O som das ondas que colidiam com os navios ancorados nas docas, misturava-se às vozes abafadas e apressadas das pessoas. Alguns marinheiros gesticulavam nervosamente, enquanto outros apenas observavam em silêncio. A multidão se apertava, mas abria espaço conforme os homens que arrastavam algo subiam pelas pedras molhadas da encosta.

    Era um cadáver de um rapaz jovem, e um enorme buraco atravessava seu torso de lado a lado, com bordas negras e retorcidas como se tivesse sido queimado por dentro. Não havia sangue. O corpo estava ressecado, pálido, quase mumificado. Como se toda a vida tivesse sido drenada até a última gota.

    Senti um frio repentino subir pela espinha.

    — O cocheiro… — murmurou Lefkó sob meu casaco, a voz quase imperceptível.

    Sim. Era ele. Agora, estava ali, jogado como um saco de pano velho, com os olhos vítreos fitando o nada. Fiquei atônito, perdido nos meus pensamentos e teorias sobre o que havia acontecido. Continuei imerso em minha mente até ser interrompido pela chegada de guardas, que começaram a afastar a multidão.

    — Ninguém toca no corpo! Recuem! — gritou um deles, de armadura de couro azul-marinho.

    — Thomas, vamos sair daqui antes que chamemos a atenção — aconselhou Lefkó, a voz um tanto quanto preocupada.

    Me esgueirei para fora, e me afastei para longe. Até chegar em uma área mais vazia do porto. Sentei-me num banco de madeira gasta diante de um depósito trancado, coloquei os cotovelos sobre os joelhos e apoiei o queixo nas mãos.

    Lefkó deslizou pelo meu pescoço e apoiou a cabeça ao lado do meu rosto, me fitando com os olhos finos e dourados.

    — Qual a teoria? — perguntou ela, em tom direto.

    — Tenho duas. — Suspirei. — Alguém sabe sobre nós e tentou extrair informações do cocheiro. Ou tudo isso não passa de uma coincidência.

    — Não existem coincidências — afirmou em tom sério. 

    — É isso que me preocupa. Eles já sabem de nós.

    — Mal chegamos e já fomos descobertos? Você acha mesmo isso? 

    Fiquei em silêncio. A dúvida era cruel, mas necessária.

    — Descobertos, talvez não. Mas notados, com certeza. — Deixei uma gargalhada escapar, afinal eu havia chamado muita atenção, tanto no mercado quanto na livraria. — Felizmente, eles não têm nenhuma noção sobre nossa verdadeira missão. Acreditam que somos forasteiros ricos, excêntricos. Talvez mercadores ou nobres em viagem.

    — Quais os próximos passos? Sei que você já os tem.

    — Organizar nossa rede de espionagem, já íamos fazer isso de qualquer jeito. 

    Levantei-me do banco, coloquei a mão no bolso e removi uma carta do meu baralho. A ilustração na carta era uma das minhas favoritas, um soldado novato, que carregava sua baioneta, ainda com um sorriso no rosto, enquanto caminhava para a morte iminente nas trincheiras.

    — O louco! — proferi em voz alta para ativar o efeito da carta.

    Uma névoa negra saiu da minha boca no mesmo instante, e segundos depois, uma densa neblina cobriu toda a doca. Tudo foi consumido pela neblina, se impossibilitou enxergar um palmo na sua frente.

    Não demorou muito para que uma silhueta se destacasse na névoa. Era um homem alto, magro e pálido, não possuía rosto, usava o mesmo uniforme que eu, casaco negro e coturnos militares.

    — Quais são suas ordens? — questionou, em um tom robótico.

    — Vigie o porto. Tem carta-branca para agir como quiser — respondi. Com um simples movimento de mãos, ordenei que a névoa começasse a se dissipar.

    — Como desejar… — A silhueta esmaeceu até se tornar apenas uma sombra no chão, e então desapareceu junto da névoa negra.

    Guardei a carta de volta no baralho e comecei a seguir meu caminho, afastando-me dali rumo aos subúrbios da cidade. Conforme caminhava, senti Lefkó se agitar sob meu casaco.

    — Você deu carta-branca ao “Mestre das Marionetes”? — perguntou ela, desconfiada dos meus métodos.

    — Sim. Pouco importa se for notado. Tenho certeza de que será confundido com alguma assombração vulgar. — Ergui os braços em um gesto despreocupado. — E se tentarem fazer um exorcismo, irão falhar.

    — Terminamos aqui? — Ela se enroscou novamente, e repousou. — Vamos procurar um lugar para pernoitar?

    — Ainda não, existem outros olhos úteis para nós.

    Adentrei um beco estreito — um atalho entre a parte baixa do porto e os bairros elevados da cidade. Como eu suspeitava, a presença que me seguia desde a livraria tornou-se mais evidente.

    — Quem é você? — perguntei, sem me virar, ao alcançar a metade do beco.

    — Caramba, achei que alguém sem Qi seria incapaz de notar minha presença — disse uma voz jovem, masculina, vinda da entrada do beco.

    Virei-me devagar e sorri. Era um rapaz no fim da adolescência, vestido com uma túnica branca. Apesar da distância, podia notar seus olhos castanhos gentis, ele não parecia demonstrar perigo ou ameaça.

    — Eu tenho meus próprios truques. Quem te enviou? — indaguei, direto.

    — Ninguém.

    — Então é tolo por conta própria. O que viu? — Cruzei os braços e soltei um suspiro cansado.

    — Você tem uma cobra falante. Só isso já diz muita coisa. — Ele deu um passo à frente, cauteloso, e mantinha distância suficiente para reagir a qualquer investida minha.

    — Foi o dono da livraria, não foi? — Já tinha minhas próprias suspeitas sobre aquele homem gentil que provavelmente escondia intenções ocultas.

    — Jiahao não tem nada a ver com isso — respondeu rápido, sem pensar.

    — Então o conhece. Ótimo. Já disse tudo que eu precisava saber. — Dei-me por satisfeito e me virei para ir embora.

    — Quais são suas intenções com a Mei? — Ele aproximou-se um pouco mais.

    — Eu não sei de quem você está falando.

    — Como assim quem? — Ele se ofendeu com a minha ignorância. — Você está zombando de mim?

    — Sou ruim com nomes e rostos. — Balancei a cabeça e inventei uma desculpa qualquer.

    — Estou falando da Mei! A garota mais bela de toda essa cidade!

    — O amor é mesmo cego. Se ela é a mais bonita, nem quero imaginar as feias.

    — O que está insinuando?

    — Muitas coisas podem ser ditas, mas nem todas podem ser faladas. Entende? — Pisquei o olho para ele.

    — Não zombe de mim!

    — Não preciso. Você faz isso sozinho. — Decidi parar aquela conversa fiada que não me levaria a lugar nenhum, então me virei para continuar meu caminho.

    Três rapazes estavam sentados na ponta do beco. Diferente do jovem na minha frente, eles pareciam ser maus elementos. Estavam com o rosto fechado, e me encaravam com uma seriedade um tanto diferente.

    — São seus amigos? — questionei para o jovem.

    — Nunca me juntaria com alguém da laia deles.

    — Então você os conhece.

    — São da gangue do Hai Zi, são criadores de problema por natureza.

    Antes que eu pudesse responder, outros dois surgiram na entrada oposta do beco. Estávamos cercados.

    Notei a movimentação e, em segundos, todas as peças se encaixaram. Me preparei para o próximo passo.

    — Lefkó, vou fazer uma aposta — murmurei.

    — Não gosto quando você aposta — respondeu ela, em um sussurro.

    — Nem eu. Se tudo der errado, prepare uma poção de renascimento e ative a carta do “Mundo”.

    — O que está pretendendo? Você consegue lidar com esses trombadinhas com facilidade.

    — Não vou usar o baralho na frente de um civil.

    — Então limpe as testemunhas. Você já fez isso uma dezena de vezes. — Ela ainda não havia entendido meu plano.

    — Uma aposta é uma aposta. Se não conseguirmos derrotá-los, ative o plano de contenção. Caso contrário, mesmo que eu perca a consciência, não faça nada imprudente.

    — Você acha que vai perder?

    — Sem o baralho? — Dei uma risada curta. — Depende da força deles, mas acho que dou conta.

    — Você acha que vai perder? — repetiu, insistente.

    — Não. Mas uma aposta sem plano B não é o meu estilo. — Estalei os dedos, pronto para o combate que se aproximava.

    — Como quiser. — Ela deslizou para fora do casaco e rastejou pelo chão do beco.

    Suspirei fundo, e me preparei para a luta que se desenhava.

    — O que eles querem? — questionei para o garoto logo atrás de mim.

    — Você é um nobre rico de uma terra distante, claro que eles querem sua bolsa de moedas.

    Coloquei a mão na testa. Percebi minha burrice e total desconhecimento daquele mundo.

    — Isso tem alguma coisa a ver com a morte do rapaz nas docas?

    — O que você fez?

    — Paguei uma gorjeta com uma moeda de ouro — respondi, um tanto envergonhado.

    — O quê? — O queixo dele caiu.

    Pela reação dele, aquilo deveria valer bastante.

    — Quanto que vale uma moeda de ouro em dias de trabalho? 

    — Um ano de salário. Quantas moedas você tem? Para dar de gorjeta?

    — Acho que isso não importa agora — falei, ao notar que os rapazes começavam a se aproximar.

    A postura do jovem mudou, e ele também entrou em posição de luta.

    — Lingxin, você não deveria estar aqui. — Um dos rapazes disse, ao começar a se aproximar. — Vá embora.

    — Ele é só um forasteiro.

    — Muito rico por sinal. Pense na quantidade de pessoas que estão sofrendo para ele acumular toda essa riqueza. — Ele apontou para mim.

    — Vai cair na velha falácia de Robin Hood? — Estalei os dedos. — Você não sabe de nada.

    — Sabemos mais do que você.

    Eles se aproximaram, o olhar frio, e pronto para a luta. Virei me para o jovem ao meu lado, parecia ser o meu aliado naquele momento.

    — Vai me ajudar, ou vai só olhar? — questionei, um sorriso confiante em meus lábios.

    Ele suspirou, um suspiro meio presunçoso. E então me falou:

    — Jiahao meio que me obrigou.

    — Perfeito. 

    Encarei os oponentes, girei os braços, e me preparei para a batalha que se desenhava.

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