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    [Perspectiva de ???]

    Maldito sonho…

    Toda maldita noite, ele volta. Sempre o mesmo, sempre igual. Como um disco quebrado que nunca para de girar.

    A sala está mergulhada em um negro absoluto — não há teto, não há chão visível, apenas vazio. No meio desse nada, ele está lá… parado.

    Igual a mim.

    Seus cabelos negros são lisos e bem arrumados, com fios que caem suavemente sobre a testa, quase como se tivessem sido penteados com cuidado cruel. Sua altura, sua compleição… tudo é idêntico. Cada traço do rosto, cada linha no queixo. Somos cópias perfeitas.

    Exceto por uma coisa.

    Seus olhos.
    Enquanto meus dois olhos são roxos, os dele… o direito brilha em um tom rosa intenso, quase etéreo. Como uma chama isolada num mar de escuridão.

    Ele sempre me olha com um misto de pena e tristeza. Aquela expressão… como se ele soubesse de algo que eu ainda não entendo. E antes que eu consiga perguntar, antes que eu possa alcançá-lo—

    —Por favor, filho, não vá! Fique com a mamãe!

    A voz da minha mãe me corta. Seus braços me enlaçam, firmes, me impedindo de correr atrás dele. Eu luto. Grito. Me debato. Mas ela me segura com uma força desesperada.

    E então…

    Eu acordo.

    Meus olhos se abrem com um sobressalto. Meu braço está estendido para o teto, como se quisesse agarrar algo que se esvaiu no ar. Um zumbido baixo ressoa no meu ouvido, e logo depois ouço a voz que me arranca completamente do sonho:

    — Porra… tá dormindo até tarde, hein? Bora logo, preguiçoso.

    Suspirei, arrastando meu corpo da cama.

    — Já vou…

    Caminhei até o banheiro e encarei o espelho. Meus cabelos medianos estavam bagunçados, e os olhos roxos me devolviam o olhar, vazios. Me aproximei mais, analisando cada detalhe… meus dentes, ligeiramente mais pontudos que o normal. Sorri.

    Ou tentei. O reflexo não retribuiu.

    Me vesti com calma, pegando o traje negro com detalhes prateados que repousava dobrado no armário. A roupa se ajustou perfeitamente ao corpo, como se estivesse esperando por mim.

    Ao abrir a porta, lá estava ele.

    Akane Ibuki.

    Sua pele avermelhada lembrava terracota recém-polida. Os cabelos brancos e curtos espetavam para cima, selvagens, e dois chifres escuros e curvos se projetavam da cabeça como garras esculpidas. Seus olhos, de pupilas fendadas e íris douradas, tinham um brilho que hipnotizava, como os de um predador sereno.

    As marcas tribais que cobriam seu corpo pareciam pulsar com energia própria — uma em especial cortava o lado esquerdo do rosto com elegância agressiva, descendo pela bochecha como sangue seco. Outras se espalhavam pelos ombros e braços. No centro da testa, três pequenos pontos vermelhos formavam uma linha vertical que parecia observar mais do que seus próprios olhos.

    Seu manto luxuoso pendia sobre um ombro só, revelando parte do peito nu, marcado e forte. Por baixo, ele usava uma proteção de combate, e em seu braço direito, uma manopla metálica de aparência tecnológica reluzia discretamente. Os brincos que balançavam em suas orelhas lembravam talismãs antigos — esferas azuladas com penas vermelhas. No pescoço, uma gargantilha escura cheia de pingentes metálicos fazia tilintar um som sutil a cada movimento.

    — Tá parecendo uma moça, hein… Tem certeza de que você é filho da Vena?

    Respondi com um soco direto no peito dele. Sólido. Forte. Como sempre.

    Ele só riu, como sempre fazia.

    — Tô brincando, pô. Você sabe que sou seu melhor amigo. Anda logo, temos missão hoje.

    Suspirei mais uma vez, pesado, e fui com ele.

    — O que você precisa é de um bom café — disse ele, animado — Um café das camadas -101… desse jeito você até lembraria de sorrir, como fazia antes.

    — Eu era só um moleque mimado naquela época.

    — Filhinho da mamãe, né? — disse com um sorriso melancólico. — Mas olha… eu fico feliz com o você de agora. Quatro anos se passaram desde que sua mãe e o Novato do Seron subiram… e você mudou muito. Nem parece o mesmo cara.

    Ignorei. Não porque queria, mas porque… era verdade.

    Desde que minha mãe partiu para as camadas de cima, os sonhos começaram. Sonhos com aquela figura… com aquele maldito olho rosa.

    Camada -99.

    Um nome… frio. Mas para mim, carrega um peso nostálgico e familiar.

    Estamos na zona sul, e esse lugar… é diferente de qualquer outra camada que conheci. O céu, sempre num tom azulado escuro, oscila entre o fim da noite e o início do dia, mas nunca é um ou outro por completo. É como se o tempo aqui estivesse preso em um limbo eterno.

    Mesmo que pareça estranho dizer isso, vivi dezenove anos da minha vida aqui. Quase tudo que sou… nasceu nesse ambiente sem tempo.

    À nossa volta, se ergue um dos castelos do Deus Irregular — uma figura envolta em silêncio e mistério. Um ser que se autodenomina deus, embora eu sequer entenda o que “deus” realmente significa.

    Caminhamos pelos vastos corredores de pedra escura, onde os vitrais distorcem a pouca luz que invade o ambiente e criam formas quase irreais no chão polido. Em meio ao silêncio, um som distinto ecoa…

    O estalar de peças de xadrez.

    Akane ergue seu braço, cumprimentando com uma mistura de respeito e provocação:

    — Jogando xadrez logo cedo, hein…? Avaron Shatranj XVIII… e Lumen. Isso sim é uma surpresa.

    Avaron Shatranj XVIII. Um nome longo, quase teatral — e ainda assim… ele o carrega com naturalidade.

    O homem diante de nós se reclina com elegância em uma poltrona de couro vermelho, postura relaxada, sorriso de canto. Seu cabelo negro profundo tem pontas tingidas de um carmesim vibrante, caindo sobre o rosto e escondendo completamente um de seus olhos. A franja irregular dá a ele uma aura enigmática, quase hipnotizante.

    Seu único olho visível, de um tom claro penetrante, brilha como se já soubesse tudo. Acima dele, uma pequena marca escura o adorna. Sua túnica longa de gola alta é negra como a noite, mas decorada com detalhes ondulados cinzentos nas mangas largas, e termina em um degradê que vai do cinza ao laranja flamejante. As unhas, longas e pintadas de verde-azulado escuro, reluzem sob a luz baça. Brincos dourados longos balançam levemente conforme ele movimenta a cabeça, e um grande pingente com borlas vermelhas e amarelas repousa sobre o peito.

    — Ora, ora… — disse Avaron com voz melodiosa, — parece que é xeque-mate.

    Do outro lado da mesa, com uma expressão franzida e olhos semicerrados, está Lumen Nostras — um velho excêntrico de cabelos brancos e longos como véus, sobrancelhas espessas e um corpo envolto numa túnica que parece mais um vestido cerimonial. Ele não tem barba, mas o rosto enrugado carrega um peso de séculos.

    — Mas que droga… — resmungou Lumen, bufando. — Já são quatro derrotas… Vamos mais uma!

    Olhei o tabuleiro. Não era um tabuleiro comum — o de Avaron era personalizado: dourado com casas em tons de vermelho, peças feitas à mão, cada uma entalhada com detalhes únicos. Parecia mais uma relíquia do que um simples jogo.

    Avaron sorriu de novo, girando levemente sua xícara de chá entre os dedos antes de tomá-lo com elegância.

    — Filho de Vena, e o gênio perdido do andar de cima… isso é realmente emocionante. Que bela manhã para reencontros, não acham?

    Ele gesticulou com gentileza, ainda com aquele ar insuportavelmente autoconfiante.

    — Gostariam de uma partida? Seria uma honra jogar com vocês.

    Ninguém… jamais venceu Avaron em um jogo de xadrez.

    E seu sorriso sarcástico só aumentava essa vontade irritante de dar um soco na cara dele.

    — Vejamos… — disse ele, focando-se no tabuleiro, movendo uma peça com graça. — Bispo em E5… xeque-mate. Apenas quatro lances.

    A expressão de Lumen mudou. Por um instante, parecia uma criança contrariada.

    Com um único movimento dos dedos, ele esmagou a mesa, reduzindo-a a pedaços como se fosse feita de papel.

    Avaron, calmo como sempre, já havia tirado sua xícara, o tabuleiro e o bule de chá antes que o estrondo acontecesse.

    Uma aura dourada poderosa explodiu em volta do braço do velho.

    — Venha, Avaron! MALDITO! Eu vou te MATAR!

    Avaron apenas sorriu, como se tudo fosse parte de uma encenação teatral.

    Ergueu a mão, e sussurrou com ironia:

    — Mova… bispo… C7.

    No instante seguinte, Lumen desapareceu.

    Sumiu como se tivesse sido apagado do espaço-tempo.

    Avaron levantou-se lentamente, ajeitando a túnica e suspirando com falsa frustração.

    — Que pena… eu realmente queria jogar mais uma.

    Ele lançou um último olhar para nós — e partiu, deixando apenas o som de seus passos ecoando nos corredores vazios.

    Então…

    Aquela presença. Quente, vibrante. Uma aura que invadia até o mais íntimo do meu corpo.

    Akane se virou, sorrindo.

    — Olha só quem chegou… Agora você vai ficar feliz, né?

    Quando me virei, meu corpo estremeceu. Meus olhos reconheceram na mesma hora:

    Aqueles olhos roxos intensos, com fendas rosadas no centro. Cabelos negros como a noite, caindo até a cintura.

    Vena.
    Minha mãe.

    Ela me olhava em silêncio, com uma serenidade que me desmontava por dentro.

    — Vamos, meu filho… — disse ela com um sorriso gentil. — Sua missão o aguarda… meu querido Kan Orquídea.

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