Capítulo 459 - Plano de fuga.
As paredes de pedra, manchadas pelo tempo, cercavam a cidade como um abraço gélido. Os guardas patrulhavam com olhos sem piedade, suas espadas afiadas.
Os miseráveis se arrastavam pelas vielas, esquecidos pelo mundo exterior. E ali, no coração dessa teia de desespero, erguia-se um barraco de tábuas e lona, onde Morgana se alimentava de carne crua.
Seus pés repousavam sobre a mesa, desafiando a sujeira que permeavam o ar.
— Que tédio… — murmurou ela, os lábios vermelhos como sangue. — Podemos ficar anos sem trabalho, enquanto aquela gangue de vermelho nos entrega cartões todos os dias, e isso é um saco…
Eriphre emergiu dos fundos, ela usava um avental manchado e luvas que seguravam uma bandeja fumegante. Seus cachos eram como espirais de ébano, e seus olhos, profundos como poços antigos, encontraram os de Morgana.
— O bolo esquentará em breve — disse Eriphre, sentando-se ao lado da companheira. — Como consegues comer carne crua, senhorita Morgana?
Um sorriso gentil curvou os lábios da vampira. — Há beleza na crueldade, não concorda?
Mas antes que a Elfa pudesse responder, alguém bateu à porta.
Eriphre engoliu em seco, indo atender. Quando a porta se abriu, revelou Somlec, com seu sorriso gentil e olhos que escondiam mais do que revelavam.
Ao lado dele, uma mulher misteriosa chupava um pirulito e óculos escuros escondiam seus olhos.
— Posso entrar? — perguntou Somlec, e Eriphre assentiu, a garganta seca como areia. Somlec adentrou, os olhos dele percorreram o ambiente, avaliando cada detalhe.
— Uma bela casa que tem aqui, Eriphre.
“Ele sabe o meu nome?”
Morgana se levantou, os olhos fixos nos desconhecidos. — Quem são vocês? — indagou, sua voz cortante como lâmina de obsidiana.
Sem jeito, Somlec coçou a nuca.
— Sou Somlec e essa é a Nathe — apresentou, com uma reverência quase teatral. — Estávamos de olho em vocês, na verdade, estávamos de olho na gangue de vermelho que comandam.
Morgana estreitou os olhos e se sentou no sofá, cruzando os braços e as pernas.
— Tá, tá, podem se sentar, Eriphre acabou de fazer bolo, podem pegar se estiverem com fome.
Fazendo uma reverência, Somlec se acomodou no sofá, e Nathe sentou-se ao seu lado, os pés apoiados na mesa de centro.
A vampira franziu o cenho, mas nada disse.
— E-então, senhor Somlec, o que veio fazer aqui? — gaguejou a Calimaniana enquanto servia café e pedaços de bolo.
— Ah, bem… você é uma vampira, certo, Morgana?
— Sou, e daí? — a resposta veio afiada, como presa de lobo.
— Estive me reunindo com líderes de outros distritos — continuou Somlec. — Quero organizar uma fuga. Mas esses líderes estão acomodados aqui, com suas riquezas e privilégios. Isso não é liberdade. Não para nós.
Morgana ergueu uma sobrancelha. — E quer minha ajuda para o quê exatamente?
Somlec saboreou o bolo, os olhos fechados em deleite. — Minha nossa! Você é mesmo boa com isso, garota. — Eriphre sorriu, envergonhada.
— Viver aqui com essa coleira no pescoço dentro desses muros… — Somlec se recompôs. — Isso não é vida. Não quer sair daqui, senhorita Morgana? Não tem alguém que deseja ver além desses portões?
Morgana desviou o olhar. — Tem… — murmurou.
— Então me ajude a escapar daqui — implorou Somlec, a urgência em sua voz.
Suspirando, Morgana assentiu. — Certo, mas qual é o seu plano?
Nathe retirou um pirulito da boca e o ofereceu a ela. — Aqui, chupa isso.
— … o quê? — Morgana franziu o cenho, desconfiada.
— O plano está aí — explicou Nathe. — Coloque na boca, e você entenderá.
Ela olhou o pirulito de cima a baixo. — Como vou saber se não colocou isso em outro lugar?
— Não vai.
— É um artefato mágico que construímos — acrescentou Somlec. — A única forma de elaborar algo fora dos olhos desses guardas.
Morgana suspirou, resignada. — Certo… isso é nojento…
Com hesitação, ela abriu a boca e sentiu o gosto casual de morango. Então, seus olhos se arregalaram. A visão inundou sua mente: a cidade-prisão, os distritos, os nomes dos guardas, as rotas de fuga, os pontos vulneráveis.
— Nossa… — A palavra escapou como um sussurro.
Nathe retirou o pirulito da boca dela e devolveu a sua.
— Somos usuários da pujança, Morgana — disse Somlec. — Podemos arrebentar esses colares, mas os guardas apareceriam antes que nossa força retornasse por completo. Você é boa de briga, né?
Morgana deu de ombros. — Acho que sim.
— Vamos começar uma guerra entre distritos — propôs Nathe.
— Guerra entre distritos…? — Morgana franziu o cenho. — E como isso vai nos ajudar exatamente?
— Precisamos deixar os guardas ocupados — explicou Somlec. — Enquanto isso, retiramos nossas coleiras. Quando nossa força estiver plena, tomaremos esta prisão. Precisaremos de dez dias de caos para alcançarmos ao menos o nível sete em nossas árvores. O que acha?
— Certo! — Morgana exclamou, empolgada. — O diretor é meu!
— Tudo bem… — Somlec assentiu. — Nathe e eu organizaremos tudo e avisaremos quando estiver pronto.
Somlec se levantou, e a sala pareceu mais vazia sem sua presença. — Foi bom falar com você, senhorita vampira — disse ele, e seus olhos encontraram os Eriphre. — Até mais, garota. O bolo estava ótimo!
Eriphre acenou timidamente. — Até…
Assim que eles deixaram sua casa, ela suspirou, aliviada. O peso que carregava havia diminuído, como se uma corrente invisível tivesse sido afrouxada. — Pensei que ele fosse um cretino pelo que ouvi…
— Somlec? — Morgana riu e seus olhos brilharam. — Ele parece um cara legal. E finalmente sairemos daqui! Não é empolgante? Vou poder ver Colin e os outros de novo!
— Sim… — Eriphre murmurou, esperançosa. — Espero que dê tudo certo…
— Vai dar! — Morgana era o otimismo em forma vampírica. — Minha irmã, Brighid, vai adorar você. Ela também cozinha muito bem e é bem inteligente.
O sorriso de Eriphre se alargou. — Estou ansiosa para conhecê-la e também esse rapaz de quem sempre fala!
— Colin? — Morgana arqueou as sobrancelhas. — Ele é bem forte. — A empolgação tingiu suas bochechas. — Deve ter ficado ainda mais forte!
Morgana subiu no sofá, apontando para o teto como se visse além das vigas e telhas. — É isso que faltava, um pouco de ação!
— É… desça daí, por favor, senhorita Morgana, lavei esses panos hoje…
— Ah, certo, desculpe…
O cenário é um turbilhão de caos, destroços espalhados como fragmentos de um sonho despedaçado.
Milveg, sem camisa, ajoelha-se, ofegante, um joelho cravado no solo. Seu corpo exibia as marcas da batalha: hematomas, cortes profundos, e a fadiga que só os guerreiros conhecem.
Dos fundos, como uma aparição sinistra, surgia Thaz’geth.
Seu sorriso largo é uma provocação ao oponente derrotado.
— A habilidade de um monarca arcano da pujança é mesmo impressionante. Admito que perderia se não fosse imortal.
Milveg range os dentes, a raiva e a exaustão dançando em seus olhos. Semana após semana, eles duelaram, e agora, a mana de Milveg se esgotara. Restava-lhe apenas a habilidade de Monarca da pujança, mas seu corpo, antes regenerativo, agora estava quebrado, incapaz de se curar.
Thaz’geth, por outro lado, parecia se alimentar da própria dor. Seus ferimentos se fechavam, célula por célula, como se o próprio abismo a nutrisse.
Ela estendeu a mão para Milveg. — Aceitaria ser meu cachorrinho, ou prefere morrer aqui? — provocou.
Milveg fez muxoxo, desviando o olhar. — Não servirei a ninguém, muito menos a uma mulher.
Thaz’geth riu, uma gargalhada que ecoou pelas ruínas.
— Vira-lata, ainda está por aí?
Ryan apareceu, ajoelhando-se. — Senhora…
— Abra um portal de volta para a minha ilha.
Ryan obedeceu, e o vórtice sombrio se materializou. Thaz’geth se aproximou de Milveg, os dedos como garras agarrando seu pescoço.
— Você é bem forte para um mortal — Seu sorriso se alargou. — Tenho algo especial para você.
— Eu… não vou me submeter a você… — lutava para dizer, Thaz’geth o apertando mais forte. — É melhor… me matar…
— Ainda não.
A apóstola lançou o Elfo no abismo do portal, como um sacrifício para os deuses.
Milveg capota e se arrebenta na pilha de crânios.
Bam!
Thaz’geth se aproxima e segura Milveg pela nuca, arrastando-o como um saco de detritos. Ela sussurra palavras em língua antiga, e os ossos ao redor começam a flutuar, girando em um torvelinho macabro.
Um portal se forma, um vórtice para o abismo.
Era a primeira vez que Milveg vislumbrava o inominável.
Esse era o abismo, um vácuo de escuridão, onde estrelas agonizam e almas se perdem, sofrendo um tormento eterno. No centro desse vácuo, ergue-se um castelo de pedra negra, suas torres perfurando o véu entre mundos. O ar ali é pesado, impregnado com o cheiro de condenação.
No trono do castelo, um homem de cabelos escuros e armadura demoníaca estava sentado. Drez’gan, o deus morto, abre um olho. — Thaz’geth?
Ela se ajoelhou, ainda segurando Milveg pela nuca, pressionando o Elfo contra o chão.
— Finalmente consegui falar com o senhor… Faz semanas que estou tentando…
— Braz’gallan e Sor’uth continuam devorando o plano superior, o cosmos está instável — responde ele.
Thaz’geth ergue Milveg pelo pescoço, sua voz sibilante. — Um presente para o senhor… Quero torná-lo um apóstolo.
Drez’gan suspirou, como se o peso do tempo o esmagasse. — Por quê? Por que esse mortal deveria ser mais do que pó?
— Porque já morri mais de cem vezes para ele, senhor Drez’gan… Se não fosse imortal, teria sucumbido. Ele pode substituir Kag’thuzir.
Drez’gan balança a cabeça. — É um processo demorado.
— Ele é poderoso — insiste Thaz’geth. — Senhor… Kag’thuzir se fortalece a cada dia… ela e sua corja… aquela mulher sempre foi esperta, ela pode estar tramando algo… quanto mais nos prepararmos, melhor…
Drez’gan dá de ombros, indiferente. — Envie a alma dele para o abismo, então.
— Como queira, senhor.
Thaz’geth sorri, sua outra mão empalando Milveg, que solta um último gemido de agonia.
Scrash!
Ela joga o corpo inerte de lado, a vida se esvaindo de seus olhos.
O portal de ossos se desfaz e Thaz’geth ergue-se, olhando para Ryan, seu servo fiel. — Você fez bem, vira-lata. Terá um prêmio, venha até aqui.
Ryan se aproxima, hesitante. Thaz’geth segura seu queixo e o beija. O mundo gira para ele.
Ele não entende o porquê disso, mas Thaz’geth sussurra: — Deixei alguns espectros sob seu comando. Uma recompensa por ser um bom menino.
Ryan se curva. — O-obrigado, senhora!
— Preciso me recompor, lutar dias sem parar me deixou exausta. Você está no comando agora, garoto. Faça o que tem que fazer, hibernarei até que todo o plano superior seja devorado. — Ela sentou-se em seu trono. — Fico mais forte à medida que o véu fica mais fraco.
— Ce-certo… não decepcionarei a senhora, eu juro!
Ela abanou a mão.
— Pode ir, não me incomode, vira-lata.
Determinado, Ryan assente, criando um portal e nele desaparecendo.
O véu entre mundos se rasga, e Milveg desperta na sala do trono de Drez’gan. O miasma do abismo o envolvia.
Ele se ergue, os músculos doloridos, e a primeira coisa que escapa de seus lábios é um murmúrio: — A mana dele… é pior do que a daquela mulher, bem pior…
Suor escorre por sua pele e o ar parece rarefeito. Milveg força um sorriso, mas seu coração, que pensou ter perdido, bate descompassado.
Drez’gan, o Senhor das Sombras, está lá, observando-o com olhos que conhecem segredos inomináveis. — Thaz’geth gostou de você — diz Drez’gan. — Agora terá que provar seu valor para mim.
O deus morto se levanta de seu trono, cada passo que dá em direção às escadas parece ecoar como os passos de um titã sob a terra.
“Porcaria, porcaria… esse desgraçado… então isso… é um deus?”
Milveg abaixa a cabeça, submisso. Ele sabe que não há escolha.
— Você será meu apóstolo — declara Drez’gan, e a sentença ressoa como um veredito final. — Toda alma impura pertence a mim, a sua não seria diferente. Quando renascer, Milveg não será mais o seu nome. Você será Gra’visk, A Abominação.
Drez’gan toca a cabeça de Milveg, e o elfo grita.
Fssssssh!
O fogo esverdeado irrompe de dentro para fora, uma combustão que o incinera. Seu corpo se desfaz em cinzas, e o grito se perde na escuridão do castelo negro.
Drez’gan sorri, os olhos ardendo com uma satisfação sombria. — Você é mesmo forte — murmura. — Vai servir.

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