O branco começava a desaparecer.

    A cada passo, a neve dava lugar à rocha úmida, escura e desgastada. A trilha antes coberta por gelo agora se abria em fendas naturais, com musgos ralos e o som do vento sussurrando entre as pedras.

    Ian seguia em silêncio. Seus olhos varriam o caminho como se procurassem algo.

    Então parou.

    À esquerda, uma pedra curvada pelo tempo, nela um risco. Não, mais que isso.

    Um símbolo.

    Ele se aproximou devagar e passou os dedos sobre a superfície.

    Três marcas circulares, conectadas por um traço oblíquo. Quase apagadas.

    — Isso é… uma runa? — Aisha perguntou, observando-o.

    — De alarme — respondeu Ian. — Gravei isso aqui há muitos anos. Era pra alertar caso algo cruzasse essa trilha, agora… mal dá pra ver.Aisha se inclinou, tocando com cuidado.

    — O tempo apagou quase tudo.

    — O tempo apaga tudo… bem… quase tudo.

    Ela olhou para ele.

    — Quantos lugares como este você deixou espalhados?

    Ian respirou fundo.— Mais do que eu gostaria de lembrar

    Aisha o encarava, os olhos dourados estreitos, pensativa. Depois, não resistiu:

    — E fora daqui? Como é o mundo dentro da barreira?

    Ian hesitou. Não costumava falar sobre isso. Mas acabou cedendo.

    — Ao sul… — começou devagar — Florestas que respiram mana selvagem, território dos Rumbra. Árvores vivas, animais que carregam poder na carne. O próprio ar parece pulsar.

    — Árvores vivas? — Aisha arqueou as sobrancelhas.Ele deu um meio sorriso.

    — É. Já vi viajantes perdidos serem engolidos pelas raízes, como se a floresta decidisse que eles não deveriam sair.

    Aisha estremeceu.

    — No centro oeste é um deserto — Ian continuou — Areia infinita. O sol castiga até a alma. Mas… também esconde ruínas antigas, templos meio enterrados. Há quem jure que lá existiu um império que controlava a mana do fogo.

    Ela piscou, surpresa.

    — E alguém ainda vive lá?

    Ian pensou antes de responder.

    — Alguns sobrevivem. Caravanas nômades. Mas viver ali é um desafio para qualquer um pior ainda para magos de gelo.

    Aisha puxou o sobretudo mais junto ao corpo.

    — E o leste?

    Os olhos de Ian suavizaram levemente.

    — Campos vastos. Rios que parecem não ter fim. O solo é fértil, e os ventos trazem chuvas na época certa.

    Ela sorriu de leve.— Parece bonito.

    — É. Mas também é cobiçado. Reinos já se destruíram por causa daquelas terras.

    Ela se calou, absorvendo cada palavra.— E o Norte bom… um verdadeiro Labirinto montanhoso, havia um acampamento mais à frente — murmurou. — Um conjunto de tendas… nada fixo. Se ainda estiver de pé, podemos descansar ali.

    Mas o que surgiu adiante não eram tendas.Eram estruturas de pedra.Torres baixas, paredes reforçadas.Um portão arqueado entre duas rochas.Chamas queimando em suportes.Ian parou.

    — Isso não estava aqui… — disse em voz baixa.

    — É o acampamento?

    — Não, é novo.

    Foi quando a voz ecoou.

    — Parem aí!

    Três figuras surgiram das sombras do portão.

    Armaduras finas, adornadas com filetes prateados. Os mantos azul-escuros ondulavam com o vento suave. Uma delas deu dois passos à frente, erguendo a mão.

    — Essa trilha está desativada. É rota de risco. Monitoramento da barreira. Quem são vocês?

    Ian manteve a calma.

    — Viemos do norte — disse. — Seguimos por uma rota antiga. E encontramos isso pelo caminho.

    A guarda franziu o cenho.

    — Essa construção é um posto avançado de Altheria da Nevoa — A guarda falava enquanto analisava os itens que Ian estava carregando — Essa rota foi abandonada há anos. Só é usada para vigília. Nenhum viajante vem por aqui.

    — … Você disse Altheria? — Ian perguntou parecendo levemente abalado.

    — É o nome da cidade.

    — Pois é — murmurou Ian. Recuperando a compostura

    — Não era minha intenção reencontrar a civilização desse lado. Mas o tempo muda tudo.

    Os olhos da guarda estreitaram.

    — Nomes. Agora.

    Ian respirou fundo. Deu um passo à frente.

    — Ian.

    — Ian o quê?

    Ele fitou a soldado por um momento antes de responder.

    — O Guardião do Norte.

    A guarda o encarou por alguns segundos… e riu.

    — Claro que é. E eu sou a Rainha das Neves.

    Atrás dela, as outras duas guardas também sorriram, prontas para ordenar a detenção.

    Mas Ian apenas cruzou os braços.Não respondeu.O olhar firme.Porque ele sabia… que aquilo era só o começo.

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