Capítulo III - Livraria Wen Qishu
Seguimos em silêncio até alcançarmos a avenida principal da cidade. Em ambos os lados da via, erguiam-se palacetes imponentes. Alguns eram claramente prédios governamentais, mas a maioria abrigava lojas especializadas em alquimia, gemas raras e outros produtos exóticos.
— Chegamos — disse Mei ao parar diante de um dos edifícios.
A fachada azulada do prédio se destacava pela elegância, havia uma escadaria que levava a porta principal, e havia uma estátua de soldado em posição de guarda de cada lado da porta. Não era exatamente o que eu esperava de uma livraria. O lugar parecia mais uma mansão nobre do que uma casa de conhecimento.
Por dentro, o salão era amplo e iluminado. Havia várias mesas de estudo vazias, e prateleiras altas repletas de pergaminhos e volumes encadernados. Atrás do balcão principal, um adolescente lia distraidamente, imerso no conteúdo de seu livro.
— Lu! — chamou Mei, ao vê-lo. O garoto levou um susto e deixou o livro cair no chão. — Vá chamar o meu tio. Temos clientes importantes.
— Mei! Quer me matar do coração? — disse ele, e agachou-se apressado para recolher o volume. — Ele está meditando e avisou para ninguém incomodar.
Ele nem sequer lançou um olhar em nossa direção, e tentou voltar à leitura. Mei pousou o cesto no balcão e arrancou o livro das mãos dele.
— Vá chamá-lo — ordenou, firme.
— Você lembra da última vez. Eu não vou. — Ele cruzou os braços com teimosia.
— Por favor. — Intervim, e mostrei girar uma moeda de ouro entre os dedos.
O brilho do metal fez efeito imediato. O garoto arregalou os olhos e, sem mais protestos, correu em direção aos fundos.
— Ele voltará logo. Por favor, fique à vontade. — Mei indicou uma das mesas com um gesto.
— Agradecido.
Escolhi uma mesa próxima à parede e me sentei. Pouco depois, um segundo rapaz entrou. Era mais velho que o primeiro, com longos cabelos castanhos que lhe caíam até os ombros. Vestia uma túnica verde de boa qualidade.
— O que houve? Lu passou por mim feito um gato assustado — perguntou, e franziu o cenho ao ver Mei junto ao balcão.
— Cliente — respondeu ela, apontando sutilmente com a cabeça em minha direção. — Atenda ele por mim. Vou guardar as compras.
O rapaz lançou-me um olhar breve, carregado de julgamento, mas disfarçou rapidamente ao se aproximar.
— Boa tarde, senhor. — Ele fez uma pequena reverência ao se aproximar.
Balancei levemente a cabeça em comprimento.
— Meu nome é Song, sou o filho primogênito da família Wen Qishu, como posso lhe ajudar?
Ele falava com educação, mas era fácil perceber que era apenas formalidade. Algo em mim claramente o incomodava. Talvez fossem minhas roupas, ou a cobra enrolada no meu pescoço.
— Prazer, Thomas. — Apoiei os cotovelos sobre a mesa. — Estou procurando mapas, livros sobre a história local e qualquer coisa útil sobre a cultura desta região.
— De onde vem? Fala surpreendentemente bem nossa língua para alguém “sem conhecimento”, mal consigo notar seu sotaque. — Ele se sentou à minha frente, ainda com o olhar desconfiado.
— De uma terra bem distante. Duvido que conheça o nome.
— Pode tentar. — Ele manteve o tom frio.
— Nasci na ilha chamada Thomas Hope. Já ouviu falar?
— A ilha tem o seu nome?
— Não. Eu é que recebi o nome em homenagem a ela.
Ele assentiu lentamente, como se processasse a informação. Seus olhos baixaram para as minhas vestes, e começou a analisar cada detalhe com atenção. Até que parou nos meus coturnos militares negros, provavelmente nunca tinha visto algo assim.
— Qual o seu reino de cultivo? Em qual camada está? — questionou do mais puro nada.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, bem surpreso com a pergunta sem contexto.
— Não faço a menor ideia do que está falando. — Levei a mão ao queixo. A pergunta dele havia me intrigado.
— Como assim? — Ele riu, como se achasse que eu mentia. — Impossível. Se não quiser revelar sua força, tudo bem, ninguém é obrigado, mas não precisa fingir ignorância.
Ele analisou meu rosto. Quando percebeu que eu falava sério, sua expressão mudou.
— Você realmente não sabe? — sussurrou, e engoliu em seco.
— Não colega, não faço a mínima ideia do que você está falando. Reino de cultivo? Parece alguma referência a agricultura.
— Agricultura? Isso é blasfêmia! — Ele levantou-se da cadeira, irritado com a minha afirmação.
— Então me ilumine. Explique o tal “Reino de Cultivo”. — Fiz aspas com os dedos.
— Que tipo de gesto é esse?
— Apenas vá direto à explicação. — Coloquei a mão no rosto, ao notar minha própria burrice.
— Cultivar é o ato de aprender e manipular o Qi, visando ascender, chegar a imortalidade, e então viver no Reino Celestial, com o próprio Imperador Dragão.
— Só isso? — indaguei, um tanto incrédulo com a simplicidade.
— É uma explicação simples. Claro que existem muitas mais nuances. — Ele refletiu um pouco, e me encarou irritado. — Você pelo menos sabe o que é Qi?
— Um teste de inteligência, quanto mais Qi você tem, mais inteligente você é. Ou também, como na minha língua natal, pode significar nepotismo — respondi confiante.
— Não, Qi é muito mais do que isso! — afirmou, ao bater a mão na mesa indignado com a minha resposta. A minha ignorância com respeito ao tópico parecia o irritar bastante, e isso por si só, me divertia muito. — O Qi é a energia vital que compõem todas as coisas, um cultivador experiente é capaz de manipular e usar o Qi, e assim são capazes de grandes feitos!
— Grandes feitos? — Levantei a sobrancelha
— Imortalidade, destruir montanhas, evaporar mares… Para você ter uma ideia, a geografia de um plano inteiro foi destruído em uma luta entre cultivadores!
— Tá bom, eu entendi essa parte. Mas como se faz isso? Como se cultiva?
Ele soltou um suspiro, ainda tentava manter a calma.
— Meditação, dieta, pílulas, tesouros mágicos. Existem muitas formas, mas nelas todas, o cultivador absorve o Qi do ambiente, e o refina em seu Dantian. Entendeu?
Eu realmente ainda não havia entendido todo o conceito, mas pelo menos, agora eu tinha um norte do que pesquisar.
— Sim, com certeza. Você explica muito bem — afirmei, um tanto zombeteiro, e cruzei os braços.
Antes que ele pudesse responder à minha provocação, Mei retornou ao salão.
— Song, o que está acontecendo? Está gritando tanto que deu pra ouvir do pátio externo.
— Ele não sabe o que é cultivo, Mei — disse Song, e apontou para mim como se apresentasse uma prova de heresia. — Nem sabe o que é um dantian!
Mei franziu o cenho. Depois, suspirou.
— Ele não é daqui, Song. Não seja tão duro com os nossos clientes.
— Mas ele devia ao menos sentir o Qi. Todo mundo sente. — Song me lançou outro olhar de frustração. — Você não sente?
Neguei com a cabeça. Ele virou-se irritado, e encarou Mei.
— Você cuida dele, se eu ficar mais cinco minutos aqui, não vou me controlar — falou, e desapareceu por detrás do balcão.
— O que você fez? — A reação de Song havia mudado o comportamento gentil dela para algo mais frio.
— Pior que nada. — Dei de ombros.
Mei cruzou os braços, os olhos fixos em mim, e então relaxou.
— Acredito em você, meu primo é bem temperamental, ainda mais quando o assunto é cultivo — disse ela.
— Ótimo. Então só preciso que alguém menos temperamental me aponte onde estão — respondi, e ergui as mãos em rendição teatral.
— Parece bom, garoto. — Um homem, aproximadamente nos seus trinta anos, apareceu. Possuía um rosto liso como o de um bebê e cabelos pretos que iam até os ombros. Vestia uma túnica branca simples, mas seu andar tinha uma leveza incomum, como se o chão mal o tocasse.
Mei endireitou-se imediatamente.
— Senhor Thomas, este é o meu Tio, Wen Jiahao. Ele é o patriarca da família Wen Qishu. — Ela fez uma reverência, e saiu pelos fundos.
— Não costumo receber clientes diretamente, mas você chamou minha atenção — falou, e sentou-se na minha frente. — Esta cobra que carrega no pescoço, dá um ar místico a você. Pelo que vejo, não é um viajante qualquer, porém, parece que nada sabe sobre cultivo. Então o que você busca?
— Estou em busca de mapas, registros históricos, e irei pagar bem. — Mostrei a moeda para ele.
A resposta não foi bem o que eu esperava. Jiahao soltou uma gargalhada ao ver a moeda.
— Peço desculpas, achei que queria algo mais refinado. Com mais um punhado de moedas, você pode comprar todo o estoque de mapas da loja.
— Sério?
— Onde você encontrou essa moeda?
— Meu irmão me deu, com todas as minhas provisões para a minha viagem — afirmei, e olhei sério para ele.
— Seu irmão deve ser um homem muito rico, e refinado. Essas moedas de ouro não são produzidas há pelo menos um milênio. A inscrição atrás dela é do décimo reinado, e nós estamos no décimo primeiro reinado.
— Um milênio?
— Sim, já vi alguns exemplares similares, mas eram de prata. Essas moedas são muito raras.
— Não consigo ler, o que está escrito aqui? — questionei, ao analisar a ideograma marcada na moeda.
— É o nome do décimo rei, e algumas marcas para validação — disse ele, ao se aproximar.
— Tenho muito mais dessas, e estou disposto a trocá-las.
— Então diga o que precisa, e faremos negócio — disse, recostando-se na cadeira com um leve sorriso.
— Um mapa da região, para começar. Depois, livros sobre as principais rotas de comércio.
— Nenhum interesse por cultivo? Esse é nosso carro-chefe. Temos manuscritos de técnicas, receitas de alquimia, tudo que um iniciante precisa para atingir o segundo reino, mesmo que ele não tenha o talento, o dinheiro pode comprar quase tudo.
— Ainda não. Só os mapas, e se possível, livros de história e folclore local.
— Você é um caso curioso mesmo — riu novamente. — Achei que todas as terras dos Cinco Reinos conhecessem o Qi. De onde exatamente você veio? Ou será que é um raro exemplar do Mar do Dragão?
— Não tenho obrigação de responder — cortei, direto. — Estou aqui para comprar, não para ser interrogado. Vamos fazer negócio ou não?
Jiahao não se ofendeu. Manteve o sorriso tranquilo e se levantou.
— Venha comigo. Talvez eu tenha o que procura no estoque.
Acompanhei-o por um longo corredor até uma sala ampla, repleta de estantes abarrotadas de pergaminhos e livros encadernados. Ele puxou um grande rolo de couro e o abriu sobre a mesa central.
— Este é um mapa completo da Província de Haiyun — disse, ao desenrolá-lo. — Mostra estradas, rios, portos, cadeias montanhosas… e, claro, as melhores áreas para cultivo.
— Já disse que não tenho interesse em cultivo — respondi, sério.
— Acredite em mim, garoto, não entendo como chegou até aqui com tanto dinheiro e nenhum traço de talento espiritual. Talvez seja diferente onde você vive, mas neste mundo, sem cultivo, você não sobrevive. Ou tem um patrono, ou um dom.
O tom dele era quase paternal, mas não parecia desdém. Era preocupação genuína.
— As crianças são ensinadas desde cedo a se unir à natureza, fortalecer corpo e mente. Ainda assim, a maioria mal ultrapassa a terceira camada.
— Camadas, reinos… — cocei a cabeça. — Você fala como se fosse outra língua.
— Se pretende viajar por esse mundo, vai ter que se familiarizar com esses termos.
— Dou meu jeito. Quanto custa o mapa?
— Doze moedas de prata.
— Só tenho ouro.
— Não tenho troco para tudo isso.
— Então fique com o troco.
Joguei-lhe a moeda e enrolei o mapa.
— Achei que quisesse livros sobre mitologia — comentou ele, com um sorriso ainda mais largo ao admirar o brilho do metal raro.
— Volto amanhã. Por hoje, isso já basta.
Soltei um suspiro, e estava prestes a sair da sala, quando me lembrei de algo importante.
— Você conhece um lugar para pernoitar?
— Não se preocupe, caso precise, temos quartos de hóspedes, considere pago. — E ele guardou a moeda no bolso.
— Não quero incomodar.
— Garoto, lamento, mas não é apropriado alguém da sua nobreza e riqueza se hospedar em uma pousada qualquer. Pessoas mal-intencionadas poderiam se aproveitar da sua situação.
— E você não poderia? — rebati, sem rodeios.
Ele sorriu, sem se ofender.
— Tem uma língua afiada, garoto. Cuidado, ela pode acabar se voltando contra você — disse, com uma risada leve.
— E pare de me chamar de “garoto”. Você tem quase a minha idade.
Jiahao me lançou um olhar divertido. De fato, sua aparência lembrava um homem saudável na casa dos trinta, certamente não parecia muito mais velho do que eu, que recém completara vinte anos.
— Diga, garoto. — Ele colocou uma certa ênfase na palavra, propositalmente para me confrontar. — Quantos anos você acha que eu tenho.
— Trinta? Não mais do que quarenta.
A risada dele aumentou muito.
— Pareço tanto assim com uma criança? Realmente, você nada sabe de cultivo. Tenho sessenta e cinco anos.
Fiquei congelado por um instante. Havia um fundo de verdade naquilo, eu possuía minha experiência com coisas inacreditáveis, afinal eu possuía cartas no meu baralho com poderes semelhantes.
— Acredito em você. Agora me explique como.
— Cultivo. Refinei o Qi em meu corpo. Claro, sou uma exceção. Estou na décima quarta camada do segundo reino. Isso aumentou minha expectativa de vida em pelo menos trinta anos.
Soltei um longo suspiro. Aquela informação mexeu comigo de um jeito inesperado. Havia algo ali que eu não podia mais ignorar.
— Parece que não tenho escolha… vou ter que aprender sobre esse tal de cultivo.

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