A infusão de ervas soltava um vapor tênue, espalhando pelo ar um aroma terroso e acolhedor, como se o frio lá fora fosse só um pesadelo antigo.

    Aisha estava sentada, envolta no sobretudo o que ajudava a espantar o frio. Seus olhos, fixos na borda do recipiente, pareciam mirar além, para alguma lembrança, algum medo não dito.

    O Guardião estava próximo, mas respeitosamente distante. Observava em silêncio.

    Não como soldado.

    Não como Guardião.

    Mas como um homem… tentando lembrar como conversar.

    — Por que você atravessou a barreira? — ele perguntou, sem rodeios, mas com a voz mais baixa do que o habitual, como se receasse a resposta.

    Aisha demorou para responder….

    — Achei que seria uma chance — disse por fim. — Uma chance de fugir daquele lugar, ou ao menos uma forma de provar que eu era mais do que esperavam. Mais do que me deixavam ser.

    Ela a se encolheu mais embaixo do sobretudo, os tremores estavam começando a diminuir.

    Ele ficou em silêncio por alguns instantes, como se tentasse processar aquelas palavras.

    — Você sabia que era o terceiro desafio?

    — Não. Me disseram que era uma missão de honra. Descobri aqui… que era na verdade um sacrifício disfarçado. — Um riso irônico escapou de leve — Sabe o que é engraçado, provavelmente o comandante achou que estava mandando o meu irmão para a morte… queria ver o rosto dele quando tirei a armadura.

    ele assentiu.— E agora? Quer voltar?

    Ela ergueu os olhos para ele. Olhos dourados, firmes como pedra.

    — Não.

    O silêncio se instalou novamente, apenas quebrado pelo crepitar do fogo. Ele se encostou na parede curva do abrigo.

    Havia algo quebrando dentro dele. Lentamente. Como gelo rachando sob o sol.

    Os votos dos Guardiões eram claros.Imutáveis.Cruéis.

    Nada pode passar com vida….Mas ela estava ali.

    Viva.Teimosa.Inteira, apesar de tudo.

    O fogo crepitava enquanto mais lenha era adicionada

    — Você não quer voltar — repetiu ele, num sussurro que soava mais como confissão do que constatação.

    — Não há nada lá — disse Aisha. — Só correntes douradas e nomes que nunca foram meus.

    Ele fechou os olhos. deixando um suspiro escapar antes de falar.

    — Houve alguém… — sua voz quebrou um pouco. — Que também não tinha mais para onde voltar.

    Aisha ergueu o olhar.

    — Jyn — disse ele, o nome soando como uma prece esquecida.

    — Era mestiça. Metade Kenzaru. Os clãs a odiavam. Chamavam-na de aberração. — Ele abriu os olhos encarando o fogo — Mas ela era… o que o mundo precisava ter se tornado.

    Aisha não respondeu. Mas seus olhos lhe acompanhavam.

    — Ela se escondia. Lutava. Não por glória, mas porque viver era sua forma de resistir. Sobreviveu… muito mais do que era esperado.

    — E morreu… por alguém que não merecia.

    Ele não conseguiu olhar para Aisha.

    As palavras lhe arrancavam algo do peito, como se cada sílaba abrisse uma cicatriz antiga. Mas o silêncio entre eles agora era outro.Não desconforto.Era algo diferente.

    — Você me lembra ela — O Guardião falou a encarando. — Não pela aparência. Mas pela força que a dor forçou em você.Aisha desviou o olhar.

    — Então… o que vai fazer?

    Ele se ergueu. Devagar. Como se o corpo fosse um campo de batalha velho demais.

    Foi até a entrada do abrigo. A neve lá fora era um vazio branco a neve ainda não havia chegado, mas já começava a escurecer o ambiente.

    Dentro dele, uma batalha acontecia, e a mana a redor parecia responder. Mas a lembrança… chorava.

    Ele olhou para Aisha.

    O olhar firme.

    A alma em ruínas por ter que reviver essas memorias.

    E o jeito como ela segurava o sobretudo… com um misto de gratidão e incerteza, como um condenado esperando uma sentença mais branda. E então ele viu.Não apenas uma semelhança.

    Mas a repetição de uma tragédia.

    A mesma coragem descartada. A mesma mulher ignorada por um mundo cego. A mesma injustiça se repetindo… diante dele.

    Ele fechou os punhos.

    — Isso é injusto — sussurrou, como se desafiasse os próprios deuses.— Isso é… cruel demais.

    Aisha o olhou.— Você não precisa me salvar, eu vou conseguir me virar sozinha.

    Ele respirou fundo.— Eu sei.— Mas talvez… eu precise salvar o que restou de mim.

    — Há uma cidade — disse ele.— Quando parti, era só um amontoado de lonas. Na época se chamava Assentamento da Nevoa.

    Aisha arqueou uma sobrancelha.— Nevoa?

    — É, nevoa – ele falou com um pequeno sorriso aparecendo.

    E então se virou.— São doze dias. Se quiser… eu te levo.

    Ela hesitou. Por um segundo.E então o olhou.Havia algo novo ali.Talvez um pouco de gratidão.

    E para ele, era suficiente.

    Ele sabia que, ao dizer aquilo, estava quebrando o voto.

    Mas pela primeira vez em muitos anos…Sentia que Jyn teria sorrido.

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