Capítulo 11 - Chamas da Dúvida
O clima no salão do Conselho da Seita do Dragão Carmesim era pesado. Estátuas de dragões com olhos de rubi ladeavam o salão, seus olhares fixos como sentinelas eternas.
No centro, uma mesa longa de pedra negra reunia os doze Elders, seus mantos vermelhos bordados com dragões dourados tremulando sob o peso de suas auras.
O ar cheirava a enxofre e brasas, e o calor das rachaduras vulcânicas no chão fazia o ambiente crepitar, como se o próprio monte estivesse vivo, respirando.
Tang Yanlong, o Patriarca da seita, estava à cabeceira, os cabelos negros caindo sobre os ombros, os olhos vermelhos brilhando como brasas sob a luz das runas.
Sua presença fazia o ar pesar, o Qi em suas veias pulsando com a força de um cultivador no estágio Alma Divina. Diante dele, os Elders permaneciam em silêncio, o peso da mais recente notícia pairando como uma tempestade iminente.
Os relatórios dos coletores haviam chegado: todas as vilas na região montanhosa indicada pelo oráculo foram destruídas pela Seita da Garra Flamejante, mas nenhum traço do sangue do Clã Lin foi encontrado.
— Então, é isso? — começou Meng Shentian, o Segundo Elder, sua voz grave ecoando como um trovão.
O homem corpulento, com barba grisalha e olhos selvagens, bateu o punho na mesa, fazendo as runas no chão tremeluzirem.
— Mandamos a Garra Flamejante dizimar aquelas vilas, e o que temos? Nada! Nenhum sinal dos Olhos Celestiais, nenhum traço do sangue Lin! Como pode não haver nada? O oráculo nos fez perder tempo e recursos por nada?
Shen Lianhua, a Quarta Elder, ergueu uma sobrancelha, os cabelos negros caindo em cascata sobre seu manto. Seus olhos frios analisavam Shentian com desdém.
— Cuidado com suas palavras, Shentian — disse ela, a voz calma, mas afiada como uma lâmina. — Yue Wuxin nunca errou antes. Suas visões nos levaram a glória no passado. Desrespeitá-la é desrespeitar os céus.
Shentian bufou, cruzando os braços.
— Visões? — retrucou ele. — Ela viu “olhos dourados” e “montanhas cobertas de flores”. Mandamos a Garra Flamejante arrasar cada vila naquela região, e os coletores voltaram de mãos vazias! Se o sangue Lin estivesse lá, teríamos encontrado. Ou Yue Wuxin viu sombras de um passado morto, ou somos nós que falhamos em interpretar suas palavras.
Luo Wuji, o Sétimo Elder, recostou-se na cadeira, um sorriso irônico curvando seus lábios. O homem magro, com olhos astutos, batia com os dedos na mesa.
— Talvez o erro não seja do oráculo, mas nosso — disse ele. — Mandamos a Garra Flamejante, uma seita de cães selvagens, fazer o trabalho sujo. A ausência de provas não significa que o oráculo estava errado. Talvez a Seita da Garra Flamejante tenha sido… descuidada.
— Descuidada? — retrucou Meng Shentian, os olhos faiscando. — Ordenamos que matassem todos, e eles obedeceram! Eles não são idiotas o suficiente para falharem numa tarefa tão simples!
— Mas eles queimaram tudo, Shentian. Corpos, casas, campos… reduzidos a cinzas. Como os coletores poderiam encontrar sangue em um monte de carvão? — Completou o Sétimo Elder.
O salão ficou em silêncio, os Elders trocando olhares. Tang Yanlong permanecia imóvel, os olhos fixos na mesa, mas o Qi ao seu redor faiscava, um sinal de sua crescente irritação. Ele ergueu a mão, silenciando o murmúrio que começava a surgir.
— Wuji tem razão — disse Tang Yanlong, a voz baixa, mas cortante como uma espada.
— Ordenamos à Seita da Garra Flamejante que destruíssem as vilas para os coletores testarem o sangue. Mas os incompetentes queimaram tudo, como se quisessem apagar até as memórias daqueles lugares.
Shen Lianhua inclinou a cabeça, o brilho calculista em seus olhos intensificando-se.
— A Garra Flamejante sempre foi… exagerada — disse ela. — Eles agem com fervor, mas sem precisão. Talvez tenham pensado que queimar tudo garantiria que nenhum Lin escapasse. Mas, ao fazer isso, podem ter destruído nossa chance de confirmarmos a profecia.
— Aqueles cães da Garra Flamejante! — rugiu Chen Feng, o Nono Elder, um homem de meia-idade com cicatrizes cruzando o rosto, resultado de batalhas antigas. — Wei Cang e seus lacaios desobedeceram! Devíamos apagá-los da face dos Nove Reinos por tamanha insolência!
Shen Lianhua ergueu a mão, interrompendo-o.
— Calma, Chen Feng. A Seita da Garra Flamejante é útil. São cães leais, mesmo que mal treinados. Destruí-los agora chamaria atenção. A Seita da Lua Prateada já fareja nossas ações, e o Imperador Tianhuo não tolera conflitos abertos entre seitas ortodoxas. Precisamos de sutileza.
— Então, o que sugere? — perguntou Chen Feng. Sua voz era rouca, mas firme. — Se o oráculo realmente estava certo, podemos ter perdido a trilha por causa da incompetência deles. Se havia um descendente Lin, ele pode ter virado cinzas com os outros.
A ideia pairou no salão, pesada como o enxofre no ar. Meng Shentian cerrou os punhos, o rosto vermelho de raiva.
— Se isso for verdade, a Garra Flamejante não apenas falhou, mas nos sabotou! — rugiu ele. — Devíamos apagá-los do mapa! Queimar seus pavilhões, decapitar seus líderes, mostrar o que acontece com quem desobedece ao Dragão Carmesim!
— Podemos apenas nos culpar enquanto mandamos uma seita de terceira categoria queimar vilas inteiras! Se o sangue Lin estava lá, agora está perdido. E se não estava, então Yue Wuxin nos fez caçar fantasmas. Talvez seja hora de questionar o oráculo, não a Garra Flamejante. — exclamou Luo Wuji, rindo com desdém.
Tang Yanlong lançou um olhar que fez Wuji encolher-se na cadeira.
— Yue Wuxin nunca falhou — disse ele, a voz fria como gelo. — Ela previu a ascensão do Clã Lin há décadas, e eu mesmo cortei a cabeça de Lin Zhan no Desfiladeiro das Lágrimas Negras, aquela batalha nos custou três anciões. Se ela diz que o sangue deles vive, então há algo que nos escapa. Mas ainda assim, a Garra Flamejante será punida por sua insolência.
Xu Mingzhu, a Sexta Elder, uma mulher idosa com cabelos grisalhos presos em um coque apertado, falou pela primeira vez, sua voz tremendo com fervor fanático.
— Realmente a profecia não pode ser ignorada — disse ela, os olhos brilhando como as runas no chão. — Os Olhos Celestiais são uma abominação, uma afronta aos céus. Se o sangue Lin sobreviveu, mesmo que em cinzas, a culpa é nossa por confiarmos em lacaios. Deveríamos ter enviado os coletores junto com a Garra Flamejante, para testar o sangue na hora, antes que o fogo apagasse tudo.
— Agora é tarde demais — interrompeu Chen Feng, esfregando as cicatrizes no rosto. — Agimos com pressa porque a visão de Wuxin parecia urgente. Mas se o sangue Lin estava lá, o fogo pode ter o destruído. E se não estava, então o que o oráculo viu foi apenas uma sombra do passado. Esses seriam os melhores cenários.
O salão mergulhou em um silêncio tenso, os Elders refletindo sobre as palavras. Tang Yanlong esfregava a têmpora, pensando no que fazer.
Finalmente, ele falou, a voz carregada de autoridade.
— A Garra Flamejante pagará por sua falha — disse ele. — Eles não tinham ordens para queimar os corpos. Como punição, o patriarca deles, Wei Cang, será trazido ao Monte do Dragão Escarlate. Queimaremos sua alma diante de seus discípulos, um lembrete de que desobediência tem um preço. Mas não destruiremos a seita. Eles ainda são úteis, vigiando as regiões menores para nós.
Meng Shentian resmungou, claramente insatisfeito, mas não protestou. Shen Lianhua assentiu, satisfeita com a decisão.
— Sábio, Patriarca — disse ela. — A punição manterá a Garra Flamejante na linha, e suas ações continuarão a nos proteger das suspeitas da Lua Prateada.
Luo Wuji cruzou os braços.
— E quanto ao oráculo? — perguntou. — Vamos continuar caçando fantasmas? Ou admitimos que Yue Wuxin pode ter visto um reflexo do passado, algo que já não existe?
Xu Mingzhu bateu na mesa, os olhos faiscando.
— Blasfêmia! — exclamou ela. — Questionar o oráculo é questionar os céus! Mesmo que o sangue Lin tenha sido apagado, a visão de Wuxin nos alerta para sermos vigilantes. Não podemos baixar a guarda.
Tang Yanlong ergueu a mão, silenciando a discussão. Seus olhos varreram o salão, parando em cada Elder.
— Yue Wuxin viu olhos dourados e uma calamidade — disse ele. — Mas os coletores não encontraram nada. Acredito que o sangue Lin tenha acabado com Lin Zhan, como acreditávamos. É possível que o oráculo tenha captado uma sombra de um poder que já não existe. Mas… A dúvida permanece.
Ele fez uma pausa, o Qi faiscando ao seu redor.
— Não arriscaremos a Seita do Dragão Carmesim por complacência. Mas enquanto a sombra do Clã Lin não se manifesta, nossos recursos devem ser voltados para ameaças concretas, como a Seita da Lua Prateada.
O Patriarca levantou-se, o manto esvoaçante, a aura esmagando o ar como uma onda de calor.
— As buscas pelo sangue Lin vão cessar por enquanto, não temos tempo para isso no momento — declarou ele. — Não desperdiçaremos mais recursos com um inimigo que pode estar morto. A Seita da Lua Prateada cresce em influência, e o Imperador Tianhuo observa nossos movimentos. Devemos voltar nossos olhos agora para os inimigos vivos, não para fantasmas do passado.
Os Elders assentiram, alguns com alívio, outros com hesitação. Meng Shentian cerrou os punhos, claramente desejando mais ação, enquanto Shen Lianhua mantinha um sorriso sutil, satisfeita com a mudança de foco.
Quando o conselho se dispersou, o salão ficou vazio, exceto por Tang Yanlong, que permaneceu à mesa, os olhos fixos nas runas vermelhas que pulsavam no chão.
Uma pontada de dúvida o corroía, como uma brasa que se recusava a apagar. E se o oráculo estivesse certo? E se, em meio às cinzas, um par de olhos dourados ainda brilhasse, escondido, esperando?
Ele balançou a cabeça, afastando o pensamento. O Clã Lin estava morto. A Seita do Dragão Carmesim prevaleceria.
Fora do salão, os rios de lava fluindo como veias de fogo, enquanto o céu acima se tingia de vermelho, como se os próprios céus testemunhassem a decisão tomada.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.