Capítulo 36 | Sobre a Bruxa.
O silêncio na viela era uma lâmina. Os dois homens permaneciam congelados, a um fôlego da morte mútua. A ponta da faca de Magno, firme e fria, beijava a jugular de Hermes. A ponta da xiphos de Hermes, igualmente imóvel, prometia perfurar o coração do ladrão. O tempo pareceu parar, esticado em um instante de tensão absoluta.
“Como as coisas acabaram assim” Hermes refletiu, lembrando-se do desenrolar dos eventos que o trouxeram até essa posição maldita.
…………
— E agora? O que faremos? — A voz de Ágatha ecoou na viela escura, chorosa.
Teseu a confortou com a mão no ombro. Hermes estava quieto, sentado no assento da frente da carroça pensando com os dedos das mãos emaranhados na frente do rosto. Planejando seu próximo passo.
A noite já estava para chegar e o tempo de Sêneca estava se esvaindo como numa goteira. Agora, sem as ervas, a vazão deste recurso se tornara ainda maior. Ele olhou em volta, a sujeira na viela, as pessoas que passavam de um lado para o outro mais à frente, se preparando para ir para casa.
Os dois mais atrás, na carroça, conversavam em um tom que aos poucos se tornava um zumzumzum irritante na cabeça de Hermes que ainda buscava uma resposta. Teseu tentava com uma tranquilidade louvável acalmar Ágatha e dizer que eles ainda tinham chances.
Hermes se levantou, o céu brilhando num laranja que aos poucos se arroxeava. Ele pulou da carroça com uma rispidez e barulho que assustou os dois que conversavam na parte de trás. Eles olharam com atenção e Hermes se virou, ajeitando a couraça no corpo e a xiphos na cintura.
— Fiquem aqui e cuidem do velho, eu vou dar uma volta. — Ele falou, impessoal e se virou para sair.
— Onde você vai? — A voz de Ágatha soou preocupada, ainda chorosa.
— Talvez à noite seja mais fácil encontrar alguém disposto a responder às minhas perguntas. — Ele afirmou ainda no tom impessoal, a mão apoiada no cabo da espada, saindo da viela.
A resposta, aparentemente inofensiva para os dois que ficavam, tinha, na verdade, um significado bem distinto na mente do homem que se afastava. A noite seria longa, para ele e para quem quer que ele encontrasse.
…………
Foi Magno quem quebrou o feitiço. O choque em seu rosto, ao ver a aparência sobrenatural de Hermes sob a luz da lua, deu lugar a um sorriso lento, astuto, como o de uma raposa que descobre que sua presa não é um coelho, mas algo muito mais raro e perigoso.
— Ora, ora… — Magno sussurrou, a voz cheia de uma nova e perigosa curiosidade. — Parece que nós dois temos perguntas que precisam de respostas, não é mesmo, forasteiro?
Hermes não respondeu, mas seus olhos dourados se estreitaram, avaliando, calculando.
— Proponho uma trégua. — Magno disse, sem mover a faca um milímetro. — Abaixamos nossas armas ao mesmo tempo. Na contagem de três. A não ser que você prefira que esta viela amanheça com dois cadáveres a mais. Não que a cidade fosse sentir a minha falta… ou a sua.
Hermes ponderou por um segundo. Ele viu nos olhos do ladrão não apenas a ameaça, mas uma inteligência afiada. Ele acenou com a cabeça, um movimento quase imperceptível.
— Certo. — Magno limpou a garganta. — Um… dois… três!
…
Nada aconteceu.
Os dois homens permaneceram imóveis, congelados na mesma posição, cada um esperando que o outro se movesse primeiro. A ponta da faca ainda mirava a jugular. A ponta da xiphos ainda ameaçava o coração. Eles se encararam, e a tensão mortal da cena foi subitamente tingida por uma camada de absurdo teimoso.
Magno revirou os olhos, soltando um suspiro irritado que formou uma pequena nuvem de vapor no ar frio da noite.
— Certo, seu desconfiado. De novo. — Ele disse, a voz agora menos ameaçadora e mais exasperada. — E desta vez é pra valer, ou vamos ficar aqui até o sol nascer parecendo dois idiotas com lâminas um na garganta do outro?
Hermes deu um leve de ombros, um gesto que dizia “Tanto faz”.
— Ótimo. Vamos lá… Um… dois… TRÊS!
…
Novamente, silêncio absoluto. Nenhum dos dois se moveu. Eles continuaram se encarando, a desconfiança mútua era uma parede invisível e impenetrável entre eles.
Foi Magno quem quebrou. Ele soltou uma gargalhada baixa e rouca, uma risada de pura frustração.
— Ah, pelos deuses, desisto! — Ele exclamou, relaxando sua postura e abaixando a faca em um gesto de rendição teatral. — Você é inacreditável! Olha, no três você pula pra trás, tá certo?
Hermes acenou positivamente, sem vacilar no olhar.
— Um… Dois… Três!
Simultaneamente, como dois dançarinos ensaiados, eles recuaram um passo, as lâminas se afastando da carne. Lentamente, e com os olhos ainda fixos em Hermes, ele guardou a faca secreta de volta na faixa de sua cintura. Hermes, com mais calma, embainhou sua xiphos. A tensão mortal se dissipou, mas foi substituída por uma desconfiança pesada.
— Você luta bem… para um meteco. — Magno disse, esfregando o pulso que Hermes havia atingido. — Mas não é um lutador. Não um comum. Quem é você e o que estava fazendo com aquele informante no beco?
— Ele não era um informante. Era um ladrão. — Hermes respondeu, sua voz fria. — E eu estava apenas recuperando o que ele me roubou.
— Aquele cara? Te roubar? Ha! — Magno riu, um som seco e sem alegria. — Um homem com uma espada como a sua e olhos como os seus não perde tanto pra tão pouco. Você está procurando algo. Algo que fez aquele homem correr com o terror estampado no rosto.
Hermes o encarou. O ladrão era mais perspicaz do que ele imaginava.
— Eu estou procurando por uma mulher. Uma curandeira. — Ele decidiu jogar uma isca.
— Uma curandeira? — Magno repetiu, cético. — E você acha que a encontrará intimidando os ladrões da cidade?
— Eu acho que, em uma cidade que teme até mesmo sussurrar um nome, são os ladrões e as sombras que guardam as respostas. — Hermes retrucou.
O sorriso de Magno vacilou. Ele deu um passo mais perto, seu olhar se tornando sério. — Crianças têm desaparecido nesta cidade, forasteiro. Crianças que estão sob a minha proteção. Elas somem durante a noite, sem deixar rastros. E então, um estranho poderoso com olhos de ouro aparece fazendo perguntas e aterrorizando as pessoas nos becos. Perdoe-me se não confio em suas intenções.
Hermes sentiu uma pontada de irritação. Ser confundido com um sequestrador de crianças era um novo tipo de humilhação.
— O destino de suas crianças não me interessa. — Ele disse, a frieza em sua voz cortante. — A pessoa que eu procuro pode ajudar um amigo meu que está morrendo. O nome dela é Circe.
Ao ouvir o nome, a expressão de Magno mudou. A suspeita deu lugar a um reconhecimento surpreso, e depois a um cálculo rápido.
— A bruxa da floresta… — ele murmurou para si mesmo. Então, seus olhos se fixaram em Hermes. — Você tem péssimas companhias, forasteiro. E péssimos objetivos. Por que eu deveria te ajudar a encontrar a mulher que provavelmente está amaldiçoando esta cidade?
— Porque você também tem perguntas. — Hermes deu um passo à frente, invertendo a pressão. — Você procura suas crianças. Eu procuro uma cura. Acha mesmo que os guardas do Arconte ou os mercadores ricos desta cidade sabem de alguma coisa? Não. As respostas para segredos sombrios estão com pessoas que entendem a escuridão. Alguém com os poderes que atribuem a ela… alguém como Circe… certamente seria capaz de encontrar as respostas que você busca.
Magno o encarou, a engrenagem de sua mente girando. O forasteiro tinha um ponto. Ele havia esgotado todas as suas pistas. Talvez… talvez uma bruxa fosse exatamente o que ele precisava.
— E o que diabos eu ganharia com isso? — Magno perguntou, testando-o. — Eu te digo onde encontrar a bruxa, e você desaparece com a sua cura, me deixando de mãos vazias.
— Eu te ajudo. — Hermes ofereceu. — Eu encontro a sua curandeira e salvo o meu amigo. E então, eu uso minhas… habilidades… para descobrir o que aconteceu com suas crianças.
O acordo pairou no ar, uma aliança improvável forjada na necessidade mútua. Magno ponderou, seu olhar astuto avaliando Hermes da cabeça aos pés.
— Certo. — Ele finalmente disse. — Temos um acordo. Mas não aqui. Encontre-me amanhã, ao meio-dia, no portão leste. Levarei um guia. Ele sabe onde a bruxa se esconde.
Hermes acenou com a cabeça. Quando ele começou a se virar para sair, a voz de Magno o parou.
— Espere, forasteiro.
Magno enfiou a mão em sua túnica e tirou um pequeno saco de lona. Ele o jogou para Hermes.
— A propósito… acho que isso é seu. Um presente de boas-vindas a Therma. E uma espécie de saudação. Meu nome é Magno.
Hermes pegou o saco no ar. Eram as ervas de Sêneca. Ele olhou para Magno, e um sorriso genuíno, o primeiro daquela noite, tocou seus lábios. Uma ousadia divertida.
— Agradeço a hospitalidade. — Hermes disse. — E peço que espere um pouco também.
Com um movimento rápido de pulso, ele arremessou outra bolsa na direção de Magno. Esta era de couro, mais pesada, e tilintou ao ser pega.
— Considere uma forma de retribuir o favor. Eu sou Hermes.
Magno olhou para a bolsa em sua mão, confuso. Então, ele a reconheceu. Era a sua própria bolsa de moedas. Instintivamente, sua mão foi para a cintura. O lugar estava vazio. Ele não havia percebido. Não havia sentido nada. Ele levantou a cabeça, o choque e uma admiração relutante estampados em seu rosto, pronto para perguntar como aquele homem havia feito aquilo.
Mas a viela estava vazia. Hermes havia desaparecido nas sombras, tão silenciosamente quanto surgira.
Magno ficou sozinho sob a lua, segurando sua bolsa de moedas, e soltou uma gargalhada baixa e rouca. Aquela cidade havia acabado de ficar muito mais interessante.

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