Capítulo 12 – Reunião do Conselho (Parte III)
Todos se mantiveram em silêncio. Cada um dos presentes ponderava a revelação de Vítor, e tentavam encontrar falhas ou lógica em suas palavras.
Uriel foi o primeiro a quebrar o silêncio:
— Você realmente acredita nisso? Que o traidor é o herói sobrevivente? A morte e o ataque foram forjados?
Otaviano permanecia cético, ele cruzou os braços e afirmou:
— Isso é impossível. Não encontraram um corpo porque ele foi pulverizado com o barco.
Zoe, no entanto, inclinou-se para frente, a expressão pensativa.
— Sem um corpo para provar o contrário… Realmente, ele ainda pode estar vivo. Um resgate pode ter sido disfarçado como uma emboscada.
Angeline estalou a língua contra o céu da boca e assentiu lentamente.
— Isso significa que ele pode estar solto por aí… E que alguém quis garantir que acreditássemos que ele morreu.
Todos se voltaram para Holmes, que permanecia imóvel, os olhos verdes fixos em Vítor, ela o avaliava como alguém perigoso, prestes a matar todos ali naquela sala.
— Por que acredita nessa teoria? — Sua voz saiu controlada, ainda que carregada de suspeita.
Vítor sorriu, e recostou-se na cadeira, completamente à vontade. Sem pressa, colocou o braço em volta do pescoço de Zoe e percorreu os rostos dos presentes com um olhar provocador antes de responder.
— Existem razões… — Ele fez uma pausa teatral, e deixou o suspense pairar no ar. — Mas prefiro que reflitam um pouco antes. Primeiro, por que deixá-lo vivo? Segundo, por que nos dar informações sobre o que eles estão procurando?
O silêncio retornou, todos pensativos sobre as questões de Vítor. Então foi a vez de Ana se pronunciar:
— Seja direto, diga para nós qual é a sua teoria?
Vítor suspirou, ao fechar os olhos por um instante, e organizar os pensamentos. Quando voltou a falar, sua voz era controlada, meticulosa:
— Com base nas informações que temos até agora, posso sugerir o seguinte… — Ele fez uma breve pausa, e escolheu as palavras com cautela. — O membro do Exército de Libertação deixou o sobrevivente partir de propósito, para que ele nos contasse sobre o Rubi e o Cofre Celestial. Depois, de alguma forma, localizaram o navio que o transportava e o atacaram. Aqui surgem duas possibilidades.
Ele ergueu o dedo indicador.
— A primeira: o herói sobrevivente fui recrutado ou até mesmo controlado. Nos contou o essencial para o plano deles, e depois fingiu sua morte em um ataque falso.
Então, ergueu um segundo dedo.
— A segunda, que considero provável: não há um traidor. O sobrevivente foi deixado vivo com o propósito de nos revelar informações que eles querem que saibamos, e depois, rastreado e morto. O motivo é obvio, nos deixar paranoicos com a possibilidade de um traidor, que não existe, e nos distrair do verdadeiro alvo deles.
Holmes permaneceu em silêncio por um momento, pensativa na teoria proposta por Vítor. Então, assentiu levemente.
— Você está certo. Ambas as hipóteses levam ao mesmo ponto: o Exército de Libertação queria que descobríssemos sobre o Rubi e o Cofre Celestial. Eu mesma interroguei o sobrevivente, e posso garantir que ele não mentiu para mim.
Magnus soltou um suspiro irritado, girava o chaveiro entre os dedos, uma expressão externa de sua impaciência.
— Pra mim isso não faz sentido algum! Por que eles simplesmente não buscam o rubi? Por que nos fazer saber do plano deles?
— Para nos distrair… — concluiu Ana. — Para nos fazer desperdiçar tempo e energia procurando um traidor inexistente… e talvez, nos mandar atrás de algo sem valor algum.
Ela voltou o olhar para Angeline.
— As joias… são apenas ornamentais, certo?
Angeline cruzou os braços, a expressão séria.
— Pelo que li, sim. O Rubi de Erobern e as outras joias não possuem nenhum poder mágico ou qualquer propriedade especial. São apenas peças valiosas e bonitas.
— O que você recomenda? — questionou Ana, ao virar o olhar para Vítor.
Vítor sorriu de canto, relaxado, enquanto seu braço direito continuava apoiado no pescoço de Zoe.
— Transferir o controle total das defesas do Cofre Celestial para a Ordem dos Dragões do Sol. Somos a guilda mais capacitada no momento para lidar com um eventual ataque.
O silêncio pesou no ambiente por um momento, ninguém acreditou que Vítor seria tão ousado de exigir algo assim. Ana cruzou os braços, e protestou imediatamente.
— Isso duplicaria o orçamento da sua guilda. Acha mesmo que vamos permitir que controlem um terço da Cidade Celestial?
Vítor inclinou a cabeça, divertido.
— Tem um plano melhor? Porque se houver mesmo um traidor, ele está na sua guilda… ou nos Lobos Cinza.
Uriel, ao lado de Vítor, soltou um pequeno riso, satisfeito com a provocação. Angeline abaixou a cabeça, e soltou um longo suspiro. Ela claramente não gostava da ideia, mas teve que admitir a realidade.
— Ele está certo. No momento, a guilda mais adequada para isso é a Ordem dos Dragões do Sol.
Magnus, porém, não estava disposto a deixar Vítor ou Uriel sair com a vantagem.
— E a Legião Perpétua? — intercedeu, de braços cruzados.
Ana suspirou, ela já previa esse argumento do seu vice-líder.
— Desde que Dante perdeu o braço, ele caiu da primeira posição no ranking para a décima. O novo vice-líder dele, esse tal de Biorno… ninguém aqui sabe nada sobre ele.
— Além disso… — completou Holmes, ao voltar para a leitura dela. — Nenhum deles compareceu à reunião de hoje.
A menção fez todos trocarem olhares desconfiados. A ausência da Legião Perpétua era, no mínimo, suspeita.
Ana encarou toda a sala, antes de falar:
— Muito bem… Alguém se opõe à proposta de Vítor?
O silêncio se estendeu por alguns segundos, mas ninguém teve coragem de se pronunciar. Alguns cruzaram os braços, outros desviaram o olhar, mas ninguém contestou.
— Então está decidido — concluiu Ana. — A Ordem dos Dragões do Sol ficará responsável pela defesa do Cofre Celestial. A reunião está encerrada.
— Agradecemos pela confiança… — Uriel abriu um sorriso largo, claramente satisfeito com o resultado, e aprovação da proposta de Vítor.
— Foi uma reunião divertida… — disse Carsena, a primeira a se levantar. Com passos elegantes, subiu as escadas e saiu da sala sem olhar para trás. — Estou ansiosa para enfrentar esse tal Exército de Libertação…
— Estamos dispensados, então? — questionou Magnus, impaciente, e nada contente com a resolução da reunião.
— Sim — confirmou Ana. — Eu e Holmes iremos investigar mais a fundo. Se descobrirmos algo novo, convocaremos outra reunião.
— Ótimo… — Magnus se levantou de mau humor, e Angeline o acompanhou. — Espero que não tenham cometido um erro hoje.
Vítor observou ambos saírem da sala com um sorriso divertido nos lábios. Quando a porta se fechou, Uriel se ergueu e deu um leve tapa no ombro de seu vice-líder.
— Começamos as patrulhas amanhã — anunciou, ao voltar-se para Ana e Holmes. Depois, lançou um olhar para Vítor. — Cancele seu compromisso, precisamos elaborar a estratégia.
Vítor apenas sorriu de canto e beijou a bochecha de Zoe antes de se levantar.
— Não se preocupe, Lucciola já cuidou disso para mim…
Ana soltou um longo suspiro e cobriu o rosto com a mão.
— Seu bastardo imundo… Já tinha tudo planejado, não é?
— Maldito o homem que confia em outro homem — riu Uriel, ao dar de ombros. — Vejo vocês mais tarde.
Os dois deixaram a sala, Vítor tomou a dianteira e obrigou Uriel a apressar o passo para acompanhá-lo.
— Então temos um traidor, não é? — indagou Uriel, ao notar o comportamento mais sério do colega. — Todo aquele discurso foi para ganhar o controle do Cofre Celestial?
— Sim, foi… Não confio em nenhum deles para cuidar de algo tão importante… — respondeu Vítor. — Agora só precisamos descobrir quem.
— E esse compromisso tão importante às nove? Qual a pressa?
— Barbeiro.
— Você nem barba tem!
— E desde quando barbeiro só faz barba? Meu cabelo não vê uma navalha desde que chegamos aqui…
Uriel soltou uma gargalhada enquanto os dois seguiam pelo corredor.
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