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    POV:


    Em mais um dia, lá estava eu.

    Acordar na madrugada e sem sono ainda por cima, naquela altura do campeonato, já havia se tornado mais um costume do que um problema.

    Agora, se me perguntarem o motivo disso acontecer. Provavelmente, eu responderia que era por culpa da clássica ansiedade com o dia seguinte.

    — Uáááá… que sono do caralho! — disse, enquanto limpava os olhos com os dedos para tirar a remela da noite anterior.

    Levantei e fui até a janela.

    O quarto estava mergulhado numa escuridão, quebrada apenas pela luz tímida dos postes e das lâmpadas do prédio vizinho, que passava pelas frestas da cortina.

    A cama, ainda quente atrás de mim, soltava leves estalos de madeira, como se implorasse para que eu voltasse. Mas segui em frente.

    O sol mal nascera e já se escondia no fundo do horizonte, tímido, pálido e distante, como sempre… Desse jeito, parecia apenas uma mancha alaranjada que vigiava o mundo.

    Abri a cortina com cuidado, para deixar o ar fresco da manhã invadir o quarto e empurrar para longe o cheiro abafado da noite.

    — É estranho pensar no quanto aquela bola de fogo gigante é importante pra gente… e, mesmo assim, ela continua lá, impassível. Um dos principais pilares da vivência da nossa espé… Uááá.

    Aproveitando o bocejo, espreguicei-me e fiz alguns alongamentos.

    Enquanto os fazia…

    “Melhor eu ir usar o outro pilar fundamental da nossa raça. Provavelmente o mais importante, bora tomar um café!”

    Tentava aparentar estar mais animada do que realmente estava.

    Saí do quarto em silêncio. As paredes do corredor ainda guardavam o frio da madrugada, e meus pés faziam um leve som seco sobre o piso de cerâmica.

    Cheguei à cozinha que era pequena, modesta e com aquele eterno cheiro de café velho e temperos antigos.

    A luz fluorescente sobre a pia piscou uma vez antes de se firmar.

    No canto do balcão, repousava a fiel chaleira elétrica, cercada por uma fileira de canecas e copos antigos.

    Coloquei água para esquentar. O clique da chaleira cortou o silêncio da casa como uma flecha.

    Botei duas colheres de café na minha xícara verde, a de sempre.

    De relance, meus olhos caíram no calendário colado na porta da geladeira.

    Ele estava com o papel já amarelado nas bordas, e preso por dois ímãs: um do Bob Esponja e outro do vestibular do ano passado.

    E assim, encontrei o trabalhador mais constante da existência: o tempo.

    Nunca parava. Nunca descansava. Porém sempre, sempre avançava em diante.

    Mesmo que sozinho, corria em seu próprio fluxo, naturalmente…

    Foi aí que percebi: já era quatorze de dezembro.

    O último dia de aula do meu segundo ano do ensino médio.

    — O tão sonhado terceirão tá chegando já…

    Na mesma hora, um arrepio correu pela minha espinha.

    — Droga… eu percebi que to virando adulta. Ferrou, ferrou, ferrou!

    — Pera… se bem que, na real, nem é tão ruim assim, né? Eu acho que não… Afinal, ser adulto é tipo portar o Mjölnir do Thor: é um baita poder, te dá umas habilidades muito fodas e um certo respeito… — comentei, conforme ponderava sobre a analogia. — O problema é que precisa ser digno de usar. Ou, sei lá… fora da casinh…

    Chuu-chuu.

    O som da chaleira me puxou de volta da crise existencial de cada dia.

    Girei o pescoço na direção do ruído. Vi a luz da chaleira acesa, indicando que a água já havia fervido.

    A água borbulhava com força e soltava vapor que embaçava os azulejos atrás do fogão.

    Dei alguns passos apressados, desliguei a chaleira e esperei as bolhas cessarem.

    Em seguida, servi uma xícara daquele café simples: duas colheres, sem açúcar.

    Em casa, café preto e forte era tradição.

    — Ops… droga!

    Sem querer, derrubei um pouco de café no pano de prato que estava sobre o balcão.

    — Ah, é algo quase microscópico, ninguém vai perceber, né? — murmurei para mim mesma.

    Com a xícara em mãos, voltei em silêncio até o quarto. O corredor parecia mais frio do que antes, mas talvez fosse só a realidade me dando um choque térmico.

    Assim que entrei, juntei os dedos da mão direita no formato de uma pinça.

    — Tesselação Axiomática — sussurrei, enquanto formava uma linha de conexão entre os dedos.

    O quarto, ainda à meia-luz, foi tomado por um brilho discreto.

    Minha marca-literária, cravada no pulso direito, brilhou num tom de azul-claro, quase como se sorrisse.

    O ar ao redor dos meus dedos vibrava levemente, distorcendo a luz por um breve instante.

    — Usar esse encantamento ainda é difícil… Aplicar princípios geométricos é muito mais fácil na teoria do que na prática…

    Conectei todos entre si. Fechei o punho com cuidado e apontei o indicador para frente.

    No ar, desenhei o formato de um hexágono com um gesto firme.

    Quando o fluxo de energia cessou, a figura brilhou… e bingo!

    Foi assim que surgiu uma pequena plataforma suspensa, flutuando no meio do quarto como uma ilha em um oceano.

    Coloquei a xícara no centro da figura com solenidade e calma.

    Queria evitar fazer outra trapalhada, como havia ocorrido em casos anteriores.

    — Bem que dizem… Euclides descobriu um dos conceitos mais versáteis da história…

    O brilho era sútil, mesmo assim a cor era intensa o suficiente para revelar a força da tesselação envolvida.

    “Será que dá pra usar isso em combate?”

    Suspirei.

    — Tsk… ainda preciso praticar mais a criação dos axiomas de segundo nível…

    Olhei para a mesa que ficava no meu canto de estudos. Afinal, era lá que estavam minhas anotações jogadas…

    Aproveitei o momento e observei o ambiente. A organização do quarto estava simples e metódica, justamente o estilo que eu mais gostava.

    A cama, simles de solteiro e na cor branca, ficava na parede à esquerda da porta. Ao lado, uma mesa de cabeceira abrigava alguns livros, a mochila e algumas maquiagens.

    Virei para o lado oposto. Ali estava minha mesa de estudos, com meu simples laptop da Acer em cima dela e a cadeira improvisada com uma almofada antiga.

    À direita da mesa, havia um grandioso guarda-roupa.

    Aquele indivíduo era velho… Se duvidar, mais velho até do que eu. Então, ele tinha história…

    Aliás, falando nisso…

    Se algo naquele quarto pudesse falar, provavelmente teria as aventuras mais malucas para contar. Com certeza, seria o velho espelho de antiquário que ficava ao lado da mesa de cabeceira.

    Tinha um molde ornamentado na cor bronze, com alguns sinais claros de sua idade, e reluzia incrivelmente no ambiente.

    Era minha parte favorita do quarto; além disso, eu o usava todas as manhãs para me arrumar.

    E hoje, não seria diferente.

    Antes de ir para a minha querida área de estudos, fiquei por um momento me olhando no espelho, que, apesar da idade, estava impecável, limpo e em bom estado.

    Me vi nele e aproveitei para organizar meu cabelo castanho-escuro, que já chegava um pouco além dos ombros.

    Meu traço característico eram as pontas de um castanho mais forte. Além disso, aproveitei a oportunidade para passar um creme de pele no rosto.

    Meus olhos esverdeados sempre foram um dos principais motivos do meu orgulho e autoestima.

    E, é claro, minha altura, com um metro e setenta para uma garota. me fazia parecer praticamente um poste…

    “Hehe, não dá para reclamar, ganhei uma boa genética da mãe….”

    De resto, apenas arrumei rapidamente minha roupa, que ainda estava meio amassada, e me dirigi à cadeira do meu canto de estudos.

    Ali, em meio ao caos controlado dos livros empilhados, papéis amassados e anotações com fórmulas rabiscadas, meu mundo crescia.

    Como estudante do segundo ano, precisava me preparar para os testes de admissão que aconteceriam no ano seguinte. Os famosos e temidos vestibulares!

    Para isso, comecei a explorar livros diferentes.

    Entre todos, os mais importantes que estudei naquele ano foram os de Euclides, especialmente Os Elementos, um livro extremamente versátil, amplamente usado por estudiosos da matemática e da física, que despertava minha curiosidade e paixão pelos números.

    Sempre tive interesse nessas áreas; afinal, usar conceitos numéricos para entender como a magia funcionava era algo bem incomum, especialmente onde eu vivia.

    Por isso, decidi testar se o treino com esses livros poderia gerar algum encantamento útil para as aulas de combate mágico que me aguardavam no terceirão.

    “Espero estar pronta a tempo…”

    O tão sonhado último ano se aproximava, trazendo junto os pensamentos sobre formatura, carreira, trabalho e futuro.

    Essa prática com os livros com certeza me ajudaria a evitar problemas com os vestibulares…

    Até porque essa era a palavra mais odiada por todos os meus colegas.

    Por algum motivo, nunca compartilhei o ódio ou medo que eles sentiam, principalmente porque sempre achei a ideia desses testes meio besta.

    Se a educação supostamente era pública, então deveria ser acessível a todos, não?

    Por que diabos existiam provas? Ou melhor, torneios para ver quem era o mais sabichão entre os leitores?

    “Talvez para saber quem é o melhor…”

    Estava tentando achar um contraponto à minha ideia.

    — Tsk, mas qual é o propósito de ranquear os melhores e piores? Dividir quem é útil daqueles que não são? — ponderei. — Muitas perguntas, poucas respostas. Típico! Típico!

    Enquanto organizava a cama, dobrava os cobertores aqui e ali, reposicionando tudo direitinho.

    Após concluir a organização, voltei a ponderar sobre o dilema, porém sem resultado aparente.

    Quer dizer, preferia deixar esses problemas para a Helena de 2020; isso seria mais problema dela do que meu! Haha!

    Pera… tecnicamente sou eu, mas deu para entender, né?

    “Melhor deixar isso quieto… Há outra coisa mais importante para ponderar. Mesmo não achando a ideia dos testes boa, não podia negar que precisava levá-los a sério. Eram cruciais; precisava me preparar bem.”

    Olhei ao redor, verificando o que precisava organizar entre as notas.

    O primeiro passo estava dado. Eu sabia qual carreira seguiria, uma vantagem que pretendia usar ao meu favor.

    “Como vou para exatas, posso me dar ao luxo de focar nas matérias de aplicação literária e visão matemática.”

    O problema era o teste físico de combate.

    Peguei minhas anotações da noite anterior e as dispus à minha frente para ver o que já havia feito e como prosseguiria.

    — Quem diria que, pra ser física, eu precisaria vencer um campeonato de lutas, estilo aqueles dos Shonens clássicos…

    Isso sempre foi uma das maiores ironias possíveis. Até parecia que o criador estava sem criatividade quando decidiu criar essa parte da humanidade.

    “Tá louco…”

    Me questionava se o criador tinha algum tipo de sentido irônico com os personagens que escrevia.

    De repente, comecei a ouvir alguns barulhos na cozinha…

    Tumb. Tumb. Tumb. Tumb.

    Eram os passos característicos da minha mãe acordando. Ai, ai, clássica mãe brasileira. Era bem com…

    — HELENA! — gritou minha mãe, fazendo-me pular da cadeira e quase cair no chão.

    Levantei-me e corri para a cozinha.

    — Helena Ivyra Conceição, por que meu pano de prato está manchado de café? HEIN?! — disse a senhora Eduarda Conceição.

    Era uma senhora incrédula e extremamente estressada com o ocorrido às seis e dez daquela quarta-feira de dezembro.

    Vendo-a assim, tão viva, com seu cabelo castanho salpicado de fios brancos bagunçados pela manhã e toda a sua malemolência, que mostrava as marcas da idade.

    Mas ainda mantinha sua postura rígida e seu olhar perspicaz, algo que sempre me alegrava.

    “Mães… o maior enigma do universo…”

    Retruquei mentalmente, é claro. Não era louca a ponto de dizer isso em voz alta.

    — Eu derrubei um pouco de café antes, sem querer… Além disso, você parece radiante hoje, mãe! Cortou o cabelo? — disse, com um sorriso amplo, para evitar outra panelada, como aconteceu em casos anteriores.

    — Vai tomar café, criatura. Antes que eu te dê outro “despertar mágico” com a frigideira — respondeu minha mãe, pegando o pano e indo em direção à lavanderia.

    Fiquei olhando, mas não desisti.

    — Tô falando sério! Senti um estilo diferente; como se o universo tivesse mais brilho no seu cabelo hoje!

    Ouvi-a bufar, sem virar o rosto.

    — O que você vai sentir é o chinelo do multiverso batendo no teu juízo, isso sim.

    — Mãe! Isso pode ser o início de uma saga lendária. Imagina: A Menina da Panela Encantada!

    — Menina, se tu não comer esse pão agora, tua saga vai ser no hospital.

    E foi assim que eu entendi: todo grande herói começava seu dia com um bom café forte e, às vezes, uma panelada.


    Arquivo Confidencial: V-1206-V
    Classificação: Sigilo Alto – Acesso restrito às patentes: Leitor Fanático e Leitor Novato.
    Instituição Responsável: SLI – Sociedade dos Leitores Livres.
    Data da Transcrição: X/XX
    Relator: IVYRA, H. Codinome: Clover.
    Assunto: Relatório de Contenção – Tempo de Contaminação.

    TEMPO ANTES DO INÍCIO DO SURTO: 3 MESES.


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