A primeira sensação foi ausência. Ausência de corpo, de forma, de som. Uma ausência que soava como grito.

    Cael Thornwald não lembrava quando caíra, se de fato havia caído. A última memória concreta era a de seus dedos encostando novamente no símbolo espiralado do medalhão — mas, desta vez, ele não queimou. Ele… sussurrou.

    Agora, não havia chão. Nem teto. Nem tempo. Só uma vastidão sem contornos, onde os olhos se perdiam na tentativa de compreender o que não possuía ângulos. Era como estar dentro de uma ideia antes dela nascer.

    E então, vieram as visões.

    Fragmentos do que havia vivido — mas distorcidos. Senna Valle segurava a caixa ritualística, mas seus olhos estavam costurados com fios de prata. Leor falava, mas a voz saía de um pássaro morto. A cidade de Virellium derretia, os prédios se dissolvendo em palavras escritas em ar, como se a cidade jamais tivesse sido feita de pedra… mas de narrativa.

    Ele viu a si mesmo, multiplicado, em versões que caminhavam em diferentes direções. Um Cael jovem, um Cael com olhos vazios, um Cael ajoelhado diante de uma tumba com o símbolo das garras em espiral — e, por fim, um Cael enforcado, sussurrando uma frase sem voz.

    A percepção se partiu.


    Quando abriu os olhos — se é que havia olhos — Cael estava de pé sobre uma superfície líquida que não cedia sob seus passos. Ao redor, colunas gigantescas feitas de papel queimado subiam em espirais, como torres distorcidas.

    No horizonte, um símbolo queimava lentamente no céu: três círculos concêntricos sendo devorados por palavras manuscritas.

    Um sussurro rompeu o silêncio, vindo de todos os lados e de lugar nenhum.

    “Espectro da Última Palavra…”

    Cael virou-se, instintivamente levando a mão à espada — mas a arma não estava. Em seu lugar, uma pena negra flutuava diante de seu peito, girando lentamente no ar, como um compasso buscando direção.

    “Ainda não sabes quem és… Mas já foi escrito.”

    A voz não era humana. Era feita de papel rasgado, de pena arranhando couro seco, de páginas viradas por ventos inexistentes.

    Cael respirou — ou tentou. Tudo ali era símbolo. Metáfora encarnada.

    — Quem está me observando? — perguntou, e sua voz saiu em letras soltas, caindo no chão como cinzas.

    “Aqueles que nunca deixaram de escrever-te.”


    Uma forma começou a emergir entre as colunas. Uma figura alta, envolta por mantos de luz invertida. Seu rosto era coberto por uma máscara branca onde se lia uma única palavra em idioma esquecido. Em suas mãos, um livro aberto — mas as páginas estavam vazias, como se esperassem por algo. Ou por alguém.

    A figura não falava. Apenas ergueu o livro, e Cael viu seu próprio reflexo ali — mas distorcido. Nele, Cael sorria. E Cael não sorria.

    Então, novas palavras se gravaram sozinhas na página, em sangue antigo:

    “Cael Thornwald. Vulto quebrado. Fragmento do Caminho. O que sangra pelo que foi esquecido.”

    Um trovão ressoou dentro do espaço-sem-eco. E com ele, um novo símbolo formou-se no ar, girando lentamente: um olho fechado cercado por penas em espiral. Ao redor dele, frases desconexas começaram a surgir:

    “A Última Página não vira, ela escreve o fim.”
    “Toda realidade é edição.”
    “O silêncio também é uma palavra.”

    Cael caiu de joelhos, a mente afogada em sobrecarga. Era demais. Símbolos demais. Subtextos demais.

    Foi quando a luz mudou.


    Ela surgiu como aurora em meio ao abismo: uma mulher envolta por mantos azul-acinzentados, a pele translúcida como vidro molhado. O cabelo era feito de filamentos dourados que flutuavam mesmo sem vento. Seus olhos… não existiam. Onde deveriam estar, havia galáxias espiraladas girando lentamente. E, no centro do peito, um broche de prata em forma de sol invertido. Quando falou, sua voz parecia sinos derretendo em melodia.

    — Cael Thornwald… O Espectro que não sabe que morreu.

    Ele a observou, os joelhos ainda pressionando o não-chão.

    — Você é…?

    — A Aurora. Primeira dos Treze. Guardiã da Palavra Não Escrita. Semente de recomeços.

    Ela estendeu a mão, e quando Cael a tocou, sentiu algo em sua mente… desencaixar.

    Instantaneamente, flashes surgiram — memórias que nunca vivera. Uma sala coberta por livros sem capa, uma faca sendo afundada num altar feito de ossos, uma criança lendo um diário que apagava conforme lia. E no centro, sempre, o símbolo espiral. Sempre.

    — A Última Página — sussurrou ele, em transe.

    — Sim. Aqueles que editam realidades. Que rescrevem passado para entortar futuros. Eles não criam… eles apagam o que existia e fingem que nunca foi.

    — E eu?

    — Você é a nota de rodapé que sobreviveu. A margem esquecida que ainda sangra.

    Ela tocou o centro de sua testa. E com o toque, um novo entendimento nasceu. Ele nunca havia sido apenas um caçador de segredos. Ele era um deles. Um fragmento exilado de algo maior. Algo que fugiu. Ou foi apagado.

    — Por que agora? — perguntou. — Por que estou vendo isso agora?

    A Aurora sorriu — e naquele sorriso havia dor.

    — Porque ela também despertou.

    — Ela…?

    Mas Aurora desviou o olhar. E mentiu em silêncio. Apenas disse:

    — Nem todos entre os Treze querem lembrar. Alguns preferem o esquecimento. Uma Centelha… pode queimar toda a biblioteca, Cael.

    Uma Centelha.

    A frase ficou ali, no ar, como uma faísca em pólvora seca. Mas ela não disse mais. Não precisava.


    Com um gesto, a Aurora fez o mundo mudar.

    Agora estavam numa sala infinita de espelhos, mas cada espelho refletia não o corpo de Cael, mas eventos — passados, futuros, mentiras, possibilidades. Ele viu Senna morta, viu Leor com olhos sem alma, viu a si mesmo sentado numa cadeira de madeira, escrevendo obsessivamente num livro que apagava o que escrevia.

    — Este é o Caminho da Morte Circular. — disse Aurora. — Não é um lugar. É uma travessia. Um ritual de desintegração do eu… e de retorno.

    Cael se virou para ela. — Por que eu?

    — Porque você já trilhou. Já morreu três vezes. Só esqueceu de se lembrar.

    Ela lhe entregou um fragmento de espelho. Nele, a imagem de um símbolo novo: o olho espiralado, agora cercado por treze linhas.

    — Os Treze estão se reunindo novamente. Mas as palavras foram corrompidas. A Última Página não escreve mais… apenas rasga.

    — E o que esperam de mim?

    Aurora se aproximou. Pela primeira vez, seus olhos — ou galáxias — se fixaram nele.

    — Que você lembre. Que você escreva o que não pode ser apagado.


    Quando Cael despertou, estava deitado no chão de pedra do porão da hospedaria. A espada enferrujada jazia ao seu lado — agora com uma nova marca entalhada: o símbolo da pena em espiral.

    Leor o observava da escada, pálido.

    — Você… desapareceu por três horas. O tempo parou lá em cima. Até o som sumiu.

    Cael se ergueu devagar, ainda sentindo as palavras pulsando sob a pele.

    — Algo foi reescrito.

    — Você tá sangrando da testa — murmurou Leor.

    Cael tocou. Sangue negro. Como tinta. Olhou para a espada. Para o chão. E depois para o teto do porão.

    Lá, recém-esculpido, estava o símbolo do olho espiralado.


    Antes de dormir, ele escreveu uma frase em seu caderno, com a pena negra.

    “Não se escreve o fim. O fim escreve a si mesmo.”

    Fechou os olhos. Sentiu a pena vibrar. E sussurros começaram outra vez.

    Mas dessa vez, eles sabiam seu nome.

    E o capítulo termina com o som de uma página virando. Sem livro. Sem mãos. Apenas… uma página.

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