Saímos  do restaurante e fomos em direção a minha casa. Caminhamos pela rua com um silêncio mortal, várias vezes eu olhava para o céu procurando estrelas, mas como já estava amanhecendo, quase não se via nenhuma. Peguei no telefone para certificar se tinha recebido alguma mensagem, quando de repente o Jack me puxou para perto. Por um momento o meu coração começou a bater forte por causa do susto, mas consegui manter a calma. E quase fui atropelada por um carro.

    — Tens que ser mais atenta, Karon — disse o Jack com o ar preocupado. 

    Dei um sorriso vergonhoso e continuamos a caminhar. Chegando no quarto decidi tomar um banho.

    Enquanto eu tomava banho, mil pensamentos invadiram a minha mente, comecei a refletir se foi a melhor escolha de o aceitar de volta. O que iria acontecer se ele voltasse a desaparecer como naquele dia? Ou se eu simplesmente deveria deixar as coisas seguirem seu rumo e parar de criar expectativa, ou até mesmo sonhar com o impossível. Sonhar em viver uma vida tranquila ao lado de alguém, de ter filhos e netos. 

    Poderia eu ter uma chance dessas? Alguém que está prestes a morrer? Será que terei um futuro feliz? Ou eu poderia ser egoísta o bastante e simples viver tudo isso enquanto esperava o meu fim?  

    Eu constantemente criava paranoias na minha cabeça e sofrendo com elas. Essa decisão não era minha, era dele. Terminei de tomar o meu banho e saí do banheiro.

    Enquanto vestia, ele escolhia o filme. Vesti um short preto e uma camisola branca grande por cima.

    Assim que acabei de vestir, fui para a geladeira, peguei um pote de gelado e uma coca. 

    Sentei na cama com meu precioso pote de gelado, companheiro das noites escuras e sem esperança, e o Jack ao meu lado com um sorriso meigo focado no filme. Naquela noite não fizemos amor, só estávamos curtindo a companhia um do outro. Ele acabou me contando um pouco sobre sua vida.

    Contou que tinha três irmãos, que ele era o mais velho, e os mais novos o via como referência.  A sua mãe esperava muito dele, queria que se tornasse em um grande homem, bem diferente do seu pai que por algum motivo os abandonaram. Ele não chegou a contar a razão que levou o seu pai a ir embora, mas pelo silêncio antes de continuar deve ser doloroso lembrar. 

    Também havia dito que em tempos sonhava ser jogador de basquete. No momento que ele disse aquilo eu sorri, mas depois me controlei e continuei a ouvir. Ele disse que era muito popular com as meninas na escola, todas queriam namorar o prodígio do basquete. 

    Mas havia um problema: ele não conseguia assimilar as duas coisas ao mesmo tempo. Tirar boas notas e ser um bom jogador. Ele disse que tentou sobressair em tudo, porém chegou em um momento que ele tinha que escolher um.

    Certamente se fosse por ele mesmo, iria escolher o basquete. Mas não era só sobre ele. A mãe dele pediu para seguir os estudos, para ser o exemplo para os irmãos. E ele, para agradar a sua preciosa mãe, fez o que ela queria. 

    Ele se formou em mecânica. Trabalhava como engenheiro chefe numa empresa e tinha o seu amigo da faculdade como chefe. Ficamos conversando por um bom tempo. No meio da conversa surgiu uma pergunta que fez com que eu deixasse a colher cair no chão.

    — O que se passou naquele dia? Na noite em que nos conhecemos! — disse o Jack.

    Peguei o controle no chão e fiquei em silêncio por um tempo. Depois comecei a explicar para ele o que houve naquela noite.

    — Como já deves ter reparado, estou doente… fui diagnosticada com insuficiência cardíaca. 

    O Jack arregalou os olhos, ficando com a boca entreaberta. 

    — Eu… Karon — resmungou 

    Por um momento tive a impressão que ele ficou com pena, mesmo assim continuei falando:

    — Também foi uma surpresa para mim, ouvir essas palavras do médico me desestruturou por completo. Agora preciso tomar medicamentos para me manter de pé. E naquela noite foi uma chamada de atenção.

     E não foi só aquela noite, isso pode acontecer a qualquer momento comigo, Jack . E isso é frustrante, posso estar bem num momento e de repente não estar. 

    Ele se aproximou colocando sua mão na minha cabeça.

    — Entendo… — disse ele.

    — Olha, não é nada fácil, e eu sei disso. Se achas que é demais para ti, podes ir embora. Não vou te julgar — disse com dor no peito por querer que ele ficasse.

    Ele sorriu e olhou para mim.

    — Achas que sou tão covarde assim? Confesso ter fugido uma vez, não vai haver uma segunda. Podes confiar! 

    Sorri. 

    — Aliás, é só tomar alguns medicamentos e fazer uma dietazinha, certo? — continuou dizendo.

    — Sim… — respondi dando um leve sorriso de conforto

    Me colocou no peito e fez cafuné na minha cabeça.

    Ficamos abraçados por um bom tempo, apesar dos acontecimentos, por algum motivo eu confiava nele. Não sei ao certo o que levava a ter essa confiança toda, mas eu gostava de me sentir segura perto dele. E nessa onda de carinho, acabei adormecendo.

                                        *****

    Levantei pela manhã e pela primeira vez acordei ao lado de alguém do sexo oposto. Ele estava dormindo como um anjo, não quis lhe acordar, coloquei a minha roupa de treino e meu tênis rosa e fui correr como de costume. 

    Na volta, passei na padaria, comprei dois cafés, alguns bolinhos e regressei a casa. Ao entrar no quarto, reparei que ele já não estava na cama. Me sentei na cama, tirei os tênis e ouvi a porta do banheiro batendo, ele veio por trás e me deu um beijo no pescoço. E sussurrou baixinho no meu ouvido.

    — Onde estavas? — perguntou ele.

    — Fui correr, eu sempre faço isso. Orientação do médico — falei revirando os olhos com a minha pele toda arrepiada.

    Ele sorriu. 

    — É para mim? — perguntou indicando um dos cafés que deixei na cômoda que ficava ao entrar no quarto. 

    Balancei a cabeça afirmando e entrei no banheiro.  Minutos depois saí do banho e o encontrei acabando de se vestir.

    — Vou trabalhar…

    Ao sair do quarto, já na porta, voltou e me deu um beijo quente e suave na boca e disse que iria voltar. Nem consegui disfarçar o sorriso bobo que estava no rosto. Ele me fazia sentir tão bem.

    Peguei no celular e fui verificar a caixa de correio eletrônico, encontrei o e-mail do meu doutor me perguntando o porquê de eu faltar a última sessão de consulta. A mensagem já tinha uns dias que foi enviada, mas respondi que estava ocupada com trabalho e não podia ir. E marquei a consulta para a próxima sessão.

    Sempre quando chegava o meu dia de folga, eu ficava à deriva, não sabendo o que fazer para o tempo passar. Então, decide ir pegar o Mayko, o levando para passear e fazer umas compras para casa. 

    Passei a manhã toda na companhia do cachorro. 

    Pela tardinha, já em casa, preparei a banheira com alguns produtos que comprei no mercado e também passei uma máscara de hidratação no rosto e entrei na banheira. 

    — Te mandei mensagens, por que não respondeste? — perguntou me dando um beijo na testa. Caminhou e sentou na minha frente e começamos a nos encarar. 

    Não sabia se aquilo era um sonho, que algum momento eu poderia acordar e tudo acabar. E se fosse realmente um sonho, eu não queria acordar de jeito nenhum. Ele estava sendo tão fofo e amoroso comigo que iria fazer estrago se ele decidisse ir embora. 

    Já nem fazia ideia de como era me sentir assim, amada. Se fosse para desejar qualquer coisa naquela hora, era que naquele momento não terminasse.

    — Me mandaste mensagens, desculpa, mas não vi — respondi.

    — Está bem, era para te perguntar se irias querer pizza ou comida chinesa?! — perguntou o Jack. Levantou e começou a desfazer a gravata preta, em seguida tirou a camisa. Acompanhei com os olhos e com um sorriso bobo no rosto a cada peça de roupa que ele tirava.

    — Tem lugar para mais um? — perguntou.

    A banheira era pequena, me aconcheguei para que abrisse um espaço para ele. Estava de costas para ele, me cobrindo de carinho e beijos. Beijou o meu pescoço e foi descendo para meu ombro. Eu me virei e começamos a nos beijar. O beijo começou lento e foi aumentando a intensidade. 

    Eu coloquei a mão na sua nuca enquanto ele me agarrou nos seus braços. Acabamos por fazer amor na banheira.

    Confesso que só dele olhar para mim já despertava um fogo dentro de mim, que seria impossível tentar esconder. Sentir o seu calor, toque e ele dentro de mim, me levava a loucura. 

    Ficamos ofegantes, encarei ele por um momento antes de começar a rir. 

    — Linda! — disse o Jack quando suspendia para me dar um beijo na testa. Tentei disfarçar o meu rosto envergonhado.

    — Sabe o que eu estava pensando, Karon? De você vir morar comigo, em minha casa. Eu vivo sozinho e você também. O que achas?

    Fiquei surpresa ao ouvir aquilo, “morarmos juntos?” O que ele queria dizer com isso? Uma enxurrada de pensamentos invadiu a minha cabeça e me fez congelar. Afastei dele e fiquei com a cabeça baixa por um tempo.

    — Não vais responder? — perguntou o Jack.

    — O que queres que eu responda? Ahn, me diz, o que te levou a pensar nisso agora? Faz pouco dias que apareceste depois de ter desaparecido por meses e agora queres que eu vá viver contigo? Assim, do nada… Jack.

    — Eu te entendo…

    — Não, não diga isso. Tu não sabes o que eu passei esses meses todos. Eu… 

    Lágrimas começaram a descer no meu rosto sem parar. Talvez foi um erro ter aceitado ele de volta sem ter uma conversa adequada.

    — Não chores! Peço desculpas por ter sido tão insensível contigo, confesso que por um momento tive medo. Quando te vi naquele estado, fiquei apavorado e preocupado — disse o Jack.

    — E mesmo assim foste embora… — falei com voz de choro. 

    — Karon, eu passei a noite toda cuidando de ti, só saí quando estavas bem. Eu precisava de um tempo para organizar as ideias. — Ele pegou suavemente a minha mão. Nesse momento levantei a cabeça e olhei para seus olhos. — Desde daquela noite, não passei um dia sem ter você em minha cabeça. Não voltei antes porque houve uma mudança no meu trabalho, que estava me deixando sem tempo. Precisava me habituar à rotina. E agora estou aqui, para sempre que precisares.

    — Para sempre é muito tempo — falei sorrindo com os olhos cheios de lágrimas.

    — Com você passaria até a eternidade — disse o Jack sorrindo e me abraçando.

    Quando ele me abraçou e senti o bater forte do seu coração, que ia se abrandando pouco a pouco. Eu não me importava se era verdade ou não, o nosso“ para sempre” durasse mesmo. Porém, aquele momento era o nosso para sempre.

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