Índice de Capítulo

    Das chamas, uma nova Selene emergiu. Ela estava em uma armadura flamejante, reluzente como um metal vivo, que se ajustava ao corpo dela. Cada movimento fazia as chamas cintilar como brasas recém-sopradas. Ela estendeu a mão, e sua espada, que estava caída ao chão, voou até ela. No instante em que seus dedos a tocaram, a lâmina mudou, transmutando-se em puro fogo carmesim, sua estrutura refletindo as cores da armadura. Na outra mão, formou-se um escudo flamejante, tão sólido quanto qualquer aço.

    Cratos, engoliu em seco. Eu mesma senti meus pés vacilarem.

    — Isso… tanto poder… — murmurei sem perceber.

    — Eu já vi isso uma vez… — Aqua disse, a voz carregada de memória e tensão. — Mas essa intensidade…

    Alguns aventureiros olharam uns para os outros, boquiabertos. Alguém deixou escapar:

    — Ela… ela parece uma deusa.

    Selene abriu suas asas de fogo, cada batida liberando fagulhas que iluminavam o teto do andar. Antes de seguir, sua voz cortou o silêncio como uma sentença:

    — Esta batalha será limpa.

    No segundo seguinte, ela desapareceu. Só restou um rastro flamejante semelhante a cauda de um cometa.

    Quando reapareceu, estava diante da guardiã. Um único corte de sua espada flamejante arrancou uma das cabeças da serpente monstruosa. Não houve sangue algum, apenas o odor de carne queimada que veio logo em seguida.

    — Trabalho limpo… — ela murmurou, quase fria.

    A guardiã rugiu, mas sua voz soou quase como uma pergunta assustada:

    — Como é possível existir uma humana como você?!

    Selene inclinou a cabeça, um sorriso irônico surgindo em seus lábios.

    — Não se preocupe. Eu sou única. Aliás… pensando melhor, você nem terá tempo de se preocupar.

    Em um movimento preciso, cortou o ar e um fio de chamas surgiu da espada, as chamas atingiram a guardiã como uma lâmina de pura energia, a outra cabeça rolou antes mesmo que a guardiã pudesse reagir. Num giro violento Selene partiu o corpo da criatura ao meio. Antes que ela que pudesse se regenerar novamente, Selene ergueu a espada e gritou para Aqua:

    — Proteja todos!

    E então, a energia brilhou ofuscante de sua espada, Aqua e outros aventureiros conjuraram barreiras de água na nossa frente, o silêncio durou menos que um segundo até Selene cuspir sua sentença final.

    — INFERNO CARMESIM ASCENDENTE!

    Do chão as chamas nasceram como um mar vermelho em erupção, mas logo ganharam tons de laranja e amarelo, intensificando-se como se o próprio ar fosse devorado. O corpo da guardiã foi engolido, as chamas ficavam cada vez mais intensas, a luz se tornou azulada, cortante, tão quente que parecia dilacerar a realidade, antes de finalmente consumir tudo em silêncio deixando apenas brasas dançando no vazio, como se o próprio inferno tivesse sido invocado para engolir a besta.

    Quando o fogo cessou, tudo que restou diante de Selene foi um amontoado de escombros carbonizados. A destruição fez com que água entrasse pelas rachaduras nas paredes do andar.

    Ninguém comemorou. Nenhum aplauso, nenhum grito de vitória. Nem ousamos respirar alto. O silêncio era absoluto, como se todos tivéssemos acabado de presenciar algo proibido.

    Mas então, algo impossível aconteceu. O andar começou a se reconstruir sozinho. As paredes se ergueram, os escombros desapareceram, o teto voltou ao lugar. O cenário retornou ao estado original, como se nada tivesse ocorrido.

    Uma voz ecoou das paredes, clara, profunda e sem emoção:

    — Parabéns, aventureiros. Vocês conquistaram a Torre do Abismo de número trinta e três.

    A estranheza naquela voz me arrepiou por inteiro.

    — O total de aventureiros que adentraram na torre foi de duzentos e catorze. Cento e cinquenta e seis falharam. Cinquenta e oito permanecem dentro do domínio da torre. Parabéns novamente aos vinte e oito que completaram o décimo andar. Após recolherem suas recompensas, serão transportados para a superfície mais próxima. Recompensas especiais serão distribuídas automaticamente para os aventureiros que o administrador considerou valiosos. Obrigada por participarem!

    Do céu, uma chave dourada começou a descer lentamente. E do fundo da caverna, de onde a guardiã havia emergido, um brilho intenso começou a emanar.

    — Mas que porcaria foi essa? — não contive minha voz.

    O silêncio reinava. Mesmo após a voz misteriosa ecoar pelas paredes e anunciar nossa vitória, ninguém parecia capaz de reagir. Eu ainda sentia a garganta seca, e quando tentei respirar fundo, foi como engolir brasas. Não era só o calor… era o peso daquilo que acabamos de testemunhar.

    Selene permanecia imóvel, a espada flamejante ainda erguida, o corpo envolto por aquela armadura viva feita de fogo. A visão dela ali, sozinha diante das cinzas ao vento, me dava uma estranha mistura de segurança e medo. Segurança porque não havia dúvida de que era uma força que poderia nos proteger… medo porque era uma força que nenhum de nós poderia sequer imaginar enfrentar.

    Aos poucos, ela abaixou a espada. O fogo em sua lâmina começou a se apagar, e a armadura reluzente que a envolvia se desfez em fagulhas carmesins. Quando as chamas sumiram por completo, o que restou foi uma Selene ofegante, os joelhos quase cedendo. Ela parecia humana de novo… mas aquela imagem não sairia nunca da minha cabeça.

    Cratos foi o primeiro a quebrar o silêncio, a voz rouca, quase um sussurro:

    — Eu treinei a vida inteira para ser forte… mas depois disso, percebo que talvez a força seja algo que eu nunca vá alcançar.

    Hernán, ainda suado e exausto, apoiou as mãos nos joelhos e apenas balançou a cabeça, incapaz de encontrar palavras.

    Aqua, por outro lado, não parecia surpresa. Seus olhos estavam firmes, pesados com uma seriedade que me fez tremer mais do que a própria batalha.

    — Ela mostrou a vocês… um lado que não deveria ser visto. — disse. — Diversos tratados de paz com o Reino do Fogo estabelecem principalmente que a princesa do fogo seja mantida sob controle… Por isso nenhum de vocês deve dizer o que aconteceu aqui, Selene não será mencionada nos registros da guilda… ela nunca esteve aqui.

    Os aventureiros ao redor, ainda atônitos, apenas assentiram em silêncio. Alguns tremiam, outros olhavam fixamente para o chão, evitando encarar Selene como se temessem despertar algo mais.

    Foi então que meu olhar se voltou para Ashley.

    Ela estava desacordada, apoiada nos braços de uma garota de cabelos âmbar. Seu cabelo havia voltado à cor normal, e a respiração era fraca, mas estável. Quando vi o rosto dela, machucado, mas sereno, algo dentro de mim apertou. Por mais que tivesse liberado aquele poder impossível, no fim ela ainda era apenas… uma garota.

    Me aproximei sem pensar, ajoelhando ao lado dela. Minha mão tocou de leve a dela, ainda quente, e senti a pele queimar contra meus dedos. Assim como eu você não fazia ideia do que é capaz, não é, Ashley?

    Senti um nó na garganta. Se não fosse ela… se não fosse o desespero dela, a frustração, aquela fagulha de coragem insana que a fez se levantar mesmo quando não tinha mais forças… talvez todos estivéssemos mortos agora.

    Selene, mesmo exausta, se aproximou de nós. Seus olhos caíram sobre Ashley, e pela primeira vez desde que a conheci, vi ternura em sua expressão. Ela pousou a mão sobre a cabeça da garota e murmurou, baixo demais para os outros ouvirem:

    — Você não deveria ter passado por isso. Mas… obrigada por não ter morrido.

    Aquela cena me atingiu como um soco no peito. Selene raramente deixava transparecer qualquer fraqueza, qualquer emoção suave. Mas ali, entre cinzas e silêncio, ela mostrava que Ashley havia feito mais do que lutar. Ela havia conquistado algo que nem todos nós juntos poderíamos ter.

    — Vamos terminar o que viemos fazer aqui e ir embora — Aqua anunciou.

    Selene foi a primeira a se mover. Ainda ofegante, mas firme, caminhou até o brilho dourado que vinha da caverna no fundo do salão. Seus passos ecoavam pesados, e nós a seguimos quase em fila, como soldados atrás de uma general. Ninguém ousava quebrar o silêncio, mas a sensação de expectativa se misturava com algo que não conseguíamos nomear… talvez medo.

    O baú dourado nos esperava sobre uma base de pedra negra. Ele pulsava com uma luz suave, como se respirasse. Aqua se adiantou, erguendo a mão em advertência:

    — Esperem. Torres do Abismo são conhecidas por conceder riquezas e glória, sim… mas também por esconderem artefatos amaldiçoados. — Sua voz firme fez vários dos aventureiros engolirem seco e recuar alguns passos. — O que quer que surja daqui… deve ser tratado com cautela.

    Selene não disse nada. Apenas respirou fundo, girou a chave na fechadura, apoiou as mãos na tampa pesada e a empurrou. O baú rangeu como se fosse mais velho que o mundo, e a luz em seu interior brilhou intensa por um instante, nos cegando.

    Então, lentamente, algo emergiu do baú.

    Um anel.

    Negro como carvão, com uma joia rubra como o sangue, um brilho inquieto percorria a joia como se pulsasse em energia. Ele flutuava suavemente no ar, girando sobre si mesmo.

    — Deve ser ele… — murmurou um dos aventureiros atrás de mim. — O artefato amaldiçoado.

    A tensão tomou conta de todos. Ninguém ousou se aproximar. O silêncio era tão pesado que consegui ouvir a respiração trêmula de alguns.

    Foi então que o anel tremeu… e disparou.

    Uma linha negra cortou o ar como um raio, e por um instante ninguém reagiu. Quando percebemos, já estava voando em alta velocidade, direto em direção à Ashley, que ainda estava inconsciente, deitada sobre uma manta improvisada no chão.

    — Não! — ouvi Selene gritar, avançando.

    — Parem o anel! — outro aventureiro tentou interceptar, lançando uma rajada de gelo.

    O anel desviou como se tivesse vontade própria. Hernán ergueu vinhas do chão para detê-lo, mas o artefato as despedaçou em faíscas rubras.

    Eu mesma estendi a mão, num gesto inútil, como se pudesse agarrá-lo no ar.

    Mas era tarde demais.

    O anel parou diante da mão de Ashley, como se o mundo inteiro tivesse prendido a respiração, e num movimento quase delicado, deslizou sobre o dedo dela.

    A joia rubra brilhou uma vez, forte o suficiente para tingir o andar inteiro de vermelho.

    Um arrepio percorreu minha espinha ao ver isso. Ashley… Sinto muito.

    Fim do capítulo 57: Poder de Fogo.

    Fim do Arco Torre do Abismo.

    Nota do autor: Honestamente, pensei tantas vezes no que dizer quando encerrasse esse arco, que agora que estou escrevendo não me lembro nem da metade do que queria dizer a vocês ( ͡❛ ₃ ͡❛). De certa forma, esse foi o primeiro ”grande arco” de Reinos de Cores Ilusórias, não sei bem dizer se ele saiu como eu queria, mas uma coisa é certa, para mim ele foi mais longo do que eu imaginava e mais curto do que deveria (Tive que cortar algumas coisas em prol do ritmo não combinar muito na minha cabeça). Mas estou satisfeito como ficou e o que não foi será… em futuras torres quem sabe… bem além de agradecer por chegarem até aqui, eu gostaria de deixar alguns ”fatos curiosos” talvez sobre esse arco.

    Os mais atentos já devem ter notado que adoro inserir algumas referências a coisas que eu gosto, algumas mais sutis e outras… er… bem escancaradas (como o nome dos últimos capítulos), aliás muitos capítulos tem algum tipo de referência nos nomes, digamos que é uma das minhas diversões, mas não se preocupem em tentar decifrar e não achar sentido, alguns são específicos até demais… ( ͡❛ ▿ ͡❛). Fora referências eu gosto de brincar com o significado das coisas, seja dos nomes dos personagens, lugares etc… para quem for atento realmente encontra muitos detalhezinhos escondidos. Agora sobre o arco da Torre do Abismo em si, gostaria de dizer que ele foi trabalhado seguindo uma temática… sim provavelmente não ficou tão na cara, mas os desafios em grande parte giraram em torno dos tipos de ilusões (sim escolhi isso pelo nome da Novel e porque parecia interessante de experimentar) ocorreram ilusões no sentido literal, mas a grande maioria foram mais no sentido abstrato, caso recordem as mais marcantes na minha opinião foram as ilusões de ”escolha justa”, ilusão de segurança e a ilusão de poder, onde as situações ao decorrer dos andares caminhavam em meio a essas bases. Voltando a parte dos significados dos nomes, os povos do sétimo andar tem nomes peculiares, mas na verdade são anagramas de outras palavras que para quem notou no início já entregava um pouco o plot… ou deixava com mais dúvidas. Enfim tinha mais coisas, mas é isso que lembrei de comentar por agora, essa nota já está muito grande também… até a próxima.

    Mais uma vez agradeço e espero que estejam gostando da história, logo mais iniciaremos o arco seguinte. ✍( ͡❛ ▿ ͡❛)

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota