Capítulo 12 - Noite de luzes.
— Estão demorando — murmurou Piercy, olhando para a multidão em constante movimento ao redor, dançando e cantando.
— São mulheres conversando, não é surpresa — brincou Théo com um tom sarcástico na voz.
Debret riu. Um som que parecia saturado frente ao clima animado do festival que se desenrolava.
— O garoto sabe das coisas — comentou ele. — De fato, se saíram para conversar, é de se esperar que não voltem tão cedo, uma vez que duas mulheres multiplicam cada assunto por quatro homens. Três então devem falar por nove — disse e riu novamente.
Piercy deu-lhes uma visão rara em seu rosto, uma expressão emburrada, que não tardou em moldar-se novamente em um sorriso quando a provocação seguinte mudou de assunto.
— Essas pessoas não cansam de girar? Fico cansado só de olhar pra tudo isso — Théo resmungou, acenando com o rosto para todos o corpo orgânico que era o festival.
— Você sempre foi preguiçoso para essas coisas. Sempre dava desculpas para não correr nas brincadeiras quando éramos crianças. — cortou-o Eduardo em tom jocoso.
— Ah, garoto, se você estivesse com uma bela jovem enrubescida de vinho em seus braços, garanto que não ia querer parar também, apenas quando os dois caíssem em uma cama.
Piercy soltou um pequeno riso afirmativo ao ouvir isso. Os dedos acariciando um pequeno colar que havia em seu pescoço.
No entanto, o comentário pareceu pegar Théo de surpresa, demonstrando sua clara falta de experiência, o qual deu-lhe uma embaraçosa tentativa de resposta, que só fez o homem mais velho rir como uma criança que acabara de ver um amigo escorregar numa poça de lama.
Eduardo sorriu. Sabia que era verdade. Mas sua mente não pensou em Julia. Não a conhecia na época. O que fez seu sorriso minguar.
— Não é verdade, senhor Darden? — Debret olhou para o homem mais velho do grupo, que permanecia calado desde o início da conversa, como um espectro.
Os olhos vazios encararam os de Debret, e a boca enrugada de lábios secos se abriu em uma resposta curta.
— É, é sim — disse, mais soprando o ar para fora do corpo num suspiro do que falando.
A conversa entre os cinco pareceu amainar. Até que Eduardo comentasse algo vergonhoso de Théo, o qual respondeu com outra história vergonhosa como resposta, fazendo os ruídos distantes de tudo o que acontecia aos poucos serem novamente sublinhados pelo calor próximo das provocações.
Darden permanecera calado, de forma que Eduardo poderia esquecer-se de sua presença se não olhasse em sua direção.
O que não era possível.
Não conseguia ignorar o velho. Seu rosto longo marcado pelo sol, orelhas pontudas, nariz levemente achatado para um lado e a calvície em evidência no alto da testa espaçosa.
A única diferença que conseguia ver dele para o filho eram os olhos. Escuros e fitando a mesma direção o tempo todo.
Os de Chamlet olhavam para mim e para Caio ao mesmo tempo, pensou, lembrando-se do quanto tentava não encarar demais aqueles olhos vesgos toda vez que conversavam. O que era impossível.
Naquele momento, no entanto, era impossível encará-los, pois jaziam fechados para sempre.
Encontraram o corpo de Chamlet um dia após a batalha contra os ursos carmins. Fora encontrado a certa distância do lugar em que os monstros estavam, dividido em dois pelo que Eduardo ouvira falar.
Não vira o corpo. Não teve coragem. Apenas fez uma prece silenciosa em seu nome quando os mortos foram enterrados.
Darden o vira, tinha certeza. Eduardo se perguntava se era essa a imagem que aqueles olhos vazios relembravam naquele momento, enquanto vislumbravam o mundo ao redor.
Encarou-os, sentindo parte de sua tristeza, quando o velho o encarou de volta.
— Ali estão — Apontou de forma indiferente.
Eduardo olhou na direção sugerida, vendo quatro rostos familiares se aproximando. Um a mais do que os que haviam se afastado.
A pequena esposa de Piercy era escoltada por Julia e Letícia, enquanto Carmen as seguia de perto. Usava um vestido incrustado de pedras brilhantes, delineado em seu corpo, de forma que poderia atrair a atenção de alguns homens. Tal como Théo, que a encarava como se estivesse hipnotizado.
— Saudações senhores. Espero que tenham aproveitado nossa ausência — Embora mantivesse o tom animado e juvenil de menina, Núrya os comprimentou com aparente cansaço.
— Nunca podería aproveitar qualquer momento sem tua companhia — declarou Piercy, rapidamente se pondo ao lado da esposa e passando os braços ao redor de suas costas – com ambas as mãos se encaixando em seus cotovelos – de modo que pudesse apoiá-la.
Núrya não pareceu se incomodar.
— A isso não farei dúvida — disse ela, sorrindo de forma confortável enquanto fechava os olhos. Uma de suas mãos se levantou até o pescoço e agarrou algo, o que Eduardo pensou ser um colar.
Eduardo observava o belo casal quando sentiu uma mão resvalar na sua. Olhou para o lado e viu Júlia. Estava próxima. Mais do que costumeiramente se atrevia a chegar em público.
Ainda que olhasse para o chão, Eduardo viu um vestígio de timidez colorindo seu rosto.
Cedendo às vontades de seu corpo, ele passou seus braços ao redor de sua cintura e a trouxe para mais perto de si, colando lateralmente os corpos de ambos, e depois colocou o braço por cima do de seu ombro.
Julia olhou para ele com surpresa, mas não fez qualquer gesto para se afastar ou esboçou qualquer resistência ou reclamação rotineira. Juntou as mãos timidamente à frente da barriga e coçou os dedos agitados.
Eduardo permaneceu assim.
Pensou no que os outros pensariam e decidiu que não se importava com o que eles se importavam. Desejava aquilo e só isso era importante.
Debret, Letícia e Théo conversando, Piercy acariciando a barriga crescida de Núrya e falando coisas em seus ouvidos, Darden em seu silêncio mórbido, Eduardo com Julia em seus braços, sentindo o calor um do outro, e Carmen com seus olhos incômodos a fitá-los. E à volta de todos, um redemoinho de risos e música, alegria e calor, fitas e cordas coloridas a girar.
O mundo se tornou aquele instante que parecia durar para sempre.
Mas não iria. Em algum momento a música iria cessar e o riso se extinguir. O sol ia se pôr e o calor sumir. As fitas seriam tiradas e as cordas desfiadas. Aquele mundo particular acabaria e tudo se tornaria como era antes.
Eduardo sabia. Ele partiria, Julia ficaria, e ambos se separariam, e nada lhe seria mais precioso do que aquele pequeno mundo que existiu por um instante.
Sabia, mas desejava não saber.
O céu nublado começava a perder a luz quando o tempo tornou a girar.
— Tem algo acontecendo ali no meio — observou Théo, que parecia dividir sua atenção em três, alternando entre a conversa com Thierry, o movimento da festa e o chamativo vestido de Carmen.
— Verdade, o que é? — Carmen estreitou os olhos – que antes se faziam fixos em Eduardo e Julia – virando-os na direção onde uma aglomeração se formava.
— É o início da celebração da luz — explicou Debret.
— Minha parte favorita dos festivais. As chamas são tão bonitas — comentou Núrya.
— Chamas? Vamos acender velas? — perguntou Letícia.
Debret riu com um pouco de confusão no rosto. Letícia pareceu envergonhada perante isso.
— Velas não, fogueiras. Fogueiras para comemorar a cor que Ellday trouxe ao mundo — Piercy se adiantou em responder enquanto o velho homem ainda ria.
— Se hão de começar, eu hei de querer ver. Vamos, querido senhor meu marido. O calor sagrado fará bem ao nosso pequeno. E os lugares próximos a eles farão bem a meu humor.
— E por tanto ao seu, né Piercy?! — troçou Théo, arrancando outra sonora risada de Debret e recebendo um soco de Letícia no ombro.
Núrya não pareceu se incomodar com a brincadeira.
— Ouviu-o, sim? Pois vamos — declarou, se deixando ser conduzida pelo esposo, que parecia encontrar alegria em cada palavra dita até então.
Debret, Théo, Letícia e até Darden começaram a acompanhá-los lentamente, como patos seguindo a mãe.
— Vamos também? — Eduardo perguntou a Julia, antes de se mover.
Está sorriu, olhando para ele, que então percebeu o quanto seus rostos estavam próximos
— Claro, por que não?
E assim o fizeram.
Reuniram-se, junto às outras dezenas que se amontoavam formando uma meia lua em frente a grandes círculos de pedras negras com galhos no centro.
A luz esmorecia no horizonte nublado deixando para trás o breu da noite que tomava o mundo.
A música cessou.
Eduardo sentiu a multidão se amontoar ao redor. Segurou a mão de Julia, se perguntando por que as tochas não haviam sido acesas.
Ouvia vozes – dezenas – mas não distinguia nenhuma. Sabia que Debret, Piercy e Caio estavam próximos, mas não conseguia vê-los ou ouvi-los. A única certeza de que não estava sozinho naquela multidão estranha era a mão de Julia agarrada a sua.
Os sons continuaram a se misturar, até o som de um sino ecoar – alto, limpo, reverberante – então tudo silenciou-se.
Uma chama foi acesa. Era vermelha e dourada, do tamanho de pomba a princípio. Porém logo inflou, até ser capaz de engolir um homem adulto.
Momentos depois, uma segunda surgiu.
Uma fagulha azul em volta de uma tremulante chama branca, que pairava acima da pira como um fantasma a assombrar a noite. Cresceu até parear a primeira chama e então permaneceram ambas assim. Até surgir a terceira e depois a quarta.
Verde e laranja, roxo e amarelo. As duas cresceram e tremularam com um brilho frio e um ardor fervente.
Então a quinta surgiu. Porém, nela não se viu cor alguma, apenas o mais completo negrume, revelado pela luz das quatro outras.
Uma silhueta surgiu em frente a ela, então uma voz reverente foi entoada – a qual Eduardo reconheceu como sendo o pier Rosi – transpassando o silêncio anterior.
— Louvado seja a cor dos céus. Louvados sejam os inocentes réus. Louvado seja o verde dos prados. Louvados sejam os reis dourados. Louvada seja a púrpura víde. Louvado seja tudo que a alva luz atinge. Louvados sejam os que na escuridão andam. Louvado sejam os que, vermelhos, sangram. Louvado seja Ellday, que a tudo um final traz. Louvado seja a noite e seu silêncio profundo. E o amanhecer, que traz consigo o sol de um novo mundo.
A silhueta abriu os braços e as cinco piras arderam em gigantescas chamas de luz branca resplandecente, iluminando a noite como se fosse dia. As labaredas subiram até onde a turva vista de Eduardo pôde discernir até ser forçado a fechar os olhos devido a luz cegante.
Piscou, olhando para o chão e então para os lados, enquanto a visão se acostumava à claridade excêntrica daquela luz. Notou que o fogo mudara levemente de cor, ganhando um tom dourado.
Viu Júlia ao seu lado, olhando para as labaredas, como se estivesse hipnotizada. A mão ainda agarrada a sua.
A não mais de dois metros, e não menos que seis pessoas de distância, encontrou Piercy abraçando Núrya. Ambos tinham expressões contemplativas. Ambos agarravam os colares em seus pescoços. Ambos moviam os lábios da mesma forma, em uma reza silenciosa.
Théo estava às suas costas, com uma expressão a meio caminho entre o espanto e o desconforto. Letícia cobria o rosto com a mão, aparentemente protegendo os olhos da claridade.
Achou Debret, a um passo à sua esquerda. Estava de olhos fechados e movendo os lábios, como se meditasse em um transe profundo.
Procurou por Darden, mas não o viu.
Viu a Thierry e a Caio no outro lado da meia lua formada pela multidão. Um de olhos fechados. O outro parecia lutar para mantê-los abertos, cobrindo-os com as mãos
Viu a situação Alóis e a Lohan, cuja roupa chamativa parecia refletir toda luz emanada das fogueiras. Viu o prefeito e Paul, o chefe maneta dos lenhadores. Viu a dona do ateliê, e o comandante careca da guarnição do forte. Viu todos esses, que antes estavam no estrado, unidos ao corpo, de olhos fechados, rezando a mesma prece silêncio que Piercy, Núrya e Debret.
Uma prece a Ellday, pelo que tinha certeza.
Um cântico começou de algum lugar. Uma voz aguda feminina, a qual ele recordava já ter ouvido antes na capela. Não podia discernir as palavras, apenas ouvir sua melodia.
Ouviu então um resmungo e percebeu Carmen quase tão perto dele quanto Julia estava. Com uma única diferença: ela não segurava sua mão.
Um meio passo mais próximo de Julia mudou tal coisa.
A música tomou corpo, aumentando à medida que mais vozes se uniram ao redor da multidão. Diferente de antes, não havia instrumentos, então Eduardo pode compreender suas palavras, embora não recordasse bem nenhuma após as ouvir. Mas as compreendia. Compreendia tudo que poderiam significar.
Falavam sobre o outono e o verão.
A primavera e o inverno.
Sobre a luz e as sombras.
Sobre o dia e a noite.
Eram alegres como uma criança, e soturnas como um idoso.
Leves como uma pena e pesadas como uma bigorna.
Fluidas como um rio, e desastrosas como uma avalanche.
Eram o entardecer e o amanhecer.
Terminavam com um início e começavam com um fim.
Assim como a vida. Assim como aquele momento.
Que também haveria de se encerrar.

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