Capítulo 27 - Noctherr
Caindo como um meteoro.
A sombra despencou.
Rasgou o plano profundo — do Intermédio até as oito camadas que precedem o fim, quebrando as paredes que os separam com sua essência transitória.
Ao tocar o solo, abriu uma cratera.
O impacto não gritou — afundou.
Silenciado pela calma natural de seu rei.
Na verdade, mal teve tempo.
A escuridão fechou por cima, como uma vontade transcendental por silêncio.
Calmaria.
De tanto olhar para o nada, passou a amar.
Como quem nutre uma paixão platônica pela ausência.
— Seja bem-vindo de volta à vossa Leerenhaus. Acaso… isso te causa medo?
Engoliu.
Sem cerimônia.
Como quem já fez isso antes.
Ali, tudo era recusado.
Só restava o caos.
Porque para expressar um algoz, sim —
é necessário que existam acordes.
Melódicos.
Nada que nasça da desordem do ser pode ter forma.
— Meu senhor… — murmurou, arfando entre a dor e a vergonha.
Estava no impossível.
Dizem que, para chegar ali, é preciso cruzar a distância de milhões de universos.
Mas isso… é só romantização.
Você não “chega” lá.
Você cai.
Escorrega na própria existência e desce até o que foi selado antes da guerra.
Antes dos Guardiões.
O covil do vil.
O centro de um salão escuro.
Mas não qualquer escuridão.
O tipo que não apaga a existência —
nega.
Claustrofóbico.
Crânios por toda parte.
Vestígios de outros que estiveram ali…
Pobres sombras.
Condenadas a compartilhar espaço com um tirano como seu rei.
E o ar?
Saturado.
Cheirava a sangue.
Mas não o tipo nobre —
era sujo.
Como o de um abate travestido de hospital público.
Ou de um bordel barato, onde a dignidade escorre pelas frestas da calçada.
E ali, à frente dele…
Sentado.
Como se jamais tivesse se erguido de seu estado de espera — uma preguiça existencial, apática, quase debochada.
Um ser.
Ou o que restou da ideia de um.
Cabelos longos, negros, caíam sobre o rosto como um véu de luto.
O manto, rasgado, pendia para o lado — um fardo mal vestido, como quem não se importa mais com o corpo que carrega.
Ao seu lado, flutuava uma salamandra.
Sua Essenz.
Manifestava-se por vontade própria, tamanha era a pressão caótica que dele emanava.
Os pés descalços tocavam o chão com a intimidade que só uma prisão permite.
Era uma sala do Carandiru selada entre sombras.
As paredes, testemunhas de silêncio e massacre.
Unhas afiadas.
Mãos entrelaçadas.
E a postura…
A postura de quem vê demais.
Além.
No futuro.
— Tamanha é minha vergonha! — gritou, socando o piso. Seu punho vacilou, quase se partindo ao meio diante de um caos ainda maior.
Se o sol fortalece um kryptoniano, a ausência de tudo enfraquece a sombra que nasceu daquilo que outrora sentia.
— Eu sei — Sem emoção. Como quem lê o final de um livro cujo desfecho já sabia — Vi através de ti, Erdwahn. Você agiu bem… como servo do seu salvador.
As palavras vieram com o peso de uma lápide.
Mesmo ferido e sangrando no chão Erdwahn se ajoelhou. Porque a dor… era só detalhe.
A servidão — era o todo.
— Gottsohnar…
Um sussurro. Quase uma oração.
— Diga.
— Os… sentimentos que selou em mim… — a voz falhou, embargada, como um piano desafinado — Eu… achei que seriam força. Mas não. Foram minha falha!
Baixou a cabeça.
— Minha frieza me tornou cego. A negligência… nasceu da lógica. E o desespero… foi a assinatura da minha queda.
Ainda mais, até tocar os joelhos.
— Quando liberei minha essência… aquilo não foi poder. Foi colapso puro. Cada nervo… cada fibra… clamava por algo que eu não sabia nomear. Algo que eu não sabia lidar.
Seu senhor até se inclinou. Um sorriso tomou sua feição. como uma rachadura se abrindo.
— Eu pensei que tivesse feito isso pra me fortalecer!
Quase mordeu os próprios lábios. Como se já esperasse uma punição.
— Não.
— …Não?
— Não foi pra te fortalecer. Mas para que você acreditasse nas minhas palavras. Quando tu clamou por mim… Qual foi a indagação que te fiz?
— Para parar de agir como um guardião…
— Exatamente. Porque somos sombras. E sombras não renegam sua essência. Elas a vivem. Se tornam uma com ela. Quando te tornas um guerreiro imune ao medo… Tu o nega. E ao negar o medo… nega aquilo que te fortalece.
— Mas… — algo dentro dele pulsava. A matriz do que era. E aquilo batia. Em descompasso com o que via — Eu não entendo, senhor…
— Não?
E então ele se levantou.
Milênios empoeirados se moveram em cinco passos.
E sua mão… pousou.
Na face da sombra.
Gelada.
Como a mão que afaga cadáveres com carinho genuíno.
— Eu só quero que me sigan por vontade própria. Pela verdade do que eu digo. Não por medo. E muito menos por conveniência.
Pausa.
Não dramática — orgânica.
— Eu sou a verdade que vos representa. Este mundo… o Intermédio… o topo… estão todos infectados. Com um sentimento podre. Chamam de equilíbrio.
Fechou os olhos. Inspirou fundo. Como se saboreasse a própria indignação.
— Que tipo de equilíbrio é esse… em que precisamos mascarar nossos anseios pra parecer sãos?
De repente, a sombra se ergueu.
Não o tendo como rei comum.
Não como tirano.
Era algo além disso, ou abaixo.
Não pedia reverência.
Ou impunha glória por sangue ou linhagem.
Nunca governou pela doutrina do “direito”.
A casa das ideias era seu templo.
E pensamento, sua única exigência de respeito.
O outro hesitou, quase em reverência.
— Meu senhor… então, tudo correu como o esperado?
Enquanto falava, o mundo reagia. Cacos de realidade se desprendiam do teto. Estilhaços flutuantes de um plano que começava a ceder.
Acima, o ar gelou.
Não um frio comum — mas aquele que sobe a espinha dos deuses quando percebem que esqueceram de trancar uma porta.
Era o oitavo andar.
Gotejando sobre o Último.
Desfazendo, camada por camada, o que fora selado.
O selo…
Desfez-se.
Inteiro.
E com ele, um terremoto sacudiu o mundo profundo.
O selo enfim… se desfez.
E o mundo profundo tremeu.
Não apenas o chão rachando. Mas as coroas, os tronos e as doutrinas.
Um aviso direto aos demais reis.
O exilado voltou.
O mais odiado.
O inimigo do inimigo.
A exceção da exceção.
Os olhos dele brilharam.
Não de emoção.
De lembrança.
— Foi. Eu queria que temessem. Que sentissem aquela fisgada no peito… o pressentimento de uma guerra que ninguém planejou.
Pausou.
A voz rachava como concreto em uma estrutura arcaica e milenar.
Fez uma pergunta e tudo cedeu.
Querendo ver o sistema, enfim,
ter seu fim.
Quase um neo-comunista. Ou só um libertário cansado de metafísica.
No fim, tanto faz.
— E Elohim…
O nome bastou.
— Aquele maldito hipócrita. Vai sentir a minha iminência. Vou tomar o trono. Rasgar a razão que os move. E provar que tudo isso é uma grande mentira!

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