Os sinos de Virellium não tocaram naquele dia.
    Não porque houvesse silêncio.
    Mas porque o tempo foi apagado de seus sinos.

    Cael Thornwald acordou com o cheiro de pergaminho queimado encharcando o ar. As sombras em seu quarto estavam fora de lugar. Uma delas tremia sozinha, mesmo sem vento. O silêncio carregava o som abafado de uma respiração que não era dele, como se as paredes da hospedaria estivessem vivas, ofegando em compasso com o desconhecido.

    A madeira estalava sob os pés do tempo, e do lado de fora a chuva inexistente fazia barulho — como dedos tamborilando uma superfície invisível. Mas não havia água. Apenas o som dela, imitado por algo que desejava parecer natural. O mundo havia escorregado levemente para fora de sua moldura.

    No centro do quarto, uma pena negra girava em espiral lenta, desafiando as correntes de ar. Não caía, não subia — apenas orbitava um vazio que parecia mais denso do que o espaço ao redor. Girava como ponteiro de relógio à deriva. Uma espiral sem fim, onde o tempo hesitava antes de seguir.

    No chão de tábuas rangentes, repousava um bilhete.

    “Convocatória.
    Primeira Sessão do Teatro da Queda.
    Local: Scriptorium dos Degolados.
    Hora: Quando o silêncio parar de fingir.
    A palavra deve ser encenada.
    A verdade, representada.
    Tolos que crerem viver fora da história serão chamados ao palco.”

    — Segunda Voz da Última Página

    A assinatura vinha no símbolo desenhado em cinza: uma máscara dividida ao meio — metade sorridente, metade chorando tinta. A tinta parecia fresca, como se sangrasse do papel. Mesmo sem vento, o bilhete ondulava.

    O Mímico do Último Riso.
    Fragmento Dois.

    O céu de Virellium estava enevoado, mas não por nuvens. Fragmentos de frases flutuavam no ar como poeira encantada, pedaços de histórias soltas, retalhos de diálogos não ditos. Eram pedaços de texto, sílabas trêmulas suspensas na brisa. As palavras pareciam aguardar um narrador.

    Ao caminhar pelas ruas, Cael sentia os olhos da cidade sobre si. As janelas piscavam em ritmos desconexos. As portas respiravam sutilmente quando não observadas. E havia moradores — ou sombras de moradores — que, ao vê-lo, desviavam o olhar com medo ou reverência.

    — A cidade sabe — murmurou Leor, que surgira da viela oposta com seu chapéu deformado e olhos inchados de vigília. — Sabe que algo será representado.

    — Nada em Virellium acontece fora de cena — respondeu Cael. — Apenas fora de foco.

    O murmúrio de papéis sendo manuseados ecoava pelos becos como música ambiente. Cordas invisíveis eram afinadas ao longe. O som de bastidores em preparação.

    Passaram por uma praça em ruínas onde os pombos não voavam — pairavam estáticos, como lembranças suspensas. No chão, pétalas de tinta seca cobriam as pedras. Em uma fonte seca, alguém havia escrito:

    “Toda verdade precisa de plateia.”

    O Scriptorium dos Degolados jazia sob o antigo Teatro Delancrim, selado desde o Incêndio Espontâneo de Aplausos. Um evento cuja existência era debatida, mas que todos pareciam temer.

    O caminho até lá era forrado de cartazes rasgados anunciando peças jamais encenadas. As letras nos panfletos se embaralhavam quando olhadas diretamente. Uma em especial pulsava com tinta viva:

    “Hoje: O Último Ensaio Antes da Queda. Elenco completo. Sem dublês. Sem roteiro.”

    As portas de ébano do scriptorium estavam ressecadas e cravejadas com palavras em um alfabeto fonético morto. Ao serem abertas, um som antigo escapou. Algo entre um riso contido e um choro engasgado. As dobradiças chiaram como páginas arrancadas de um diário maldito.

    Dentro, o cheiro de mofo misturado a incenso de mirra e ferro. O som ambiente era um chiado quase imperceptível — como agulhas arranhando discos de cera. E uma melodia dissonante, tocada por instrumentos que não estavam ali.

    Descendo as escadas em espiral, cada degrau sussurrava um nome. Alguns Cael conhecia. Outros eram dele mesmo, mas em variações nunca usadas.

    A sala circular onde desembocaram era uma arena de memória esquecida. Arquibancadas de pedra em ruína, velas flutuando em círculos errantes. No centro, um palco feito de tábuas riscadas, coberto por frases entrelaçadas como veias — palavras que tentavam fugir da leitura.

    No teto abobadado, rachado, flutuavam cenas de outras peças: projeções desbotadas, fantasmas congelados no gesto de um aplauso eterno, como ecos holográficos de tragédias antigas.

    No palco, uma figura os aguardava.

    O anfitrião.

    Alto. Esquelético. Fraque manchado de tinta. Máscara partida: um lado sorria, o outro chorava tinta negra. Seus passos não faziam barulho — apenas notas. Cada movimento era como um acorde dissonante, compondo sua própria trilha sonora.

    — Bem-vindos ao primeiro ato — disse ele, com reverência debochada. Sua voz era feita de eco e intenção.

    — Eu sou o Mímico. Segunda Voz. Fragmento Dois.

    — E vocês… são a tragédia.

    Atrás dele, cortinas inexistentes tremiam. Passos invisíveis ecoavam. Um murmúrio constante crescia, como se uma multidão de sombras aguardasse o levantar do pano.

    O Mímico ergueu os braços como maestro.

    — A plateia aguarda. A cortina da realidade se abriu. E o personagem chamado Cael Thornwald… já está em cena.

    Não havia tochas. A luz vinha da atenção. A consciência da cidade o iluminava, como um leitor folheando com os olhos famintos. As palavras do Mímico moldavam luz e sombra como se o teatro se ajustasse ao ritmo da narrativa.

    Nas arquibancadas, silhuetas. Sem rosto. Algumas com livros no colo. Outras com penas sangrando tinta. Imóveis. Expectantes. O som ambiente tornara-se um redemoinho de páginas folheadas, palavras rasgadas, parágrafos gritando em reverso.

    — O que querem de mim? — perguntou Cael.

    — Que represente a si mesmo. E falhe — disse o Mímico com ternura cruel.

    Um baú foi trazido ao palco. Deslizou sozinho, rangendo como se chorasse. Ao se abrir, exalou um sopro de vento que apagou parte das velas flutuantes. De dentro, içaram uma mulher.

    Senna Valle.

    Amarrada. Amordaçada. Coberta de runas desbotadas.

    Leor recuou um passo.
    Cael congelou.

    — Não está morta — disse o Mímico. — Ainda.

    — Mas foi editada. Reduzida a gatilho.

    — E você… é a explosão.

    A pena negra flutuou até Cael. Dançou no ar ao redor dele como uma serpente encantada. Ao tocar sua mão, soltou uma vibração quente, como um soluço de tinta prestes a vazar.

    Um livro emergiu do chão. O Caderno dos Não-Escritos. Suas bordas queimavam. Palavras se contorciam em agonia. O som era de vozes sendo engolidas por tinta fervente.

    — Pronuncie. O palco é teu — disse o Mímico.

    — Diga a Palavra que Não Pode Ser Lida.

    — Liberte a Queda.

    Leor gritou das sombras:

    — Cael! Não! Você não sabe o que vai sair! Eles não querem que você escolha — querem que você leia o que já está escrito!

    O Mímico gargalhou. Sua máscara vibrava como sino rachado.

    — Ora, mas é isso que somos todos, não? Leitores de nossos próprios destinos?

    Cael hesitou. A pena queimava. Senna chorava tinta. O som da sala era um grito de expectativa não verbalizado.

    “Eles não estão escrevendo sobre você.
    Eles estão escrevendo você.”

    Mas então, algo rompeu o ciclo.

    Leor correu ao palco. Em sua mão, o caderno de notas — seu próprio diário dos impossíveis. Com um gesto desesperado, rasgou uma página.

    O som que saiu não era de papel. Era de realidade.

    Um rasgo cósmico.

    As silhuetas nas arquibancadas começaram a sumir. Como se fossem palavras riscadas do mundo. Uma a uma, sem som. Sem rastro.

    Senna gritou. O livro se fechou. A pena caiu.
    A máscara do Mímico… trincou.

    — Não era isso… — murmurou ele, de joelhos. — A falha está no leitor…

    Cael correu até Senna, desamarrou-a. Ela caiu em seus braços, chorando tinta que virava palavras mortas ao tocar o chão.

    — Cael… A Centelha reescreveu o terceiro ato. Você não é mais quem era. Você foi rasurado.

    — Você era o vilão. Mas alguém… apagou.

    Cael olhou para Leor.

    — Quem?

    Senna hesitou.

    — Talvez tenha sido ele. Ou talvez… você mesmo. Em uma versão anterior de si.

    O teatro ruía. Não com pedras — com textos. As paredes desmoronavam em parágrafos incendiados. As cortinas desfaziam-se em reticências e pontos finais.

    O Mímico, já quase desfeito, escreveu no chão com os dedos:

    “O palco vazio é uma página que sangra.
    A cena não termina.
    Ela recomeça.”

    E desapareceu.

    Do lado de fora, o céu de Virellium chorava letras. Pequenos glifos caíam como neve caligráfica. Senna respirava como quem voltava a nascer. Leor tremia.

    — Eu vi algo — disse ele. — Em sonho. Uma frase só.

    — Qual?

    Cael não é um nome. É um papel.

    Cael não respondeu. Mas dentro de si, sentiu o Compêndio abrir. A página do Oitavo Fragmento. A Sombra Editada.
    Antes em branco.
    Agora preenchida.
    Com seu rosto.

    Mais tarde, sozinho, Cael encarava o espelho de sua hospedaria. Mas o reflexo… não o imitava.

    Estava de pé. Imóvel. Esperando.
    E então sussurrou:

    “Você já morreu três vezes.
    Mas esta será a primeira em que morrerá… como autor.”

    O espelho trincou.

    A pena flutuou atrás dele.
    O livro se abriu.
    O palco… ainda não havia sido desmontado.


    Se quiser, posso também criar uma versão com anotações de estilo, ritmo ou sugestões para reforçar simbolismos futuros. Deseja isso?

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