Capítulo 28 | Segredos dos Mortos.
Em meio aos abraços e às lágrimas silenciosas, três figuras inquietas caminhavam pela mina para um dos túneis.
A resposta incompleta da garota lançou um fio de dúvida na mente já conflituosa de Hermes. Sem uma palavra, ele a seguiu, afastando-se do calor da celebração e mergulhando de volta na frieza dos túneis. Teseu, vendo os dois se afastarem, os seguiu a uma distância respeitosa, sua expressão uma mistura de curiosidade e preocupação.
Ágatha os guiou pelas rampas até um pequeno túnel lateral, um recesso que mal comportava três pessoas. O ar ali era diferente. Não cheirava apenas a carvão e umidade, mas a algo mais, um odor adocicado e rançoso que Hermes conhecia bem. O cheiro de carne doente, de infecção.
Acostumando-se à penumbra da caverna, os olhos de Hermes se arregalaram.
Sêneca estava deitado sobre uma esteira de palha suja. Seu rosto, normalmente uma serenidade, estava contraído de dor, mesmo em sua inconsciência. A pele tinha um tom acinzentado, e uma camada de suor frio cobria sua testa. Mas o pior era o seu braço esquerdo. Estava envolto em trapos sujos, mas mesmo assim, era possível ver o inchaço grotesco que subia do pulso até o ombro. Veias escuras e grossas se espalhavam sob a pele como os galhos de uma árvore morta, e a área ao redor dos panos tinha uma coloração púrpura e doentia.

— Ele perdeu dois dedos há alguns dias… um acidente com uma pedra. — Ágatha explicou, as lágrimas brotando em seus olhos. — A ferida… ela não parecia tão ruim no início. Mas ele continuou trabalhando. E o pó, a sujeira… ela infeccionou. Ele está queimando em febre desde ontem.
Hermes se ajoelhou ao lado de Sêneca, seu rosto uma máscara impenetrável. Ele tocou a testa do filósofo. Estava ardendo. Com um movimento cuidadoso, ele começou a desenrolar os trapos do braço do homem. Ágatha soltou um gemido abafado ao ver a ferida exposta. Era pior do que imaginavam. A carne ao redor da mão mutilada estava negra, necrótica, e o pus escorria de feridas abertas ao longo de todo o antebraço. A infecção já se espalhara por todo o membro, uma maré de podridão subindo em direção ao coração.
Hermes olhou para o braço, depois para o rosto febril de Sêneca. Sua avaliação foi instantânea, fria e pragmática.
— Este braço está perdido. — Ele disse, sua voz desprovida de emoção. — A infecção vai matá-lo se não for removida. Precisamos arrancá-lo.
— Não! — O grito de Ágatha foi agudo e feroz. Ela se jogou na frente de Sêneca, como se pudesse protegê-lo com seu próprio corpo. — Você não vai tocá-lo! Não pode!
— Garota, escute. — Hermes a encarou, seus olhos dourados duros como pedra. — Não há outra escolha. É o braço ou a vida dele. É uma lógica simples.
— Não é lógica! É crueldade! — Ela chorou, as lágrimas agora escorrendo livremente. — Ele já sofreu tanto… Perder um braço pode matá-lo. Não vou deixar que você o mutile! Deve haver outro jeito!
— Não há.
O impasse tenso foi quebrado por Sêneca. Seus olhos se abriram, turvos e desfocados pela febre. Ele piscou algumas vezes, tentando focar nos rostos acima dele. Um sorriso fraco e febril tocou seus lábios.
— Ágatha… Hermes… — sua voz era um sussurro áspero. — Por que… por que vocês voltaram? Deviam ter… fugido…
Sua cabeça pendeu para o lado, e ele voltou a mergulhar na inconsciência de seus delírios. Suas palavras, no entanto, pairaram no ar, um testamento de sua natureza altruísta que apenas aumentou a angústia de Ágatha.
Foi nesse momento que outras figuras apareceram na entrada do túnel. Eram Theo, Lycomedes e Callisto. Eles haviam visto o grupo se afastar e os seguiram. Seus rostos, antes marcados pela exaustão da vitória, agora se tornaram sombrios ao verem a cena.
Theo foi o primeiro a falar, sua voz grave um contraponto à tensão. — Hermes. Precisamos lidar com os corpos dos guardas que você matou na floresta. Não é seguro deixá-los lá.
Mas seu olhar caiu sobre Sêneca, e sua voz vacilou. Callisto, que tinha algum conhecimento de curas e partos, e também de caça, se aproximou e examinou o braço doente. Seu rosto se tornou pálido.
— Pelos deuses… — ela sussurrou. — A podridão já está no sangue. Ele não tem muito tempo. Sem um milagre, apenas cortando o membro…
— Não haverá milagres. — Hermes afirmou, seus olhos ainda fixos em Ágatha.
— Talvez não. — A voz de Lycomedes, o homem mais velho e calmo, interveio. — Mas podem haver ervas. O Arconte Dídimo… homens ricos como ele não viajam sem remédios. Bálsamos, ervas para febre, bandagens limpas. Deve haver algo nas carroças dele, em seus pertences. É uma chance pequena, mas é uma chance.
Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. A sugestão de Lycomedes era uma linha fina de esperança em um oceano de desespero. Todos olharam para Hermes, esperando sua decisão. Ele era o líder agora. Sua palavra era a lei.
Hermes pensou por um longo momento. Ele olhou para o rosto desafiador e choroso de Ágatha, para o corpo febril de Sêneca, para a lógica pragmática de Callisto e para a esperança cautelosa de Lycomedes. Arrancar o braço era a solução mais certa. Mas talvez… talvez a lógica dos mortais merecesse uma chance.
— Certo. — Ele finalmente disse, sua voz um comando. — Theo, organize os homens. Encontrem um lugar bom para o descarte. — Seu tom era o de um homem que falava sobre lixo. — Lycomedes, Callisto, fiquem com Sêneca. Façam o que puderem para baixar a febre.
Ele se virou para Teseu, que havia permanecido em silêncio, absorvendo tudo.
— Eu vou! — Teseu se ofereceu de imediato, seu rosto ansioso para ajudar.
A resposta de Hermes foi um aceno com a cabeça.
Ele se virou, saindo do túnel sem olhar para trás. Os dois começaram a caminhada de volta em direção às carroças silenciosas que continham os segredos de um homem morto e, talvez, a única esperança de salvação para um amigo moribundo.
A caminhada de volta pelo pátio da mina foi uma jornada através de um cemitério recém-consagrado. O ar da manhã, que deveria ser puro e fresco, estava impregnado com o cheiro metálico de sangue e o odor acre da morte.
Corpos de guardas e rebeldes jaziam onde haviam caído, suas armaduras e trapos criando uma tapeçaria grotesca de violência. Teseu desviava o olhar, seu rosto pálido e nauseado, mas Hermes parecia não notar a carnificina. Sua mente estava em outro lugar.
À medida que passavam pelos corpos dos soldados que ele mesmo matara na floresta na noite anterior, uma sensação estranha começou a se insinuar em seus sentidos. Não era remorso, nem satisfação. Parecia uma ressonância. Como se a morte em massa ao seu redor tivesse despertado algo, e esse algo agora o chamava. Uma convocação silenciosa, um puxão em sua alma que parecia emanar da pequena e pesada moeda de metal escuro em seu bolso.
Ele parou. Seus olhos dourados varreram o campo e se fixaram em um ponto específico, a alguns metros de distância, perto da carroça onde a emboscada havia começado. O corpo colossal de Gérion.
O chamado se intensificou, uma curiosidade mórbida e não natural que o compelia a se aproximar.
— Hermes? O que foi? — A voz de Teseu o tirou de seu transe. O garoto o olhava com dúvida. — As ervas… estão nas carroças.
— Há algo de estranho aqui. — Hermes respondeu, sua voz distante, enquanto seus pés o levavam, quase contra sua vontade, em direção ao cadáver do ogro.
Ele parou em frente ao corpo mutilado de seu antigo algoz. Gérion, em morte, parecia menor, sua monstruosidade esvaziada de poder, deixando apenas uma carcaça patética. Mas a sensação, o chamado, era mais forte do que nunca. Com uma hesitação que não era de medo, mas de cautela, Hermes tirou a moeda de Tânatos de onde a havia guardado.
A pequena peça de metal parecia pulsar em sua mão, fria e vibrante. Ele a ergueu na palma da mão, na altura do rosto, e a estendeu em direção ao corpo do gigante no chão.
A reação foi instantânea e horrível.
O cadáver de Gérion, que estivera imóvel, começou a tremer violentamente. Seus membros se contraíram em espasmos grotescos. Seus olhos, antes abertos e vazios, reviraram-se nas órbitas e começaram a chorar um sangue espesso e escuro. O mesmo sangue começou a escorrer de seus ouvidos, narinas e de sua boca aberta em um grito silencioso.
— Pelos deuses! — Teseu gritou, recuando com o rosto em puro terror.
Então, uma fumaça etérea, de um verde doentio, começou a escapar da boca de Gérion. Não se dissipou no ar da manhã. Em vez disso, formou uma serpente de névoa que se moveu com uma velocidade assustadora em direção a Hermes. Por puro reflexo, ele soltou a moeda, que caiu na poeira com um baque surdo. A fumaça verde não o atingiu. Ela envolveu a moeda caída, girando em torno dela em um vórtice apertado, antes de ser sugada para dentro do metal escuro, desaparecendo por completo.
Um silêncio pesado caiu sobre a cena. O corpo de Gérion estava imóvel novamente, mas agora parecia… vazio. Oco. Como se a última fagulha de sua essência maligna tivesse sido arrancada.
— Não toque nisso! — Teseu advertiu, sua voz trêmula, enquanto Hermes se abaixava para pegar a moeda.
Hermes ignorou o aviso. Ao pegá-la, sentiu uma diferença imediata. A moeda estava muito mais pesada em sua mão. E o frio… o frio era mais intenso, mais profundo, um frio que parecia queimar sua pele. Ele a guardou novamente, seu rosto uma máscara de profunda e sombria ponderação.
— Vá até a carroça da frente. — Hermes disse a Teseu, sua voz firme, quebrando o silêncio. — Procure pelas ervas entre as bolsas e os pertences de Dídimo.
— E você? — Teseu perguntou, desconfiado.
— Eu tenho que ver algo na carroça com os corpos. — Hermes olhou para a carroça de onde havia saído para emboscar Gérion. — Logo me juntarei a vocês nas minas.
— Não. — A recusa de Teseu foi surpreendentemente firme. — Eu não vou te deixar sozinho para mexer com… com essas coisas estranhas. O que quer que esteja acontecendo, eu vou ficar.
Hermes o encarou por um momento, vendo a teimosia e a lealdade nos olhos do garoto. Ele suspirou, uma ponta de irritação misturada com um respeito relutante. — Que seja. Reze para os deuses que você não acredita, garoto. Porque o que vem a seguir não pertence a eles.
Teseu engoliu em seco, a memória da noite com o monstro lobo vindo à sua mente. Ele se perguntou, preocupado, o que poderia ser pior do que aquilo.
Eles se aproximaram da carroça onde jaziam os corpos dos mercadores e do Arconte Dídimo. O cheiro era insuportável, e um enxame de moscas zumbiam em um frenesi em torno dos cadáveres.
— Estamos lidando com forças muito maiores do que eu imaginava, Teseu. — Hermes disse, sua voz baixa e grave, enquanto se aproximava do corpo de Dídimo.
Ele tirou a moeda de Tânatos do bolso mais uma vez. Ao aproximá-la do corpo do nobre, a sensação de frio se tornou uma dor lancinante, como se segurasse um pedaço de gelo do próprio Cócito1.
A moeda estava prestes a queimar sua mão de tão gelada, algo vinha dela, uma vibração que o dizia, que o fazia saber exatamente o que fazer. Sem mais hesitação, ele a pressionou contra a testa do cadáver.
O metal escuro não apenas tocou a pele. Ele afundou, como se a carne fosse feita de cera mole, cravando-se na testa do nobre morto.
No mesmo instante, veias negras como piche se espalharam a partir da moeda, serpenteando pelo rosto pálido e pelo pescoço de Dídimo, como raios de uma tempestade sombria. Seus olhos, antes fechados na paz da morte, se abriram de repente. Não havia vida neles. Apenas um brilho necrótico, verde e profundo, a mesma luz doentia que emanava da moeda.
A cabeça do nobre morto começou a tremer, balançar, como se quisesse se descolar de seu corpo e então, em um tranco, o topo de seu pescoço girou de maneira não natural, torcendo-se. O rosto jazia invertido, a moeda que estava a testa agora no lugar do queixo.

Hermes deu alguns passos para trás, Teseu fazendo o mesmo, o terror o paralisando.
Então, o corpo do nobre começou a se mover. Ele não se sentou. Ele levitou. O tronco do cadáver se ergueu do chão da carroça, flutuando a meio metro no ar, como se uma corda invisível o estivesse puxando para cima pelo peito. Seus braços e pernas pendiam, inertes. E sua boca, com o movimento, se abriu, revelando, do fundo de sua garganta, o mesmo brilho verde estranho e sobrenatural que agora queimava em seus olhos.
O cadáver flutuava no ar, um fantoche grotesco em uma peça de teatro cósmica, e o capítulo terminava ali, no silêncio aterrorizado de um deus caído e um garoto mortal diante do poder profano que haviam acabado de despertar.
- Na mitologia grega, é um rio do submundo, também conhecido como o “rio das lamentações”[↩]
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