O livro proibido se abriu.
    Mas não como um livro comum.
    Ele abriu como uma fenda. Como uma boca faminta.
    E dele emergiram gritos de frases abortadas, nomes esquecidos, personagens rasgados das margens da realidade. Uma torrente de sentidos não vividos, sonhos amputados, existências rasuradas.
    No centro disso tudo, Cael Thornwald.
    Ele não lia o livro.
    O livro… lia-o.

    Quando recuperou a consciência, estava de joelhos no chão da hospedaria. O piso de madeira rangia sob seu peso, vibrando como se ecoasse um trovão distante. Leor o segurava pelos ombros, desesperado, seus olhos dilatados demais para esconder o medo. Senna murmurava preces esquecidas para deuses sem nome, palavras enroladas em sussurros que não pertenciam a nenhum idioma vivo.

    O quarto tremia em uníssono com a cidade. Os espelhos suavam vapor negro. As janelas deixavam entrar não luz, mas sombras líquidas. As tábuas da parede estalavam como se quisessem falar, e por trás delas, sons indistintos — risos afogados, soluços secos, palavras que tentavam escapar.

    Cael ergueu os olhos.
    E soube.

    O mundo havia mudado.
    Não como muda uma estação, ou uma dinastia.
    Mudara como um texto reescrito à força — onde as palavras originais ainda tentam gritar sob as correções.

    Virellium sangrava.
    Literalmente.

    As paredes suavam frases.
    O chão brotava narrativas inacabadas.
    As pessoas tropeçavam em suas próprias histórias, esquecendo quem eram no meio de conversas. Algumas gritavam. Outras apenas sumiam, como se suas linhas tivessem sido cortadas por uma tesoura invisível. O ar cheirava a tinta velha, e cada respiração trazia o gosto amargo de papel queimado.

    E no horizonte, sobre o Rio Narth, ergueu-se algo que jamais deveria ter voltado:
    A Ponte das Almas.

    Ela surgira onde antes havia apenas bruma. Agora, erguia-se imponente, um arco grotesco feito de ossos entrelaçados e raízes vivas. Cada pedra rangia como páginas sendo relidas contra a vontade. O som do rio não era mais o de água corrente — mas um murmúrio coral de vozes indistintas, como se cada gota carregasse uma história não contada. As nuvens acima espiralavam, dobras pesadas no céu que se dobrava sobre si. Estrelas choravam lágrimas de luz fraturada, gotejando como cera cósmica.

    — Que… que inferno é esse? — perguntou Leor, a voz rouca, quebrada.

    Senna apenas apontava, sem conseguir falar. Seus olhos estavam fixos, como se cada parte dela soubesse que ali se formava o ponto sem retorno.

    Cael sentia a pena negra arder dentro do peito. A conexão entre ele e a realidade era agora direta — brutal — irreversível.

    A Ponte parecia viva. As sombras rastejavam por seus parapeitos, contorcendo-se em movimentos que lembravam letras tentando formar palavras. Havia um som baixo, constante, como o roçar de páginas sendo viradas ao longe — mas sem mãos para virá-las.

    E no centro da ponte, esperava uma figura que Cael já conhecia melhor do que desejava:
    A Centelha.

    Ela usava um manto feito de páginas costuradas com fios de cobre queimado. Cada passo que dava deixava para trás rastros de fumaça de letras em brasa. Seus olhos âmbar cintilavam com alegria e piedade em igual medida. Na mão, segurava um livro aberto — mas não um livro comum. Era uma antologia de existências alternativas.

    Cada página tremia com reflexos diferentes de Cael:

    Cael traidor.
    Cael mártir.
    Cael monstro.
    Cael vazio.

    Todos possíveis.
    Todos reais.
    Todos esperando serem escolhidos.

    — Bem-vindo, Espectro — disse a Centelha, com uma reverência zombeteira. Sua voz não ecoava; era absorvida pelo ambiente, como se o mundo quisesse ouvir em silêncio.

    — O que é isso? — perguntou Senna, sua voz falhando.

    — É a travessia — respondeu a Centelha. — A travessia de tudo que não deveria ter sido, mas insiste em tentar ser.

    Ela virou uma página do livro.
    E almas começaram a surgir.

    Não espíritos transparentes.
    Mas versões apagadas.
    Duplicatas esquecidas.
    “Todo futuro que recusamos escrever…
    Todo erro de interpretação…
    Todo personagem que cortamos…”

    — Todos querem voltar — disse a Centelha, sorrindo.

    As almas começaram a atravessar a ponte.
    Primeiro devagar, como se temessem o impacto.
    Depois, correndo, como se fugissem da inexistência.

    Cada uma delas carregava um fragmento daquilo que Cael poderia ter sido.

    Um menino segurando um caderno vazio.
    Um velho com olhos costurados.
    Um assassino vestido de padre.

    E em seus rostos, uma fome inominável: a fome de existência.

    Leor cambaleou para trás, chocado.
    — Isso… vai nos destruir.

    — Não — corrigiu a Centelha. — Isso vai nos reescrever.

    — E se não houver lugar para eles? — gritou Senna.

    A Centelha apenas riu.
    — Então o mundo se rasgará. Até caberem.

    O vento soprava forte sobre o rio, mas não era vento comum. Era feito de palavras, de gritos de verbos não conjugados. Cada rajada parecia arrancar pensamentos da mente dos que ali estavam. Leor caiu de joelhos. Senna chorava tinta.

    Cael sentiu o peso da escolha se formando dentro de si:

    Fechar a Ponte, selando para sempre as possibilidades não vividas — mas ao custo de apagar fragmentos da realidade atual.
    Ou deixar a Ponte aberta, permitindo a invasão dos esquecidos — e condenando a cidade, talvez o próprio mundo, à reescrita caótica.

    A pena negra vibrava em sua mão.
    O livro proibido em sua mente ardia como uma segunda alma.

    E em meio ao torvelinho de palavras, Cael viu visões:

    Senna sem rosto.
    Leor sendo lido como personagem secundário.
    Ele próprio… preso em uma história que jamais escolhera.

    A Centelha estendeu a mão.
    — Escolha, Autor.
    — Que história escreverás?

    Cael fechou os olhos.
    O Caminho da Morte Circular pulsava em seu sangue.
    Ele sabia: não havia escolha sem sacrifício.
    Não havia autoria sem traição.

    Quando abriu os olhos, caminhou até o centro da ponte. Cada passo que dava ecoava como batida de um coração mecânico. Leor tentou impedi-lo. Senna gritou seu nome, como se apenas chamá-lo fosse suficiente para trazê-lo de volta. Mas Cael já sabia. Ele era o verbo agora.

    A pena negra tornou-se lâmina.
    E com um corte no ar, escreveu:
    “O autor sangra antes que o mundo se cure.”

    As almas gritaram.
    A Ponte gemeu.
    As raízes se contorceram, tentando agarrá-lo. Um dos reflexos dele mesmo — o que chorava sangue — estendeu a mão, tentando fundir-se a ele. Mas Cael traçou um novo símbolo no espaço:
    Um espiral quebrado.
    Um olho fechado.
    Uma pena que gotejava palavras.

    E a Ponte… começou a fechar.

    A Centelha o observava, imóvel.
    Quando a última alma foi puxada de volta para o limbo, ela apenas disse:
    — Escolheste ser cirurgião.
    — Agora… corta teu próprio coração.

    O mundo estremeceu.
    Virellium desabou em um segundo e reconstruiu-se no outro.
    Mas diferente.
    Sutilmente errado.
    Como uma palavra escrita com a letra errada, mas que ainda parece correta à primeira leitura.

    Quando Cael, Leor e Senna voltaram à hospedaria, sabiam que algo havia sido perdido.

    Leor olhou para as mãos.
    — Eu… eu sempre fui destro?

    Senna tocava o próprio rosto, confusa.
    — Minhas lembranças da infância… elas se misturam.

    Cael apenas fechou os olhos.
    Ele sentia: pedaços de si haviam sido apagados.
    Pedaços dos outros também.
    Mas a Ponte estava selada.
    Por enquanto.

    No quarto, sozinho, Cael encontrou algo sobre a cama:
    Uma carta.
    Escrita com sua própria caligrafia.
    Mas ele não a escrevera.

    “Parabéns.
    Ainda és apenas um autor… amador.
    Quando estiveres pronto para escrever realidades sem falhar,
    encontre o Capítulo Esquecido da Última Página.”

    Assinado:
    Aquela que queima as palavras para encontrar as verdadeiras.
    — Centelha.

    O capítulo termina com Cael segurando a carta, enquanto no espelho trincado atrás dele, seu reflexo sussurra:
    “Todo autor é o primeiro traidor da própria história.”

    E, pela primeira vez, Cael sorri.
    Não de alegria.
    Mas de aceitação.

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