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    Ashley pairava no ar, presa a uma luta que não parecia mais dela, e sim de algo maior que a sua própria existência. Eu não conseguia tirar os olhos daquela cena… e pelo visto, ninguém conseguia. Sussurros tomavam os aventureiros: o que foi aquilo? quem falou conosco? o que ela é de verdade? Tentei não me deixar levar, mas também não tinha respostas.

    Aqua ergueu a voz com pressa:

    — Hernán! Preciso da sua ajuda — a medida que ele se aproxima ela continua. — Precisamos fazer o que a garota disse.

    — Mas… ela está desacordada e não parece ter muita energia sobrando… — Hernán mantinha a feição confusa.

    — Preciso que use o que te resta da sua energia para criar uma certa planta… Uma flor rara que cresce apenas nas montanhas do Reino do Fogo, uma Deusa da Alvorada.

    Hernán arregalou os olhos como se ela tivesse pedido pra ele fazer algo impossível.

    — Eu… eu não sei nem por onde começar. Nunca vi essa planta.

    Aqua fechou os olhos, respirou fundo e começou a descrever.

    — Se concentre… ela tem pétalas longas e arredondadas em formato de chama, de um vermelho alaranjado que parece o nascer do sol. O caule é fino, mas forte, sempre envolto em uma leve bruma dourada. Seu aroma… lembra a primeira brasa de uma fogueira.

    Após ouvir bem a descrição ele tentou. Deus, como ele tentou. Encostou as mãos no chão, fez a energia pulsar, e vi pequenos brotos surgirem, tremendo como se lutassem pra existir. Mas no instante seguinte, murcharam e se desfizeram em pó.

    Hernán caiu de joelhos, socando o chão.

    — Droga! Eu não consigo!

    Cratos rosnou, impaciente.

    — Você não pode desistir, tente de novo!

    Eu suspirei fundo, cruzando os braços.

    — Assim, você não vai conseguir recriar exatamente essa tal flor.

    Ele se virou para mim, os olhos cheios de frustração.

    — Se eu não vou conseguir então por que diabos eu estou tentando?!

    — Ei você não pode sair dizendo o que bem entende em um momento como esse, a vida de todos está em jogo! — interrompeu Cratos.

    — Silêncio seu estúpido, estou tentando ajudar. — Minha voz saiu mais dura do que talvez eu tivesse intenção. — Você não precisa fazer uma cópia perfeita… só precisa criar algo que sirva ao mesmo propósito.

    Hernán congelou. Os olhos dele vacilaram entre mim e Ashley, que agora mal conseguia manter as asas intactas. Estavam se desfazendo como brasas ao vento. Aquilo era um sinal… o tempo estava se esgotando.

    A expressão dele mudou. O desespero ainda estava lá, mas por trás dele havia um lampejo de resolução. Hernán fechou os olhos, respirou fundo e encostou as mãos no piso novamente. A energia verde começou a fluir dele, mais estável dessa vez, como se tivesse parado de tentar criar algo perfeito para começar apenas a criar.

    Eu apertei os punhos, observando. Não era hora de falhar. Não agora. Não sei o porquê de Aqua ter pedido por essa flor, mas ela estava bastante convicta de que esse era o caminho.

    Selene despertou, os olhos se abrindo devagar, como se tivesse saído de um pesadelo profundo. Mas seu corpo… estava fraco. Ela mal conseguiu se erguer, a respiração curta, os dedos tremendo não dava pra depender dela desse jeito.

    Aqua se aproximou rápido, ajoelhando-se ao lado de Selene.

    — Selene… escute. — Sua voz estava firme, mesmo no caos. — A voz que saiu de Ashley disse para recuperarmos você. Ela ordenou isso.

    Selene a encarou confusa, as sobrancelhas se arqueando.

    — O que… voz? E por que… eu?

    Aqua pousou as mãos sobre os ombros dela, e o tom de sua voz mudou, carregado de urgência:

    — Seja lá o que ela quis dizer uma coisa é certa para mim… precisamos da princesa!

    O olhar de Selene escureceu, quase sombrio, e ela baixou a vista para as próprias mãos trêmulas.

    — Eu não tenho mais energia para isso… não me lembro a última vez que me senti tão cansada…

    — Está enganada. — Aqua a interrompeu sem hesitar, quase como se estivesse dando uma ordem. — Quanto a sua energia estou trabalhando nisso. Confie em mim.

    Atrás delas, Hernán ainda estava ajoelhado no chão, as mãos firmes no piso enquanto sua energia fluía de forma mais intensa. Eu o ouvi murmurar as descrições que Aqua tinha dado, repetindo como um mantra. Brotos surgiam, se deformavam, desapareciam e renasciam em novas formas. Eu podia sentir o suor escorrer dele até daqui.

    E então, depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, uma planta começou a se materializar de verdade. As pétalas, ainda instáveis, tinham aquela cor de aurora descrita por Aqua. O caule era fino, mas parecia robusto. Não era a flor perfeita, mas era viva… era o suficiente.

    — É o máximo que eu consegui… — murmurou Hernán, a voz falhando, exausto.

    Ele arrancou a planta do chão e a entregou nas mãos de Aqua.

    — Talvez não seja a mesma, mas… tentei replicar suas características.

    Aqua pegou a flor com reverência e sem perder tempo a colocou nas mãos de Selene.

    — Obrigada Hernán, você fez um ótimo trabalho… Selene agora é com você.

    Selene piscou os olhos algumas vezes, provavelmente incrédula com o que via diante de suas mãos, ela respirou fundo, arrancou algumas pétalas e as engoliu sem titubear.

    Foi nesse instante que percebi as asas de Ashley se desfazendo por completo. Sua luta já não tinha o mesmo impacto. As colunas de chamas eram frágeis, os ataques da guardiã a pressionavam. E quando seu corpo finalmente cedeu, caindo em queda livre… Selene já estava lá. Ela sumiu do nosso lado antes mesmo que eu conseguisse perceber algo.

    Ela a segurou nos braços com cuidado, vi certa preocupação no olhar dela.

    — Desculpe por ter que passar por isso… logo estaremos fora daqui.

    Ashley, mesmo à beira da inconsciência, murmurou apenas uma palavra.

    — Selene…

    O azul em seus cabelos desapareceu como se nunca tivesse existido, e ela voltou ao normal, desmaiando por completo.

    Selene fechou os olhos, apertando Ashley contra o peito.

    — Você é incrível garota… Eu cuido do resto. Pode descansar agora.

    Carregando-a nos braços, levou-a até onde Aqua estava. Depositou Ashley com delicadeza e se levantou, voltando a assumir um semblante frio e imperativo.

    — Ninguém pode dizer uma palavra sobre o que vai acontecer aqui.

    Aqua assentiu de imediato.

    — Nenhum membro da guilda ousaria ir contra minhas ordens, principalmente se for para salvar a todos.

    Selene esboçou um sorriso quase imperceptível.

    — Então os proteja do calor.

    Ela se virou e começou a caminhar em direção à guardiã, passos firmes, como se a exaustão de antes nunca tivesse existido.

    Aqua, em contrapartida, se voltou para nós, os aventureiros que ainda tentavam processar tudo aquilo.

    — Escutem bem. Nada do que vocês virem daqui em diante pode ser dito lá fora. Nada.

    Alguns começaram a questionar, olhares confusos. Eu mesma estreitei os olhos. Mas Aqua se impôs, sua voz ecoando pelo andar.

    — É uma ordem!

    O silêncio caiu de imediato. Todos se calaram e, quase em uníssono, levaram a mão ao peito em sinal de respeito.

    Eu me perguntava, com o coração martelando, por que a guardiã havia cessado os seus ataques justo quando Selene entrou em cena. Mas a resposta veio rápido, não em palavras: e sim em um peso. Uma pressão sufocante, brutal, me esmagou por dentro assim que ela começou a caminhar em direção à criatura que parecia recuar instintivamente. Era como se o ar tivesse se tornado fogo invisível, queimando só por existir.

    Selene ergueu as duas mãos à frente. Entre seus dedos, um brilho carmesim pulsava, ganhando intensidade como uma estrela em nascimento. Sua voz, firme e serena, ecoou no andar.

    — Existem muitas coisas que me impediram de fazer isso…, mas situações desesperadoras exigem medidas desesperadas. Os velhotes não vão ligar…

    A energia entre suas mãos começou a tomar forma, se esticando, comprimindo e moldando-se em algo novo. Eu vi uma tiara surgindo, reluzindo em tons carmesim e dourado, como se tivesse sido forjada com a essência do próprio sol. Ela a segurou com cuidado, como se fosse um artefato sagrado.

    No instante em que ergueu a tiara para a cabeça, Aqua gritou:

    — Todos, afastem-se! Agora!

    Uma muralha de água ergueu-se entre nós e Selene, como se a própria Aqua tivesse sentido que presenciaríamos algo perigoso.

    Quando a tiara tocou sua testa, Selene foi engolida por chamas carmesim. Um clarão quase me cegou. Eu só pude cobrir os olhos, a medida que o calor atravessava até mesmo a proteção de Aqua.

    A energia era tão intensa que sentia meus ossos vibrarem. O que diabos estou presenciando?

    Fim do Capítulo 56: A Luz que Você Segura.

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