Capítulo 6: Faísca de Incêndio
Dhaha esperava sentado em um dos bancos da taverna que servia de centro de comando temporário.
Em poucas horas, os carpinteiros remontaram as vigas principais e limparam os destroços. Quase parecia que a festa poderia continuar, se não fossem as manchas de sangue na madeira nova.
O garoto não portava sua tradicional armadura de couro agora. Estava com uma roupa de descanso, mas que ainda mantinha algum estilo.
Usava uma camisa de pano preta colada ao peito, realçando os músculos definidos, sem mangas para cobrir os braços.
A calça bege de canos largos era arejada, longa, e adornada por um tecido amarelado na cintura. Ao fim, nos punhos, bíceps e dedos, braceletes e aneis de aço que brilhavam sob a luz dos lampiões.
Passos ecoaram de fora e a porta se abriu com um rangido pesado. Um homem rodeado de guardas armados adentrou a sala.
Seu corpo já não era o de um guerreiro. Músculos flácidos e pele pendente mostravam o peso da idade. Halvar parecia ter envelhecido dez anos em uma noite.
Sua barba grisalha ia até a clavícula, e ele portava uma cicatriz fresca no rosto, cortesia das garras de um esqueleto. Ele se sentou pesadamente à frente de Dhaha.
— Fico feliz que tenha… se recuperado rápido, garoto. Você fez muito pela cidade naquela luta. Se não fosse por você, Eldon seria apenas um cemitério agora.
Dhaha tinha uma constituição fora do comum. Bastou uma noite de sono profundo para que seu carma se estabilizasse e suas feridas fechassem.
— Err… É uma bela… cicatriz? — Dhaha soltou, ao tentar ser gentil, mas percebeu o erro no momento em que as palavras saíram.
— Eu… sniff… — Halvar não aguentou. O homem que até ontem gritava por cerveja paga, caiu em lágrimas silenciosas.
Dhaha arregalou os olhos. A culpa, mais pesada que sua montante, cobriu sua mente. Ele não sabia lidar com o choro dos outros.
Passos metálicos rítmicos interromperam o momento desconfortável. Mirena entrou na taverna, escoltada por mais guardas da guilda.
Ao ver o velho chorando, ela cerrou os olhos e deu um passo atrás. A mão esquerda foi instintivamente para a base do braço mecânico.
— Não é o que você tá pensando! — O garoto se adiantou e tentou se explicar enquanto Mirena mantinha uma distância segura.
Os guardas apenas abaixaram a cabeça, e prestaram condolências silenciosas. Halvar respirou fundo, limpou o rosto com a manga e recuperou a postura.
— Aquelas coisas… os esqueletos… Eles levaram a minha mãe! Fugiram para a floresta com ela e outros civis! — Halvar esmurrou a mesa com ódio.
“Eita”, pensou Dhaha. Ele era alguém incrível em combate físico, mas um desastre em consolar pessoas.
Mirena relaxou os ombros e se sentou. Ela fora arrancada da cama por guardas e achou que seria presa por algum crime que não cometeu.
— Sentimos muito por sua perda momentânea, senhor Halvar… — disse ela, com uma voz mais suave, baixando a cabeça em sinal de respeito.
— Vinte e seis pessoas. Esse foi o total de sequestrados, minha mãe entre eles — explicou ele, ao jogar retratos desenhados sobre a mesa de madeira.
Dhaha encarou os papéis por alguns segundos. Rostos de jovens, idosos e crianças que haviam sumido na escuridão da mata.
— E você precisa da gente para entrar lá e salvá-los? É isso? — perguntou o garoto, a determinação já de volta aos seus olhos incandescentes.
— Sim, mas eu gastei cada moeda dos meus fundos com essa maldita festa. Não vou conseguir pagá-los com ouro agora.
Dhaha olhou para os outros aventureiros na sala. A maioria parecia disposta a ajudar por puro dever moral, mas Mirena não era “a maioria”.
— Conta comigo, eu acei…
— Espera aí, Dhaha. — Mirena cortou o garoto com um gesto firme.
— Mirena, são vidas humanas! Como você pode hesitar? — Dhaha retrucou, quase ofendido pela frieza da ardenteriana.
— E a nossa vida também conta. Entrar naquela floresta sem plano e sem recompensa é suicídio, não heroísmo — ela respondeu com calma gélida.
— Você está sendo egoísta! — o garoto acusou, cruzando os braços.
Mirena ignorou o insulto e voltou-se para Halvar.
— Senhor Halvar, os guardas que me buscaram disseram que havia uma recompensa…
Ela pausou, deixando o silêncio trabalhar.
— Se você não tem dinheiro, o que os guardas estavam oferecendo para me encontrar?
Halvar engoliu em seco, desviando o olhar. Ele se viu em um campo de guerra, onde a ardenteriana tinha armas muito mais afiadas.
— Eu… eu precisava que vocês viessem. Achei que se vissem minha dor…
— Senhor Halvar. Se o boato de que você não quis pagar para salvar a própria mãe se espalhar, sua reputação em Eldon acabaria hoje.
Xeque-mate.
Após meia hora de negociações, o acordo foi firmado: cinquenta moedas de ouro por aventureiro. O velho “milagrosamente” encontrou uma reserva de emergência.
Saindo da taverna, Dhaha caminhou em direção a área comercial da cidade, onde estava ajudando nas reconstruções. Mirena o seguiu, não era uma construtora nata, mas queria falar com os moradores.
Eles pararam na mercearia de um senhorzinho de bigode curvado que ofereceu café. Durante a reconstrução, Dhaha carregava vigas triplas sem esforço.
— Exibido… — resmungou Mirena, carregando apenas algumas tábuas.
— Não seja tão má com ele, é apenas uma criança. Haha! — disse o dono.
Era um senhorzinho acima do peso, seus cabelos eram tão grisalhos quanto o bigode. Usava roupas coloridas e de tecido fino.
O senhor se sentou em uma das cadeiras.
— Uff… É uma pena que tudo isso tenha acontecido. — O olhar do velho estava pesado.
— Vai ficar tudo bem, vamos reconstruir a cidade e arrumar tudo! — gritou Dhaha, de cima de uma escada.
— Sim, eu sei, mas é triste que tantas fatalidades tenham ocorrido.
A mente de Mirena se voltou para as pessoas sequestradas, ela sabia como era sentir o medo da morte.
— Vamos salvar aquelas pessoas, ainda há esperança.
— Vocês vão para a floresta? — O velho curvou as sobrancelhas. — Tomem cuidado, jovens. Aquela mata esconde algo pior que esqueletos.
— Do que o senhor está falando? — perguntou Dhaha, parando o trabalho para ouvir.
— Lobos de Prata… Alguns migraram para cá.
O semblante de Dhaha mudou instantaneamente.
— Lobos de Prata? O que é isso? Alguma espécie de lobo cinza? — Mirena perguntou, ao notar a tensão no garoto.
— É pior que isso, Mirena — explicou Dhaha. — No distrito da Areia-Dourada temos grandes jazidas de minério, e algumas ficam em zonas de carma. Nisso, alguns animais se adaptaram à energia, e acabaram desenvolvendo metais em seus corpos.
— Você está dizendo que são literalmente lobos misturados com prata?
— Algumas partes do corpo são feitas de prata. Eles praticamente não tem predadores, destroem fazendas de gado e se multiplicam rápido demais. Até a caça deles foi permitida. — O garoto fez uma pausa, organizando as palavras. — Os ursos de prata estão migrando para Gelo-Fino nessa época do ano, então não temos que nos preocupar com eles, mas os lobos se espalharam para outros distritos…
Mirena sentiu um calafrio, prata era o pesadelo de qualquer mago.
— Nossos números não são ruins caso encontremos uma alcatéia… eu tive uma ideia, mas precisamos de bestas — Mirena disse, com opções na cabeça.
Dhaha acenou, ele confiava no cérebro dela tanto quanto confiava nos próprios punhos.
O senhor observou a cena em silêncio, a determinação dos dois era surpreendente.
— Eu queria perguntar algo, mocinha.
— Estou ouvindo, senhor. — Mirena sentou-se.
O dono se levantou por um instante, pegou um retrato que tinha em sua estante e trouxe à mesa. Uma garota humana de uns dezesseis anos, usava um vestido rosa, sapatos pretos e um laço vermelho.
O velho não disse uma palavra, e nem era necessário, uma lágrima escorreu de seu olho direito. Mirena se levantou e segurou as mãos do homem, seu olhar estava sério e determinado.
— Não se preocupe, eu… Nós faremos o nosso melhor para resgatarmos essas pessoas!
Com os olhos umedecidos, o velho foi incapaz de segurar o choro. Mirena ficou mais alguns minutos consolando o homem.
Algumas horas após isso, quase todos os contratados se encontravam na entrada da mata. Antes de partirem, a velha Vera aproximou-se de Dhaha e segurou sua mão com uma força desesperada.
— Por favor, garoto… salve o meu filho! Ele foi levado! — Seus olhos, antes secos e frios, agora transbordavam de dor.
— Eu vou, senhora. Eu prometo — respondeu Dhaha. O peso da responsabilidade esmagou qualquer cansaço.
Na boca da floresta, Cucca Beludo, o líder veterano, aguardava. Mirena chegou carregando bestas pesadas para todos.
— Onde você arrumou isso? — O douradiano encarou com a sobrancelha erguida.
— Meia noite eu te conto.
Ele deu de ombros. Se completassem a missão, já seria bom para ele. Não importava onde, suspeitosamente, ela havia obtido aquilo.
— Todos que vão entrar na floresta, um passo à frente! — gritou o líder.
O grupo acatou de imediato. Dispensaram apresentações, Cucca já era conhecido pela cidade.
O vento soou no ouvido de Dhaha, um calafrio subiu a espinha. Uma sensação ruim amarrou seu peito e turvou sua visão.
Ele adentrou a mata junto dos outros. Não sabia, mas uma calamidade estava para acontecer, uma que mudaria a vida de todos eles para sempre.


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