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    A estação mudou, as mãos ficavam mais calejadas a cada dia e a presença do garoto ficava mais forte conforme treinava. Não descansou um dia sequer.

    Kurone Nakano deixou o seu cabelo loiro crescer, amarrando-o com uma fita branca em um rabo de cavalo trançado. Suas roupas, nesse momento, eram mais caras e grossas devido ao frio, mas ainda respeitavam a paleta de cor do seu personagem: casaco negro com o emblema da Universidade, uma camisa fina por baixo e uma calça escura.

    Desde os acontecimentos na floresta ao lado da Universidade Mágica, ele aumentou o tempo dedicado aos estudos e aos treinos.

    O menino dividia o seu tempo entre Cynthia, a Heroína Ádvena, Minerva e Annie — essa última o encontrava com frequência nas redondezas da instituição. Apesar da deusa ainda estar confusa, ela sabia que não devia confiar em Hime e preferia dar ouvidos ao menino loiro.

    Minerva ficava incomodada com a presença de Annie nas proximidades, ela não sabia da existência da divindade, porém a Santa não podia deixar de sentir aquela aura incomum. Kurone encontrou-a algumas vezes fazendo rondas pela floresta, mas não Annie conseguia esconder-se bem, afinal já tinha experiência.

    A Heroína Ádvena continuava a ter longas discussões com o Orbe Cinza que a acompanhava em todo lugar. 

    Era fácil lidar com as três garotas, contudo…

    — Ele não enviou nenhuma notícia ainda… eu estou preocupada — falou Cynthia ao notar a aproximação do seu colega.

    Kurone suspirou ao escutar essas palavras. A pessoa em questão era Sylford Sophiette, não houve mais notícia dele e nem do grupo que saiu para uma excursão há alguns meses. 

    — Sylford sabe se cuidar. Ele é um Sophiette, no fim das contas.

    — E humano também — replicou a jovem Sophiette. — Força não é tudo, principalmente quando se lida com demônios, se alguma coisa acontecer com o meu irmão, eu… eu… eu não sei o que fazer… Logo agora que voltamos a nos dar bem…

    — Nada vai acontecer com ele.

    — Como pode dizer isso com tanta confiança? Já faz tantos meses!

    — Porque Sylford Sophiette é meu mestre, e eu confio no meu mestre. Até hoje nunca conheci alguém mais forte que ele.

    Cynthia deixou um longo suspiro escapar, ela não poderia duvidar do próprio irmão quando esse garoto depositava tanta confiança nele.

    Ah, querido, só você mesmo para me animar assim…

    A menina reduziu alguns passos, pronta para abraçar o seu companheiro, contudo a sua demonstração de afeto foi interrompida por o som de passos pesados aproximando-se.

    Os dois jovens estavam no segundo andar do dormitório masculino, nesse horário todos os alunos estavam aproveitando o intervalo no lado de fora, logo qualquer som produzido ali seria percebido.

    Kurone estava prestes a soltar uma piada, porém suas forças desapareceram por momento ao ter ciência da identidade das pessoas se aproximando: Minerva Clergyman e uma sacerdotisa familiar.

    A sacerdotisa ao lado da Santa possuía cabelos ruivos bagunçados e uma expressão de preocupação estampada no rosto. 

    — Temos um problema, Iolite — anunciou Minerva, em um tom grave.

    — O orfanato?

    — Sim. Esta sacerdotisa acaba de me informar algo terrível…

    Era que Azazel van Elsie havia atacado o orfanato novamente.

    O garoto quase não acreditou. Rory, ou melhor, Luminus não estava mais lá, não havia sentido para a demônia atacar o lugar…

    [A Celestial pensa que Azazel van Elsie não é um ser racional, ela não precisa de justificativas para as suas ações.]

    Kurone cerrou os seus punhos e deixou a sua aura escapar. Estava óbvia a sua fúria, só conseguiu se acalmar um pouco após sentir a mão de Cynthia tocando a sua.

    — Eu preciso ir ajudar! Eu vou matar Azazel van Elsie!

    — Está falando besteira — replicou Minerva. — Diga para ele. — A Santa olhou para a sacerdotisa ao seu lado.

    — A-Azazel van Elsie m-me permitiu escapar do orfanato… E-ela disse que i-irá manter todos como reféns a-até que… a-até que “todas as peças estejam posicionadas”.

    — O que essa monstruosidade quer dizer com isso? — murmurou Cynthia.

    — Ela quer fazer um show dos grandes — respondeu Kurone, rangendo os dentes. — Luminus, Cecily e Loright… ela quer fazer uma reprise do nosso último encontro no orfanato. Desgraçada, eu não vou perdoar se ela machucar qualquer pessoa daquele orfanato.

    — Acalme-se, querido, com certeza todos devem estar bem.

    — Lamento ser a portadora de más notícias, mas parece que Azazel van Elsie está com o corpo de Sylford Sophiette no local — enunciou Minerva, com uma expressão triste e a voz trêmula. 

    Claro que até mesmo Minerva Clergyman fraquejaria ao dar uma notícia tão triste a respeito de uma pessoa que considerava um amigo próximo, entretanto ela tentava superar isso para ter controle da situação. Se todos ficassem desesperados, o caos tomaria conta do lugar.

    Cynthia quase caiu ajoelhada ao escutar isso. Ela e Kurone estavam apoiados um no outro para se manterem de pé.

    “Os Olhos que Tudo Veêm.”

    O menino fechou os olhos por um momento e, em instantes, percorreu todo o continente e viu a figura de Loright. O jovem estava mais velho, vestindo trapos negros e uma barba por fazer. Loright corria em uma velocidade insana, provavelmente seguindo rumo ao orfanato.

    “Ele já sabe.”

    [Ela imagina que Azazel van Elsie está avisando a todos os envolvidos.]

    Infelizmente, não conseguiu detectar Luminus com a sua habilidade, devido às barreiras erguidas or Cecily, e nem Sylford, por conta do poder de Azazel.

    — Não posso deixar o Loright lutar sozinho contra aquela coisa. Eu vou enfrentar Azazel van Elsie, mas também sei que ainda sou fraco… por isso…

    — A partir do momento que a demônia tocou em Sylford Sophiette, ela declarou guerra contra todo o continente — respondeu Minerva, determinada. — Avisei a Paltraint e ele já requisitou a ajuda Guarda Real. Vamos eliminar Azazel van Elsie de uma vez por todas!

    — Eu vou na frente — afirmou Cynthia, mordendo o próprio lábio. — Sei o que estão pensando, mas alguém precisa ir, a Guarda Real vai demorar ara ser mobilizada. Preciso ter certeza de que meu irmão ainda está vivo.

    — Enfrentar Azazel van Elsie sozinha é suicídio — replicou Minerva.

    — Mas…!

    — Ela tem razão, Cynthia. Por mais que seja doloroso reconhecer, ela tem razão, aquela aberração é muito forte.

    — Querido! Não está preocupado com o fato do seu mestre ou dos seus amigos estarem machucados?!

    — Tô bem frustrado, mas não tem o que fazer, se a gente quiser vencer, não vamos tomar decisões precipitadas.

    A garota não retrucou, mas também não estava conformada.

    — Vou me preparar. Se eu ver que eles irão demorar muito, irei sozinha. Não posso deixar a vida de meu irmão nas mãos de incompetentes.

    “Ela ama o irmão, não posso dizer que ela tá errada.”

    — Também vou me preparar. — Kurone olhou para a sacerdotisa aflita ao lado de Santa. — Quero conversar melhor quando você tiver mais calma. Dá um chá pra ela, Minerva.

    — Você está com cara de quem vai fazer algo improdudente — comentou a Santa.

    — Fica tranquila, vou só terminar de ver minhas aulas e arrumar minha mochila para a viagem.

    — Iolite… cuidado com as suas ações, lembre-se que não sou sua aliada de verdade.

    — Eu sei disso, não vou fazer nada de suspeito.

    Mas o garoto subiu ao terraço do prédio após se despedir das garotas . Já estava acostumado com o processo, só precisava impulsionar-se com um longo salto e usar o auxílio da faca de combate militar para escalar a parede.  

    Lá em cima, o vento frio balançava seu casaco e o rabo de cavalo, e ocasionalmente alguma folha seca tocava o seu rosto. O menino suspirou profundamente antes de dizer:

    — Eu sei que você tá por aí, Baal.

    O vento aumentou a sua velocidade quando o garoto pronunciou o nome “Baal”, como se acabasse de ser recitado um encantamento proibido.

    Do ar preenchido por uivos sombrios, surgiu uma voz grave:

    — É muito corajoso da sua parte me invocar assim. Precisa de algo, garoto?

    — Quero que você me mande a um lugar do Continente Oriental, mas tem que ser com passagem de volta porque não tô a fim de voltar andando daquele fim de mundo.

    [Ela reconhece que Kurone Nakano realmente não é um humano em suas plenas faculdades mentais.]

    “Isso não pareceu um elogio.”

    Kurone ouviu um som semelhante a um murmúrio do ar, parecia que nem mesmo a entidade chamada Baal conseguia compreender o que ele planejava. O que veio a seguir foi uma risada maligna grave e os dizeres:

    — Seja como você quiser.

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