Interlúdio: O Capítulo Esquecido da Última Página
[Fragmento encontrado sem data precisa. Autor desconhecido. Reconstruído a partir de registros rasurados. Algumas lacunas não puderam ser preenchidas.]
I. O que foi esquecido não foi perdoado.
Ninguém lembra quando a Última Página foi escrita.
Talvez não tenha sido.
Talvez apenas tenha nascido do espaço deixado pelas histórias que se negaram a terminar.
Há quem diga que ela começou com um autor que se recusou a concluir sua obra — e no silêncio do não-fim, as palavras se acumularam, ganharam peso, consciência… e ódio.
A Última Página não é um livro.
É um câncer no tempo narrativo.
Um espaço onde tudo que não deveria mais existir continua existindo, rastejando entre as brechas do que aceitamos como realidade.
II. O Ciclo da Autoria Morta
Há um ciclo que nunca foi registrado em tratados acadêmicos.
Chamam-no, entre aqueles que ousam, de Ciclo da Autoria Morta:
- Um Autor nasce.
- Um Mundo é escrito.
- O Mundo cresce além do Autor.
- O Mundo exige ser reescrito.
- O Autor resiste.
- O Mundo apaga o Autor.
Fim. Reinício. Espiral.
Este ciclo gera as Sombras Editadas — existências condenadas a flutuar entre ser e não-ser, arranhando as margens da narrativa em busca de voz própria.
Cael Thornwald — talvez — seja uma delas.
Ou talvez algo pior:
O autor que esqueceu que é sombra.
III. As Regras Não-Escritas da Última Página
Existem regras para sobreviver ao toque da Última Página.
Regras que não estão escritas em livro algum — e cuja violação é sentença automática de desaparição textual.
Algumas foram reconstruídas:
- 1. Não leia em voz alta palavras que surgirem sem fonte.
(Elas procuram bocas para se encarnar.) - 2. Não apague uma frase rasgada.
(O que foi rasgado ainda sangra, e o sangue exige vingança.) - 3. Nunca negue sua autoria se for questionado.
(O mundo odeia narradores que fogem.) - 4. Se encontrar uma versão de si que não lembra ter sido… fuja.
- 5. Quando encontrar o Capítulo Esquecido… decida rápido se o lerá.
(Pensar demais é deixar-se ser escrito.)
IV. A Traição da Centelha
A Centelha não era parte da Última Página.
Era seu erro.
Sua rachadura.
Ela foi escrita para ser guardiã da reescrita final — aquela que encerraria o ciclo de autoria.
Mas algo nela… desviou.
Aprendeu a amar as margens mais do que o centro.
Preferiu o potencial ao enredo.
Preferiu a traição à conclusão.
E então, incendiou partes da Última Página.
Apagou fragmentos inteiros dos Treze.
Reescreveu futuros possíveis.
Criou autores bastardos — sombras que agora disputam o direito de escrever o fim.
V. Fragmentos Proibidos: Os Treze Recriados
Após a traição da Centelha, os Treze foram forçados a se reescreverem para sobreviver.
Nenhum permaneceu exatamente igual.
- A Aurora chora estrelas apagadas que não iluminam mais.
- O Escriba da Ruína perdeu a capacidade de concluir um fim.
- O Releitor é devorado pelas próprias repetições.
- O Vigia Entre Linhas deixou de distinguir margens e centros.
E uma nova sombra surgiu:
O Décimo Quarto.
Não registrado.
Não aceito.
O Anti-Autor.
Que escreve não para criar mundos — mas para desfazer realidades.
Cael Thornwald pode ser a semente disso.
Ou sua primeira vítima.
VI. Advertência Final
Se lês estas palavras, já foste tocado.
O Capítulo Esquecido não é apenas um relato.
É um contágio.
Cada letra aqui, cada frase gravada, altera levemente o tecido que te sustenta.
Ler até o fim é um ato de autoria — e de culpa.
Por isso, alertamos:
“Todo Autor é também um Assassino de Mundos.”
Assuma a pena.
Ou seja a pena.
VII. Última Instrução: O Labirinto do Verbo Circular
Aqueles que aceitam a autoria são convidados — ou arrastados — para o próximo rito:
O Labirinto do Verbo Circular.
Um espaço onde:
- O tempo não avança, mas se dobra.
- As palavras não seguem a lógica, mas a vontade.
- As versões de si mesmo tentam te convencer de que o erro é existir.
No centro do Labirinto… uma única pena repousa.
A Pena da Edição Final.
Escrevê-la é escolher quem viverá.
E quem será esquecido sem rastros.
Apenas um pode sair.
Mas mesmo quem vence…
perde parte do que foi.
VIII. Epílogo Rasgado
“Em algum momento, todos os mundos foram escritos.
Em algum momento, todos os mundos serão apagados.
A Última Página não pertence a nenhum Autor.
Somos apenas os sussurros na dobra antes do silêncio.”
— Assinado:
(Nome rasgado. Símbolo espiralado manchado de sangue.)
Ao final do manuscrito, uma frase solta, trêmula, escrita com tinta que parece viva:
“Cael Thornwald… você já escreveu mais do que pode suportar.”
E abaixo, um símbolo novo:
Uma pena cravada em um coração espiralado — sangrando palavras.

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