Índice de Capítulo

    Eugene continuou observando as duas pessoas que saíram da carruagem depois do lanceiro.

    — Aquele homem é um mago…

    Embora o clã Lionheart fosse conhecido como um clã marcial, ainda havia alguns magos entre eles. Como tinham vindo verificar tanto o empréstimo de Wynnyd quanto a situação de Eward, era natural que tivessem incluído um mago no grupo.

    — E atrás dele… Oh, céus.

    A última a sair da carruagem foi uma mulher com a jaqueta preta do uniforme cerimonial jogada sobre os ombros. Considerando que ela era a única com o uniforme desabotoado e lançado de maneira informal, enquanto os outros usavam tudo corretamente abotoado, parecia que ela era quem ocupava a posição mais alta entre eles.

    — Ela é forte.

    Mas, antes de notar qualquer outra coisa, o que chamou a atenção de Eugene foram as mãos da mulher. Apesar de estarem cobertas por luvas de couro, por causa do longo tempo que haviam sido treinadas como armas, era possível estimar a força das mãos só pelos contornos.

    — Então ela não usa espada nem lança. Luta com os punhos.

    — Já faz vinte anos? — a mulher disse, olhando diretamente para Lovellian com um sorriso alegre.

    — Para ser mais preciso, faz vinte e três — Lovellian a corrigiu.

    — Já passou tudo isso? Ah, fiquei sabendo da novidade. Você é o atual Mestre da Torre Vermelha, certo?

    — Da última vez que nos vimos, eu já havia dito que logo me tornaria o próximo Mestre da Torre Vermelha.

    — Foi mesmo? Faz tanto tempo que não lembro direito. E provavelmente nem me interessei muito, para ser sincera — disse ela, virando-se para Eugene. — Então você é Eugene Lionheart.

    — Sim, senhora — por ora, Eugene apenas inclinou a cabeça.

    — …Meu nome é… Carmen Lionheart. Tecnicamente, você poderia me chamar de tia-avó, mas não faça isso, entendeu?

    — …Ahm, sim? — Eugene respondeu hesitante após alguns segundos tentando entender o que Carmen havia dito.

    Ela tinha dito que era sua tia-avó? Isso significava que essa mulher era tia de Gilead…

    “A aparência realmente não quer dizer nada”, suspirou Eugene consigo mesmo.

    Entre os presentes, só Melkith tinha mais de sessenta anos, e Lovellian era quem mais se aproximava dela em idade. Mesmo assim, ambos aparentavam uma juventude inacreditável para suas idades, então não era surpresa que Carmen também parecesse tão jovem.

    No entanto, além da aparência, o que realmente surpreendia Eugene era o fato de alguém com tanta senioridade ter vindo até ali.

    — O vento está aumentando, por que não entramos para conversar? — sugeriu Lovellian com um sorriso.

    Eles seguiram para a sala de visitas no último andar da Torre Vermelha da Magia. No caminho, Eugene conseguiu descobrir mais algumas coisas sobre os membros dos Cavaleiros do Leão Negro que haviam chegado naquele dia.


    Carmen Lionheart, como Gion, era irmã de um Patriarca de uma geração anterior e, também como Gion, nunca se casara. Após passar bastante tempo na propriedade principal, foi transferida para os Cavaleiros do Leão Negro. Atualmente, era capitã da Terceira Divisão dos Cavaleiros do Leão Negro.

    Naishon Lionheart era o homem que havia dado um tapinha no ombro de Gion. Ele era um dos comandantes da Terceira Divisão liderada por Carmen e, em vez de pertencer à linha direta, vinha de uma das linhas colaterais.

    Falgo Lionheart era o mago. Também pertencia à Terceira Divisão. Era de um ramo especializado em magia, algo raro mesmo entre as linhas colaterais, e hoje era ele quem estava encarregado de formalizar o acordo com Melkith.


    — Embora já tenhamos negociado os termos deste acordo, permita-me confirmá-los mais uma vez — disse Falgo ao apoiar seu cajado sobre a mesa. — Este acordo envolve a Espada Tempestuosa Wynnyd, pertencente à família principal dos Lionheart, e o Manto das Sombras, pertencente à Mestre da Torre Branca. Para cada dia de empréstimo de Wynnyd, o Manto das Sombras será emprestado por um ano… Embora a condição esteja formulada assim, um dia não é exatamente a melhor unidade para essa medição, não acha?

    — E o que você propõe? — Melkith perguntou com má vontade.

    Falgo sugeriu:

    — Quinze dias por uma hora. Um mês por duas horas. Um ano por vinte e quatro horas. O que acha?

    Melkith respondeu com sarcasmo:

    — E os minutos?

    — Embora seja possível, receio que isso possa ser um pouco trabalhoso — admitiu Falgo com educação.

    — Então se eu pegar emprestado por dez minutos, você ainda vai brincar com meu Manto das Sombras por quinze dias — bufou Melkith, irritada.

    Estava claro que a condição não era nada favorável para ela.

    — Peço que entenda nossa posição — pediu Falgo. — A Espada Tempestuosa Wynnyd é uma arma usada pessoalmente por nosso ancestral e é um dos tesouros mais raros da posse do clã Lionheart.

    — Essa é a única condição inegociável? — Melkith finalmente perguntou.

    — Sim, já preparamos o contrato — disse Falgo com um sorriso astuto, tirando um contrato do bolso.

    O contrato então precisaria ser revisado, não apenas por Melkith, mas também por Eugene.

    O que estava destacado em negrito era que Melkith não tinha permissão para colocar Wynnyd em risco de destruição.

    — ‘…Se isso acontecer, você deve pagar o preço correspondente.’ Isso não é uma formulação meio vaga? — reclamou Melkith.

    Falgo explicou:

    — Só queremos deixar clara nossa intenção de que não haja incidentes.

    — Pois bem, nesse caso, gostaria de saber o que aconteceria se eu realmente destruísse Wynnyd — insistiu Melkith.

    — Então você teria que pagar com a própria vida.

    Quem respondeu foi Carmen. Em vez de se sentar na cadeira que lhe havia sido oferecida, Carmen estava sentada no parapeito da janela, olhando para fora. Era impossível associar aquela postura desleixada e irreverente com alguém que, em teoria, deveria ser a tia idosa de Gilead.

    — A Espada Tempestuosa Wynnyd é um tesouro de valor inestimável — Carmen continuou. — Se quer mesmo pegá-la emprestada, é claro que deve estar disposta a arriscar a vida.

    — Mesmo que a minha vida também tenha valor incalculável? — Melkith retrucou com desafio.

    — Embora isso possa ser verdade em Aroth, não se aplica ao clã Lionheart — respondeu Carmen com frieza, enquanto tirava um charuto enrolado do bolso.

    Ao observar Carmen mastigando o charuto e olhando pela janela, Eugene balançou a cabeça.

    “E ela nem é mais adolescente.”

    O jeito afetado daquela fanfarrona lembrou Eugene de Cyan há alguns anos. Sua irmã gêmea, Ciel, só começara a dar sinais da puberdade naquele ano, mas Cyan já demonstrava isso desde os quinze, quando passou a gostar de usar roupas pretas que arrumava sabe-se lá como. Também tentara começar a beber e fumar, roubando bebidas e cigarros dos empregados, até ser duramente repreendido por Ancilla.

    — E o que vai fazer se eu disser que não vou pagar com a vida? — desafiou Melkith.

    — Ora, ora, não há necessidade de sacrificar a vida de ninguém — Falgo interveio, tentando manter um sorriso vacilante. — Tenho fé na Mestre da Torre Branca. Também a respeito como colega maga. Não acredito de verdade que cometeria o erro grosseiro de destruir o catalisador ao tentar firmar um contrato com o espírito.

    — …Hmph — Melkith bufou, ainda contrariada.

    — De todo modo… se Wynnyd for destruída, voltaremos a discutir o assunto naquele momento — Falgo tentou apaziguar.

    — Mas o que está dizendo é que ainda assim será o clã Lionheart quem decidirá, certo? — Melkith não cedeu.

    — Se não gostar, então desista de pegar Wynnyd emprestada — disse Carmen, sem tirar os olhos da janela enquanto mastigava o charuto. Apesar de estar com ele na boca há um bom tempo, ainda não o havia acendido. — Na verdade, ninguém do lado Lionheart está desesperado por esse acordo. Se o Patriarca não tivesse pedido pessoalmente, eu nem teria vindo.

    — Hmph, se alguém ouvisse isso, pensaria que você veio até aqui por minha causa — Melkith comentou com malícia.

    — É claro que vim por um assunto verdadeiramente importante, não por essa trivialidade — murmurou Carmen, tirando um relógio de bolso do colete.

    Pensar que ela carregava um relógio de bolso… Eugene quase não conseguiu conter a risada. Era a primeira vez que via alguém andar com um relógio tão pesado e desconfortável no bolso do colete.

    — Se vai carregar um relógio de bolso, por que está usando um de pulso também? — diferente de Eugene, que conteve o comentário, Melkith perguntou sem hesitação. — E por que continua mastigando um charuto que nem acendeu?

    — …Tenho um encontro na Torre Negra da Magia daqui a uma hora — disse Carmen, recusando-se a responder aos comentários de Melkith. — Preciso conversar com Balzac Ludbeth sobre o incidente com Eward. E depois disso, vou acompanhá-lo até a prisão de Aroth.

    — Por que ir até a prisão? — perguntou Melkith.

    — Para interrogar o bruxo atrevido que ousou ensinar magia negra ao filho mais velho do clã Lionheart.

    Essas palavras iam na contramão do que Gilead havia dito. Ele havia afirmado que deixaria a lei de Aroth prevalecer no julgamento de Gavid.

    — …Parece um pouco diferente da decisão de Gilead — até mesmo Lovellian não pôde deixar isso passar.

    Ele era amigo de longa data de Gilead e simpatizava com o clã Lionheart. Mesmo assim, era o Mestre da Torre Vermelha de Aroth. Não podia simplesmente ignorar o fato de um clã poderoso estrangeiro falar abertamente em ignorar as leis do reino.

    — Embora o Patriarca tenha tomado sua decisão, o Conselho chegou a outra — declarou Carmen com um sorriso torto, encarando Lovellian. — O nome do clã Lionheart foi manchado por causa do incidente. A pessoa que causou essa mancha precisa ser responsabilizada. Já obtive permissão da família real e do parlamento de Aroth. Em vez de ficarmos nos atacando por causa disso, não seria muito mais limpo nos deixarem interrogar e punir o culpado?

    — Claro que não é limpo — Lovellian ainda protestou.

    — Parece que está entendendo errado. O Conselho não tem a intenção de usar o nome Lionheart como alavanca nesse caso. Como foi o filho mais velho do clã quem se envolveu, já decidimos mostrar a devida consideração a Aroth. Além disso, a vida daquele pecador não vale nada.

    Diante de tudo aquilo, Lovellian já não podia mais contestar. Pesquisas mágicas exigiam muito dinheiro. Por isso, cobravam-se taxas turísticas elevadas nos pontos turísticos da capital, Pentágono.

    Além disso, a maioria dos magos não lucrava com a aplicação prática das magias que estudava, preferindo se trancar em laboratórios. Lovellian não sabia quanto o clã Lionheart havia pago pelo direito de interrogar e punir o criminoso, mas… o Conselho certamente havia recebido um suborno alto o suficiente para que ninguém se opusesse.

    — Sendo assim, o que vai fazer? — perguntou Carmen. — Vai aceitar o acordo? Não tenho muito tempo, então responda logo.

    — Eu aceito — respondeu Melkith com uma carranca, embora pensasse: “Então querem fazer por horas, e não por dias? Melhor para mim, já que três horas devem ser mais do que suficientes.”

    Graças a essa condição, por mais longo que parecesse, ela conseguiria o Manto das Sombras de volta em menos de dois meses.

    Ao assinar o contrato, Melkith precisou conter a vontade de cair na risada.

    Um pequeno gesto, um grande impacto!

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