Capítulo 8 - Grau de Pureza
A luz púrpura girou ao nosso redor como um redemoinho etéreo e familiar, e num piscar de olhos, a realidade se curvou mais uma vez. Estávamos de volta à torre mágica, ou, como Oliver havia apelidado em tom de deboche, o teatro acadêmico da mente disciplinada.
As paredes eram feitas de fumaça firme, como se o próprio ar tivesse sido treinado para obedecer. Os vitrais flutuavam sem estar presos a nada, transbordando mana líquida que brilhava como rios no céu.
Pers já estava lá, sentada elegantemente em uma das plataformas elevadas, com o queixo apoiado na mão, observando em silêncio, como se fosse a juíza de um torneio secreto. O vestido negro ondulava mesmo sem vento. A Deusa da Morte assistia, não interferia.
Oliver girou o cachimbo nos dedos e tragou, soltando uma espiral preguiçosa de fumaça que desenhou no ar uma espiral de círculos mágicos, cada um mais intricado que o outro.
— Muito bem, meus caros… aprendizes? Não. Discípulos? Talvez. Enfim, meus protagonistas. Hoje, mergulharemos no que separa um aspirante de feiticeiro de uma força capaz de fazer o tempo sangrar: o sistema de Pureza de Veias de Mana.
A fumaça se condensou à frente, formando um diagrama flutuante com um corpo humano estilizado. Nas veias dele, corria um brilho tênue que, conforme Oliver falava, se intensificava em certas regiões.
— Em Chaia, não é o quanto de mana você tem que importa… é a qualidade dela. O quão puro é o fluxo dentro das suas veias. Pense como canais de água. Um canal sujo carrega pouca energia, mesmo que você despeje oceanos nele. Um canal límpido, porém… — ele estalou os dedos e uma rajada flamejante atravessou o boneco de fumaça, fazendo-o brilhar — pode canalizar os céus.
Ele se virou para mim, como se me testasse.
— Qual é o nível de um bebê recém-nascido comum?
— Zero? — arrisquei.
— Perfeito. — sorriu, satisfeito. — Todos nascem com Grau de Pureza zero. A alma é fresca, mas o corpo não sabe canalizar mana. Agora… gênios, os abençoados pelas Deusas — ele olhou de canto para Pers, que apenas arqueou uma sobrancelha — esses nascem com pureza de grau um.
— E os humanos normais chegam até onde? — perguntei.
— A maioria… fica no grau três, talvez quatro se tiverem talento. Os grandes magos, os que mudam reinos inteiros, alcançam o nível seis. E os maiores da história de Chaia… aqueles que as lendas veneram e os bardos não se cansam de cantar, chegaram ao grau sete.
Ele fez uma pausa, e com um sorriso presunçoso completou:
— Em vida, este que vos fala… alcançou o grau oito.
Pers soltou um pequeno assobio zombeteiro do alto da plataforma.
— Com muita dor, sacrifício e uma quantidade indecente de vinho — disse ela.
— Exatamente! — concordou Oliver, sem perder o bom humor. — E é por isso que estou apto a ensinar você o que é, talvez, o ápice do refinamento mágico em nosso mundo: a Purificação das Veias de Mana. Uma técnica secreta, passada apenas para aqueles que…
Ele me olhou por um longo instante, como se pesasse a alma através dos olhos.
— …podem carregar algo além da própria história.
— E como se purifica as veias? — perguntei, curioso, quase inquieto.
Oliver sorriu, mas seu sorriso não era leve. Era o tipo de sorriso que vem com cicatrizes.
— Ah, meu jovem Hades… essa é uma pergunta para os próximos capítulos. Mas posso adiantar: dói. Queima. Quebra. E quando você acha que vai morrer… você renasce.
— E eu? — perguntei, hesitante. — Já consigo saber meu grau?
Antes que Oliver pudesse responder, a voz de Perséfone ecoou, suave, mas cheia de poder.
— Você nasceu com pureza grau um. Como todos os gênios que carrego sob minha asa. Mas demonstra grande potencial e alcançará rapidamente o grau cinco, Hades. O que é surpreendente… e um pouco assustador.
Oliver assobiou, surpreso de verdade.
— Em tão pouco tempo… E eu achando que teria tempo para moldar você aos poucos. Talvez, só talvez, você possa mesmo… um dia… suportar a purificação.
— Mas por quê? — perguntei, sentindo meu peito pesar com a antecipação. — Por que é tão importante?
Pers desceu, flutuando como uma sombra feita de seda, e parou diante de mim. Seus olhos vermelhos me prenderam, intensos.
— Porque, quando chegar a hora… só alguém com veias puras o suficiente poderá abrir o véu entre mundos. Só alguém com sangue limpo o bastante poderá desfazer o que Ao tentou esconder.
Ela tocou meu peito, bem sobre o coração.
— E só alguém forte o bastante para suportar isso, será capaz de lutar contra os próprios Deuses… e vencer.
Fiquei em silêncio. O peso dessas palavras era maior que qualquer feitiço. Maior até que o mundo.
Mas dentro de mim… algo começava a aceitar esse peso.
Afinal… eu já tinha morrido uma vez. O que mais eu tinha a perder?
Oliver deu mais uma longa tragada em seu cachimbo e, antes de continuar, soprou uma espiral roxa que se transformou em uma veia pulsante coberta por fuligem.
— E antes que algum gênio ansioso aí — ele me lançou um olhar sugestivo — pense que basta querer para ter veias puras, saibam que há fatores mundanos que contaminam a mana tanto quanto os arcanos.
Ele apontou com a ponta do cachimbo para a veia escurecida no ar.
— O corpo é o primeiro condutor da mana. Se você entope suas artérias de tabaco comum, não esse aqui, claro, afoga seu fígado em bebidas baratas e ainda tem preguiça de levantar da cama antes do meio-dia… — ele soprou mais fumaça, que agora corroía a veia ilusória como ferrugem — …não importa quantos feitiços você decore, sua mana nunca vai fluir como deve.
Ele bateu com o cabo da bengala no chão, e a imagem de um mago grotescamente deformado pela própria energia distorcida apareceu flutuando, tossindo uma fumaça preta e com olhos apagados.
— Essa é a trágica figura do auto-sabotador arcano. Nunca foi amaldiçoado. Nunca enfrentou uma maldição divina. Apenas vivia mal… e por isso, morreu pior.
Pers riu suavemente do alto da plataforma.
— Estou surpresa que esteja ensinando isso, Oliver. Em vida nunca se importou em dar esse tipo de conselho aos seus antigos alunos.
— Porque eles não tinham potencial. Você dá conselho a uma tocha apagada? — retrucou Oliver, sem cerimônia. Mas esse aí — ele apontou o cachimbo para mim — é uma tocha acesa em meio a um campo de pólvora. Se ele vacilar, explode. Se aprender a queimar certo… incendeia Chaia.
Olhei para minhas próprias mãos. Elas tremiam um pouco. Não de medo. De energia. De algo que começava a despertar.
Pers falou, mais suave:
— Seu corpo é o templo da sua alma. Mas suas veias… são os corredores por onde a eternidade passa. Cuide deles, Hades. Ou mesmo o mais brilhante dos dons será engolido pela sujeira do mundo.
Assenti. Pela primeira vez, entendi por que ela falava com tanta reverência sobre o que ainda estava por vir.
E por que Oliver, mesmo irônico, me olhava como se visse algo sagrado.
Oliver andava em círculos sobre o piso esculpido da torre mágica, a bengala estalando no chão como um metrônomo impaciente. Eu o observava, ainda sentindo o resquício de calor da esfera de mana que conjurei horas atrás. A excitação em seus olhos ainda não havia se apagado.
— Agora que já sabemos que você é uma fornalha ambulante com talento natural, é hora de resolver um pequeno detalhe sobre seu futuro corpinho noturno — disse ele, interrompendo o silêncio com aquele tom quase teatral. — Vampiros, como você deve imaginar, não se dão bem com o sol. Já ouviu falar em combustão espontânea estética?
— Isso existe mesmo?
— Não oficialmente — respondeu com um sorriso torto. — Mas já vi acontecer. É uma cena… incinerante. E como você vai reencarnar como o herdeiro dos Nosferatus, é bom aprender isso agora, antes que seu primeiro passeio matinal acabe virando churrasco.
Do alto da plataforma, Pers cruzou as pernas com graça, envolta em seu vestido negro, agora quase etéreo sob a luz azulada da torre. Ela sorriu de canto.
— Você não quer queimar no primeiro raio de sol, quer? Seria trágico. E cômico. Mas mais trágico.
Oliver girou o cachimbo nos dedos, puxou uma tragada curta e soprou no ar um anel de fumaça púrpura. Dentro dele, surgiu a imagem de um vampiro erguendo uma barreira tênue de mana ao redor do próprio corpo, como uma segunda pele translúcida.
— Preste atenção, Hades. Isso não é uma barreira de combate. Ela não para flechas, não bloqueia espadas, não salva sua vida de um raio. — Ele estalou os dedos e a imagem se despedaçou. — Mas se feita corretamente, protege sua pele da radiação solar, criando um fino véu de mana entre você e a luz.
— Como se fosse… um escudo invisível?
— Mais como um protetor solar mágico de alta eficiência, se preferir — disse Oliver, divertido. — Mas é delicado. Diferente das barreiras de batalha, essa precisa ser sutil, constante, perfeitamente regulada. Qualquer excesso… e você começa a cozinhar de dentro pra fora.
— Que reconfortante — murmurei, sarcástico.
Pers se levantou, caminhando com leveza até o parapeito da torre, de onde o campo de girassóis podia ser visto à distância. Seu olhar estava perdido no horizonte, mas sua voz soou clara.
— Os vampiros foram feitos para a noite. Mas você será um apóstolo. E um apóstolo caminha onde for necessário, mesmo sob o sol. Você precisará dominar essa técnica se quiser viver entre os vivos sem queimar como pergaminho antigo.
Oliver estalou a bengala contra o chão. A fumaça ao nosso redor girou, tomando a forma do meu próprio corpo. Um brilho começou a pulsar em pontos vitais, acompanhando o fluxo de mana.
— Concentre-se. Imagine sua mana fluindo para as bordas do seu corpo, como uma névoa se condensando na pele. Sinta o calor do sol, mesmo que não haja nenhum aqui e empurre a mana contra ele, como se quisesse que ela fosse sua nova epiderme.
Fechei os olhos. Respirei fundo. Senti a mana se mover, lenta, como um rio engasgado por detritos. Era diferente de invocar uma esfera. Aqui não havia explosão, havia contenção. Era como tentar segurar a luz entre os dedos.
A primeira tentativa falhou. A segunda também. Na terceira, senti uma vibração ao redor do meu corpo. Sutil. Uma brisa gentil contra a pele. Abri os olhos. Uma película tênue, quase invisível, tremulava sobre meus braços.
— Muito bem! — exclamou Oliver, um sorriso genuíno nos lábios. — Já está meio a meio caminho de não virar cinzas ao meio-dia.
— Isso… vai durar?
— Não. — respondeu Pers, agora mais próxima. — Não enquanto seu controle for instável. Mas vai melhorar. Um passo de cada vez, Hades. Assim como a morte, a magia exige paciência.
Ela tocou meu braço. A barreira brilhou sob sua mão, respondendo ao toque como se reconhecesse sua criadora.
— Um dia, isso será natural para você. Como respirar. Como tocar o mundo sem se esconder dele.
Oliver bufou.
— E nesse dia, se ainda estiver vivo — ou o mais próximo disso —, vou te ensinar minha técnica secreta. A Purificação das Veias de Mana. Mas até lá, nada de pegar bronzeado.
Dei um leve sorriso, sentindo a mana ainda vibrar em minha pele. Eu não sabia quanto tempo levaria. Mas agora, ao menos, não precisaria mais temer a luz. Apenas dominá-la.
E com Pers ao meu lado… eu começava a crer que isso era possível.
Oliver apoiou a bengala ao lado e estalou os dedos, fazendo surgir ao redor da sala dezenas de anéis flutuantes compostos de runas giratórias, como engrenagens mágicas que zumbiam em um ritmo hipnótico. A luz lilás da torre mágica dançava sobre eles, refletida nas inscrições arcanas que giravam como constelações encantadas.
— Agora que você já aprendeu a não virar churrasco solar, vamos ao que realmente importa — disse ele, os olhos brilhando com um entusiasmo quase juvenil. — Feitiços. Conjuração. Ritmo. Velocidade. Combate. A alma da magia.
Ele deu um giro exagerado e se virou para mim com o cachimbo entre os dentes.
— Mas antes, caro aluno em vias de não explodir-se, entenda isto: em Chaia, o mundo mágico é organizado em círculos. Círculos mágicos. Cada feitiço pertence a um círculo que equivale ao grau de pureza de mana de quem o conjura.
Oliver ergueu uma mão, e um anel de luz surgiu ao redor dela, como uma serpente de cristal. No centro, flutuava uma pequena esfera de chamas azuis.
— Primeiro Círculo — disse ele — Simples. Intuitivo. Rápido. Um bebê com pureza grau um poderia acender uma vela. Ou fazer cócegas num gato. Ou acidentalmente incendiar a cortina da própria casa, como eu fiz aos quatro anos.
— E se a pessoa tiver pureza grau dois?
— Aí ela já pode usar feitiços do Segundo Círculo. Multiplicar o fogo. Mover pedras. Manipular o som. Cada Círculo exige não só mais mana, mas mais controle. Subir de Círculo não é como ganhar uma insígnia. É como forjar a própria alma em fogo constante.
Pers desceu os degraus com leveza, parando a certa distância. Vestida com um manto escuro que deixava os ombros à mostra, observava tudo em silêncio, braços cruzados, olhos fixos em mim.
— O mundo mede os magos por seus Círculos — ela disse, suavemente — Mas os Deuses não. Para os Deuses, o que importa é o que você faz com o que tem. Uma centelha pode iluminar ou incendiar o mundo.
— Bonita frase, minha cara — disse Oliver. — Agora, vamos à prática. Hades, você está no grau um. Ainda. Mas tem potencial para alcançar muito mais. O que nos leva à próxima lição: velocidade de conjuração.
Estalou os dedos e uma ilusão surgiu diante de mim: uma fileira de alvos flutuantes, cada um marcado com um número crescente.
— Seu objetivo é simples. Acertar os alvos. Mas precisa conjurar o feitiço do Primeiro Círculo: Ignis Orba. Uma pequena esfera de fogo. Nada dramático — disse ele com um sorriso torto. — Ainda.
Ele apontou para mim com a bengala.
— Concentre-se. Canalize sua mana. Pense como se estivesse puxando a energia de dentro das suas veias, direcionando-a para um ponto nos seus dedos. E conjure. Ignis Orba!
Tentei. Demorei. A primeira tentativa resultou numa faísca pálida. A segunda, uma esfera, mas ela caiu no chão com um baque mole, como fruta podre.
— Muito lento! — gritou Oliver. — No tempo que levou, um goblin já teria roubado seu sapato, devorado seu tornozelo e fugido para o mato!
— Estou tentando.
— Faça ou não faça, tentativa não há. Ouça a mana. Ouça o sangue nas suas veias. Ritmo é tudo. Pense como um baterista conjurando trovões.
Fechei os olhos. Respirei fundo. Dessa vez, deixei que a mana fluísse por conta própria, sem forçar, sem hesitar. Quando a energia chegou às minhas mãos, disse com firmeza:
— Ignis Orba.
A esfera surgiu — firme, quente, viva. Lancei-a. Acertou o terceiro alvo com precisão. Não o mais distante. Mas não o mais próximo também.
— Melhor. De novo!
E de novo, e de novo. As esferas começaram a surgir mais rápidas. Menores. Maiores. Dobrei a velocidade. Depois a dobrei novamente. Cada conjuração mais instintiva que a anterior.
Oliver girava o cachimbo entre os dedos, olhos atentos.
— Agora entenda: quanto mais rápido conjurar, mais vantagem você terá no campo de batalha. Mantenha o Círculo na mente. Visualize as runas. Encurte o intervalo entre pensar e agir.
— Isso vai acelerar os feitiços?
— Vai transformar você num pesadelo. Um mago que conjura com lentidão está morto. Um mago veloz pode derrubar um exército. Um mago criativo… pode virar uma lenda.
Pers sorriu, se aproximando.
— E você, Hades, não é qualquer mago. Você é o meu apóstolo. E seus feitiços carregarão não apenas mana. Mas propósito.
— Vamos ver quantos círculos você pode alcançar — disse Oliver, agora sério. — E talvez, só talvez… um dia… você seja digno de conjurar os feitiços proibidos. Aqueles que dobram o mundo.
— E quantos Círculos existem?
Oliver parou. Olhou para cima, como se consultasse estrelas invisíveis.
— Dez. Assim como os graus de pureza. Mas ninguém em vida jamais conjurou um feitiço do Décimo Círculo. Nem mesmo eu.
— Mas eu vou — sussurrei. — Um dia.
Pers se virou para mim com um sorriso suave e olhos repletos de orgulho silencioso.
— Eu sei que vai.
Os dias começaram a se arrastar com a cadência mansa da rotina, mas em cada entardecer lilás da torre mágica, meu corpo e minha alma pareciam pulsar mais forte. Era como se algo dentro de mim estivesse sendo lavado. Os canais de mana, antes como rios secos e obstruídos, agora começavam a se abrir, lentamente, como veios de luz sendo desobstruídos pela própria natureza do que eu estava me tornando. E Oliver, sempre ali, à frente da sala mágica, com sua voz rouca e teatral, se tornava mais do que um professor. Era quase um arquiteto moldando a estrutura do que eu poderia vir a ser.
— O próximo passo, caro aprendiz das sombras — disse ele em um dos treinos — é ampliar seu repertório de feitiços do Primeiro Círculo. Magia não é só explosão e fogo, apesar de eu entender sua preferência por destruição espontânea.
Girei os ombros, tentando aliviar a tensão. A última esfera que conjurei deixou minha palma ardendo.
— Então o que mais posso fazer, além de queimar coisas?
Ele sorriu, tragando o cachimbo e liberando uma fumaça que formou um livro flutuante diante de mim. Nele, palavras se inscreviam sozinhas, letras feitas de mana viva.
— Você precisa aprender as quatro escolas primárias da magia de base: Ignis, Terra, Aqua e Aer. Cada uma delas representa uma vertente da alma. O fogo é vontade. A terra é estabilidade. A água é adaptação. O ar é liberdade.
Com um gesto do cajado, ele conjurou uma fina lâmina de vento que cortou uma vela acesa ao meio, sem apagar a chama.
— Primeiro Círculo: Ventus Lamea. Pratique. Faça com que o ar obedeça.
Treinei. E falhei. Depois tentei de novo. E, com o passar das horas, dias… consegui. Um fio de vento sibilou dos meus dedos como uma serpente, cortando folhas flutuantes que Oliver invocava ao meu redor.
Nos dias seguintes, vieram mais.
— Aqua Orbis. Uma esfera de água que pode ser usada para defesa ou distração.
— Terra Firma. Um feitiço para reforçar seus pés ao chão, estabilizando você contra impactos.
— Ignis Linea. Um traço de fogo rápido, útil para atacar ou desenhar símbolos encantados.
Pers raramente falava durante os treinos. Mas estava sempre presente. Às vezes no alto da torre, em silêncio, como se observasse o crescimento de uma árvore rara. Outras vezes, apenas deitada sobre um dos parapeitos circulares de pedra, lendo algum livro ancestral com a luz do luar banhando seus cabelos brancos como prata viva.
Em uma noite, depois de conjurar três feitiços seguidos sem hesitação, Oliver aproximou-se e tocou meu peito com a bengala.
— Está sentindo?
Assenti. Era como uma brisa quente percorrendo minhas veias.
— Seus canais de mana estão começando a se purificar por conta própria. Logo seu grau subirá naturalmente. Você talvez seja um dos poucos capazes de romper a barreira entre o Quinto e o Sexto Grau.
— E se eu chegar ao Sétimo?
Oliver sorriu. Mas era um sorriso triste.
— Poucos em toda a história chegaram ao Sétimo enquanto ainda respiravam. Poucos humanos alcançaram o Oitavo… E mesmo assim, não escapei da morte.
— Mas você voltou — retruquei.
Ele soprou uma fumaça que se enrolou em espiral até formar uma ampulheta esfarelando em areia púrpura.
— Voltar não é o mesmo que viver. Há preços que mesmo um gênio como eu não pode deixar de pagar. Mas você… — ele olhou de relance para Perséfone — você tem sorte. Ou destino.
Pers finalmente falou, sua voz flutuando pela torre como uma canção antiga.
— Os Nosferatus são um povo de essência densa. Os mortos que vivem entre os vivos. Seus corpos não envelhecem, e com o tempo, suas veias se adaptam. O poder que se recusa a estagnar. Você está mudando, Hades. Cada feitiço lançado, cada falha superada, cada centelha que você controla… é mais do que treino. É transformação.
Oliver se afastou, deixando a fumaça do cachimbo pairando como uma cortina leve. E com um aceno final, ele declarou:
— Vamos continuar amanhã. Por hoje, descanse. Feitiços exigem mana. Mas aprendizado exige tempo.
Enquanto me afastava da sala, sentia algo queimando dentro de mim. Não de dor. Mas de fome. Uma fome de saber mais. De alcançar os círculos que poucos sequer ousaram imaginar. E com Pers ao meu lado, observando em silêncio, sabia que não caminhava sozinho.
Os dias estavam se repetindo, mas eu estava mudando.
Alguns dias se passaram como páginas viradas de um livro antigo. A torre mágica, antes um santuário só meu e de Oliver, agora parecia respirar de forma diferente. Havia um novo som entre as colunas, um novo perfume no ar, uma presença mais ativa. Pers havia decidido começar a treinar comigo.
— Já que você vai liderar os mortos, Hades — disse ela com um sorriso que misturava ternura e malícia — é bom aprender a enfrentá-los também.
O ar estava mais denso, como se os próprios blocos de pedra guardassem o fôlego. Pers estava de pé ao centro do círculo mágico desenhado no chão. Ela vestia um manto negro adornado com pequenos ossos prateados, símbolos esquecidos bordados nas bordas, e um cinto de relíquias amarrado à cintura.
— Pronto? — ela perguntou, com um brilho nos olhos rubros.
Assenti.
Ela ergueu as mãos. O chão da torre estremeceu com um rangido grave e seco. Com um gesto fluido, como se dançasse, ela estendeu os dedos e riscou no ar uma runa brilhante. Da terra, mãos esqueléticas começaram a surgir, dedos de ossos brancos rasgando o solo arcano.
— Mortiferae Resurge, — sussurrou ela, e cinco esqueletos se ergueram em silêncio absoluto, seus olhos vazios brilhando em verde-azulado, armados com espadas curtas e escudos rachados.
— Ataquem — ordenou ela, e os esqueletos avançaram como se partilhassem de um único espírito.
A adrenalina me atingiu como uma explosão. Conjurei Terra Firma nos pés para não perder o equilíbrio e Ventus Lamea para manter distância. Os primeiros golpes vieram rápidos, secos como o estalar de galhos velhos. Rolei para o lado, conjurei Ignis Linea, cortando dois dos esqueletos ao meio, mas mesmo partidos ao meio eles rastejaram, ainda lutando.
— Os mortos não se cansam, Hades. Eles não sentem dor. Vão te testar até o limite — disse Pers, sentada agora sobre um altar de pedra que antes não estava ali, as pernas cruzadas com graça, os olhos atentos.
— Ótimo… porque eu também estou cansado de me segurar — murmurei, deixando a mana correr pelas veias como sangue em brasas.
Usei uma combinação de Aqua Orbis para escorregar um esqueleto que tentava me acertar por trás e Ignis Linea para queimar seu crânio ao cair. Um deles me alcançou, o escudo acertando minha lateral. Doeu. Não era simulação. Eram ossos reais, magia real.
— Pers, esses esqueletos são mesmo…
— Reais, sim — respondeu com um sorriso. — Mas estavam ociosos há séculos. Estão felizes em ajudar você a treinar. Isso é viver, para eles.
Em meio à luta, Oliver entrou na sala sem fazer alarde, como se fosse parte do espetáculo.
— Ah… vejo que a Deusa resolveu descer do palco e virar diretora de cena — disse ele, soprando uma espiral de fumaça que desenhou uma caveira flutuante.
— Não vim roubar seu papel, professor. Só quero que ele aprenda a sentir o peso da morte em batalha — respondeu ela, sem tirar os olhos de mim.
Depois de destruir o último esqueleto com uma esfera de fogo concentrada, caí de joelhos, exausto. O suor escorria pelo rosto, a respiração vinha em ondas curtas.
Pers se aproximou, os passos leves como uma canção de ninar.
— Você foi melhor do que esperava, Hades. Os mortos testam a mente, o corpo… e a alma. Eles não lutam para vencer. Lutam para que você se descubra.
Ela estendeu a mão, me ajudando a levantar. O toque dela era frio como mármore, mas reconfortante.
— Amanhã? — perguntei, ofegante.
— Amanhã eles virão em dobro — respondeu com um sorriso pequeno, mas orgulhoso.
Oliver assobiou baixo.
— Se continuar assim, vou ter que acelerar o conteúdo do Tratado Teatral e Trágico dos Três Milênios de Magia Prática, ou você vai nos ultrapassar antes do capítulo cinco.
Sorri, limpando o sangue do lábio com as costas da mão.
— Tragam os mortos. Eu estou só começando.
Os dias seguiram seu curso, lentos e intensos como os capítulos de um grimório antigo. O som da torre mágica já era familiar, o crepitar da mana nos corredores, os estalos secos de esqueletos treinando, o sussurro das runas queimando o ar. Cada dia era marcado por suor, magia, e às vezes, um pouco de sangue.
E então, numa manhã onde o céu fora da torre parecia tingido com cinzas douradas, senti.
Foi sutil. Uma brisa interna, como se algo em mim tivesse se reorganizado. Um fio de mana correu pelas veias com mais fluidez. Não havia resistência. Nenhuma impureza. Como água passando por pedra polida.
— Grau dois — murmurei para mim mesmo, sentindo a mudança como um segundo coração batendo.
— Finalmente, garoto! — exclamou Oliver, interrompendo uma de suas leituras teatrais enquanto jogava o livro no chão, fazendo uma nuvem de poeira púrpura subir. — Caros leitores, marquem este dia. Nosso protagonista acaba de sair das fraldas arcanas.
Ele girou o cachimbo no ar, como se fosse uma varinha de maestro, e uma cortina de fumaça se desenrolou em volta da sala, tomando a forma de pergaminhos flutuantes e círculos mágicos girando lentamente.
— Com o segundo grau de pureza, Hades, você finalmente poderá aprender feitiços do Segundo Círculo. E isso, meu caro, significa… diversão real. Agora você pode manipular elementos com mais profundidade, conjurar encantamentos de médio porte, criar armadilhas, ilusões — e até… construir coisas.
— Construir? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— Estruturas mágicas. Torres, pontes, plataformas. Mana solidificada. Útil se você quiser parecer um arquimago que sabe o que está fazendo, mesmo quando está desesperado.
Ele piscou, e com um gesto fez uma torre de pedra surgir no meio da sala, com degraus flutuando em espiral.
— Isso foi… — comecei a dizer, mas Pers completou atrás de mim:
— Exagerado. Mas elegante.
Ela estava ali como sempre, sentada em sua posição favorita, observando. Mesmo em silêncio, seu olhar parecia estar sempre duas páginas à frente da nossa história.
— Me ensina — pedi, com a voz rouca da empolgação.
— Claro, claro — disse Oliver. — Vamos começar com Pontis Arcanum, uma ponte mágica. Depois você aprenderá Duplicis Umbrae, que cria uma cópia ilusória de si mesmo para confundir inimigos. E por fim, um favorito pessoal: Glacies Anulus, o Anel de Gelo. Um feitiço de defesa e ataque.
Os treinamentos se intensificaram. Eu falhava. Repetia. Suava. Caía. E tentava de novo. Os círculos mágicos não eram mais apenas riscos no chão — agora eles dançavam nos meus olhos, pulsavam na pele, gravavam-se na alma.
Ao final de mais um dia, com os dedos ardendo de tanto manipular runas, sentei ofegante num degrau da torre.
Oliver se aproximou e, com um raro silêncio, sentou-se ao meu lado.
— Hades… — disse ele, soprando lentamente a fumaça de seu cachimbo, que desenhou uma cruz brilhante no ar — quando você alcançar o quinto grau de pureza, eu vou te ensinar as magias… dignas de um apóstolo.
Virei o rosto para ele. A expressão estava diferente — não zombeteira, não teatral. Séria. Solene.
— Que tipo de magia são essas?
Ele apenas sorriu, mas não foi o sorriso de sempre. Foi o sorriso de alguém que guarda um segredo perigoso demais para ser dito em voz alta.
— Ainda não é hora, meu rapaz. Mas acredite… o mundo vai ouvir seu nome quando você conjurá-las pela primeira vez.
Pers apenas nos observava, com um olhar que carregava orgulho… e uma pontada de medo.
Eu respirei fundo. Meus músculos doíam. As veias de mana ardiam como fios de ferro quente sob a pele. Mas meu coração estava calmo.
Porque agora eu sabia: eu estava ficando mais forte.
E o mundo, cedo ou tarde, teria que se preparar para a chegada do apóstolo da morte.
Oliver girou o cachimbo entre os dedos com aquele brilho zombeteiro nos olhos, como quem se preparava para mais um espetáculo.
— Vamos mudar de abordagem hoje, garoto. — Ele se levantou lentamente, a bengala estalando contra o chão de pedra da torre mágica. — Chegou a hora de testar o que há no fundo do seu coração. Literalmente.
— Isso soa… perigoso. — murmurei, sem saber se estava pronto para mais um enigma de fumaça e explosões.
— Perigoso? Talvez. Revelador? Com certeza. Hoje, Hades, você vai conjurar a magia da forma interior. Um feitiço do Segundo Círculo que molda a mana bruta na imagem daquilo que mais ama.
— A coisa que mais amo…? — repeti, engolindo em seco.
— Exato. — disse Oliver, girando no próprio eixo como um ator num palco de ópera. — Quando dominamos o fluxo das nossas veias de mana, conseguimos materializar nossos sentimentos. E, neste caso, o amor. É uma magia pura. Um feitiço de construção emocional.
Ele ergueu a bengala e tocou o chão com ela. Círculos mágicos se espalharam como rachaduras douradas, e no centro, a mana começou a se elevar. Rodopiando, densa, viva. A fumaça púrpura de seu cachimbo se mesclou ao feitiço. Poucos segundos depois, diante de mim, materializou-se um objeto… pequeno, simples, e ainda assim, tratado com reverência:
Um charuto.
— Isso?! — perguntei, confuso e um pouco decepcionado.
— Sim, meu caro. — disse ele, pegando o charuto com a leveza de quem segura uma relíquia. — O primeiro que ganhei de um aluno meu. Um presente antes de ele partir para enfrentar o Rei Demônio. Nunca mais voltou. Desde aquele dia, essa lembrança é minha âncora. Meu centro.
Oliver deu uma tragada silenciosa, os olhos perdidos na fumaça que agora parecia mais cinza que púrpura.
— Sua vez.
Fiquei parado, hesitando. A mana girava sob meus pés, inquieta. Meus dedos tremiam. Conjurar algo assim… era pôr a alma nua diante dos olhos de dois seres que pareciam saber mais de mim do que eu mesmo.
Fechei os olhos. Concentrei-me.
Pensamentos vieram: sangue, memória, dor, morte. Mas por trás de tudo… havia ela.
Sussurrei o encantamento. A mana atendeu.
Uma forma começou a se moldar. Primeiro um contorno vago, depois a nitidez de uma silhueta. Cabelos longos e brancos. Um vestido escuro dançando na brisa. O cheiro dos girassóis. A pele fria como o luar. Os olhos vermelhos brilhando com uma vida serena.
— Perséfone. — murmurei, a escultura completa diante de mim, feita de pedra encantada e mana pura.
Ela estava ali, parada, silenciosa, e ainda assim viva. Mesmo sendo apenas uma imagem, havia algo verdadeiro nela. Um reflexo do que existia dentro de mim.
Pers, que até então apenas observava de longe, se aproximou devagar. Olhou para a escultura, depois para mim. O vento soprou leve. Uma mecha de cabelo caiu-lhe sobre o rosto.
— Então é assim que você me vê. — sussurrou.
— É assim que eu te sinto. — respondi sem pensar.
Oliver não disse nada. Apenas sorriu de lado, um sorriso mais suave, quase orgulhoso. Depois deu um passo atrás e, com voz baixa, disse:
— Quando um mago molda sua mana na forma do amor, ele entende quem é. E você, Hades, acabou de dar o passo mais importante na estrada da magia.
Pers ficou em silêncio por um momento, depois estendeu a mão e tocou levemente o ombro da estátua. Um toque delicado, íntimo.
— Obrigada. — disse ela, com uma voz que não era a de uma Deusa, nem de uma professora, mas de alguém que, mesmo imortal, ainda se surpreende com o amor.
E naquele instante, mesmo sendo aprendiz, mesmo ainda com tanto por aprender, senti que já havia feito magia suficiente para uma vida inteira.

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