Capitulo 104 - Quando demônios saem à caça
Os demônios olham para o sul por mais algum tempo. Observando o rumo para onde Brok partiu, já sem ver traços do orc no meio da mata.
“É um momento bom para nos retirarmos”, Byron comenta.
Rubi coleta a mochila do chão. “Então vamos”, diz ela, logo em seguida, estendendo a mão para o leste e conjurando algo. “Corvo Buscador!”
Da ponta de seus dedos, forma-se uma ave negra, feita inteiramente de magia, que logo sai voando naquela direção.
Alguns instantes depois, o corvo entra na mata e desaparece entre a vegetação.
“Hora de caçar um pouco”, Rubi comenta.
Byron confirma, acenando firmemente com a cabeça.
Prontos para partir, a dupla começa a caminhar naquela direção.
Eles deixam a vasta clareira com as ruínas de Cahjia para trás e começam a vagar pela floresta, onde as árvores são altas e seus galhos são curtos. O terreno é aberto, com algumas irregularidades no solo de terra fofa e com rochas grandes descobertas.
Os demônios seguem com calma e sem pressa, passando entre as plantas com um semblante atento aos sinais, mas que carrega tranquilidade.
Aos poucos, surgem árvores com troncos grossos e galhos mais largos, cheios de folhas, que dão um aspecto mais denso e escuro a algumas partes da mata.
O terreno fica mais nivelado, com o solo mais firme, arbustos mais altos e vegetação crescendo nos pontos onde a luz do sol adentra melhor.
Além da mudança visual no ambiente, Rubi percebe algo diferente no ar. Ela para de andar momentaneamente e balança a mão na frente do corpo.
“Sentiu algo, senhorita?”, Byron questiona.
“O ar aqui… é leve”, Rubi responde, com um sorriso sutil curvado nos lábios. “Devemos ter saído da região onde a magia espiritual é mais forte.”
Byron também flexiona os dedos, medindo a magia ao seu redor. “De fato”, ele comenta. “Nem percebi a mudança.”
O demônio finca sua espada no chão e começa a alongar os braços e o pescoço. As articulações de Byron estalam como galhos secos e ele suspira aliviado.
“Sinto como se estivesse carregando um peso por dias”, diz Byron.
Rubi solta um leve riso vendo a cena. Ele parece até um velho…, ela pensa.
“É… pra quem não sente as flutuações da magia ao redor, você parece bem mais relaxado”, ressalta a succubus, contendo um sorriso.
Após alongar os braços, ele começa a esticar as pernas. “Posso não ter sentidos tão apurados quanto a senhorita, mas o meu corpo ainda sofre”, ele comenta. “E, dado o alívio que sinto agora, talvez meu corpo ainda sofra mais do que o seu, mesmo gastando bem menos mana.”
“Deve ser algo como lutar sem sentir dor”, Rubi comenta. “Você não sente exatamente o quanto de esforço está fazendo e acaba extrapolando um pouco os limites.
“A zona de magia espiritual próxima às ruínas pode ser mais densa do que eu pensei.”
“Tem certeza de que podemos usar aquele lugar como base?”, a succubus pergunta, com a sobrancelha arqueada. “Ficamos só um dia por lá, e já me senti um pouco sufocada.”
“Podemos. Vi como as vantagens geográficas dali superam as desvantagens”, Byron responde, sem pestanejar. “Além do mais, com o tempo, a nossa presença vai alterar o equilíbrio mágico. Se a mana densa tiver origem do dragão, ela deve se dissipar naturalmente. Se for do lugar em si, ainda assim vamos conseguir neutralizá-la. Na pior das hipóteses, ainda será ao menos um ambiente neutro como aqui.”
Os olhos de Rubi se arregalam. “Entendi…”, ela murmura. “Então é assim que funciona o lar de um ser mágico.”
“Nas palavras daquele orc, aquela torre será uma ótima toca”, Byron comenta.
O demônio, terminando de se alongar, não percebe, mas atrás dele, sua fala abala a succubus, fazendo-a esboçar uma careta, com um gosto amargo subindo pela garganta.
Como você pode reclamar quando te chamam de O Último do Oeste, mas achar tranquilo quando chamam a casa em que você vai viver de toca?, ela se questiona, sentindo uma pontada no orgulho. Rubi suspira, tentando ignorar o desgosto. Nós não somos marmotas…
“Enfim… já chegamos ao ponto da floresta onde as coisas começam a ficar mais agitadas”, Rubi diz, mudando o assunto.
“É a partir daqui que entraremos no território das garras-brancas?”
“É. Já tinha sentido algumas delas pelo corvo que mandei”, Rubi responde, apontando para uma das árvores com galhos largos e copa densa. “Brok me avisou que essas árvores iriam se tornar mais comuns conforme avançássemos na terra delas.”
“Então, o ambiente natural delas será um lugar mais propício a emboscadas”, Byron conclui.
“Por isso temos que nos preparar”, Rubi afirma, confiante, estendendo a mão para frente. “Corvo Buscador!”
A succubus lança outro corvo e, mantendo a mesma compostura, desliza a mão à esquerda. “Corvo Buscador!”, ela reconjura, disparando mais uma ave, depois vira-se mais um pouco. “Corvo Buscador!” Enviando o terceiro pássaro para onde ela olha.
Os corvos negros feitos de mágia batem suas asas e partem voando em linha reta pela floresta.
“Ufa”, diz Rubi. “Até esqueci como é bom poder usar feitiços com liberdade.”
Byron observa com ânimo os pássaros desaparecendo entre as copas espessas e volumosas.
“O ninho principal delas fica nessa região”, afirma a succubus, examinando a floresta adiante com um olhar obstinado.
“Acha que demoraremos muito até encontrarmos as garra-brancas líderes?”
“Não sei”, a succubus fala, franca. “Sem saber a extensão daqui, é difícil estimar qualquer coisa. Por hora, vamos só seguir o caminho onde acharmos mais garras-brancas. Na teoria, todas vêm de lá mesmo.”
“Quase sinto pena daquelas que tentarem te pegar desprevenida”, ele comenta.
“Elas podem tentar”, responde Rubi com leve ironia. “Mas não acho que serão grandes problemas pra você também.”
Byron leva a mão esquerda ao peito e se curva em um cumprimento. “Darei o meu melhor para não atrapalhar você no nosso objetivo.”
A succubus, antes de responder, desvia o olhar, tocando o pescoço. “Na verdade…” Ela começa, hesitante. “Eu queria que você fosse na frente e enfrentasse o maior número possível de garras-brancas sozinho. Ao menos até localizarmos o ninho.”
“O que?”
“Mas é claro que eu vou ficar atrás e te dar apoio se algo ruim for acontecer.”
Byron franze o cenho, confuso. “Não iremos lutar juntos? Qual seria o intuito disso? É parte do meu treinamento?”
“Sim… e não.” Rubi coça a cabeça, incerta. “A real é que ainda não tem como eu saber que tipo de combate armado se encaixa melhor com você. Você precisa lutar e descobrir o que te agrada.”
Se a magia que usei nele funcionar como maestrias do HTO, a partir do momento em que ele começar a usar aquela arma, rapidamente vai começar a evoluir e ramificar as habilidades dele baseadas nos mesmos movimentos que ele usar em combate, ela pensa. E se ele se desenvolver lutando junto comigo, pode adquirir um estilo de luta ou até uma classe que combina muito bem comigo, mas que vai sofrer bastante na hora de se virar sozinho, e eu não quero isso.
“Pensei que, por ter adquirido a habilidade de espada com a senhorita, estaria no caminho para me tornar um guerreiro como você”, o diabo explica, surpreso.
Rubi balança o dedo em negação. “Isso definitivamente seria um desastre”, ela rebate. “Seu treinamento pode te levar para vários rumos diferentes. Escolher um às cegas, sem saber como você prefere manusear sua arma, seria bem ruim.”
Nós vamos gastar muito tempo e recursos nisso. Ele tem que se adaptar a um conjunto de maestrias que seja agradável a ele, não a mim. Só assim, ele pode usar o verdadeiro potencial dele, ela pensa, decidida. Quando um jogador erra na build, ele pode resetar os pontos gastos ou até fazer um personagem novo, mas o Byron não tem esse luxo todo. Temos que acertar de primeira.
O demônio sente a firmeza no semblante da succubus. Inspirado, o olhar de Byron se acende com determinação. “Compreendi o seu ponto e farei como o pedido. Irei na frente e tentarei manter o foco em descobrir qual estilo de combate mais me cativa”, ele diz, encarando a própria mão, convicto.
“É assim que se fala!”, diz Rubi animada, com o punho fechado, torcendo por ele.
Por trás da expressão animada e empolgada, uma ponta de preocupação paira nos pensamentos da succubus.
Só espero que você prefira um estilo de combate diferente do meu. Até onde eu vi, suas aptidões para a classe de patrulheiro são horríveis. Te falta um pouco… um tanto… talvez um bocado de sutileza na maneira de agir. Se for por esse caminho, vamos ter bastante trabalho pela frente.
“Não fazia ideia de que lutar com uma arma envolvia tantas nuances além de só balançar e disparar”, Byron complementa, fascinado.
Calma, o que isso quer dizer?, Rubi se pergunta, incerta se deveria se sentir ofendida.
Logo em seguida, um formigamento mágico percorre a pele de Rubi, atiçando-a. Um sinal advindo de um de seus corvos.
Ela fecha os olhos, conectando-se à visão da criatura alada. Um instante de silêncio paira naquele trecho da mata.
“Encontrou algo?”, Byron questiona.
Antes de responder, um sorriso se forma nos lábios de Rubi. “Veio em boa hora”, ela murmura, abrindo os olhos. “Encontrei o seu primeiro adversário.”
Byron se cobre em chamas, assumindo sua imponente forma musculosa de pele sombria com marcas indecentes.
Com um movimento preciso, ele puxa a espada cravada no chão. “Para onde devo ir?”, pergunta, a voz grave e firme.
“Não precisa ir muito longe. Já tem uma correndo aqui por perto… não deve demorar muito para ela vir até nós.”
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