As luzes vermelhas de emergência ainda piscavam no hangar inferior da Dama da Ruína, lançando sombras intermitentes pelos corredores metálicos danificados pelo último confronto.

    Fios expostos pendiam do teto como raízes vivas, e o som constante das máquinas, zumbindo e rangendo, criava uma sinfonia mecânica incômoda.

    No centro da sala de comando, uma grande projeção exibia um mapa tridimensional do Deserto de Sonata, agora marcado por rachaduras no solo e sinais de atividade energética vindos das profundezas.

    Mirage girava nos próprios pés como uma criança impaciente, assumindo formas grotescas e deformadas a cada volta, enquanto fazia caretas para o mapa.

    — Aff… por quanto tempo vamos ter que esperar? Os fumacentos estão todos ocupados consertando a nave, e não tem ninguém para admirar meus truques — murmurou, escorrendo entediada até o comandante.

    Zath não esboçou reação. Seus múltiplos olhos giravam lentamente nos tentáculos que deslizavam pelo console da nave, ajustando parâmetros com precisão matemática.

    — A nave ainda está com 63% da capacidade ofensiva. Três geradores danificados, dois propulsores comprometidos. — Sua voz soava seca, sem qualquer entusiasmo.

    O engenheiro da tripulação, KillSwitch, terminava de reparar uma das paredes da sala de comando. Seus braços mecânicos trabalhavam em velocidades absurdas enquanto soldavam e implantavam peças.

    — Metade dos reparos concluídos! Mais cinco minutos e essa garota canta como antes! — berrou, a voz distorcida por interferência. — …ou explode. Ainda não calculei direito. A gente acha que nunca vai precisar da fórmula de Bhaskara, mas olha eu aqui, consertando uma nave viva. Literalmente.

    Uma mancha azulada em movimento constante, assobiando uma melodia dissonante, rodeava Zath.

    Seus braços gelatinosos assumiam formas de máscaras, flores e caretas grotescas numa sequência interminável de provocações.

    — Volte ao seu posto, Mirage. Preciso que regule os propulsores antes de iniciarmos a decolagem. Não vou lhe dar atenção até que nossa missão esteja concluída — ordenou, apertando um dos botões do painel de controle.

    Um pequeno compartimento se abriu, revelando uma esfera totalmente branca que emitia um brilho fraco.

    Assumindo novamente sua forma humanoide, a máscara dourada de Mirage exibia uma expressão de falsa tristeza para Zath.

    — Tá legal… mas depois que capturarmos o Vulto Negro podemos fazer um show bem especial? — implorou, inclinando a cabeça de maneira exagerada.

    — Aquele em que você repete os mesmos três truques sem parar? — brincou KillSwitch, aproximando-se do painel de comando.

    Mirage inflou o peito como se fosse começar um discurso dramático, enquanto a máscara dourada mudava para uma expressão ofendida.

    KillSwitch cruzou os braços mecânicos, inclinando a cabeça de lado, um sorriso estampado nos dentes metálicos.

    — Ah, meu caro, você não reconheceria arte nem se ela te mordesse o circuito!

    — Mordesse o circuito? Isso nem faz sentido, seu borrão dramático.

    — Faz sim! Você só não tem imaginação suficiente!

    — E você tem imaginação demais pra pouca utilidade.

    As palavras se atropelavam, a discussão crescendo como sempre: rápida, barulhenta e completamente desnecessária.

    Foi então que Zath suspirou, profundo, pesado, como se deixasse escapar um cansaço que ele mesmo não costumava admitir.

    — Tanto faz — interrompeu, sua voz plana cortando a briga como uma lâmina sem emoção. Os tentáculos recolheram-se para perto do corpo, os olhos piscando em ritmos distintos. — Nem sabemos se o Vulto Negro ainda pode ser capturado.

    Ele ajustou mais um parâmetro no painel, o som digital preenchendo o silêncio repentino.

    — Então… não importa se isso vai ser uma comemoração ou uma despedida — completou, sem olhar para nenhum dos dois.

    Após ambos se entreolharem, Mirage estendeu a mão elástica para tocar a esfera opaca, que aos poucos mudou de tonalidade para um azul claro e fraco.

    — Agora que você estragou o clima, é melhor irmos logo descobrir qual das duas opções vai acontecer. Sinceramente, prefiro a primeira. — encerrou com uma risadinha, antes de voltar o foco ao que estava fazendo.

    Mesmo que agisse de forma excêntrica na maior parte do tempo, até Mirage compreendia a necessidade de foco extremo para concluir o processo de estabilização dos propulsores.

    Ela teria de transferir a energia do seu Núcleo Mutante para o da nave, algo relativamente simples com Undeads menores, mas desafiador diante do tamanho colossal da Dama da Ruína.

    A tripulação só conseguia realizar aquela transferência de energia graças ao Núcleo Receptor construído por KillSwitch, um dispositivo complexo formado a partir de inúmeros Fragmentos de Essência.

    Seu propósito era criar canais simplificados, permitindo que a radiação de um Undead fluísse com mais facilidade pelo corpo da embarcação até o seu Núcleo.

    As luzes vermelhas, que transmitiam a sensação de emergência, se apagaram, dando lugar às lanternas azuladas que indicavam a estabilização do sistema.

    Com um ruído mecânico seguido de um zumbido agudo, a nave ergueu-se das areias do deserto, subindo lentamente aos céus com a ajuda dos propulsores reativados.

    A forma de Mirage oscilou quando ela retirou a mão da esfera, agora completamente azul.

    O líquido que compunha seu corpo começou a escorrer pelas frestas da armadura avermelhada, mas ela não se importou; manteve-se imóvel, segurando apenas a máscara dourada fixada ao rosto.

    — Tudo pronto, meus manos. E então… qual é o plano? — perguntou KillSwitch, reabastecendo os cilindros de água nos braços, enquanto sua crista dorsal mecanizada liberava vapor frio em curtos jatos.

    Uma nova projeção tomou o lugar da anterior, revelando uma gravação perturbadora.

    As imagens mostravam o que parecia ser uma cidade em ruínas, repleta de Undeads despedaçados.

    Diversas tonalidades de sangue e carne se misturavam em uma pasta viscosa e nauseante, enquanto circuitos arrancados pendiam de galhos de árvores mortas.

    — Essa é uma das únicas gravações do que o Vulto Negro fez. Ele destruiu completamente uma das bases do “mestre” Skarneth, sem deixar sobreviventes. — Os múltiplos olhos de Zath observavam a cena com apatia.

    Massacres não eram incomuns, mas este havia acontecido em território de um Amaldiçoado, sem a devida autorização.

    — Quando o encontramos pela primeira vez, ele estava acompanhado de mais dois sujeitos, ambos fugitivos da Igreja Amaldiçoada. O Lobo Negro não será tão problemático, mas devemos tomar cuidado com o Caçador de Ossos. Sua má fama lhe cabe bem. Não o deixem entrar em Frenesi — explicou Zath, desligando a filmagem com um de seus tentáculos.

    Os dois tripulantes assentiram, enquanto Mirage já apresentava seu corpo estabilizado.

    — A presença do Ceifador era poderosa… mas instável. Se Mirage e eu nos unirmos, vejo alguma possibilidade de vitória. Agora, supondo que o Vulto Negro e os outros estejam realmente vivos, confio em você, KillSwitch, para essa tarefa — declarou, com seu olho central recém-regenerado fixando-se no engenheiro. — Não se contenha.

    O Undead-tubarão apenas acenou em concordância, como se a tarefa que deveria cumprir fosse simples.

    — Para fora. Agora — ordenou Zath, a voz firme ecoando pela estrutura da nave como um comando impossível de ignorar.

    A Dama da Ruína entrou em modo autônomo, permitindo que a embarcação utilizasse todos os seus mecanismos de forma independente, recebendo comandos à distância.

    Sem mais delongas, os três saíram, prontos para encarar os perigos do subsolo. Do lado de fora, a nave reposicionou-se com um ronco metálico

    Seu casco abriu-se na parte inferior, revelando o núcleo do canhão principal: uma massa pulsante de circuitos vivos e energia radiante.

    Um feixe de energia se condensou em uma linha vermelha incandescente antes de disparar.

    O impacto contra o solo do deserto sacudiu tudo ao redor, abrindo uma cratera larga que revelava a estrutura subterrânea oculta. Poeira e fragmentos de rocha explodiram pelo ar.

    — Caminho aberto. Movam-se — instruiu Zath, saltando primeiro em direção à abertura.

    Mirage o seguiu com um salto elástico e silencioso, enquanto KillSwitch ativava um pequeno propulsor de emergência nas costas, resmungando algo sobre “não ser pago o suficiente para isso”.

    O ar seco do deserto deu lugar a uma umidade sufocante assim que os três atravessaram a cratera aberta.

    A queda era longa, o vento assobiava nos ouvidos como um aviso antigo e impiedoso, mas cada um deles enfrentaria aquilo à sua maneira.

    Zath ergueu um dos tentáculos, e uma pressão invisível tomou conta do ambiente.

    Sua descida desacelerou bruscamente, e ele ficou pairando no ar, como se a gravidade simplesmente tivesse desistido de puxá-lo.

    Por alguns segundos, manteve-se imóvel antes de tocar o solo com suavidade.

    Mirage caiu como um cometa líquido, sua forma gelatinosa se deformando com o impacto.

    O corpo explodiu em uma massa azulada que se espalhou pelo chão em uma poça viva, os respingos cintilando sob a fraca iluminação esverdeada do subsolo.

    Os fragmentos escorriam uns em direção aos outros, contorcendo-se como serpentes viscosas. Em poucos instantes, a figura humanoide se reergueu, moldando braços, pernas e a máscara dourada.

    KillSwitch veio por último, acionando os propulsores nas costas. Faíscas azuladas saíram com dificuldade, o sistema chiando sob pressão, os propulsores eram feitos para eficiência máxima debaixo d’água, não para frenagens bruscas em queda livre.

    Ele girou no ar tentando compensar a perda de estabilidade, quase batendo contra uma das paredes rochosas antes de se endireitar no último instante.

    Ainda assim, aterrissou pesado, os joelhos flexionando-se com um estrondo metálico ao tocar o solo.

    — Não fui projetado pra isso…

    Um círculo formou-se no ponto exato onde os três aterrissaram. A névoa densa e esbranquiçada que permeava todo o subsolo parecia hesitar em tocá-los.

    Logo, inúmeros pontos alaranjados surgiram na escuridão, espalhados como brasas vivas na névoa, todos fixos nos tripulantes da Dama da Ruína. Eram olhos, prontos para defender seu lar a qualquer custo.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota