Capítulo 8 - Yesod
Mais um dia. A primeira manhã no intermédio.
E lá estavam: suados, ofegantes e solenemente ignorados por Eliyah — o responsável por toda aquela cena — que, ocupado demais, devorava pães de mel como se fossem pepitas de ouro recheadas.
— Isso é do caralho!
Sentado direto no chão, com o manto todo amassado e o canto da boca lambuzado, parecia mais uma criança largada em feira do que um guardião de um plano superior.
— O que trouxe sua presença até nós? — indagou seu subalterno.
Passos casuais bastavam para desviar dos ataques de Cael — que tentava como podia. Sem técnica, sem graça. Lutar não era seu forte, muito menos seu hobbie.
— Quero saber o que esse aí aprendeu. Me diz você: ele aprendeu alguma coisa? — perguntou entre uma mordida e outra, a voz abafada por migalhas e desinteresse.
— Não tá vendo? — Exausto de tanto tentar.
Se jogou de costas, o sarcasmo escorrendo pela boca como cuspe de desdém.
Um sorrisinho torto no canto dos lábios. E então… veio a outra ventania.
Mais forte que antes… Mas…
Dessa vez, não foi parar na parede como nas últimas dezessete tentativas. Ficou de pé. Firme. Só os cabelos bagunçados — como se a cena tivesse sido dirigida por alguém com fetiche em comercial de xampu em câmera lenta.
— Hm… tô vendo vocês brincando de lutinha…
— Não é… ehr… brincadeira! Esse jovem tem uma capacidade de resistência acelerada. Diria que é quase uma barata! É impressionante… — e, ao desferir um soco, Cael reuniu tudo que tinha pra segurar. Viu a morte de relance. Mas, mesmo voando na parede, não morreu… de novo.
— Calma aí! — arfava, a cabeça latejando, meio zonzo. Tudo girava… e então, como num estalo de mágica, tudo voltou aos conformes.
Espera…
Pensou. Foi incrível.
Sentiu os ossos se remendando por dentro, a pele queimando e se reconstruindo, o ar sumindo dos pulmões… e voltando como se nunca tivesse faltado.
Era como se o próprio corpo estivesse aprendendo a sobreviver — no tapa.
Uma sensação absurda de cura acelerada. Violenta, crua… e viciante.
— Viu? — apontou para o loiro. — A cada situação de quase morte, o Eco dele adapta os atributos para ele resistir. Tipo um antivírus espiritual em tempo real. Não acha incrível?
— É… é… — retrucou com desdém. — Mas e o Yesod dele? Ser fortinho é ótimo, mas sem controle nem pra fazer careta… não vai matar nem bicho-papão.
— Eles não morrem com socos do Saitama?
Ele fez uma careta de dor, mas segurou firme. Deu uns jabs leves no ar, encenando uma luta imaginária, e então abriu um sorriso torto — daquele tipo malandro, como se tivesse ganhado a briga… e o último pedaço de bolo.
— Tô no auge, pô. Agora ninguém me pega nem na bala!
— Criaturas sobrenaturais não fazem abordagem de moto. Isso aí é execução à queima-roupa — o loiro formou uma pistola com os dedos e apontou, firme. — Bang. Fim de jogo.
— Ehr… como assim?
O grandalhão riu alto.
— Os monstros não dependem de energia espiritual para existir. Eles estão além da matéria e são intocáveis por algo puramente físico. São a sujeira dos desejos humanos ganhando forma — disse, a voz grave ressoando com a devida autoridade. — São puro Eco corrompido… e só podem ser atingidos por algo que se assemelhe a sua essência. Uma expressão! Daquelas que gritam quem você é, sem filtro, sem freio!
— Cirúrgico.
— Então eu tenho que aprender essa tal expressão… — resmungou, quase como uma criança contrariada. — Saco.
— Vai ficar reclamando toda vez? Tá parecendo aluno no primeiro dia de aula…
De repente, o olhar mudou. Ficou sério, afiado — como o de um felino prestes a dar o bote.
— Certo, certo… — interrompeu com um suspiro impaciente. — Deixa comigo. Vou tentar ensinar pro nosso amiguinho aqui o básico da liberação da própria técnica. Porque se depender de vocês, a gente empaca.
— E isso é tão difícil assim?
— Difícil? Que nada! — o loiro se levantou com um estalo nos ossos, como se estivesse prestes a subir no palco. — É mais fácil do que essa sua pose toda errada de lutador. Você só precisa decidir e colocar firmeza no espírito, sacou? Guardiões como a gente fazem isso no automático — sem precisar dar um show da Madonna…
Ele fez uma pausa, os olhos acendendo com malícia.
— Mas você? Vai ter que pagar mico. E bem aqui. Na minha frente.
— Você é chato demais, sabia?
— Sabia…
— Sabia… — afinou a voz num deboche leve, imitando-o. — Por que mudou do nada? Tava mó animado quando me trouxe…
— Responsabilidades, jovem! — respondeu, com um tom mais firme. — Você sabe bem como é… O senhor carrega esse setor inteiro, milhares de vidas nas costas. Não dá pra manter o sorriso o tempo todo. Mas ele… ele tenta. — concluiu, com convicção e respeito no olhar.
Sério que o cara que quase fritou o mundo liga pra isso?
Coerente. Pela primeira vez. Ou segunda, talvez…
De repente, o olhar seguro e determinado caiu sobre si.
— Vamos?
— Vamos!
O olhar do mestre também se afiou — adrenalina e um certo tesão por combate fervendo sob a pele. E então…
— Buuuu!!!
O grito o pegou de cheio. Por reflexo, se jogou para trás, tropeçou… e caiu de bunda.
— Wow…
— Filho da puta! Eu estava concentrado! Cacete! — explodiu, tomado pela fúria. — Some daqui se for pra atrapalhar!
— Ui, uiui… e depois eu que tô estressado… — o loiro riu de canto, saboreando cada segundo do caos.
Enquanto Asael, batendo a mão no rosto, só conseguia pensar no quão imbecil era o homem que insistia em chamar de seu líder.
❍❍❍ ᨖ ❍❍❍
Já no plano superior, Thaenor ouvia as boas novas — se é que se podia chamar aquilo de “boas”.
— QUEEEE!?
Sua harpa celestial soltou um gemido agudo, como uma corda arrebentando no meio de um hino.
— Aquele asno fez o quê!?
— Senhor… — arriscou o carrasco, com a coragem de quem segura uma granada sem pino.
— Não se explique! — a voz ecoando como trovões em catedrais vazias. — Não me importa se se arrepende!
Sua aura então se rasgou no tecido da realidade, tomando a forma colossal de um dragão negro, feito da própria essência da morte, da treva e dos pesadelos mais podres.
— Só quero essa aberração a sete palmos da terra! — rugiu novamente. — Nem que eu tenha que arrastar aquele maldito mundo intermédio para o inferno comigo! ENTENDEU!?
Sua fúria era tão insana que cuspia saliva corrosiva. Corroendo o piso do plano superior e suas nuvens douradas.
Foi então que, de repente, como quem abre uma janela no meio de uma tempestade, outro Deus surgiu — com passos leves, mas uma presença que congelava até a luz.
— Tem certeza do que diz… irmão?
A voz vinha de Veimar, o Deus dos Temores, envolto em névoa e mistério, com um sorriso de quem já sabe o final da piada.
Seus cabelos eram longos e brancos como a neve. Seus olhos, da mesma cor espectral, não apenas viam — refletiam o medo, o horror primal que até o próprio Deus do Fim evitava encarar.
Não havia criatura, em qualquer plano, em qualquer era, que suportasse aquele olhar sem sentir a alma tremer.
Pois diante deles, estava ele…
O temor de todos.
O princípio e o fim do pavor.
— Por que diz isso?
— Seria burrice — Quase divertido — Guerrear por orgulho… e por causa de um homenzinho de meia tigela. Guarda tua harpa, ó trovador da destruição! Mal terminamos a última guerra há dois mil anos! — Suspirou, como se carregasse o peso do universo nos ombros. — Quer começar outra antes da próxima era nascer?
Thaenor franziu o cenho, olhando o carrasco como se considerasse carbonizá-lo por esporte.
— Vaza!
O pobre diabo não esperou um segundo sequer: evaporou no ar, deixando só um fedor de medo para trás.
E o deus fechou os olhos, pensativo. Seu peito ainda arfava de ódio, mas algo mais fundo começava a roer suas entranhas.
— O que mais me intriga… Não é o homenzinho. É o como. Alguém está puxando nossas cordas. Alguém ousa nos manipular. E isso, meu caro irmão… é algo que vou descobrir. E esmagar!
— Justo! — disse, dando de ombros, como se não fosse nada demais.
Indiferente como quem assiste a um circo pegar fogo.

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