Na dungeon, Dargan, o esqueleto mais poderoso de Jaro. Estava diante dos vinte e dois servos humanos e dos doze esqueletos, ele organizava a rotina que sustentaria a vida naquele lugar sinistro.

    Cada homem e mulher deu sua opinião, e juntos decidiram que todos ajudariam em tudo, mas algumas funções teriam líderes para guiar os demais. A idosa Vernia cuidaria da cozinha, Freya lideraria os treinamentos de combate, Joanan seria responsável pela caça, e o jovem Alrik teria a tarefa de comandar a construção do quartel-general na dungeon.

    Testariam essa formação por um mês; se funcionasse, seria o início de uma nova ordem. Mais tarde, na cozinha de Vernia, o cheiro de carne assada se espalhava pelos corredores. A anciã mexia o caldeirão sobre um fogo improvisado, suas mãos calejadas moviam-se com precisão.

    — Aqui precisa de mais sal, menino! — gritou com um jovem que picava raízes. — Quer matar todo mundo de desgosto?

    — Desculpa!!

    O riso se espalhou pela cozinha, quebrando a tensão que o lugar trazia. Até os esqueletos ajudavam, Maelor ficava de olho nos aprendizes para que pudessem cortar os legumes sem acidentes e também pra os ensinar a usar a lâmina corretamente.

    No pátio da dungeon, Dargan treinava Freya e mais alguns homens e mulheres. Seus ossos rangiam a cada movimento, mas sua espada de madeira era certeira e assustadoramente ágil.

    — Mais rápido! — gritou, derrubando a camponesa no chão com um único golpe. — O inimigo não vai esperar você respirar.

    Freya levantou-se ofegante, porém com os olhos brilhando de desafio. Dargan inclinou a caveira, e mesmo sem músculos, parecia sorrir. Ele já havia lutando com muitos guerreiros, mas nela reconheceu um talento nato. Decidiu, naquele instante, que Freya seria sua pupila principal, alguém a quem revelaria segredos que jamais compartilharia com os outros.

    Na floresta próxima a dungeon, Joanan conduzia três jovens e o Lobo Zam. Armados com arcos e lanças improvisadas, avançavam em silêncio até que um javali gigante cruzou a trilha. Joanan ergueu a mão, fez sinal de espera e mandou um dos jovens soltar a flecha que saiu voando e acertou, em cheio, o javali.

    Os jovens sorriram, e Thervan, o esqueleto, recolheu o animal com a naturalidade de um caçador veterano.

    — Hoje ninguém passa fome — disse, erguendo a presa ensanguentada.

    Todos riram, com vários animais mortos atrás deles. Na reconstrução da dungeon, Alrik se esforçava para transmitir autoridade. Varno, outro vassalo esqueleto, carregava duas vigas sozinho, enquanto quatro humanos lutavam para erguer apenas uma.

    — Coloquem aqui, no canto! — ordenou Alrik, escondendo a insegurança na voz.

    — Você fala como um velho mestre pedreiro — riu um dos trabalhadores, arrancando risos de outros.

    Apesar das brincadeiras, todos o respeitavam. As ruínas aos poucos ganhava forma, e não eram apenas pedras e madeira, era a esperança de um novo lar. Horas depois, à noite, reuniam-se em torno do fogo no salão principal.

    Chamas dançavam sobre rostos humanos cansados e caveiras. Cada um relatava o que havia feito no dia, caçadas, treinos, construções, erros e vitórias.

    Dargan, erguendo-se entre todos, falou com orgulho: — Hoje caçamos juntos. Cozinhamos juntos. Construímos juntos. — suas órbitas vazias se voltaram para os humanos e esqueletos. — Somos apenas trinta e cinco… mas amanhã podemos ser trezentos. Desde que nunca esqueçamos que só sobreviveremos como um só corpo.

    O silêncio foi quebrado por aplausos, e Freya ergueu sua caneca.

    — Aos vivos e aos mortos, que agora são um só povo!

    Freya parecia que havia saído do abismo. Seu rosto novamente, estava começando a brilhar.

    O brinde ecoou, copos de madeira tilintando contra ossos. Ali, no coração da dungeon, nascia uma nova fraternidade.

    ⧖⧗

    Em frente ao quarto 203, uma figura de máscara demoníaca vermelha estava encostada na parede, um pé apoiado no chão e os braços cruzados, olhando fixamente para baixo.

    — Você é a pessoa que mais me dá medo aqui… Lila… — murmurou Jaro.

    A mulher levantou os olhos na direção dele. Por um instante hesitou, mas logo caminhou até o rapaz e o puxou para um abraço inesperado, afagando sua cabeça.

    — Você demorou demais, pirralho…

    Jaro congelou. Aquela mulher fria, temida por todos, o abraçava. Ele não soube como reagir… mas, no fundo, não odiou nem um pouco aquela sensação.

    Quando se separaram, Lila estendeu um celular flip azul-escuro.

    — Parabéns por ter voltado vivo.

    Jaro pegou o aparelho e abaixou a cabeça.

    — Obrigado… mestra.

    Ela pensou em repreendê-lo por chamá-la assim, mas apenas sorriu sob a máscara.

    — Não tem de quê. Só não se esqueça, amanhã é o seu primeiro treinamento. — a voz dela soou como uma ordem, mas antes que ele pudesse responder, o corpo de Lila começou a arder em chamas e, em segundos, desapareceu diante dele.

    Jaro ficou olhando o espaço vazio, sorrindo por baixo da máscara.

    — Claro…

    Treinamento? Haha. Os professores usam palavras mais bonitas, como “aula”, Lila…

    Serena, que estava logo atrás, beliscou dele com uma expressão séria.

    — O-o que foi? — Jaro sentiu medo. Era a primeira vez que a via irritada.

    Ela desviou o olhar, emburrada.

    — Nada… — ela virou o rosto. — É que muitas mulheres te tocam… o tempo todo — sussurrou, baixo demais para ele ouvir.

    — Hein? Não entendi o que disse.

    Ela o empurrou.

    — Eu disse que não é nada! — bufou, empurrando-o de leve. — Anda logo, me mostra o quarto.

    Jaro arregalou os olhos, sem entender direito aquela mudança de humor, mas obedeceu.

    — Tá bom…

    Nesse momento, ela se deu conta de que dormiria em um quarto com um rapaz que havia conhecido há pouco tempo, sozinhos. Tudo bem que já tinham passado a noite juntos em uma floresta… mas em um quarto? A cada segundo, ficava ainda mais paranoica.

    Jaro pegou a chave, girou a maçaneta e entrou junto com a jovem. Logo acendeu as luzes e largou todas as suas bolsas no chão. Serena fez o mesmo.

    O quarto de Jaro era ainda mais sem graça que o de Peter, observava Serena. Havia apenas o básico.

    — Pelo menos parece confortável… — comentou Serena.

    — É… — respondeu Jaro distraído, já começando a tirar a camisa.

    — Ei! O que pensa que está fazendo?! — Ela cobriu os olhos com as mãos, corando de imediato.

    — Ué? Estamos imundos. Precisamos de um banho, não? Mas seja educado, Jaro! — disse rindo de si mesmo. — Pode ir primeiro. Enquanto isso preparo algo pra gente almoçar. — Tirou a máscara e largou a camisa numa cadeira, revelando o físico bem definido e o cabelo penteado para trás.

    Serena, ainda com as mãos nos olhos, gaguejou:

    — O-onde fica o banheiro?

    — Ali. — apontou sem pensar. O simples gesto fez os músculos de seu braço se destacarem ainda mais.

    — O-obrigada! — disse ela, correndo até a porta e fechando-a com força.

    Jaro deu uma risadinha.

    Por que será que ela ficou tão nervosa? Deve ser o calor…

    Enquanto cozinhava, Serena do outro lado da porta estava quase surtando. Meu coração não vai aguentar se continuar assim… Pensava, ofegante, sentada no chão do banheiro.

    Meia hora depois, Jaro já havia preparado o almoço. Estranhando a demora, bateu na porta.

    — Serena? Está tudo bem aí?

    Pew Um barulho veio de dentro.

    — Serena!

    — E-está tudo bem! Só… bati a cabeça no registro do chuveiro! — respondeu apressada.

    Logo a porta se abriu, apenas o suficiente para ela passar metade do corpo. Serena estava de toalha, com o cabelo e o corpo ainda molhados. O tecido realçava seus seios e, como Jaro era mais alto, conseguia ver o quanto eram avantajados, mas na medida certa. Envergonhado, ele desviou o rosto.

    — É que você demorou… e eu já preparei nosso almoço… — disse o jovem, engasgando nas próprias palavras.

    Serena percebeu a tensão e sorriu, meio sem jeito. Ela não poderia recuar.

    — É que… esqueci de pegar roupas limpas na minha bolsa… Será que pode pegar para mim?

    Ele respirou fundo.

    — Claro, sem problema.

    Ela sorriu, vendo Jaro cada vez mais nervoso. Mas não entendia uma coisa, não era apenas vergonha… ele estava se controlando ao máximo para não fazer nenhuma besteira.

    À medida que Jaro caminhou até a bolsa dela, Serena até pensou que havia levado vantagem, mas se lembrou das peças íntimas. A moça sentiu o estômago gelar, entrou em pânico e correu até ele.

    — Espera! Deixa que eu pego! — gritou, desesperada.

    Mas já era tarde. Ele se virou segurando um vestido… e uma calcinha de cor vinho.

    — Deve ser essas… — sussurou o rapaz.

    — Me dá isso!! — Serena avançou, tentando arrancar as roupas de sua mão. No movimento atrapalhado, escorregou e caiu sobre ele. Os dois despencaram juntos no chão. Jaro bateu a cabeça no interruptor e a luz apagou.

    No escuro, Serena estava sentada no colo dele, e as mãos de Jaro pairavam na cintura dela. Seus rostos estavam tão próximos que podiam sentir a respiração um do outro.

    O silêncio pesou, e eles apenas ouviam o som dos corações acelerados.

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