Índice de Capítulo

    Depois de correrem sem olhar para trás, por aquela floresta tomada por névoa, que estava guardando horrores desconhecidos e aterrorizantes, eles pararam ao chegar em uma clareira no topo do monte. 

    Estavam paralisados. Os ventos uivavam, pássaros choravam melodias de medo e tudo o que pairava sobre aquele lugar era uma bizarrice sem forma. 

    Já devia ter passado mais de uma hora que Yuno desapareceu. 

    “O que é isso tudo…?” Kaito teve problemas para abrir a boca facilmente, mas conseguiu perguntar isso ao olhar para os três pilares de pedras sobrepostas. Eles rodeavam um pequeno torii feito de madeira, que, por sua vez, guardava uma peça também de madeira em formato de olho. 

    “Tengoku no Mon…”, Fuka sussurrou e nesse mesmo instante várias velas se acenderam ao redor deles, criando um caminho até uma mesa de pedra. Havia alguém deitado sobre ela. 

    “Yuno?!” Kaito reconheceu o tênis do garoto, então correu até a mesa sem hesitar. 

    “Espera—”

    Fuka e Rikki seguiram logo após ele. Sabiam que não era seguro, mas não tinha como impedir Kaito. Assim que se aproximaram de Yuno, seus olhos se arregalaram em uma expressão pavorosa. 

    Era realmente ele. Com certeza era. Porém, seus olhos estavam arregalados e esbranquiçados, seus lábios azuis, abertos de forma exagerada e o corpo inacreditavelmente pálido. 

    A pele fria quase como um cadáver.

    “Yuno…?” Kaito ficou em choque.

    “O que aconteceu aqui…?”

    Não tinha como especular nada. Aquele mistério os envolvia de forma desconfortável. 

    Sem que percebessem, o vento parou por completo. Por algum motivo, vários pássaros começaram a cair no chão, sem vida, e uma multidão começou a cantar em uma só voz rouca, uma espécie de réquiem macabro. 

    “In tenebris latentia, monstra serpunt foras,

    Formae distorta, ex alio veniunt orbe.

    Famae susurrant, nomina per noctem sonant,

    Bestiae sine vultu, sub luna manent.”

    Tais vozes ecoavam em suas mentes como sons profanos e imundos, chacoalhando seus tímpanos de forma agressiva.

    Dentre a densa e opaca névoa, várias figuras começaram a surgir uma após a outra. Era delas que vinha aquele canto de arrepiar os cabelos. 

    As velas em suas mãos estavam derretendo sobre elas, mas isso não parecia ser nada demais para aquelas pessoas — se podiam chamá-las assim.

    Seus corpos cobertos por tecidos escuros da cabeça aos pés, uma aura bizarra emanando deles. Aquelas pessoas pareciam estar saindo diretamente de um culto para forças contrárias — ou melhor, iniciando um. 

    Enquanto aquele réquiem nada elegante se repetia, Fuka e os outros se posicionaram ao redor da mesa de pedra. Os arrepios que estavam sentindo eram indescritíveis. Com certeza não deviam estar naquele lugar. 

    Kaito e Rikki tinham rostos apavorados. Fuka também, mas ela conseguia se manter um pouco mais calma em relação aos dois, embora não conseguisse parar de tremer. 

    Que lembranças desagradáveis…

    Ela tinha visto isso se repetir dia após dia, noite após noite. Aquela seita não parava para descansar enquanto seus objetivos não fossem alcançados. 

    “Pe-pessoal…” Kaito chamou a atenção dos dois repentinamente. Ele apontou para uma direção mais a frente, trêmulo e perplexo. “Que-que porcaria é essa?”

    A sombra de um templo em ruínas emergia da névoa, com toda a sua imponência negativa. O pavor aumentou e apenas coisas ruins sobrevinham na mente dos três jovens que mal podiam segurar o anseio por fugir. Sentiam suas forças se esvair e suas mente pareciam estar cedendo à loucura. 

    De repente, o réquiem cessou. Todas aquelas pessoas desapareceram, mas isso não significava que eles estavam seguros; muito pelo contrário, eles apenas deram espaço para aquela coisa gigante de vestido branco, chapéu de palha e feição demoníaca. 

    “Não fode…”

    “Essa é…”

    “Hachishakusama…”

    Aquela figura aterrorizante os encarava com um sorriso doentio no que dava para ver de seu rosto repugnante. 

    Num movimento fantasmagórico, ela se aproximou deles. Todos sentiram o temor se apossar deles. Suas pernas tremeram, suas vozes sumiram e a respiração travou. 

    Enquanto se perguntavam, com arrepios até na alma, o que ela faria, Hachishakusama estendeu a mão na direção de Fuka e deslizou por seu capuz. 

    A garota nem se moveu. Em seu rosto, estava marcado o puro terror, e aquelas malditas lembranças invadindo sua mente sem escrúpulos. 

    O que ela vai fazer?! 

    Incapaz de reagir, Fuka só pôde sentir os dedos gelados tocando seu rosto. O fantasma a admirava como quem admirava algo que queria possuir; certamente, essa não era uma boa experiência. 

    “Há quanto tempo…” A voz de Hachishakusama ressoou por seus ouvidos como um sussurro. 

    Foi nesse momento que a garota percebeu que não estava falando com ela, mas, sim, com aquela coisa que estava escondida no fundo de sua alma e misturada às suas entranhas. 

    Aquele maldito ser que ousou se alojar em seu corpo. 

    Hachishakusama recuou, ainda sorrindo. E estendendo seu braço direito, agarrou Yuno pelos cabelos e o arrastou lentamente para o interior do templo. 

    Demorou alguns segundos para o trio ter alguma reação. 

    “Esper—”

    Kaito tentou seguir o fantasma, mas as portas se fecharam com um baque estrondoso e uma espécie de cume de gelo se ergueu do chão, impedindo seu avanço. 

    Aquela noite estava tendo surpresa atrás de surpresa. Rikki já estava ficando de saco cheio disso. 

    “Puta merda! O que é isso agora?!”

    Respondendo a sua pergunta, uma figura apareceu no topo do cume de gelo. Seus olhos amarelados sem brilho e cabelos alaranjados eram inconfundíveis. Ele os olhou de cima, os braços caídos, como se não conseguisse aguentar o próprio peso. 

    “Haruki?!”

    E ele estava vestido com a mesma camiseta preta e calça jeans azulada do dia em que desapareceu. Com a adição de poeira por todo o corpo e cabelos bagunçados. 

    “Ei! A gente tá te procurando há um tempão! Onde você estava metido?!”

    Kaito esbravejou, ainda tentando processar o que estava acontecendo. 

    Fuka estava aflita. Enquanto os dois garotos tentavam arrancar uma resposta de Haruki, ela percebeu que ele não estava nada normal. Claro, contando que ele já estava sendo afetado pela maldição de Hachishakusama antes de sumir, era mais que óbvio que já tinha alcançado um novo nível. 

    Haruki abaixou sua cabeça levemente e os encarou com um olhar furioso e trêmulo. 

    “Não se aproximem dela… Não cheguem perto da minha mãe!”

    Sem hesitar, em um completo estado de loucura, ele levantou as mãos exageradamente. Cumes de gelo brotaram sob os pés do trio, que se afastaram imediatamente. Mas por causa do choque que estavam levando um após outro, a reação não foi tão rápida, então Fuka acabou tendo um corte superficial em sua perna. 

    Uma mancha branca apareceu na área do corte. Era o efeito dos ataques de Haruki; congelamento. A perna de Fuka perdeu a força, mas Kaito a segurou antes que ela caísse. 

    “O que você tá pensando, seu merda?!” 

    Rikki estava prestes a explodir de vez. Toda aquela quantidade de informação estava aquecendo seu cérebro mais que o normal. 

    “Não adianta… Ele tá amaldiçoado…”

    “Do que diabos você tá falando?”

    “É culpa daquela coisa. Hachishakusama… ela possuiu a mãe dele. Deve ser por isso que ele está desse jeito.”

    “Isso é resultado dos rituais?” Kaito se lembrou do que sabia sobre a Tengoku no Mon. “Então foi aquela seita que levou Yuno?”

    Fuka assentiu. 

    “Eles também são os responsáveis pela mãe de Haruki estar desse jeito.”

    Mas eu não entendo como foi possível… Até onde eu sei… aquela mulher não era uma portadora.

    “Agora fudeu. Já não bastava um bando de monstros carniceiros, a gente tem que lidar até com youkais? Vamos fazer o quê? Bater nele até acordar?”

    “Isso não serviria de nada. A gente precisa dar um jeito no youkai primeiro…”

    Fuka levantou os olhos e olhou para além de Haruki, que parecia estar tendo uma convulsão leve, em silêncio. Kaito e Rikki perceberam a direção. 

    “Isso quer dizer….”

    “A gente tem que entrar…”

    Chegaram à mesma página. Claro, eventualmente, Kaito iria saltar para dentro daquele local assustador de qualquer forma para buscar seu amigo. Apenas apareceu um novo objetivo. 

    A missão ficou simples. Entrar no templo, resgatar Yuno e derrotar Hachishakusama e a seita. Porém, antes disso, eles tinham que passar por aquele que parecia determinado a guardar aqueles portões com sua vida. 

    Sem falar que pensar em entrar no templo os causava um arrepio de congelar a alma. 

    “Vamos tentar passar. Haruki é forte, mas a gente deve dar conta.”

    “Não me subestime, quatro olhos! Eu posso muito bem dar uma surra nesse cara de braços cruzados.”

    “Deixem de idiotice. O mais importante agora é passar por ele inteiros. Não adianta nada irmos atrás de Hachishakusama completamente acabados. Vamos focar em passar por ele. Priorizem isso.”

    Fuka tinha razão em suas palavras. Mesmo que derrotassem Haruki ali, se estivessem esgotados só perderiam a oportunidade de pôr um fim àquela maldita seita. 

    O trio se organizou e preparou suas armas. Kaito com suas mãos em formato de pistolas, as quais emanaram um brilho; Rikki levantou os punhos, uma aura amarelada envolvendo seu corpo; Fuka ficou mais atrás, e retirou uma adaga de um suporte em sua coxa direita. 

    Com um sinal, Rikki e Fuka dispararam na direção de Haruki. O garoto, porém, não ficou parado, esperando, ele balançou os braços no ar e uma chuva de fragmentos pontiagudos de gelo começou sobre os dois. 

    Eles tiveram problemas em avançar, mas os tiros precisos de Kaito nos fragmentos impediram que eles sofressem dano. 

    Fuka e Rikki conseguiram se aproximar. Não havia hesitação em atacar Haruki. Eles eram colegas da organização. E eram da organização. A GSN não partilhava dos ideais de extremo companheirismo, onde todos se viam como família. Não. Se fosse preciso sacrificar um deles, fariam sem hesitar. 

    Mas não era esse o caso aqui. Eles não estavam levando isso como uma luta até a morte. Pelo menos não o trio que acabara de chegar. 

    Eles só sabiam que precisavam passar por Haruki mesmo que o machucassem. 

    A poucos centímetros de acertar Haruki com um corte e um soco, respectivamente, uma barreira de gelo se ergueu entre eles e impediu o avanço. 

    Os dois recuaram. 

    “Hehe… É Haruki, né…” Rikki riu, como se esperasse por isso. 

    “Não dá pra atacar ele desse jeito. Força bruta não vai adiantar muito.”

    Haruki era especializado em adagas. Então sua agilidade era uma das melhores dentre os agentes da GSN.

    “Então vamos fazer o quê? Com essas barreiras fica impossível chegar perto.”

    Aquelas paredes de gelo deviam ter mais de dez centímetros de espessura. Além do mais, Haruki podia criar mais delas quantas vezes quisesse. 

    “Eu tenho uma ideia”, Fuka afirmou. 

    “Ótimo. Diz aí.”

    A garota olhou fixamente para o garoto ruivo, depois para seus companheiros. 

    “Ele tá fora de si no momento. Não deve ser difícil bagunçar a mente dele com um ataque coordenado. Mesmo sendo ele, a gente deve conseguir criar uma abertura.”

    Ela contou seu plano a eles, que era bem simples na verdade. Não era absurdo demais nem superficial demais. Kaito e Rikki se olharam. Poderia funcionar. 

    Então eles decidiram pôr o plano em ação. Rikki agiu primeiro. Ele disparou em linha reta contra Haruki e parou no meio do caminho, desferindo um poderoso soco no ar. Isso criou uma espécie de projétil que irrompeu velozmente pelo resto do caminho. 

    Porém, Haruki percebeu, então fez subir dezenas de paredes de gelo no trajeto, que fizeram o poder destrutivo do projétil enfraquecer até se dissipar antes de chegar à última barreira. 

    “Há! Eu já estava esperando por isso, seu idiota!”, Rikki proferiu essas palavras enquanto preparava um segundo soco, depois um terceiro. 

    Ele continuou dando socos poderosos no ar, criando mais e mais daqueles projéteis. Em resposta, Haruki continuava criando barreiras, as quais diminuiam o poder de cada um dos projéteis.

    Os estilhaços de gelo eram jogados para todos os lados, de forma que criou uma espécie de cortina branca, que ofuscou a visão de todos, até mesmo a de Haruki.

    E era essa a brecha que eles buscavam. Com a visão de Haruki ofuscada, Kaito foi capaz de carregar dois tiros nas pontas de seus dedos, e então dispará-los na direção do garoto ruivo. Os tiros possuíam propriedades elétricas, para paralisar o corpo dele temporariamente.

    Os pequenos feixes amarelos adentraram a cortina de estilhaços. Atingiram Haruki? Kaito não conseguia dizer com certeza. 

    Mas meus cálculos foram corretos.

    Em sua visão, algo que só ele via. Era como um computador com todas as informações que ele precisava saber para dar um tiro certeiro em qualquer alvo. 

    Ele cerrou os dentes. 

    É sua vez, Fuka!

    Enquanto ele não sabia o que estava acontecendo dentro daquela cortina, tudo continuava lá. 

    Haruki se debateu com aquela dor latente percorrendo seu corpo dos pés à cabeça. Seus músculos ficaram rígidos, como se ele fosse amarrado violentamente por centenas de cordas. 

    Uma vibração reverberou por sua cabeça. 

    Zzzt!

    “Ugh!!”

    O tiro de Kaito atingiu em cheio seu abdômen e a eletricidade percorreu seu corpo impiedosamente. 

    Nesse exato momento, estando Haruki incapaz de se mover, Fuka emergiu da cortina em sua frente. Seus olhos brilharam, como se uma dor, não física, mas mental, a corroesse. 

    “Eu vou salvar você”, disse ela, enquanto se encaminhava para agarrar o braço do garoto, preparando uma técnica de arremesso. 

    No entanto, antes que isso acontecesse, uma camada incrivelmente fina de gelo se ergueu entre eles, tão fina quanto um espelho, refletindo a imagem de Fuka. Ela estava sem seu capuz. As orelhas grandes com base larga que se afinavam suavemente até as pontas com uma pelagem acinzentada. 

    O olhos esquerdo, que ficava abaixo do cabelo da garota, tinha uma cor prateada hipnotizante, com uma pupila estreita e vertical. 

    Ver a si mesma naquele reflexo, mesmo que por um único segundo, fez Fuka se desestabilizar. Ela foi puxada para dentro da própria mente. Aquela sombra atrás dela se projetou mais uma vez, e uma voz ecoava como uma ameaça. 

    Você não pode fugir disso. 

    Em um piscar de olhos, todo o seu passado veio à tona. 

    Pobre garotinha que nasceu com o destino selado, amaldiçoado desde antes de nascer. 

    “Fuka!”

    Quando a garota voltou à realidade, estava encostada de uma árvore perto. Ela ergueu os olhos ao recobrar a consciência e viu Rikki de longe, confrontando Haruki num combate de curta distância.

    “Ah! Acordou! Até que enfim.” Kaito estava perto dela, cuidando para que nenhum projétil de gelo a atingisse enquanto estava apagada. 

    “O que aconteceu? Estava tudo indo bem, mas você parou do nada. O que foi que você viu?”

    “Eu… apaguei… ?! Por quanto tempo?!”

    “Não sei. Acho que por meia hora”, disse ele, olhando-a de relance. 

    Tudo isso… Droga…

    Ela se levantou. 

    Por quanto tempo isso vai me deixar assustada?

    “Desculpe. Eu perdi a compostura. Rikki tá ali há quanto tempo?”

    “Desde que você paralisou. Ele foi correndo te tirar de lá, antes do efeito da paralisia acabar. Mas passou rápido demais. Será que eu usei uma voltagem muito baixa?”

    Ele ponderou por um momento, sem saber onde havia errado, já que Haruki se recuperou mais rápido que o esperado. 

    “Mas você tá legal?”

    “Sim. Eu tô bem. É melhor ajudarmos Rikki logo. Ele não vai aguentar muito tempo.”

    O garoto já estava cheio de ferimentos, algumas partes de seu corpo já sentiam os efeitos do congelamento dos ataques do ruivo. 

    “Vamos trazer ele pra perto.”

    Fuka se preparou para ajudar Rikki, mas a mão de Kaito a impediu. 

    “O que você—”

    “Esse é o melhor momento.”

    “Kaito?”

    Ela olhou para o amigo, cujas mãos estavam tremendo levemente. 

    “Vamos deixar Rikki cuidando dele e nós dois entramos.”

    “De onde veio essa ideia? Quer abandonar ele aqui mesmo?!”

    A garota questionou a sanidade de Kaito. Dentro do grupo, ele era o último a sugerir uma abordagem desse tipo. Porém, ao olhar em seus olhos, ela estava certa em questionar. 

    Ele estava suando frio, seus olhos arregalados tremiam loucamente, como se uma turbulência violenta ocorresse em seu interior. 

    “Aquele monstro levou Yuno para dentro. Isso já faz mais de uma hora. Não dá pra saber o que aconteceu com ele. Você viu o estado em que ele estava? Eu não consigo imaginar que algo bom esteja acontecendo lá dentro.”

    Isso estava correto. Mesmo que estivesse cedendo ao desespero, a capacidade de pensar racionalmente ainda persistia em Kaito. 

    Ele conseguia entendê-lo. Aquilo não era apenas pela situação, mas a presença de Hachishakusama tinha causado um efeito de temor constante sobre eles. Não era surpresa que ele agisse de forma irracional. 

    Era surpreendente que ele ainda conseguisse se manter. 

    “Tá bom. Vamos fazer isso…”

    Hesitante, Fuka concordou. Mas ela temia pela vida de Rikki. Mesmo que ele não estivesse lutando para matar Haruki, o ruivo estava. 

    Mas não havia outra opção. 

    Depois de acenarem com a cabeça um para o outro, eles se enfiaram na floresta e deram à volta na clareira, evitando serem vistos pelos dois lutadores, que já haviam devastado mais da metade daquela área. 

    Eles chegaram mais perto do templo. O tori de algum material negro era assustador. Certamente, ao passar dali, apenas loucura e pavor os aguardava. As portas guardavam um breu onde horrores desconhecidos estavam escondidos. 

    Não dava para saber o que esperar ao entrar ali. 

    Eles abriram as portas do templo. 

    Fuka e Kaito respiraram fundo. Não podiam recuar. Após uma breve e última olhada em Rikki, que lutava desesperadamente por sua vida, eles correram para dentro do breu, sumindo em um piscar de olhos, sendo engolidos por ela. 


    Rikki se esquivou de vários cortes que poderiam ser fatais. Sendo um lutador de curta distância, ele possuía um excelente tempo de reação, mas Haruki não perdia em muita coisa além de força física. E naquela situação ele estava em desvantagem. 

    Ele viu Fuka e Kaito correrem para dentro do templo. Isso não o afetou negativamente, no entanto. 

    Pelo contrário, ele poderia lutar sem se segurar. 

    Ao usar tantas habilidades que precisavam de energia, Haruki logo alcançaria seu limite, e mesmo que isso também valesse para Rikki, ele ainda podia contar com suas habilidades naturais básicas. 

    Se eu aguentar até lá, então eu vou ganhar, com certeza. 

    A adaga congelante de Haruki deslizou próximo ao seu pescoço. Rikki inclinou o corpo para trás e a evitou, revidando com um mortal com chute. Ele conseguiu acertar o queixo do oponente, então voltou a sua postura e continuou a atacar. 

    Um soco direto no abdômen seguido de um chute na costela. Haruki foi mandado voando para uma árvore próxima que mal aguentou a força do impacto. Suas folhas caíram e seu tronco ficou rachado. 

    Rikki podia sentir a liberdade em seus movimentos. 

    “Haha! Não fique achando que eu perco pra você tão facilmente. Vou te dar uma surra antes que eles te libertem dessa maldição.”

    Ele, de fato, se divertia com isso. 

    Um bom combate era tudo o que ele queria. 

    “Fique longe… Fique longe dela!!”

    Haruki se levantou com um rugido. Sob a pouca luz que chegava ali, duas lâminas brilharam pelo ar, indo na direção de Rikki velozmente.  

    Ele não teve tempo para desviar, então protegeu seus órgãos vitais. As lâminas atingiram seus braços. 

    “Droga!”

    Antes que pudesse se recompor, recebeu um golpe de dois pés que empurraram ainda mais as adagas, fazendo-as atravessarem seus braços, mesmo que eles fossem bem fibrados. 

    “Argh!! Seu filho da puta…!” Ele abafou um urro de dor. 

    O sangue escorria por sua pele e derramava no chão pelos dois lados. Mais um pouco e teriam perfurado seu peito. 

    Ele viu que Haruki estava realmente tentando matá-lo. 

    Quando abriu os olhos, viu algo se arrastando velozmente pelo chão. Branco, brilhante, refletindo a paisagem em volta. Era como um enorme tapete de vidro sendo desenrolado por toda a floresta. Assim que chegou aos seus pés, o congelaram no chão, incapacitando-o de fugir. 

    Puta merda!, Rikki pensou quando percebeu o perigo em que estava. 

    Em comparação à Haruki, havia poucas coisas em que ele perdia. Uma delas, para sua infelicidade, era inteligência. 

    Enquanto Rikki preferia se jogar de cara em uma luta mortal, Haruki preferia ser mais estratégico. Parecia que até mesmo em situação de possessão ele se mantinha sendo quem era. 

    Um grande sincelo se formou entre os dois sob o comando de Haruki. A distância de cinco metros não daria chance para esquiva. E mesmo que ele contorcesse seu corpo para trás — o que não era difícil — outros daquele viriam em seguida. 

    “Essa merda pode acabar me matando… Eu só tenho uma chance”, disse a si mesmo. Sem poder entrar em uma base, ele não poderia usar toda a energia de seu corpo. 

    Poderia não ser tão inteligente. Ele já passou por vários problemas por causa disso. Mas estava tudo bem. Se ele não pudesse pensar em plano mirabolante para vencer uma luta…

    “Só me resta uma coisa…”

    O sincelo de mais de dois metros foi disparado em sua direção, congelando tudo ao seu redor.

    Rikki ergueu seu punho direito e concentrou toda a força que pôde reunir. 

    “… Eu vou bater com toda a minha força!”

    Sua mão cerrada fortemente, com as veias saltando, disparou para frente como um estilingue no exato momento em que o sincelo se aproximou. 

    Faltando milímetros para se chocarem, o ar entre os dois foi comprimido ao limite — e então cedeu. A pressão acumulada explodiu com uma força arrebatadora, liberando uma onda de choque violenta que sacudiu tudo ao redor. 

    Plantas, pedras e gelos. Estilhaços cortaram o ar como resultado de uma bomba. 

    Fragmentos e terra caíram. Depois, restou apenas o silêncio da noite, quieta e pesada. Uma chuva forte começou de repente. 

    Haruki olhava friamente enquanto sua barreira de gelo se desfazia lentamente, derretendo silenciosamente. 

    Mas uma sombra emergiu de uma pilha de escombros. Com o corpo cheio de sangue, hematomas e ferimentos graves, Rikki se levantou. 

    Ele não tinha intenção nenhuma de ceder a vitória tão facilmente. 

    “Hahaha… Puta que pariu… Eu me ferrei todo agora…”

    Sangue e suor escorriam por seu rosto cheio de poeira. 

    “Verme maldito…” 

    Haruki cerrou os dentes em fúria, vendo o garoto se levantar depois de tudo. Ele preparou outro do mesmo ataque. Parecia que tinha energia para doar e vender. Seus olhos sem brilho faziam um ódio sobrenatural transparecer. 

    O sincelo se formando no ar com as partículas do ambiente, rugindo um vórtice congelante que lhe daria forma. 

    “Vai vir pra cima então…? Tá, beleza. Pode vir!”

    Rikki tinha uma determinação palpável. Ele perseguia constantemente seu desejo de continuar se superando, mesmo que não tivesse sido ninguém anos atrás. 

    Ele havia se encontrado na força, então não iria se permitir cair tão facilmente. 

    “Pode vir com o que você quiser. Eu quebro tudo no soco!”

    E o sincelo de dois metros rasgou o ar em sua direção.

    “Seu maldito vira-lata!!”, gritou Haruki, com uma voz que parecia rasgar sua garganta. “Morra!”

    Embora ele tenha feito toda uma pose, se levantado e proclamado sua vontade de vencer, Rikki sabia mais do que ninguém até onde seu corpo aguentava. Mais um igual o anterior e ele teria seu corpo destruído por completo. 

    Não estava pronto para morrer, mas seu orgulho não o deixaria fugir. 

    Ele iria sobreviver a isso, mesmo que a mesma cena acontecesse dessa vez, ou era o que ele imaginava. 

    Seus ossos estalaram quando ele entrou na base, então ergueu o punho direito para desferir um soco ainda mais poderoso que o anterior. 

    Na realidade… ele sabia que não iria sobreviver. 

    Tudo pareceu tão lento naqueles momentos finais. Rikki fora capaz de se lamentar por não ter conseguido chegar onde tanto queria. 

    Ele se entristeceu, mesmo sorrindo, por ter chegado ao seu limite tão facilmente. Era decepcionante. Era patético. 

    Eu juro. Se eu nascer de novo, vou destruir um navio com apenas um soco. Não. 

    “Hehehe…” Ele sorriu de canto.

    Que tal um meteoro?

    Seus olhos fixos na ponta do sincelo, ia de encontro ao grande cristal de gelo, congelando tudo ao redor mais uma vez. 

    Sua visão, então, foi ofuscada por uma luz azul que veio do céu, junto ao som de um vórtice que vibrava com eletricidade. O laser de alguns metros de diâmetro caiu sobre o sincelo e o desintegrou por completo.

    Rikki cobriu os olhos involuntariamente, seus pêlos se arrepiando devido ao campo elétrico que tomou conta de toda a área. 

    O laser se dissipou com um fino fio de luz e tudo o que deixou para trás foi uma cratera de vários metros de profundidade e alguns metros de diâmetro e faíscas que ameaçavam eletrocutar qualquer um que encontrassem no caminho.

    “!”

    Rikki sabia quem era o autor daquilo. Ele só conhecia uma pessoa capaz de usar aquele poder destrutivo e colossal. 

    Seus olhos foram atraídos para Mayck que surgiu ao seu lado como um fantasma. 

    “Uwah… Você tá um caco”, disse o garoto, analisando seu corpo de cima a baixo. 

    “Você é metido pra porra, hein!”, Rikki esbravejou, as veias saltando na testa. 

    “Onde estão os outros dois?”

    “Eles entraram naquela merda ali.”

    Mayck olhou na direção do templo bizarro. 

    “Entendi”, suspirou. “Você pode ficar aqui e assistir, ou você pode ajudar seus amigos. O que vai fazer?”

    Diante das duas opções repentinas, Rikki só conseguia sentir seu sangue ferver. 

    “Você tá me tirando, é?! Acha que eu não dou conta?!”

    “Acho.”

    “…”

    “Só vai de uma vez e tente não morrer. Pode estar bem perigoso lá dentro.”

    Rikki cerrou os dentes, hesitando. Não por imaginar que Mayck não daria conta, mas porque sair dali naquele momento significava que ele tinha perdido. Estava fugindo, como um cão medroso. 

    “Relaxa. Eu tô aqui. Não esqueça que seu objetivo é outro agora”, Mayck o encorajou.

    Apesar de hesitante, ele respirou fundo e concordou. Seria realmente um fardo se ele ficasse por ali. Por mais que fosse difícil admitir isso. 

    “Tá bom, beleza. Eu vou indo, então.”

    Ainda meio cambaleante, Rikki se afastou, indo para o templo, embora seu orgulho o mandasse voltar. 

    Haruki até tentou impedir, lançando uma adaga, mas Mayck interferiu e se pôs entre eles. Dando espaço para Rikki ir. 

    “Eu vou brincar contigo agora”, afirmou. 

    Uma atmosfera hostil pairou no ar entre eles. Os dois se encararam, e então se lançaram para um confronto de curta distância, como naquele dia. 

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota