O amanhecer em Virellium era cinza como carvão dissolvido.

    As ruas, antes carregadas de névoa silenciosa, agora fervilhavam com palavras soltas.
    Sílabas que se enroscavam nos becos como heras proibidas.
    Verbos que caíam dos telhados com o peso de velhos pecados.
    Substantivos rachados entulhavam os bueiros, como se as entranhas da cidade expelissem a própria memória corrompida.

    O ar carregava um novo peso: o peso da possibilidade.

    Era como se, a cada respiração, Cael Thornwald inalasse ecos de futuros não escritos — possibilidades rasgando seu peito, sedentas para existir.

    Ele andava entre os escombros do real, os passos pesados, a capa roçando as poças de água turva.
    Segurava a pena negra em punho, como um náufrago que se agarra ao último pedaço de madeira em meio à tempestade.

    Não era mais um instrumento.
    Não era apenas uma relíquia.

    Era uma decisão materializada.

    E a cada passo, Cael sentia a própria existência hesitando — como se o mundo, incerto de suas próximas linhas, perguntasse silenciosamente:

    “És mesmo capaz de continuar?”

    O silêncio à sua volta era quase sagrado.

    Mas também ameaçador.


    Leor caminhava ao seu lado, exausto, mas determinado.

    As botas pesadas de Leor afundavam na lama das vielas recém-renascidas, deixando marcas tênues que o vento tentava apagar.

    Seus olhos, antes tão cheios de arrogância despreocupada, agora carregavam bolsas de noites insones e cicatrizes que palavras jamais poderiam curar.

    Senna seguia mais atrás, uma sombra atenta, o olhar perdido entre o que foi e o que poderia ser.

    A trança ruiva balançava em sincronia com seus passos leves, mas havia tensão em seus ombros, como se cada som fosse um possível presságio.

    Ela carregava mais que armas ocultas sob o sobretudo.

    Carregava esperanças fraturadas.

    E medos que nem mesmo o aço poderia cortar.

    — Para onde vamos? — perguntou Leor, a voz rouca, arranhada como se tivesse sido usada para gritar em sonhos dos quais não conseguira acordar.

    Cael não respondeu de imediato.

    O peso da pena negra parecia puxá-lo em direções que nem mesmo ele compreendia completamente.

    Parou no cruzamento de duas ruas rasgadas — onde o chão, estilhaçado, formava palavras incompletas, como poemas desfeitos.

    A luz pálida filtrava-se pelas frestas dos edifícios em ruínas, desenhando símbolos indecifráveis na névoa rasteira.

    Respirou fundo.

    O ar era denso, com gosto de pergaminhos molhados e ferro oxidado.

    E disse:

    — Vamos onde uma história precisa ser reescrita.

    A decisão estava tomada.

    Não havia retorno.


    O destino era o Oratório dos Manuscritos Quebrados — uma antiga escola abandonada no distrito de Baixo-Krail, um nome sussurrado apenas nas madrugadas mais desesperadas.

    Diziam que, naquele lugar, se ensinava a arte da palavra resistente.

    Palavras que não cediam ao fogo.

    Frases que sobreviveriam ao esquecimento.

    Era mais que um prédio.

    Era uma sepultura viva de histórias que recusaram morrer.

    Um lugar onde frases sobreviviam a incêndios.
    Onde narrativas se recusavam a ser apagadas mesmo sob a lâmina do tempo.

    Se houvesse um local em Virellium onde Cael poderia testar a Primeira Reescrita… seria ali.

    Um santuário de pedaços narrativos partidos.

    Um templo para a insurgência dos contos esquecidos.


    O caminho até Baixo-Krail foi uma travessia de murmúrios.

    A cidade parecia ouvir seus passos, sussurrando dúvidas veladas a cada esquina.

    “Eles sabem o que estão fazendo?”
    “Podem mesmo mudar algo?”
    “Não será tudo em vão?”

    Em certo momento, passaram por uma fonte seca.

    Peixes esculpidos cuspiam névoa em vez de água.

    Leor apertou o passo, incomodado.

    Senna apenas olhou de esguelha, como se lesse algo nos vapores que escapavam.

    Cael seguiu firme, o olhar cravado no horizonte rachado.

    Sabia que Virellium não queria ser reescrita.

    Sabia que a cidade cuspiria espinhos antes de aceitar flores.

    Mas mesmo assim… continuaram.


    Chegaram ao oratório no final da tarde.

    O céu parecia uma página amarrotada, suja de dedos impacientes, com luzes esgarçadas atravessando nuvens rasgadas como véus profanados.

    O edifício diante deles era um colosso moribundo.

    As portas do oratório eram enormes, feitas de carvalho impregnado por símbolos queimados: fragmentos de narrativas antigas e malditas.

    As palavras gravadas, mesmo mutiladas, ainda sussurravam ecos antigos.

    Promessas quebradas.

    Advertências esquecidas.

    Cael estendeu a mão.

    A pena negra brilhou.

    Não com luz… mas com a absorção de toda luz em volta.

    A porta gemeu.

    Gritou.

    E, com um estertor final, abriu-se.

    O cheiro que escapou dali era de papel molhado, sangue seco e maresia de um oceano que nunca existiu.

    Eles entraram.


    O interior era um deserto de livros queimados.

    Montanhas de folhas enegrecidas formavam dunas instáveis.

    Pilares desabados formavam corredores de papel carbonizado, como se estivessem andando por ossadas de ideias mortas.

    Havia ecos de lições antigas — frases soltas que flutuavam como poeira dourada sob o brilho tímido da pena negra.

    “Toda palavra é um ferimento.
    Toda sentença, uma cicatriz.”

    O eco não vinha só dos livros.

    Vinha das paredes.

    Do chão.

    Do próprio ar.

    E com cada palavra flutuante, Cael sentia pequenos cortes invisíveis surgindo na pele — feridas que doíam não no corpo, mas na história enraizada em seus ossos.

    No centro do salão principal, entre colunas partidas e tapeçarias esfareladas, erguia-se um altar de pedra.

    E sobre ele, algo improvável:

    Um manuscrito intacto.

    Brilhava com luz própria, como se se recusasse a pertencer àquela ruína.

    Como se fosse um milagre condenado.


    Cael se aproximou.

    Cada passo ressoava como uma batida de tambor fúnebre.

    O manuscrito não tinha capa.
    Não tinha título.
    Não pedia permissão.

    Apenas uma primeira linha, escrita em tinta prateada, dançava na superfície viva do pergaminho:

    “Aqui termina a história de Virellium.”

    Ele sentiu o peso da frase no peito.

    Não era apenas um final.

    Era um veredito.

    Era isso.

    O ponto final.

    A assinatura do fim.

    Uma lápide para uma cidade ainda pulsando em agonia.

    — Se reescrevermos isso… — murmurou Senna, a voz tensa como corda de arco prestes a estalar — estaremos… traçando um novo destino.

    — Ou condenando o que ainda resta — completou Leor, a sombra de um medo oculto passando por seus olhos.

    Cael não hesitou.

    Dentro dele, algo já estava escrito há muito tempo.

    Empunhou a pena negra.

    E pela primeira vez, com plena consciência, escreveu no mundo:

    “Aqui começa a história de Virellium Renascida.”

    A pena cravou a frase no pergaminho como uma lança.

    E o mundo… respondeu.

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