Capítulo 26: Planos frustrados
No planeta Forja de Sylaris, Aliah, terceira filha da Casa, andava a passos duros. Ainda assim, mesmo irritada, parecia desfilar. Ao seu lado, sua irmã caminhava sem esconder um sorriso de satisfação.
— Papai não caiu na sua história, não é?
— Cale a boca, Hymah. Você não sabe de nada. Fui enganada por aquela Matriarca que mamãe tanto ama. Zyab. Ela sabotou a minha negociação. Papai me deu algo que sequer posso mexer. O aether excedente vindo de Glasurith será útil, sim, mas eu não posso negociar a transferência da operação. Aquela bruxa se certificou disso. Antes mesmo de eu chegar aqui, ela já tinha mandado para papai os termos, devidamente homologados pelo Escritório dos Inquisidores.
A mulher que desfilava pelos corredores ao lado de Aliah não era menos exuberante. Havia linhas douradas e prateadas em sua pele, e seus olhos brilhavam levemente em um tom azulado. Os cabelos pareciam fios de cromo. Era mais nova que Aliah, mas mais alta, e tão perigosa e venenosa quanto a irmã.
— Mas eu vou me vingar dela — rosnou Aliah, firme. — Guarde minhas palavras. E daquela fedelha, Veyne. Se eu tivesse sabido de sua tolerância antes, teria sido eu a lucrar. Eu teria matado todos eles para submeter aquela garota à minha vontade.
— Papai não está nem olhando pra nós. Transferiu toda a operação de aether para Syan, aquele pomposo sodomita. Sua conquista de Glasurith não vai adiantar muito.
— Eu percebi — disse Aliah, cerrando os punhos. — Ele nem se importou quando a Matriarca me humilhou. Mandou que eu engolisse o choro, acredita?
As duas trocaram um olhar e, em silêncio, aplicaram uma dose de aether. Estremeceram juntas com o prazer momentâneo.
Aliah virou-se para a irmã mais nova. Hymah ainda vivia sob o teto do pai, no núcleo da corte.
— Qual o jogo dele? O que o velho está planejando?
— Ele quer ser senador. Sair dessa orla esquecida e ir pro centro de tudo.
— Mas ainda somos vassalos dos Orsinis. Eles aprovariam isso? Dariam a vaga ao papai? Isso nos libertaria imediatamente…
— Não sei o que está sendo negociado. Mas deve ser algo grande.
— Descubra — disse Aliah, séria. — Me avise. O caminho para minha ascensão na Casa passa por aí. Preciso ajudar papai… por baixo dos panos.
— Ele só conversa com Syan. Não fala nada. Nem com mamãe. A afastou da residência principal.
Aliah parou de repente. Uma expressão diferente tomou seu rosto, como quem acaba de montar as peças de um quebra-cabeça.
— Tenho a pessoa certa. Do gosto dele. Leal a mim. Ele pode descobrir o que queremos. Eu vou trazê-lo. Só preciso que você garanta o encontro com Syan.
— Farei isso, irmã.
De volta ao Domatorum, em um dos escritórios do bloco de estudos psíquicos, duas mulheres estavam sentadas em silêncio. Aedena encarava sua nova pupila com uma expressão serena.
— Feche os olhos, Lyra. Concentre-se no seu núcleo. Sinta a camada mais externa se dissolvendo… Sinta o calor do aether em você. Use isso para abrir sua mente.
Lyra respirava devagar. O peito aquecia com o esforço. Mentalizar era difícil, era como alcançar algo que escorregava assim que tentava tocar.
“Estou aqui.”
A voz surgiu dentro da mente de Lyra, mas não exatamente uma voz. Ela sabia que era Aedena, mas não pelo som. Era uma impressão, uma assinatura mental inconfundível.
— Caramba! — exclamou Lyra, assustada, abrindo os olhos.
“Responda com sua mente. Você me surpreendeu. Suas barreiras são magníficas. Quase inatingíveis. Mas, quando relaxou, consegui entrar.”
A lembrança de Zyab atravessou o pensamento de Lyra, quando a Matriarca tentou nocauteá-la na recepção. Ela havia resistido, mesmo que por pouco. Sentiu um lampejo de orgulho.
Aedena riu, como quem sente a nota de um pensamento vibrar em sua direção.
“Não cheguei a ver a cena… Mas percebi o que você sentiu.”
Ela se recostou na poltrona, ainda com o olhar calmo.
“Já sei o que preciso te ensinar primeiro. Chama-se estado de serenidade. Você ainda não tem controle sobre suas emoções. Zyab só te percebeu porque você não consegue esconder a intenção dos seus pensamentos.”
Lyra entreabriu os olhos, estreitando-os em direção à mentora. Estaria Aedena lendo sua mente?
“Não, pequena. Não leio seus pensamentos. Leio sua intenção. Sua indignação. Sua alegria. Sua raiva.”
Um calor subiu às bochechas de Lyra.
“É por isso que aquele garoto que você mencionou… Rin, certo? Consegue intuir o que você sente. Ele deve ser extremamente sensível às intenções. Por isso fala com você de forma tão enigmática.”
Lyra se surpreendeu. Já sabia que Rin era especial, mas agora tudo fazia sentido, a sensibilidade dele às intenções, os olhares, o jeito enigmático de falar. Era isso.
Aedena continuou, a voz mental clara como uma lâmina atravessando um lago calmo.
“Suas intenções vazam dos seus pensamentos como tempestades. Para quem está treinado, dá para percebê-las de longe. Aposto que, na recepção, você quis ferir a tal Zyab. Ela sentiu sua intenção assassina.”
Aedena fez uma breve pausa. Lyra sentia a presença mental dela com nitidez, um misto de preocupação genuína e divertimento contido.
“Guerreiros experientes aprendem a ocultar isso. Não deixam que o inimigo perceba o que vão fazer. Você precisa desenvolver o estado de serenidade. É a base de tudo. E, com o tempo, também vai te ajudar a consumir o aether do seu núcleo.”
As palavras reverberaram fundo. Lyra sentia-se pequena diante da imensidão de tudo aquilo. Mas também… desperta.
“Nosso treino não será simples,” disse Aedena, com suavidade. “Você vai sentir raiva. Vergonha. Excitação. Peço apenas que não leve nada para o lado pessoal. Pode fazer isso?”
Pela primeira vez, Lyra respondeu com a mente. Foi como acender uma chama interior: seu cérebro puxou o aether ao redor, alimentando o esforço com energia pura.
“Certo! Vamos lá.”
“Ótimo. Agora preste atenção. Vou te enviar uma carga psíquica, são dados, sensações, comandos. Coisas que levariam dias para explicar em palavras. Apenas aceite. Mantenha a mente aberta. Depois, vou me ausentar da sua consciência. E, então… o verdadeiro treino começa.”
Lyra estremeceu com o impacto do que recebeu. Era como se tivesse engolido conhecimento demais, rápido demais. Um enjoo mental, seu cérebro parecia constipado de tanto que digerira em tão pouco tempo.
— Ahhh… — gemeu, pressionando as têmporas.
Aedena se levantou sem pressa e caminhou para trás dela, posicionando-se com precisão cirúrgica.
— Feche os olhos. Respire. Concentre-se. Vou começar.
O silêncio durou apenas alguns segundos.
Um soco seco explodiu contra o ombro de Lyra. Ela arfou de dor.
— Mais foco — disse Aedena. — Estou sentindo sua intenção. Você quer revidar. Sua raiva está vazando… consigo adivinhar até o que você pensa em fazer comigo.
Ela se afastou, circulando-a devagar, como uma predadora examinando sua presa.
— Retome a concentração — ordenou. — Interrompa esse vazamento agora.
Lyra mergulhou na desordem mental, tentando reorganizar o caos. Era como navegar num oceano de ideias estranhas e emoções cruas. Encontrou o que buscava, um fragmento sobre controle emocional e tentou selar a fúria dentro de si.
Então, sentiu a respiração quente de Aedena bem próxima de sua nuca.
Gelou. Perdeu por um instante a concentração. Tentou manter a postura.
“Controle. Não vaze. Mantenha o centro.”
Mas um toque molhado da língua no lóbulo de sua orelha foi como um raio. Seu corpo esquentou de imediato. Saltou, enrijecida pela surpresa e intimidade. Um arrepio atravessou sua espinha.
Aedena riu.
— Virgem. Esqueci desse detalhe. — A provocação escapou leve como um sopro.
Lyra virou-se, tentando lançar um olhar severo, mas suas bochechas estavam escandalosamente vermelhas. A indignação e a excitação pulsavam de sua mente como sinais luminosos, apenas divertindo mais a professora.
— Lembre-se do que eu disse — continuou Aedena. — Vou provocar você de todos os modos. Não leve para o pessoal.
Lyra cerrou os punhos. Respirou fundo. Se endireitou, fechou os olhos novamente.
“Controle. Foco. Não reaja. Sinta e silencie.”
— Podemos continuar — disse, entre uma inspiração e outra. — Estou pronta.
Aedena a testaria até o limite naquela tarde. Não só com estímulos físicos, prazer, dor, surpresa, mas com insultos, verdades cortantes, provocações que escancaravam fragilidades.
Quando o relógio já quase marcava a hora do jantar, uma batida na porta interrompeu o treinamento.
Lyra ofegava. Estava mais suada do que depois de qualquer aula de combate.
— Boa noite, senhora Medinni — disse uma voz masculina, grave e firme.
Lyra se virou. Na porta, estava um homem bonito, pele clara, olhos escuros e intensos, barba bem cuidada. Musculoso, atlético, talvez na casa dos trinta. Tinha presença.
— Está dispensada, Lyra — disse Aedena. — Vá jantar. E pratique antes de dormir.
Quando o homem se afastou para lhe dar passagem, Lyra ouviu a voz de Aedena, clara, provocante:
— Conhecer e ceder aos desejos do corpo também é autoconhecimento, Lyra. Não se engane: o domador que não se conhece, se perde…pode se confundir com o ego da criatura.
Ao olhar para trás, viu a professora saindo pelo corredor, rindo, os braços entrelaçados com o do homem. Pareciam íntimos, casuais, despreocupados.
Lyra não entendeu bem por quê, mas seu corpo ferveu. As bochechas queimavam. Só podia estar vermelha como uma brasa.
Quando chegou ao refeitório, Lyra ainda sentia o rosto quente. O calor subia do pescoço como brasas envergonhadas. Caminhou com passos contidos até ver seus colegas de dormitório numa mesa ao fundo.
Aproximou-se tentando soar casual:
— E aí, galera.
Seu olhar cruzou com o de Rin. Ele levantou a cabeça, confuso. O corpo de Lyra reagiu como se uma corrente elétrica lhe percorresse a espinha. E se ele pudesse sentir aquilo? Como explicaria uma excitação que não era sobre ele, nem sobre ninguém em especial?
O grupo silenciou. Kara lançou-lhe um olhar de desdém; Imara segurava um sorriso torto. Branth arregalava os olhos, surpreso. Tyla, Calder e Russel apenas a encaravam, intrigados.
— Como você fez isso? — perguntou Calder, direto.
— Fiz o quê? — respondeu Lyra, franzindo a testa.
— Aquilo — disse Tyla, apontando com a cabeça para o alto.
Seguindo o gesto, Lyra ergueu os olhos. Um telão enorme se destacava entre o teto e a parede. Nele, o placar de “Pontuações” se dividia em três colunas: calouros, secundanistas e veteranos.
Na seção dos calouros, o primeiro lugar saltava em letras douradas:
1º lugar: 1404 Lyra Veyne — 30 pontos
2º lugar: 1333 James Caldwell — 2 pontos
3º lugar: 1356 Branth Toller — 2 pontos
4º lugar: 1390 Calder Myrus — 2 pontos
Outros nomes apareciam, e logo abaixo, o nome do dormitório:
Dormitório 8: 34 pontos
O estômago de Lyra afundou. As pernas pareceram pesar de súbito. Ela havia se tornado um farol numa noite escura. E feras caçam luzes que brilham demais.
Como se atraídos pela energia ao redor da mesa, outros estudantes começaram a se virar. Primeiro alguns cochichos. Depois, um burburinho crescente.
Olhares apontavam, alguns tentavam ser discretos; outros não se davam o trabalho.
Entre os rostos, reconheceu o tributo que a ameaçara.
Ele sorria, debochado, ao lado de uma voluntária loira num macacão vermelho escarlate. Mais adiante, o legado da armadura amarela erguia os polegares para ela, dentes perfeitos expostos num sorriso que parecia ser sincero.
Lyra desejou enfiar a cabeça num buraco.
Adeus, anonimato.
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