Era início da tarde, e o sol já começava a declinar suavemente no céu a leste. À distância, o mar cintilava sob a luz dourada, enquanto eu descia por uma estrada sinuosa. No horizonte, surgia a silhueta da cidade de Tianhang, imponente, cercada por sua muralha antiga.

    A muralha, porém, já não dava conta de conter a cidade. Com o passar dos anos, Tianhang se expandira além de seus limites originais, e vastos subúrbios se espalhavam ao redor das muralhas como braços crescentes de pedra e madeira.

    — Estamos chegando, senhor… — avisou o cocheiro.

    Era um rapaz jovem, conduzia uma carroça carregada de mercadorias da fazenda da família até o mercado no porto. Tive a sorte de encontrá-lo na estrada. Se não fosse por sua oferta de carona, a viagem teria sido longa, e exaustiva.

    — Agradeço pelo sua gentileza, me poupou bastante tempo e esforço. — Sorri para ele, enquanto acariciava a cabeça de Lefkó, enrolada em meu pescoço.

    — Não é nada… — respondeu ele, e encolheu os ombros com um sorriso modesto, sem tirar os olhos na estrada. — Além disso, seu animal me parece um bom companheiro. Nunca vi uma serpente tão calma.

    Soltei uma leve gargalhada. 

    — Não confie tanto assim em uma serpente.

    Ele hesitou por um instante, depois lançou-me um olhar curioso.

    — Desculpe-me, senhor, mas quem é você? Seu nome me soa estranho, e suas roupas mais ainda.

    — Já lhe disse: Thomas Nyrzyr. Estou em missão de reconhecimento.

    — Sozinho?

    Assenti, sem explicar mais.

    O rapaz franziu o cenho, intrigado, mas não insistiu. Após um momento de silêncio, voltou a perguntar:

    — Vai visitar alguém na cidade?

    Puxou as rédeas ao contornar uma bifurcação, e o tráfego à frente começava a se adensar. Uma dúzia de carroças avançava lentamente em direção aos portões da cidade.

    — Não exatamente — respondi. — Diga-me: há alguma biblioteca? Ou livraria? Qualquer lugar onde eu possa encontrar livros, registros, informações escritas?

    — Como assim?

    — Quero entender melhor este mundo. Estou à procura de conhecimento, histórias, mapas, mitologia. Livros são um bom começo.

    O rapaz coçou a cabeça, pensativo.

    — Não conheço muito bem a cidade… Mas talvez meu tio possa ajudar. Ele mora em Tianhang e vende nossas mercadorias no mercado. Pode saber onde encontrar essa sua livraria.

    — Agradeço, mas não quero perturbar o seu tio. Não se preocupe, eu consigo ir sozinho — respondi, com um leve aceno de cabeça.

    Chegamos a um dos portões da cidade. Assim que a carroça parou, saltei dela com leveza, minha carona havia cumprido seu propósito.

    — Foi um prazer dividir este trajeto contigo, jovem. Que os ventos te tragam boa sorte, e que a lua ilumine teu caminho. — Fiz uma breve reverência em sinal de respeito, e lançei-lhe uma moeda de ouro. — Use com sabedoria. Não gaste com mulheres, nem com jogos.

    Ele arregalou os olhos ao ver o brilho da moeda em suas mãos.

    — Mas… senhor…

    — Não se preocupe. É mais do que justo pela ajuda.

    Afastei-me antes que ele insistisse, e o deixei parado junto ao portão, mudo, ele segurava o ouro como se não soubesse o que fazer com aquilo.

    Segui pelas ruas estreitas, porém surpreendentemente limpas. Tianhang era mais organizada do que eu esperava; havia um bom sistema de saneamento, o que era raro em cidades deste porte. A brisa marítima trazia consigo o cheiro salgado do oceano, familiar, reconfortante. Por um momento, senti-me em casa.

    Logo cheguei ao distrito comercial. Diferente dos subúrbios apertados, ali as avenidas eram largas, e mesmo assim, estavam apinhadas de gente. Por onde quer que eu olhasse, lojas e barracas vendiam de tudo: roupas finas, especiarias aromáticas, produtos exóticos do norte. Mas nenhuma livraria. Nenhuma biblioteca. Nada que se assemelhasse a um lugar de conhecimento.

    Para piorar, as fachadas estavam cobertas de ideogramas intrincados, todos completamente ilegíveis para mim.

    — Lefkó, traduza isso — pedi, ao apontar para uma placa de madeira acima de um edifício pintado em tons de verde-esmeralda.

    — “Casa de Chás” — respondeu, seca. — Não importa. Parece que esta é a rua das ervas e especiarias. Precisamos tentar outra região.

    — Podemos voltar aqui mais tarde… — murmurei, e não pude deixar de soltar um suspiro desapontado.

    Continuei meu caminho até as imediações do porto. À distância, já podia ver os mastros dos barcos de junco cortando o céu. As ruas tornavam-se cada vez mais estreitas, e dificultavam minha passagem no meio da multidão à medida que eu avançava.

    Foi então que cheguei a uma rua diferente das demais, um mercado de tinturas e papiros. A sensação imediata era de que, finalmente, estava no lugar certo. Algum daqueles mercadores, certamente, saberia onde encontrar livros.

    No meio da viela, um grupo de quatro jovens conversava descontraidamente: três rapazes e uma moça. Eles estavam, de fato, bloqueando toda a passagem, e forçavam os transeuntes a se espremerem pelos cantos para seguir adiante. Eu, no entanto, não me importava nem um pouco em passar entre eles.

    — Opa, com licença… — murmurei, com naturalidade, enquanto passava no estreito vão entre a jovem e um dos rapazes.

    Segui meu caminho sem pressa, no mesmo passo ritmado, sem olhar para trás. Para mim, eles eram um casal em uma conversa casual. Assim que passei, senti os olhares nas minhas costas, não os da multidão, mas os deles. Aqueles olhares que te medem, te pesam e te julgam por não estar onde eles acham que você deveria estar.

    — Com licença? — chamou um dos rapazes ao lado do mais velho, a voz carregada de desdém, como se não estivesse acostumado a ser ignorado. — Como ousa interromper a conversa do meu senhor?

    O tom de voz dele foi tão alto, que eu senti a multidão inteira congelar, e virar seu olhar contra mim. Agora todos me encaravam perplexos.

    Eu parei, e soltei um longo suspiro.

    — De onde é forasteiro? Não conhece a hierarquia aqui? É incapaz de reconhecer um ilustre membro da seita de Hua Yuling? — O mesmo jovem continuou a falar.

    — Sou, nem sei quem é esse tal Hua Yuling — respondi ao me virar, e cruzar os braços impaciente.

    — Ignore-o, o lixo não sabe qual é o lugar dele — disse, o jovem que anteriormente falava com a moça.

    Era um jovem alto, de postura impecável e traços finos, envolto em uma túnica de seda escura bordada com fios prateados. Um emblema de um gato-leopardo adornava seu ombro esquerdo, seguido pelo botão de uma flor de peônia. Suas feições exalavam a arrogância silenciosa que só a linhagem nobre podia criar desde o berço.

    Os dois outros jovens vestiam roupas parecidas, porém, sem o emblema no ombro. Tinham quase a mesma estatura, e feições bem parecidas.

    — Tanto faz. — Coloquei a mão nos cabelos. — Mas agora me diga, sabe onde existe uma boa livraria aqui por perto?

    Os quatro olharam para mim um tanto surpresos, e então os rapazes riram.

    — Você é idiota? — questionou-me o mais velho. 

    — Eu me faço — falei, o tom sarcástico. — Agora responda a minha pergunta. Eu só estou procurando por conhecimento.

    — Que tipos de livros, o senhor procura? — falou a garota. 

    — História, geografia, religião… Qualquer coisa útil.

    — Minha família administra uma loja de livros, se o senhor tiver interessado, posso te levar até lá. — Ela estava mais animada do que eu podia esperar.

    Não pude deixar de sorrir ao observar o rosto frustrado e o ranger dos dentes do rapaz quando ele viu a garota tomar a iniciativa da conversa.

    — Ótimo — respondi com um sorriso.

    Não havia prestado atenção nela até aquele momento. Era bem mais baixa que os outros, possuía longos cabelos pretos como a noite, e olhos castanhos como o mel. Segurava um cesto de bambu, com vários papiros e tinturas dentro.

    — Mei, vai confiar em um desconhecido? — perguntou o rapaz, de alguma forma ofendido com a oferta dela. — E se ele tiver más intenções? Ou não possuir dinheiro para pagar os serviços?

    — Dinheiro é o de menos… — Girei uma moeda de ouro entre os meus dedos.

    O terceiro jovem deixou o queixo cair. 

    — É uma moeda de ouro do décimo reinado. — Aproximou-se, sem acreditar em seus olhos. — Só tinha visto moedas dessas de prata, nunca de ouro. Se você tem uma moeda dessas, isso só pode significar que…

    O segundo jovem apontou para a cobra enrolada no meu pescoço:

    — Você é um imortal do “Palácio dos Deuses”?

    — Acho que não… — respondi, um tanto confuso pela questão.

    — Não seja tolo Jin, um imortal saberia seu lugar. — O líder soltou um bufo e cruzou os ombros.

    — Não me importo sobre o que vocês pensam sobre mim. — Fiz a moeda flutuar no ar com um truque de mãos. — Apenas me falem onde é essa tal livraria.

    Os rostos deles ficaram mais perplexos. Consegui sentir uma mudança na postura do líder.

    — Quem é você? De verdade? — Não havia mais arrogância em suas palavras, eu podia sentir a tensão que emergia no ar.

    — Meu nome? — Guardei a moeda novamente no bolso, e não pude deixar de exibir um sorriso para eles. — Thomas Nyrzyr.

    — De onde vem? Esse nome é muito exótico. — Ele relaxou um pouco com a minha resposta, porém ainda se manteve cauteloso. — Permita-me, que sobrenome é Thomas?

    Ele falou meu nome com dificuldade, ainda mais na primeira sílaba.

    — É o meu nome — expliquei, com um gesto de mão. — Na minha cultura, o nome das pessoas vem antes do sobrenome. O indivíduo está acima de sua família.

    Ele balançou a cabeça, e expressou uma reação curiosa.

    — Não compartilhamos dos mesmos ideias. A honra da família é o mais importante para nós. De onde você vem?

    — Quem sabe outro dia, com mais tempo, poderei lhe falar mais sobre o meu povo. Mas infelizmente, o meu tempo hoje está corrido. Então, se puder me fornecer as direções para a livraria, eu estarei agradecido.

    Os rapazes trocaram olhares, sem saber como reagir aquela situação. Momentos atrás, estavam me ameaçando, agora queriam saber mais sobre mim. Em breve, aquilo poderia ser uma valiosa moeda de troca.

    — Não precisa, eu vou te levar até lá — afirmou a jovem, o tom de voz sério.

    — Agradeço pela gentileza.

    — Mei, vai mesmo confiar em um estranho? — O líder do grupo quase a segurou pelo braço, mas freou seus impulsos a tempo, e colocou a mão nas costas.

    — Não se preocupe, eu sei me virar. — Ela virou os olhos para trás. — Por aqui, senhor Thomas.

    Com simplicidade e graça, ela começou a andar, sem sequer pedir permissão ou olhar para trás. Sem hesitar, fiz uma pequena reverência de respeito para os rapazes, e a segui-a. Mesmo de costas, pude sentir os olhares dos rapazes, inveja? Medo? Preocupação genuína? Frustração? Bem, não pude determinar com precisão, mantive meu foco na minha guia.

    — Te devo uma, você me poupou uma boa desculpa — disse a garota com um leve suspiro, após nos distanciarmos o suficiente.

    — Como? — Não entendi a primeira vista a afirmação dela.

    — Esquece. — Ela rapidamente desconversou.

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