Interlúdio: O Caderno das Histórias Roubadas
[Fragmentos coletados do Velódromo das Palavras Perdidas, reunidos sem ordem definida. Muitos trechos apresentam marcas de corrosão textual e lacunas incompletas.]
I. O Nome que Nunca foi Escolhido
“Cael Thornwald” não era o único nome escrito para ele.
Havia outros.
Outras tentativas, outros batismos negados.
- Khael Ombros: Aquele que seria traidor antes do fim.
- Sylver Wren: O bibliotecário que morreria sem jamais ter lido seu próprio epitáfio.
- Caelum Verrian: O Arauto da Última Canção.
Cada nome um destino.
Cada nome, uma história abortada.
Mas em cada reescrita, apenas “Cael” persistiu.
Ou, talvez, apenas o que restou de todos eles.
II. O Mundo Onde Cael Era o Vilão
“Não confie em quem escreve a própria redenção.”
Em um manuscrito descartado, Cael era o arquiteto da Última Página.
Não sua vítima.
Seu criador.
Foi ele quem rasgou as margens do mundo.
Foi ele quem convocou os Treze Fragmentos.
Foi ele quem tentou apagar a própria culpa ao inventar o mito da Centelha.
Neste mundo esquecido, Cael governava Virellium como uma ficção consolidada — mas seu trono era feito de livros queimados e ossos de personagens que jamais tiveram voz.
Tal versão nunca viu a luz.
Ou talvez ainda espreite nas rachaduras de sua alma.
III. O Encontro que Não Aconteceu
Em outro roteiro rasgado, Cael deveria ter encontrado a Centelha muito antes.
Ainda jovem.
Antes de ter cicatrizes.
Antes de aprender a matar frases com o olhar.
Num beco de palavras malditas, ela lhe teria estendido a mão.
E dito:
“Antes que te tornes algo… escolhe ser ninguém.”
Se tivesse aceitado, teria se tornado uma sombra entre margens, um Observador sem autoria.
Sem peso.
Sem feridas.
Sem história.
IV. A Pena que Nunca foi Escolhida
Nos Manuscritos do Caminho da Morte Circular, Cael teve um instante — um só — para escolher outra pena:
- Uma pena cinzenta: escrever e esquecer ao mesmo tempo.
- Uma pena dourada: escrever apenas vitórias, condenando-se à ignorância dos erros.
Ele não escolheu nenhuma.
Apenas a pena negra.
A pena do preço.
A pena que não perdoa.
Talvez, no fundo, sempre tenha sido inevitável.
V. A Primeira Morte de Cael
“Todo Autor morre na primeira história que tenta terminar.”
Em uma versão rejeitada do mundo, Cael morre na noite em que toca a caixa ritualística.
Morre como homem.
E renasce como conceito.
Sem corpo.
Sem voz.
Sem pena.
Apenas uma palavra sussurrada entre os degraus do Caminho da Morte Circular.
Cael: palavra que significa “não escrito”.
VI. As Três Traições que Nunca Ocorreram
Em diferentes roteiros não finalizados:
- Leor deveria tê-lo vendido à Última Página, em troca de uma nova história para si.
- Senna deveria tê-lo matado enquanto dormia, para impedir a abertura da Ponte das Almas.
- O próprio Cael deveria ter se traído, apagando seu nome da realidade para salvar Virellium.
Nada disso aconteceu.
Ou melhor: ainda não.
Porque nas histórias roubadas, nada é impossível.
Apenas… adiado.
VII. O Juramento Não Pronunciado
No Capítulo que se perdeu entre as margens do Compêndio, Cael jurava diante do Livro Vivo:
“Que nenhuma história roube meu nome.
Que nenhuma pena conduza meu fado.
Que a Última Página, ao me encontrar, me tema.”
Mas ele nunca pronunciou tal juramento.
Ou esqueceu-se dele.
E assim, as palavras continuam… tentando possuí-lo.
VIII. Fragmentos Soltos:
- Uma versão de Cael acorda sem saber que é personagem. Vive, ama, morre… sem jamais perceber que foi escrito para nunca existir.
- Em outra linha, Cael mata a Centelha… apenas para vê-la renascer dentro de si.
- Em um espelho proibido, Cael vê treze versões suas caminhando em círculo, cada uma carregando uma pena diferente, cada uma culpando a anterior.
- Em uma última página apagada, lê-se apenas:
“Cael Thornwald — O Autor que nunca escreveu o próprio fim.”
IX. Advertência Roubada
Escrito à margem, quase ilegível:
“Se leres este caderno, roubarás de ti mesmo.
Roubarás futuros.
Roubarás lembranças que nunca soubeste que eram tuas.”
“E ao final… não saberás mais se foste escrito ou se escreveste.”
X. Última Página do Caderno
“Toda história que não vives, vive à tua sombra.”
“E quando tua sombra crescer demais…
Ela escreverá por ti.”
Ao final do Caderno das Histórias Roubadas, uma frase que brilha como cicatriz viva:
“Cael Thornwald, tua maior criação é tua maior prisão.”
E abaixo, tremendo como se ainda estivesse sendo escrito:
“Assinado:
A versão tua que sobreviveu nas margens.”

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