Capítulo 40 | De Volta a Therma
A carroça rangia, um som monótono e constante que ecoava pela estrada de terra, engolida pela mesma floresta densa que os levara até a clareira de Circe. As árvores altas filtravam a luz do dia em feixes poeirentos, criando um jogo de luz e sombra que dançava com o movimento do veículo.
Na frente, Hermes mantinha as rédeas com os nós dos dedos brancos, o corpo rígido. Seus olhos dourados não piscavam, varrendo as sombras entre os troncos com uma intensidade que ignorava qualquer tentativa de conversa.
Ao seu lado, Teseu não dizia nada. Seu polegar traçava distraidamente o contorno do cabo de sua xiphos, um movimento repetitivo e silencioso.
Atrás, o único som além do ranger das rodas era o de uma faca raspando suavemente em uma maçã. Magno a descascava em uma longa espiral, entregando fatias para Neo, que as comia em silêncio, os pés balançando a centímetros do chão da carroça.
— Que comecem os jogos. — murmurou Magno, mais para si mesmo do que para os outros, guardando a faca e sorrindo.
Os muros da cidade surgiram no horizonte, não como um refúgio, mas como uma fronteira. Os guardas no portão lançaram um olhar entediado para a carroça simples antes de acenar para que passassem. Para eles, era apenas mais um veículo de fazendeiros.
Hermes suspirou. Therma, antes um simples ponto de passagem, agora parecia uma fortaleza inimiga. Os guardas nos portões, antes figuras anônimas, agora seriam possíveis obstáculos em sua empreitada.
Uma vez dentro da cidade, a cacofonia de vozes, cheiros e movimento os engoliu. Magno se inclinou para frente.
— Me siga — disse ele a Hermes, antes de pular da carroça em movimento com a agilidade de um gato. — E tente não parecer que está indo para a própria forca.
Sem esperar resposta, ele mergulhou em uma viela estreita entre uma peixaria e uma tinturaria. Hermes estalou as rédeas, guiando a carroça atrás da figura que desaparecia, a confiança de Magno em seu território sendo a única coisa que o impedia de sacar a espada a cada sombra que se movia.
— Não seria melhor a gente seguir pelas ruas mais largas e claras? — Teseu indagou, o rosto demonstrava um pouco de cansaço.
— As ruas principais são para os ricos e para os guardas. As verdadeiras artérias de Therma são estas. — A voz de Magno veio da frente sem que ele se virasse para dar a resposta.
Ele os guiou por um labirinto de becos que fediam a peixe, lixo e pobreza. Neo, agora em seu território, saltitava à frente com uma agilidade familiar. Finalmente, pararam em frente a uma taverna barulhenta chamada “A Âncora Quebrada”.
— Chegamos ao nosso palácio — anunciou Magno com uma piscadela.
Ele os conduziu por uma porta lateral, para um corredor escuro nos fundos, e então desceu uma escada de madeira rangente que levava a um porão. O lugar cheirava a mofo e vinho azedo, mas era seco e, o mais importante, escondido. Espalhados pelo chão havia esteiras de palha e alguns caixotes.
No instante em que entraram, algumas sombras nos cantos mais escuros se moveram. Eram crianças. Meia dúzia delas, vestidas com trapos, ao verem Magno e Neo, correram em sua direção.
— Magno! Neo! Vocês voltaram! — disse uma menina, aliviada.
— Achamos que a bruxa tinha comido vocês! — disse outra, cutucando Neo na costela.
Magno sorriu, um sorriso genuíno e paternal. Ele bagunçou o cabelo de algumas das crianças.
— Como vêem, estamos inteiros. E trouxemos amigos. — Ele gesticulou para Hermes e Teseu, que permaneciam na entrada, observando a cena. — Eles ficarão conosco por um tempo. Tratem-nos bem. E nada de mexer nos bolsos deles.
A primeira parte da missão estava completa. Estavam seguros. Escondidos no coração do território inimigo, no covil improvável do rei dos ladrões de Therma.
Hermes olhou para o grupo reunido à luz fraca que entrava por uma grade no teto. Um deus caído, um herói em treinamento e um ladrão com um exército de órfãos. Quis rir de si mesmo.
Em meio ao fuzuê dos ladrões mirins, uma menina, um pouco mais velha, puxou a manga de Magno.
Ele se virou para ela, ainda com o sorriso de quem a pouco distribuía cascudos.
— Lino não voltou ontem à noite.
O sorriso de Magno desapareceu. Ele apenas assentiu, colocando uma mão no ombro da garota antes de se virar para Hermes e Teseu.
— Precisamos conversar. — A voz de Magno havia perdido toda a arrogância. Era o tom de um líder preocupado. Ele gesticulou para um canto mais afastado do porão, longe dos ouvidos curiosos das outras crianças.
Enquanto se sentavam em caixotes velhos, ele explicou, a voz baixa.
— Não é só o Lino. Outros dez já sumiram nas últimas semanas. Simplesmente… evaporaram. Sem testemunhas, sem pedidos de resgate. Um dia estão aqui, no outro, não estão mais.
Teseu franziu a testa. — Os guardas não fizeram nada?
Magno soltou uma risada amarga, desprovida de qualquer humor. — Os guardas de Therma só se importam com duas coisas: os bens dos ricos e as moedas em seus próprios bolsos. Crianças de rua que desaparecem não são uma prioridade. Para eles, é apenas menos um problema.
Hermes, que ouvia em silêncio, finalmente falou, seus olhos dourados fixos em Magno com um foco analítico.
— Desaparecem durante a noite?
Magno o encarou, surpreso pela pergunta específica. — Sim. Sempre.
Um silêncio pesado caiu entre eles. A missão de Hermes parecia totalmente alheia àquela tragédia real e imediata. Mas então, uma conexão fria e pragmática começou a se formar em sua mente.
— Você me disse que eu poderia encontrar minhas respostas na floresta. — Magno disse, seu olhar fixo em Hermes. — Bem, esta é a minha pergunta. Onde estão minhas crianças?
Hermes não hesitou. — Os segredos de uma cidade costumam girar em torno de seus homens mais poderosos. Sua busca e a minha podem levar ao mesmo lugar.
— O Arconte Kyros? — Teseu perguntou, a incredulidade misturada com um novo senso de propósito. — Acha que ele está envolvido nisso?
— A fala de Circe indicava que sim. Pensem… — Hermes afirmou, seus olhos mudando o foco de Teseu para Magno. — Um homem recluso e poderoso o suficiente para guardar um artefato lendário como a Lótus de Perséfone… — Hermes ponderou, sua voz baixa e calculada. — …é poderoso o suficiente para fazer pessoas desaparecerem sem deixar rastros. Os dois problemas podem ser duas cabeças da mesma serpente.
Magno absorveu aquilo, uma nova e terrível esperança brilhando em seus olhos. A empreitada de Hermes era mais apenas uma mera caça ao tesouro por uma flor mítica. Agora, envolvia ele também.
— Certo. — disse Magno, sua energia retornando, agora focada e afiada. — Então vamos caçar essa serpente. Mas a fortaleza de Kyros fica na Acrópole, a parte mais alta e vigiada da cidade. Invadir às cegas é suicídio.
— Não vamos invadir. Ainda não. — Hermes respondeu, assumindo o controle. — Primeiro, reunimos informações. Tudo. Rotas de patrulha, horários de troca da guarda, entregas de suprimentos, quem são os servos e, principalmente, onde ele guardaria algo que considera seu maior tesouro.
Ele se virou para Magno. — Seus olhos e ouvidos na cidade. Quero que eles observem a mansão do Arconte. Quero que ouçam as fofocas dos servos, dos cozinheiros, dos comerciantes que o abastecem. Qualquer coisa fora do comum.
Magno acenou, já formulando as ordens em sua mente.
Hermes então se voltou para Teseu. — Nós faremos o reconhecimento direto. Observaremos a mansão de longe. Aprenderemos suas defesas, seus pontos cegos. Não atacaremos até sabermos exatamente onde estamos pisando.
O plano estava traçado. Era perigoso, mas era um plano. Magno se levantou e reuniu seu pequeno exército de órfãos. Sua voz, antes paternal e brincalhona, agora era a de um general dando ordens em um conselho de guerra. Ele designou tarefas, pontos de observação, sussurrando instruções para cada uma das crianças, que ouviam com uma seriedade que desmentia suas idades. A ordem final de Magno, no entanto, pareceu a mais vital.
— Estejam de volta antes do anoitecer.
Eles assentiram em uníssono. Entendiam a gravidade da situação. Era por Lino e também pelos outros.
Em minutos, eles se dispersaram, desaparecendo como fumaça pelas saídas secretas do porão, pequenos fantasmas em uma missão para assombrar o homem mais poderoso de Therma.
Hermes, Teseu e Magno permaneceram no porão agora silencioso. Sobre a terra úmida do chão, Magno desenhou um mapa cru da cidade com a ponta de sua faca, marcando a localização da taverna, a Acrópole e as principais rotas entre elas.
A luz fraca que entrava por uma grade no teto iluminava seus três rostos, unidos por missões diferentes, mas agora com um único e mesmo alvo. A missão havia começado.

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