Capítulo 113: O Conto de Fadas (5/6)
Naquela época, os cavaleiros ainda acreditavam em sua própria grandeza. Quando Molon se postou diante dos soldados, os cavaleiros foram até Vermouth. Apresentando-se como cavaleiros da rosa-tal e do seixo-tal1, continuaram recitando os nomes de ordens de cavalaria que ninguém se importaria em lembrar. O que esses idiotas basicamente queriam dizer com tudo isso era…
— Vamos lutar juntos.
Mas o que exatamente queriam dizer com ‘lutar juntos’? Mesmo que todos avançassem juntos, seria difícil cortarem até mesmo um dos dedos do pé de Kamash. E dizer que iriam lutar ao lado de Vermouth era só jogo de cena. O que realmente queriam era ter seus nomes registrados na lenda de Vermouth, para que suas reputações fossem lembradas pelas gerações futuras.
Além disso, Vermouth não gostava de lutar com esse tipo de grupo. Sabia muito bem que, se combatesse ao lado daqueles cavaleiros, eles só serviriam de peso morto ou, na melhor das hipóteses, de escudo de carne.
Esse era o Grande Vermouth. Havia apenas um homem que podia lutar ao lado daquele monstro inumano, e ele era o único em quem Vermouth podia confiar naquele campo de batalha.
— Hamel.
— É. O quê?
O Idiota do Hamel.
— O braço esquerdo. Consegue?
— Eu prefiro o direito. Aquele desgraçado do Kamash não é destro?
— Nesse caso, pode pegar o direito.
— Por que a gente precisa dividir braço esquerdo e braço direito? Eu resolvo na hora.
Isso é… bom… é difícil de explicar. Talvez vocês, leitores, não percebam, mas me levou várias tentativas até conseguir escrever isso, sabiam? Mas se chegaram até aqui, já devem ter notado. Eu não sou muito bom escrevendo histórias. Só escrevo o que me vem à cabeça.
De qualquer forma, foi uma luta inacreditável. Kamash era alto como uma montanha. Já Vermouth e Hamel, bem… embora não fossem tão imensos quanto Molon, ainda assim eram altos e bem constituídos, mas, mesmo assim, não havia comparação possível com Kamash.
No entanto, Kamash não conseguiu avançar mais. Quando tentou dar outro passo, Hamel atacou seu tornozelo com um machado. Quando Kamash tentou desferir um golpe contra o inseto, Hamel cortou seu braço com uma espada. Quando Kamash lançou um soco, a lança de Hamel perfurou seu punho.
Então, Vermouth rasgou sua garganta.
Mas não foi tão simples quanto o livro fazia parecer. Confiando na bênção de Anise, Hamel se lançou para enfrentar Kamash. Sempre que a coisa apertava, Sienna interferia com magia, e então Vermouth aparava o golpe. Sem a ajuda da luz da Espada Sagrada e o apoio de Vermouth, Hamel jamais teria conseguido bloquear Kamash sozinho.
Apenas a Espada Sagrada podia pôr fim a Kamash, que estava envolto no poder dos Reis Demônio. Mas como a Espada Sagrada reconhecia apenas Vermouth como mestre, o único que pôde matar Kamash foi Vermouth.
Com a garganta aberta de forma limpa, o sangue que jorrou de Kamash lavou as planícies. Parecia como se o leito de um rio tivesse se rompido.
Embora Kamash tivesse morrido, os gigantes não se renderam. Ainda assim, a situação ficou mais controlável do que no início. A bênção dos Reis Demônio se dissipara com a morte de Kamash, e a bela magia da bela Sienna pôde mostrar todo o seu poder.
Foi aí que Eugene teve uma sensação: “Ou Sienna ou Anise escreveu esse livro.”
Claro, o autor desse conto clássico era desconhecido, mas ao ler, Eugene percebeu uma coisa.
A Sábia Sienna e a Fiel Anise. Esses eram os epítetos tradicionais.
Mas nesta primeira edição do conto de fadas, havia todo tipo de adjetivo colado aos nomes de Sienna e Anise. Bela Sienna. Elegante Anise. Fofa Sienna. Doce Anise. Encantadora Sienna. Sedutora Anise.
“Que diabos essas duas vacas estavam tramando?”
Por outro lado, Molon e Hamel eram constantemente humilhados. Molon Idiota. Hamel Desgraçado. Molon Estúpido. Hamel Filho-da-Puta. Molon Barulhento. Hamel Boca-Suja.
Talvez por não conseguirem pensar em nenhum outro título para Vermouth, do começo ao fim, sempre que ele aparecia, era descrito apenas como o Grande Vermouth.
Mas não era só questão dos títulos. Embora essa primeira edição fosse incomparavelmente mais agressiva em seu tom, o conteúdo era extremamente detalhado. Não era apenas a batalha contra Kamash e os gigantes, os diversos eventos que enfrentaram em Helmuth também eram descritos com bastante profundidade.
O autor desse conto de fadas, publicado trezentos anos atrás, era especulado como sendo um bardo experiente, alguém acostumado a recolher rumores e transformá-los em canções.
No entanto, depois de ter lido essa primeira edição por si mesmo, Eugene tinha certeza de que o autor do livro não era nada parecido com um bardo. O modo como os relacionamentos entre os personagens eram retratados era real demais para algo supostamente escrito por um bardo.
“É exatamente como eu me lembro.”
Sienna e Anise se davam bem. Segundo o que Mer havia dito, Sienna costumava descrever Anise como uma mulher traiçoeira como uma cobra. Essa avaliação não o surpreendera nem um pouco. Durante as viagens, Sienna chamava Anise de ‘vaca serpente’ na cara dela com frequência.
Como se davam tão bem… era possível que as duas tivessem escrito esse conto de fadas juntas. Se esse fosse o caso, fazia sentido terem usado termos absurdos como ‘bela’ ou ‘elegante’ uma para descrever a outra.
“Ou então, uma das duas escreveu tudo e tentou mascarar qual das duas foi, escrevendo desse jeito…”
Será que foi Sienna? Ou teria sido Anise? Eugene ficou pensativo por alguns instantes. Surpreendentemente… as duas tinham personalidades podres, então ele conseguia imaginar qualquer uma delas aprontando esse tipo de palhaçada.
“Ainda assim, não foram descaradas demais nessas descrições?”
— Isso não foi escrito pela Dama Sienna? — Eugene perguntou a Mer, em vez de continuar especulando sozinho.
Afinal, ele tinha consigo uma familiar que acompanhara Sienna centenas de anos atrás.
— Não diga uma coisa dessas — respondeu Mer, que estava lendo um livro de magia, com uma expressão de nojo. — Por que a Dama Sienna escreveria algo assim?
— Não, é que… Enquanto eu lia, reparei em vários adjetivos usados para descrever a Sienna em particular… — Eugene tentou se explicar.
— Está falando dos que a chamam de bela, fofa e adorável? Francamente… Você realmente acredita que a Dama Sienna escreveria isso sobre si mesma? — perguntou Mer, com ceticismo.
— …Hm… — Eugene hesitou.
— Não insulte a Dama Sienna assim. A menos que seja maluco, quem colocaria esse tipo de adjetivo na frente do próprio nome em uma história que escreveu à mão? — exigiu Mer.
— …Ummm… — Eugene conteve a vontade de se defender.
— Mesmo sendo você, Sir Eugene, eu não vou perdoá-lo se insultar a Dama Sienna — disse Mer, erguendo os punhos cerrados.
Diante daquela reação agressiva, Eugene apenas continuou folheando o conto de fadas, sem fazer mais perguntas.
— Sienna. Sempre gostei de você.
“Por que essa parte é igual às versões revisadas?”
Não havia chance de Sienna ter escrito aquilo.
- O texto coreano diz ‘…como cavaleiros da bosta-de-cachorro e do coco-de-cavalo e do rabo-de-rato…’; isso é uma forma de dizer que as coisas são similares, tudo farinha do mesmo saco, seis por meia dúzia.[↩]

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