Capítulo 25: Instrução Particular
A aula prosseguiu. A professora Clemont acionou um projetor oculto na parede na frente de si. Um feixe de luz atravessou o espaço e, no quadro branco atrás dela, surgiu um gráfico detalhado, repleto de imagens, diagramas e blocos de texto.
Lyra sentiu seu tablet vibrar. A tela refletia a projeção, em sincronia perfeita, permitindo acompanhar cada ponto com clareza.
— Feraethers se dividem por afinidade e por nível — disse a professora, destacando os dois termos com ênfase.
Ela moveu os dedos, e o gráfico mudou, exibindo uma lista vertical com quatro classificações principais.
— Quanto aos níveis, temos quatro categorias básicas:
Ela apontou para o primeiro item.
— Básicos: Feraethers de entrada. Servem para treino e desenvolvimento de habilidades iniciais. Possuem egos frágeis, baixa resistência e quase nenhum poder ofensivo. São ideais para acostumar o domador com a ligação. Assim que formarem seus núcleos, cada um de vocês será vinculado a uma dessas criaturas.
A classe explodiu em um burburinho assim que ela terminou de falar que em breve se vinculariam a uma feraether.
Kara teve de dar tapinhas nas costas de Branth à sua frente para que ele sossegasse.
A professora pediu silencio e deslizou a tela para baixo.
— Primários: Mais fortes. Ainda assim, são de uso limitado em contextos militares. Encontram aplicação principalmente em funções civis e burocráticas dentro do Império. Exigem um domador mais firme, já que seus egos começam a se tornar mais marcantes. Mas não se iludam, podem matar, e estão espalhados pelo exército.
Lyra absorvia as palavras com avidez. A lembrança das feras do ginásio, ainda vividas em sua mente.
Outra transição.
— Secundários: Aqui começa o verdadeiro desafio. São feraethers de uso exclusivo militar, muitos com capacidade de destruição em larga escala. O ego dessas criaturas é sólido, firme como aço. Um domador instável pode ser subjugado… ou consumido.
Lyra tremeu. Imara escrevia em seu tablet suas próprias anotações de forma furiosa.
A tela tremeu levemente, como se refletisse o peso da próxima palavra.
— Terciários: os ápices. As criaturas mais poderosas já registradas. Raras. Muitas vezes únicas.
— Não aceitam dominação. Formam contratos — como iguais. Sem hierarquia. Apenas alianças. São reservadas à elite: heranças de sangue, concessões por mérito ou patentes de alto escalão. — Parou e olhou para os alunos, fazendo suspense. — E são severamente monitoradas pelo Império.
Fez outra pausa, os olhos escaneando a plateia. A sala parecia ter prendido a respiração por um instante.
Prosseguiu:
— As afinidades são os vínculos elementares que cada feraether possui. São criaturas com elevado potencial psíquico.
— Algumas podem criar calor ou fogo, por exemplo, através de pirocinese. Outras manifestam afinidades com água, vento, gelo, eletricidade… e até com elementos mais esotéricos, como sombra, luz e outros ainda não completamente compreendidos.
— Algumas feras podem apresentar múltiplas afinidades, o que as torna ainda mais raras e perigosas.
O restante da aula mergulhou nos detalhes dessas categorias, explicando como a classificação das afinidades está em constante mutação, novas criaturas são descobertas, e novos estudos redefinem antigas certezas.
Duas horas depois, a cabeça de Lyra fervilhava. A enxurrada de informações confundia conceitos que ela sabia precisar rever com mais calma para assimilar de verdade.
Nos corredores, Calder comentou:
— Aula muito boa. Direta e explicativa.
— Achei confuso na parte das afinidades… as classificações, esse negócio de que tudo pode mudar — disse Lyra, franzindo a testa.
— Também achei — concordou Imara.
— É só estudar pra fixar — rebateu Tyla. — Quando chegar a hora de decorar o bestiário inteiro é que vai complicar. Odeio decorar essas coisas.
Branth e Rin iam alguns passos à frente. O grandalhão tagarelava e Rin balançava a cabeça.
O tablet de Lyra tremeu, emitindo um aviso silencioso. Era uma mensagem da professora Aedena:
“As aulas de hoje já terminaram. Estou disponível. Venha para cá.”
O coração de Lyra disparou. Havia esquecido completamente do compromisso com Aedena.
— Que foi, Lyra? — perguntou Kara, com um sorriso enviesado. — Algum admirador secreto?
— Não é nada… Tenho um compromisso com a professora Aedena — disse Lyra, de forma hesitante.
O grupo ficou em silêncio. Um silêncio pesado, como uma barreira. Todos lembravam do ataque de Lyra na aula, e de como Aedena a socorreu. Ninguém perguntou, mas todos entenderam: aquele encontro não era casual.
— É… muito sério? — arriscou Tyla, quebrando o silêncio.
— Não sei ainda — confessou Lyra, sem esconder a tensão. — Mas preciso ir. Ela está me esperando.
— Não se preocupe. Vai dar tudo certo — disse Rin, de repente.
Sua voz cortou o ar com precisão, suave e firme. Ele sorria para Lyra como se soubesse de algo que mais ninguém sabia.
Todos pararam para observar. Era raro ouvir o garoto de cabelos prateados falar. Mais raro ainda era vê-lo olhar alguém nos olhos.
— Vai logo — murmurou Tyla, ao ver Lyra hesitar. — Não deixe a professora esperando.
Lyra não queria correr, mas estava ansiosa.
Entrou no anfiteatro onde costumavam acontecer as aulas, estava vazio. O coração dela deu um salto. Será que Aedena havia se cansado de esperar?
As luzes estavam apagadas. Tudo em silêncio. O lugar parecia outro, transformado em ausência.
Havia algo de errado naquela quietude. Uma sensação estranha, como se algo estivesse faltando.
Foi então que notou: um facho de luz atravessava o piso, vindo da porta lateral por onde a professora costumava entrar.
Devagar, caminhou até lá.
A cena a surpreendeu. Aedena estava cercada por papéis.
Papéis.
Lyra parou. Aquilo deu um aperto em sua garganta, papel era caro, raro. Ver a professora rabiscando casualmente neles parecia um luxo impensável.
Bateu na porta, e Aedena levantou os olhos.
Ao vê-la, sorriu.
— Seja bem-vinda ao meu escritório particular. Não é grande coisa, mas é onde preparo nossas aulas — disse, enquanto empilhava os papéis e os guardava numa gaveta.
— Antes de começarmos… — prosseguiu com voz calma. — Olhei sua inscrição. Família de mineiros. Nobreza baixa. Cooptada como tributo por uma Matriarca. Alta tolerância ao aether. Grandes expectativas. Mas… fora isso, não sei nada sobre você.
Aedena a olhou nos olhos.
— Quem é você, Lyra? Me conte sua história.
De repente, Lyra se sentiu nua. Exposta.
Mas havia ali uma confiança silenciosa. Aedena era talvez a única que podia ajudá-la. Ela… e talvez Tyla.
Respirou fundo. As lembranças vieram. E com elas, a vontade de chorar.
Mas não ali.
Ela já tinha despencado uma vez. Não faria isso diante da professora.
Contou sua história. De forma resumida, fria, quase distante, como se estivesse falando de outra pessoa.
Aedena percebeu o distanciamento.
Falou dos primos, de Ciel, dos tios Rob, Virna e Caine. Das brocas, de como amava pilotar aquela imensidão de metal.
Contou sobre a Mina 19, o desvio de aether, a execução… e a escolha que tivera que fazer.
Contou, por fim, como descobriu suas verdadeiras origens.
Aedena apenas sorriu.
— Agora sei quem é Lyra Veyne. E é bom que você também saiba. Domadores precisam ter uma percepção muito aguçada de quem são.
Apesar do sorriso da professora, Lyra sentiu que aquela fala pesava mais do que qualquer outra que já recebera. Carregava uma gravidade serena, mas inescapável.
— Entre nós, me chame de Aedena — pediu a professora, quebrando um tabu com simplicidade. — A melhor maneira de trabalhar o seu núcleo, grande demais, instável, é ir desfazendo-o aos poucos. Usando o aether acumulado para aprender, canalizar, reconstruir. Até que ele se torne o que desejamos que ele seja.
Lyra assentiu em silêncio, com a garganta seca. Mas Aedena já se movia, abrindo um armário metálico às suas costas.
De lá, retirou um objeto que Lyra reconheceu de imediato: o aparelho de medição de tolerância ao aether. Era um retângulo robusto, composto por chapas metálicas finas, com visor luminoso, dials giratórios e botões antigos. Dois buracos para as mãos. Lyra sabia que aquilo doía.
Inspirou fundo e se aproximou. Ao encaixar os pulsos nos compartimentos, notou algo que nunca havia percebido: suas mãos eram fortes, calosas, marcadas pelos anos na mineração. As de Aedena, ao contrário, pareciam feitas de esculpidas, esguias, sua pele escura num tom que brilhava, quase etéreas.
— Preciso saber com que folga podemos trabalhar, Lyra. Não quero induzir mutações em você. E quero que entenda a gravidade do seu estado. Até mesmo uma atmosfera rica em aether pode te sobrecarregar.
A lembrança do dia em que salvou Ciel veio como um soco. O garoto havia se deformado em segundos, veias negras, grossas, surgindo em seu pescoço como raízes secas. Já Lyra, com sua alta tolerância, escapou apenas com sardas douradas pelo rosto e ombros.
Pensar naquelas linhas escuras serpenteando sob sua própria pele fez seus pelos se eriçarem.
Sentiu a picada aguda nos pulsos. A máquina acendeu seu visor com um zumbido suave. Aedena tirou um pequeno frasco com líquido dourado, aether puro, e encaixou-o em uma entrada lateral. Pressionou um botão. O fluxo entrou na corrente de Lyra.
A sensação veio como um sopro quente na espinha. Doce. Denso. Como mel queimado. Seus pensamentos clarearam. Era sempre assim com o aether. Uma euforia precisa, quase cruel.
— Hum… — murmurou Aedena, lendo os dados. — É pior do que imaginei. O núcleo se formou ainda maior do que eu suspeitava. Sobrou apenas dois e meio de tolerância.
— Dois e meio? — repetiu Lyra, confusa.
— Significa que está à beira do limite. Sua tolerância, para padrões comuns, ainda é alta… mas o núcleo ocupou quase todo o espaço interno. Esperava algo menor. Vai ser lento, e vai doer, colocar você dentro dos parâmetros aceitáveis.
Aedena então sorriu, um sorriso que parecia carregar tanto alívio quanto desafio.
— Mas não será impossível. E há um lado positivo nisso. Mesmo com esse núcleo instável, você é a primeira entre os primeiranistas a conseguir formar um. Já a marquei como tal no sistema. Isso garante pontos para você e para seu dormitório na corrida classificatória.
Lyra piscou, surpresa.
— Eu ganho pontos por isso?
— Opa. E seus amigos também. Não sei ao certo quantos, mas não são poucos. E como ainda estamos no início, sem provas ou notas de atividades, isso deve jogar vocês direto para o topo do placar.
Era mais um fator colocando Lyra sob os holofotes. Mais um motivo para seus inimigos quererem vê-la cair.
— Vamos começar, Lyra. Me dê suas mãos… e relaxe.
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