Índice de Capítulo

    Ponto de vista de Saki:

    Há eras, uma guerra ocorreu durante 1147 anos. Deuses que antes lutavam por um objetivo em comum, passaram a guerrear entre si. Até os dias de hoje, rezam as lendas que o motivo de tudo foi uma mulher que, em pouco tempo, fez com que olhassem irados uns para os outros. Todos eles, deuses e deusas, seduzidos pelo coração de uma única mulher, essa que no fim os dizimou.

    Heh! O que um livro infantil tá fazendo no meio dos livros de história? — acreditar que deuses se digladiaram por causa de mulher estava bem além do aceitável, até mesmo para uma historinha.

    Enquanto lia mais algumas histórias do mundo, descobri que ele não tinha um nome exato, mas muitos o chamavam de Éden, o suposto paraíso concedido por Deus. Antes que conseguisse passar das primeiras páginas, escutei o som de vários livros caindo no corredor atrás de mim e a única pessoa que imaginei fazendo algo assim foi o Akira.

    — Akira? Vê se não fica bagunçando tudo aí! — Não escutar uma resposta vindo de um cara linguarudo como ele foi preocupante e desconfiei no mesmo instante.

    Fui até a origem do som, mas tudo que encontrei foi um monte de livros jogados no chão.

    — Akira? Noelle? — eu estava sozinha — Puta merda, onde eles se meteram?

    Passei um tempo os procurando por cada canto da biblioteca sem achar nenhum rastro até ouvir passos pesados ecoando pelo lado escuro dos corredores. Ali mesmo comecei a suar frio, não tinha como saber o que estava por vir.

    A tensão estava no ar, eu andava lentamente em direção ao breu absoluto, imersa na minha própria aflição.

    — Hum? Saki? — sem nem mesmo ouvir direito o que foi dito, virei rapidamente para trás

    — Sai diabo! — no puro reflexo, peguei o livro mais grosso da prateleira e arremessei contra o que havia me chamado.

    — Tá maluca! — Akira gritou se esquivando do meu poderoso ataque.

    — Ah, Akira, é você.

    — Como assim é você? Que merda foi essa?

    — Só um minuto… se não foi você que derrubou os livros, então cadê a Noelle?

    — É… Parece que achei ela… — respondeu se preparando para lutar contra algo que fazia uma grande sombra sobre mim.

    Me virei lentamente para aquilo que parecia com um enorme esqueleto de um antigo monstro. Seus ossos eram robustos, porém ele não era tão grande, o que me levou a pensar que seria o filhote de alguma criatura colossal. Além de ossos largos, também possuía uma longa cauda que segurava Noelle e tampava sua boca.

    — Filho da puta… — resmungou Akira.

    — Aguenta aí, Noelle, é só acabar com esse vira lata!

    No primeiro passo que dei, a criatura esquelética apertou sua cauda, ameaçando acabar com ela.

    — Desgraçado!

    Olhei rapidamente para trás e vi Akira cruzando seus dedos formando uma cruz onde crescia uma pequena bola de fogo, mas assim que o monstro também o viu, colocou Noelle em sua frente, a segurando como refém.

    — Ele não é só um saco de ossos, parece inteligente.

    — Merda!

    Mais uma vez não consegui ajudá-la, minha mente começava a pesar pela culpa e frustração. Meus punhos tremiam com raiva, tentando encontrar um jeito de tirá-la dessa situação.

    Sempre que Noelle fazia qualquer movimento, a criatura esmagava seu corpo, as possibilidades diminuíam a cada segundo, eu não podia agir impulsivamente, até que inesperadamente, o esqueleto monstruoso desapareceu lentamente, como se seus ossos fossem corroídos ou desintegrados.

    Noelle estava solta e quase que instantaneamente, pulei em sua direção, a agarrando no ar.

    — Desculpa, eu não pude ajudar mais uma vez…

    Sem resposta, ela parecia abalada. Ao aterrissar, olhou para mim dizendo:

    — Obrigada, mais uma vez! — com um sorriso no rosto.

    — Mas eu não fiz nada…

    — Saki! Ainda não acabou — Akira ainda mirava suas chamas em direção ao escuro.

    O homem que antes havia apontado sua lâmina contra nossas vidas, surge da escuridão.

    — Tsc! Você…

    — Me desculpe por antes, foi só uma confusão.

    — O que você quer? — ele baixou a guarda.

    — Nada, não queria encontrar vocês novamente.

    — A GENTE que não queria encontrar com você!

    — Deixa pra lá, Akira. Ele já pediu desculpas.

    Noelle se aproximou se curvando para o garoto.

    — Qual o seu nome?

    — S-Shosuke — respondeu com uma voz trêmula ao vê-la tão perto.

    — Muito obrigada, Shosuke! — estendendo a mão para Shosuke.

    — E- Eu tenho que ir…

    Sem expressar reação alguma, andou rapidamente para fora da biblioteca nos deixando sozinhos novamente.

    — Que cara esquisito. Ele tem medo de gente? — resmungou Akira

    — Vocês também repararam nisso?

    — O quê?

    — Seus passos, eu não consegui ouvi-los…

    — Parando pra pensar, não escutamos mais ninguém andando por aqui.

    — Ele também ocultou bem sua presença, não consegui sentir sua mana até que ele aparecesse.

    — Vocês tão me dizendo que além de acabar com aquele bicho em segundos, ele também é imperceptível?

    — Isso aí — ambas respondemos inocentemente.

    — Eu mereço…

    Antes que algo mais acontecesse, saímos da biblioteca andando em direção ao bar que fomos no dia anterior.

    — Deixa ver se eu entendi. Você tava no lado escuro da biblioteca e ouviu algo caindo por perto.

    — Sim, se me lembro bem, algumas folhas caíram da prateleira.

    — E como só você ouviu? — perguntando revoltado, olhou para as orelhas de Noelle e enfim entendeu — Certo… E depois?

    — Eu já disse, do nada alguma coisa agarrou meu rosto e tapou a minha boca.

    — E enquanto tentava se soltar, chutou a estante para derrubar os livros.

    — Isso foi sem querer, mas funcionou.

    — Que estranho…

    — Vamos perguntar algo ao Karayan ou ao barman, talvez eles saibam de algo.

    Chegando no bar, Karayan estava largado no balcão, da mesma forma que o encontramos pela primeira vez.

    — Oh! Vocês voltaram vivos — nos cumprimentou o barman.

    — Acho que nem a gente acredita nisso.

    — Como que ele tá exatamente na mesma posição? — indagou Akira.

    — Não, ele se virou agorinha.

    — Então, o que vão querer hoje?

    — Queremos saber o que há de errado com esse lugar, é completamente diferente do que é dito nos livros.

    — Isso mesmo, cadê todos os bruxos que viviam aqui? Vim aqui esperando aprender mais com seus ensinamentos.

    — Eu só quero uma água.

    Seu semblante baixou por um momento, como se tivéssemos tocado em um assunto delicado para ele.

    — Certo… Eu já volto com a água…

    Ponto de Vista de Galliard:

    Enquanto trabalhava em um novo projeto, ao meu lado, Elena folheava um grande livro de capa dura e fazia anotações em seu pequeno caderno.

    — Acha que foi uma boa ideia ter os mandado para Raven? — perguntei aflito.

    — Nem os bruxos conseguiram salvá-la de seu fim inevitável, é claro que eu não concordo com isso, mas… o velho deu as ordens, só podemos confiar.

    — Sempre fazemos o que ele manda? Não é estranho ele sempre saber o que fazer?

    — Lembra do que aconteceu quando duvidamos? Ele não tentou nos impedir, disse: “Faça como quiserem, são livres para viver suas vidas” e quando voltamos quase mortos, ele nos ajudou sem falar nada.

    — Sim… Desde então acreditamos fielmente em suas palavras, foi assim que nos tornamos mais fortes, aprendemos muito pelo menos.

    — Se ele mandou sua própria filha para um lugar como esse, é porque não tem com o que se preocupar.

    — Se preocupar, não é? Você se apegou mesmo àquela garota. Hahahaha!

    — Quê, não mesmo! — gritou envergonhada — É só que… isso tudo me lembra o que aconteceu com a Viollet.

    — Viollet morreu como uma verdadeira Bruxa Celestial, foi o que ela sempre quis.

    — Me pergunto por onde anda sua criança…

    — É mesmo, já deve estar bem crescida.

    Ponto de Vista de Saki:

    — É verdade que essa ilha não é mais a mesma de antigamente. Não deve ter mais de 15 pessoas andando por aqui.

    — Sim, mas… o que aconteceu?

    — Uma maldição tomou a ilha para si. Não há quem possa sair, ou entrar.

    — Mas estamos aqui, entramos na ilha.

    — De fato, isso nunca aconteceu antes, também há boatos de que outra pessoa conseguiu entrar recentemente.

    — Que tipo de maldição é essa?

    — Ah… Ela é terrível… Tudo que a névoa toca, se torna morto, restando apenas os ossos dos seres vivos.

    — Quer dizer que estamos presos aqui? — Noelle perguntou amedrontada.

    — Claro que não, se conseguimos entrar, conseguiremos sair — respondeu Akira despreocupadamente.

    — Temo que não… Não podemos abusar da sorte assim, não sabemos o que aconteceu para estarmos aqui, não vamos arriscar.

    — Ela tá certa, Akira, se quisermos sair daqui, vamos ter que descobrir um jeito seguro de fazer isso.

    Enquanto discutíamos o que fazer, Karayan se levantou repentinamente.

    — Aí cachinhos prateados, me responde uma coisa.

    — S-Sim, o que foi?

    — Quantos anos você tem?

    — 18, senhor.

    — Hum… — ainda meio bêbado, ele fazia cálculos usando os dedos como uma criança — Entendi… então você sobreviveu…

    — O que quer dizer com isso?

    — Velho, dá a chave.

    O barman prontamente tirou de seu bolso um punhado de chaves e o jogou para Karayan. Ele se virou e foi em direção ao banheiro, batendo a porta com força.

    — Mas o quê que foi isso? — perguntei confusa.

    — Ele sabe que seu cabelo é liso, não é?

    — Ele ainda tá bêbado…

    A dúvida ainda pairava no ar, não podíamos ficar ali para sempre, precisávamos saber o que aconteceu e mais uma vez insisti.

    — Essa maldição… Quem conseguiria amaldiçoar uma ilha inteira de bruxos?

    — Isso aconteceu durante a evacuação, um momento em que os bruxos estavam vulneráveis e desesperados.

    — Evacuação?

    — Quando a última Bruxa Celestial morreu para nos proteger, a Ilha de Raven estava desprotegida, ninguém era capaz de assumir o trono, nem mesmo os poderes somados de todos os bruxos se equiparavam aos poderes da Alta Sacerdotisa.

    — Eu li sobre os feitos dos bruxos nessa terra, eles não eram fracos… quão poderosa era ela?

    — Forte o suficiente para matar um Deus — disse em um claro tom de exagero.

    Nossos olhos se arregalaram, não sabíamos que alguém assim pudesse existir.

    — E ainda assim, ela morreu… — Akira nos deu um choque ainda maior.

    Imaginar a causa de sua morte me trazia um medo genuíno, naquele momento, meu próprio orgulho admitiu que eu não estava nem perto de ser forte.

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