente! — Ela respondeu com confiança excessiva. — O mapa nunca está errado. Pelo menos, é o que eu acho.
Eles começaram a caminhar em direção ao local onde quer que o Bosque se encontrasse. Nicholas não conseguia evitar a sensação de que estar perdido na floresta era o menor dos seus problemas. Segui-la, contudo, revelou-se um desastre de uma magnitude completamente diferente.
A floresta adensava-se à medida que avançavam para o que Zoe afirmava ser a direção do Bosque.
Zoe liderava com um entusiasmo temerário, suas botas pisoteando a vegetação rasteira, desdenhosa da ausência de uma trilha definida. Sob seus passos, galhos estalavam, e o ocasional farfalhar nas alturas insinuava que não estavam sós naquele trecho esquecido de mata, embora ela parecesse ignorar.
Nicholas ergueu o olhar, porém o dossel era tão densamente entrelaçado que somente fragmentos de luz filtravam-se, banhando o ambiente em um crepúsculo constante. As sombras moviam-se ao seu redor, alterando-se com cada gesto que faziam, criando a ilusão perturbadora de uma presença oculta.
“Aquilo… O que foi aquilo? Tudo mudou desde que aquela coisa apareceu. Mas por que só afetou a Zoe?”
Uma força misteriosa apareceu para distorcer a realidade ao seu redor. A maior preocupação de Nicholas, porém, era que Zoe mantivesse sua personalidade, alterando apenas sua aparência, mesmo quando a floresta parecia contaminada por essa força.
Era como se ela fosse resistente ao veneno que permeava a área. Talvez Zoe possuísse uma característica única, ou talvez, por razões desconhecidas, a força tenha escolhido poupá-la. O que permaneceu claro foi sua confiança inabalável enquanto caminhava, alheia ao caos sutil que se desenrolava ao seu redor.
“Na verdade, eu deveria saber uma forma de me encontrar com Emilly. Preciso dela também.”
A primeira bizarrice que encontraram foi uma clareira onde as árvores derrubadas tinham sido consumidas por um fungo bioluminescente, exalando um cheiro desagradável. A vegetação ao redor estava revestida por uma camada viscosa, e Nicholas notou que o fungo se contraía de forma repulsiva ao mais leve toque, como se tivesse vida e estivesse ciente de sua presença.
Zoe agachou-se para inspecioná-lo mais de perto, aparentemente despreocupada com o fato de seus dedos estarem agora brilhando com a substância adesiva que se agarrava à sua pele.
— Vejam isso! — Ela exclamou, rindo. — É como uma discoteca natural!
Enquanto isso, Nicholas recuou, tampando os ouvidos para bloquear os sons úmidos das plantas, que lembravam a carne podre sendo esmagada. O fedor era insuportável, uma mistura de ovos podres e um cheiro doce e nauseante, como se a própria essência da natureza estivesse se decompondo ao seu redor.
A vegetação ao redor começou a se transformar, saindo de árvores mortas para formas muito mais grotescas. Troncos inchados e deteriorados liberavam uma substância pegajosa que descia pelos caules em grossos filetes, assemelhando-se a sangue coagulado.
As folhas, de um verde enfermiço, torciam-se lentamente, como se possuíssem vida própria, oscilando ao sopro de uma brisa que não existia. Nicholas notou um galho particularmente espesso que pulsava suavemente, como se algo dentro dele estivesse a ponto de romper.
O caminho prosseguia por uma área de vegetação tão espessa que mal podiam enxergar a distância de uma mão. As árvores eram anormais, com cascas marcadas por cicatrizes que formavam rostos contorcidos em expressões de sofrimento.
Galhos secos e frágeis pendiam sobre eles, crepitando sob seus pés, e Nicholas quase podia jurar que escutava murmúrios emanando das árvores, palavras incoerentes que se perdiam antes que pudesse compreendê-las.
— Não é incrível, pessoal? Parece que estamos numa versão maluca de um parque de diversões! — exclamou Zoe, rindo ao desviar de um galho que por pouco não atingiu seu rosto.
“Ela deve pensar que isso é uma animação. De perto é ainda mais bizarro.”
— Sim, incrível. — respondeu Nicholas em um murmúrio, esforçando-se para ignorar o fato de que o galho que quase a atingira estava repleto de espinhos venenosos, reluzindo em um alarmante tom de vermelho-sangue.
Eventualmente, o caminho os conduziu a um local onde o solo parecia ser composto de ossos. Nicholas sentiu um arrepio ao constatar que realmente caminhava sobre pequenos ossos brancos que estalavam sob seus pés. O chão estava repleto de crânios de diminutos animais, cujas cavidades oculares vazias pareciam olhar para o alto, como se esperassem por mais vítimas. Zoe, por outro lado, parecia fascinada pela descoberta, manuseando um dos crânios com as mãos como se fosse um objeto de interesse.
— Já pensaram se fossem crânios de dinossauros? Seria muito mais incrível, vocês não acham? — indagou, alheia, enquanto Nicholas tentava conter a náusea que lhe subia à garganta.
— Saia… vá embora… você não pertence a este lugar…
Nicholas apertou os olhos, tentando abafar as vozes que incessantemente nutriam seu medo crescente.
Eventualmente, eles chegaram a um ponto em que a floresta deu lugar a mais do que apenas árvores ameaçadoras. Na frente deles estava uma árvore colossal. Suas raízes se estendiam como cobras gigantes, envolvendo o que parecia ser uma estrutura antiga, em grande parte escondida pela vegetação e pelo tempo. A árvore pulsava com energia negativa, como se um coração estivesse batendo dentro dela.
Zoe finalmente parou e olhou para a estrutura com uma expressão que misturava curiosidade e emoção.
— É isso, pessoal! Finalmente encontramos! — Ela disse, dando um passo à frente. — Vamos explorar!
Tudo ao redor exalava perigo, como se tivessem ultrapassado uma fronteira oculta e adentrado um território que não deveria ser incomodado. Contudo, Zoe avançou para dentro da construção, movida por uma força que não podia compreender – uma força que começou a suspeitar ser a própria floresta, ou algo ainda inconcebível que os havia seduzido para aquele lugar.
— Acaba logo.
Nicholas entrou em seguida.
As paredes estavam cobertas por uma camada viscosa, de onde pingava um líquido espesso que formava poças. O piso era desigual, um mosaico de azulejos quebrados e terra à mostra, com raízes que irrompiam do solo como dedos deformados buscando a superfície.
Algumas raízes estavam cobertas por uma seiva negra e pegajosa que exalava um odor de putrefação, enquanto outras pulsavam levemente, como se estivessem vivas, nutrindo-se da energia negativa que saturava o ar.
Conforme avançavam, a luz exterior desvanecia-se, dando lugar a um fulgor esverdeado e enfermiço. Esse brilho iluminava manchas de bolor e fungos em crescimentos, alguns vibrando com uma vida própria, outros se decompondo em tons contundidos de roxo e amarelo.
Moscas zumbiam ao redor, mas o que era mais perturbador era a ausência de qualquer som natural. Nenhum pássaro, nenhum animal. Apenas o incessante zumbido das moscas e o crepitar ocasional dos galhos.
Logo à frente, uma criatura agachada chamou a atenção deles, sua forma pequena e arredondada. Eles pararam, observando-a por um momento antes que Zoe, com uma tentativa cautelosa de quebrar o gelo, chamasse por ela:
— Olá, amigo!
A criatura levantou a cabeça de súbito, com suas grandes orelhas eretas como antenas captando sons. Virou-se para eles, exibindo um par de olhos dourados que cintilavam com luz própria. Eram olhos cativantes, que hipnotizavam, resplandecendo na penumbra com intensa curiosidade. Embora transmitissem uma inocência superficial, havia neles algo inquietantemente anormal.
A pele negra dela contrastava com a espessa pelagem branca que cobria a maior parte de seu corpo, dando-lhe uma aparência fofa e inofensiva à primeira vista. Pedaços de carne estavam nas suas pequenas mãos, as unhas cobertas de sangue fresco. O mesmo líquido manchava seus lábios e sua pelagem ao redor da boca.
“Aquilo não é…?”
Inclinando-se ligeiramente à direita, Nicholas viu um animal que lembrava um macaco. Ele estava quase irreconhecível, com grandes pedaços de carne arrancadas, ossos expostos e vísceras dispersas pelo chão, manchando a terra de vermelho. Seu tórax aberto e órgãos à mostra causaram um calafrio que percorreu a espinha de Nicholas.
— Sosu…
Ela lambeu suas patas e andou para próximo deles.
— Oi! Será que você pode nos ajudar a encontrar nosso amigo Caleb, o Macaco?
A criatura piscou, inclinando a cabeça levemente como se estivesse processando a pergunta. Um silêncio pairou, apenas o tempo suficiente para que o zzzz das moscas persistentes preenchesse o ar, antes que os olhos da criatura se fixassem na carcaça meio devorada que era claramente visível.
Nicholas, parado desajeitadamente ao lado, deixou escapar uma risada nervosa.
— Uh, Zoe… Eu acho que o seu amiguinho está bem ali. — Apontou para o que restava de seu azarado companheiro.
Ela se virou com uma expressão exagerada de surpresa, as mãos nas bochechas em choque simulado.
— Oh, não, não! Caleb não é um macaco de verdade! — Ela se virou para a criatura, que lambia suas costeletas. — Teve uma refeição gostosa? Bom para você!
Disse ela, erguendo o polegar.
Nicholas piscou, atônito com a surrealidade da cena. Zoe mantinha o sorriso, como se gravasse um episódio peculiar do seu show infantil imaginário. Ele chegou a abrir a boca para falar, mas a fechou, sacudindo a cabeça, incrédulo.
— Vocês são tão engraçados!
A criatura encarou ele com seus grandes olhos dourados, piscando devagar, como se tentasse entender a lógica estranha da menina. A sua língua deslizou para fora novamente, removendo qualquer vestígio de sangue de seu focinho.
Nicholas coçou a cabeça, buscando as palavras adequadas.
— Então… o que Caleb realmente é? Afinal, nunca vi essa porra.
— Caleb também é humano!
Nicholas franziu a testa, visivelmente impaciente.
— Ah, ótimo. E o que essa coisa vai fazer?
Ele apontou para a criatura que, naquele momento, esfregava casualmente o rosto com as patas.
Zoe se agachou diante dela, os olhos brilhando com a habitual intensidade alegre.
— Você poderia nos ajudar a encontrar o Caleb? — perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
A criatura piscou lentamente, seus olhos dourados captando a luz do ambiente. Ela pareceu ponderar a pergunta, como se avaliasse se deveria ou não aceitar o desafio. Depois, inclinou a cabeça para o lado e emitiu um som suave, quase um miado, antes de avançar um passo, aceitando a tarefa.
— O mestre mandou. — disse ela.

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