Capítulo I - Amerrissagem
Tudo o que conseguia sentir era a correnteza me impulsionando para frente. Respirar estava cada vez mais difícil, e o peso do casaco encharcado limitava meus movimentos. Abri os olhos e contemplei a vastidão do espaço, as estrelas distantes e o sistema estelar para o qual eu me aproximava.
À medida que me aproximava, consegui distinguir um gigantesco planeta gasoso, cercado por cinco grandes satélites habitáveis. De repente, senti meu corpo acelerar, a água girava ao meu redor, enquanto tudo passava diante dos meus olhos em um único instante.
Então veio o impacto.
Instintivamente, fechei os olhos, e tentei me proteger da luz intensa que explodiu diante de mim.
Quando os abri novamente, o ambiente em minha volta havia mudado, não estava mais no espaço, nem preso em uma correnteza. Meu corpo e uniforme estavam completamente secos. Agora, estava no centro de um círculo ritualístico, no fundo de uma imensa lagoa interna de um templo abandonado. A água, esverdeada e densa, estava suspensa aos lados como muralhas líquidas.
Antes que elas desabassem, saltei para fora e alcancei a borda em segurança. Deixei escapar um pequeno suspiro de alívio, mas não durou muito.
— Você não está esquecendo de nada? — perguntou uma voz feminina vinda de dentro do meu casaco.
Virei-me ao som surdo de metal colidindo com pedra. No mesmo local onde eu antes havia caído, agora estava um grande contêiner de cores pretas, e em ambas as laterais, o símbolo de uma águia de duas cabeças com uma coroa dourada de cinco pontas acima dela.
— Não imaginei que ia fazer tanto barulho… — afirmei para ela em um suspiro. — Espero que nada tenha sido danificado.
A água da lagoa voltou ao fluxo normal, e engolfou o contêiner. A minha viagem havia sido um sucesso.
Satisfeito, girei um pouco a cabeça para observar melhor o local. Era um templo antigo, devastado pelo tempo e abandono. As paredes estavam cobertas por vegetação, o telhado havia desabado, e a lagoa era alimentada apenas pela água da chuva. Notei alguns murais desbotados nas paredes, mas as imagens estavam tão apagadas que mal podia reconhecê-las.
Peguei um baralho de cartas do bolso e me aproximei da borda da lagoa, com um certo cuidado para não escorregar para dentro da água parada. Folheei o baralho até encontrar o que precisava naquele momento.
A carta possuía uma bela borda dourada, e no topo, o algarismo romano I. A imagem mostrava um oficial militar, em pé diante de uma mesa, com um grande mapa aberto e uma pistola antiga. Havia também uma taça de vinho, algumas moedas de ouro e uma grande munição de artilharia.
— O Mágico — proclamei.
No mesmo instante, o contêiner preto desapareceu.
Eu estava pronto para partir para o próximo destino para cumprir meu objetivo. Mas, antes que desse o primeiro passo para fora, consegui ouvir sons ao longe, passos apressados de um grupo.
— Que estranho… achei que aqui estaria vazio — murmurei, ao falar o que pensava. Embora ainda estivesse atento para reagir.
Vários homens apareceram, os olhares assustados. Provavelmente escutaram o barulho e vieram verificar o que havia ocorrido. Vestiam roupas simples, como de camponeses e trabalhadores, todavia estavam armados, alguns com bastões e outros com espadas enferrujadas.
Eles me encararam com seriedade, e então seus olhos desceram até minhas roupas. Diferente deles, eu vestia um longo casaco militar negro, marcado por duas coroas douradas bordadas na gola, símbolos que deixavam claro: eu era um estrangeiro ali.
Começaram a murmurar entre si em alguma língua estranha, que eu era incapaz de compreender. Até que um deles, um homem corpulento, com quase dois metros, tomou a frente. Tudo o que podia entender eram murmúrios desconexos, porém, eu podia inferir que ele queria saber quem eu era.
— Lefkó, faça seu trabalho — falei, em um tom meio baixo.
Logo após, uma serpente branca saiu da gola do casaco, e os homens deram um passo para trás. Começaram a murmurar ainda mais entre si, talvez impressionados com o comportamento da serpente. O animal agarrou-se no meu pescoço.
— Como quiser, Thomas — falou a serpente, e mordeu o meu jugular com suas presas.
Senti o veneno entrar no sangue, e uma rápida sensação de dormência pelos meus membros. Abri e fechei os olhos, sem deixar minha consciência se esvair.
— Ele deixou a cobra mordê-lo? — questionou um deles para o resto do grupo, confuso pela decisão tomada por mim.
Agora os entendia plenamente, e tinha certeza que eles também conseguiram
— Sabe, existem muitos segredos no universo, e nem todos podem ser desvendados — afirmei, enquanto colocava a mão na orelha e limpava os ouvidos.
— Quem é você? O que está fazendo aqui? — perguntou o grandalhão. Os demais, atônitos, mal conseguiam falar.
— Permita-me apresentar-me — falei, com uma reverência carregada de sarcasmo.
— Fale logo, pare de joguinhos — disse ele irritado com a minha demonstração de irreverência. — Se você é do clã Hua Yuling, saiba que já pagamos a cota desse mês. E caso continue a nos perturbar…
— Meu nome é Thomas Nyrzyr, enviado pelos céus para pavimentar a chegada de uma nova era para o seu mundo — respondi, ao abrir os braços e os levantar para cima. — Tolos insensatos, tenham consciência da própria insignificância, e não tentem interferir um trabalho de um membro do ‘Conselho Imperial’.
Eles ficaram atônitos com as minhas palavras. E um deles gaguejou surpreso:
— Você é do exército real? Ou um membro do “Palácio dos Deuses”?
— Acho que não — respondi, um tanto confuso com a questão dele.
— Então o que está fazendo aqui? — o líder voltou a falar, impaciente.
— “Aqui” onde, exatamente? Neste templo? Neste território? Ou neste mundo? — Dei de ombros. — Achei que o lugar estivesse abandonado.
Ele não respondeu de imediato. Apenas apontou para mim com um gesto brusco.
— Peguem-no.
Os homens avançaram. Mas permaneci onde estava, sem reagir ainda.
— Uma pena que não possamos conversar mais, apenas apreciar um pequeno momento de paz. — Soltei um sorriso de satisfação, e retirei uma nova carta do baralho do meu bolso. — Apenas sintam a poder da “carruagem”.
Ergui a carta na mão e a revelei aos oponentes. A ilustração mostrava duas unidades de infantaria mecanizada à frente, com um imponente tanque de guerra logo atrás. Acima da cena, em destaque, o algarismo romano VII.
A carta então se desfez no ar, e, em seu lugar, uma arma de fogo surgiu em minha mão: um revólver militar de ação simples, municiado com um tambor para doze munições, e revestida com uma fina camada prateada reluzente.
A apontei contra meus oponentes, assumi uma expressão de confiança, e então declarei:
— Já ouviram falar no poder da pólvora?

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.