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    [Perspectiva de Lysanthir]

    Fechei o diário com cuidado. O som da capa se encontrando com as páginas ecoou suavemente no silêncio do quarto. Meus dedos ainda repousavam sobre o couro envelhecido quando encarei o teto de pedra entalhada, como se buscasse respostas que não estavam ali.

    “…Estamos na camada -143…”

    Engoli em seco. A ficha finalmente caía. Eu não sabia nada sobre este mundo.

    Julia Silvit havia vivido mais de oitocentos anos, atravessando camadas e revelando civilizações que existiam como espelhos distorcidos da nossa. Ela havia adotado filhos, enfrentado demônios, escrito a história com suas próprias mãos… e, no fim, sumido entre as camadas inferiores. Ninguém nunca falou dela — como se o mundo tivesse escolhido esquecê-la.

    “Ymir… o filho dela. Será que… ele é o Rank 1?”

    A dúvida me corroeu por dentro. Se isso fosse verdade, então o atual Rank 1 era alguém com mais de trezentos anos de idade. Como isso era possível? Nenhum humano comum vivia tanto… Nem mesmo os grandes nomes da história.

    “Sol’zher Asgard…”

    Sim. O chamado Rei dos Reis, que dominava todas as camadas superiores e era reconhecido como Rank 2. Lembrei de uma palestra em que ele apareceu. Eu tinha apenas dezessete anos. A lembrança era nebulosa, mas me lembrava de como ele parecia jovem demais para alguém com tanto poder. Naquela época ele era Rank 4. Agora, comandava como um verdadeiro monarca.

    Será que ele também sabia das verdades?

    TOC TOC TOC

    Três batidas na porta quebraram meus pensamentos. O som reverberou pelo quarto como uma onda leve, mas firme. Olhei para a janela — a cortina tremulava suavemente, e a lua prateada banhava o quarto com uma luz calma.

    Me levantei, caminhando até a porta. Ao abri-la, meus olhos encontraram alguém inesperado.

    — Zeyra Kaê…?

    Ela passou por mim sem dizer uma palavra, envolta por um pijama de tecido leve, quase translúcido demais para a hora da noite. Os cabelos estavam soltos, caindo em ondas sobre os ombros.

    — Posso te ajudar? — perguntei, surpreso com a visita.

    Ela apenas se aproximou da minha cama e tocou o diário de Julia com dedos delicados. Seus olhos, âmbar e profundos, se voltaram para mim.

    — Você leu? — sua voz era baixa, mas carregada de emoção. — Meu avô costumava contar histórias sobre ela. Dizem que Julia reescreveu esse livro na nossa língua…

    Ela fez uma pausa, tocando o colar em seu pescoço, antes de me encarar.

    — Se quiser… eu posso te levar até onde o corpo dela está.

    Senti um calafrio subir pela espinha.

    — Você sabe onde está o corpo de Julia Silvit?

    Ela assentiu com a cabeça. Eu não conseguia esconder minha curiosidade. Tudo no diário apontava para alguém lendário, quase divina. Mas descrições alguém do clã da escuridão

    — Se não for um problema… — respondi, cauteloso.

    Ela sorriu, deslizando uma chave fina de entre os seios, como se guardasse um segredo antigo. Sem dizer mais nada, me conduziu pelos corredores silenciosos do palácio.

    Descemos por uma escadaria em espiral, iluminada apenas por lamparinas fracas que lançavam sombras dançantes nas paredes de pedra. O silêncio entre nós era estranho, mas não incômodo. E então ela começou a falar.

    — Sabe… eu fui criada no Palácio Kaetá-Hemiru, entre jardins suspensos e espelhos d’água. Nunca me envolvi com política — disse, com um tom distante, como se lembrasse de outra vida.

    — Eu já sabia disso. O Aruan nos contou — respondi.

    Ela continuou, sem olhar para mim.

    — Desde pequena… os anciões diziam que eu era uma encarnação do espírito solar feminino. Tentaram me forçar a casar com líderes de tribos vizinhas para selar alianças. Mas meu irmão sempre se opôs… mesmo quando ameaçavam guerra. Por isso… — ela parou por um segundo — …por isso nunca me apaixonei por ninguém.

    Foi nesse instante que ela se deteve diante de uma porta antiga, de cor prateada, ornamentada com símbolos do antigo alfabeto das camadas inferiores. A energia no ar mudou. Algo ali dentro pulsava com o tempo, com história, com saudade.

    — É aqui — disse, finalmente.

    Com mãos firmes, Zeyra destrancou a porta, e o som do trinco ressoou como um sussurro antigo. Atrás dela, senti que eu estava prestes a conhecer o passado — não como leitor, mas como testemunha.

    Quando entrei na sala, fui tomado por um contraste inesperado.

    O corredor escuro e úmido deu lugar a um ambiente limpo, imaculado, como se o tempo ali tivesse congelado. As paredes eram de um branco leitoso, quase etéreo, iluminadas por uma luz suave que não parecia ter fonte visível. O ar era fresco, silencioso, pesado de respeito. A cada passo, meus olhos eram guiados até o centro da sala — onde repousava um caixão de vidro, elevado em uma plataforma de mármore esculpido.

    Aproximei-me devagar, contido por uma mistura de reverência e curiosidade.

    Dentro do caixão, ela estava ali.
    Serena. Intocada pelo tempo.

    Uma mulher de beleza encantadora, de traços suaves e ao mesmo tempo poderosos.
    “Estava ficando velho?” pensei comigo mesmo, ao ver que sua aparência superava em muito a de muitas mulheres vivas. Seu cabelo negro, longo e liso, dividia-se com perfeição. Seus olhos fechados, em descanso eterno. As mãos pálidas, entrelaçadas sobre o peito, onde uma espada de ponta fina repousava, como se guardasse seus últimos suspiros.

    Zerya se aproximou ao meu lado, com o tom baixo e suave:

    — O corpo dela foi preservado até hoje… por respeito.

    — Como ela morreu? — perguntei, sem tirar os olhos da mulher adormecida.

    — Dizem que foi de forma natural. Velhice… mesmo. — Houve uma pausa. — Mas, olhando assim, nem parece, né?

    Fiquei em silêncio, absorvendo a imagem. A mulher do caixão… Ela havia vivido por oitocentos anos. E apenas após descer até essa camada, é que veio a falecer?

    Não havia sinais de dor. Nenhum traço de sofrimento em seu rosto.
    Apenas paz.

    — Talvez… ela tenha morrido feliz. — murmurei, deixando escapar um sorriso leve.

    Zerya então falou, com um tom mais brando:

    — Podemos voltar… Mesmo que eu seja princesa, não posso ficar aqui por muito tempo.

    — Claro… Acredito que era só curiosidade mesmo. Não é como se… ela fosse me dar as respostas.

    Ela não respondeu. Apenas assentiu com a cabeça.

    Voltamos pelas escadas em silêncio, os passos ecoando pelo corredor de pedra. Quando alcancei meu quarto, entrei primeiro. Tirei minha blusa, pronto para descansar, quando ouvi a porta se fechando atrás de mim com um estalo seco.

    Me virei, surpreso.

    Zerya ainda estava ali, de cabeça baixa, os ombros tremendo levemente.

    — Você… não vai voltar para o seu quarto?

    Ela se aproximou — com rapidez.

    Sem aviso, pousou a mão sobre meu peito, e disse com a voz trêmula:

    — Quando eu disse que… nunca me apaixonei…
    Era até conhecer… você.

    Fiquei paralisado. A sinceridade em seus olhos me deixou sem reação.

    Ela me segurou pela cintura, me empurrou para a cama com força surpreendente e subiu sobre mim. Seu rosto estava ruborizado, respiração acelerada. Seus dedos hesitavam na borda da parte superior do pijama.

    — Zerya… — murmurei, sério.

    Segurei gentilmente seus pulsos e a movi para o lado, afastando-me.

    — Por favor… pode sair do quarto?

    Minha voz foi firme. Meu coração, não.

    — Eu não posso trair minha esposa.

    Zerya permaneceu sentada na borda da cama, lágrimas se formando nos olhos.

    — Eu te amo, Lysanthir…
    Você sabe que meu irmão… não gosta de mulheres, e não tem filhos. E você é de outro povo.
    Eu quero… que você me dê um filho. Um filho do povo de cima… para liderar o nosso povo.

    Sua voz quebrou. As lágrimas escorreram, mas isso não me moveu. Eu permaneci em silêncio.

    — Eu sei… que você tem uma esposa. E uma filha.
    Mas elas estão longe…
    O que te garante que sua esposa não te esqueceu? Que ela não está com outro homem agora, achando que você morreu?

    Essas palavras tentaram me atravessar, mas…
    Na mesma hora, como um raio, me lembrei.

    “Filha, esse cristal é para saber se o papai vai voltar.
    Se ele quebrar… o papai não vai voltar.
    Mas isso só depende de quão bem você vai cuidar dele, está bem?”

    “Uhum… Te amo, papai…”

    Minha respiração ficou pesada.

    Zerya encostou o ouvido no meu peito.

    — Como eu já sabia… Você não tem um coração que bombeia sangue.
    Mas, mesmo assim… eu sei que você é bom.

    Ela se afastou, caminhou até a porta com passos lentos e silenciosos, e antes de sair, sussurrou com a voz embargada:

    — Boa noite…

    A porta se fechou atrás dela.

    Fiquei ali, em silêncio.

    Sentei-me à beira da cama, colocando a mão no peito.

    Sim, eu ainda sentia. Quando me assustava, ficava ansioso, me esforçava — a sensação de um coração ainda estava ali.

    Mas não…
    Desde que Nytharia atravessou meu peito…
    Desde que fui lançado neste mundo…

    Eu percebi.

    Não havia mais um coração verdadeiro dentro de mim.

    Apenas a lembrança do que era estar vivo.

    “Eu sou um homem morto vivendo.”

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