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    Narrador: Li Wang

    No fundo, apesar de tudo, havia fé, a mesma que a havia movido até agora.

    Ela vestiu-se em silêncio e retomou o caminho, abalada e cambaleante, mas seguindo: um passo após o outro. O corpo inteiro doía, como se a montanha quisesse arrancar cada lembrança que carregava. O coração, partido em mil cacos, batia pesado sob o peito.

    Não demorou para o próximo golpe cair sobre ela.

    William.

    Lá estava ele.

    Imóvel sobre a neve, o corpo marcado pelo sangue, a roupa rasgada, os olhos fundos e sem brilho, como na noite em que partiu. Não havia raiva naquele rosto; havia apenas uma decepção tão profunda que doía mais que qualquer ferida.

    Um silêncio pesado pairava entre eles, mais cortante que o vento.

    Li Wang parou.

    O ar pareceu falhar por um segundo; até o som da tempestade recuou, como se a montanha prendesse a respiração.

    William não falou. Limitou-se apenas a olhá-la.

    Nas suas mãos, uma corda grossa pendia, com manchas de sangue seco. A cada passo que Li Wang dava, a mão dele movia-se com uma calma que aterrorizava: enrolava a corda ao redor do próprio pescoço, um laço, depois outro, e, com a mesma lentidão implacável, fazia mais um. Cada avanço dela apertava mais um nó invisível dentro do peito.

    — Não… — sussurrou ela, a voz rachada. — Não faça isso…

    Mas ele não respondeu.
    Nem gritou.
    Nem piscou.
    Apenas olhava para ela. Como se dissesse, sem dizer:
    “Eu fiz isso por você. E você seguiu em frente.”

    Li Wang mordeu o lábio até sentir o gosto metálico do sangue.
    Era uma mentira. Tinha que ser.
    “É só Azazel… só mais uma ilusão…”

    Mas então por que o peito doía como se fosse real?
    Uma parte dela gritava para não acreditar, para fechar os olhos, seguir em frente.
    Outra, mais frágil, mais humana, implorava para parar, para olhar, para ouvir o silêncio de William.

    Ver William ali, mutilado e silencioso, era como carregar o peso de mil mortes nas costas.

    Tentou forçar o passo. Conjurou todas as razões racionais possíveis: é só mais uma visão; é só tormento; é só sombra. Mas cada passo agora custava algo que ia além de músculos e calor: custava sua própria alma.

    A corda, lenta e paciente, aguardava o nó final.

    Li Wang tentou desviar, não olhar. Forçou o rosto a seguir em frente como se isso fosse suficiente para excluir a cena. Mas havia algo dentro dela que implorava que não deixasse de ver.

    E então ela hesitou.
    Hesitou como nunca deveria ter feito.

    Quando virou o rosto, viu.

    William pendia no ar, os pés a centímetros do solo, balançando com o vento. A corda rangia devagar, um som baixo, quase sufocado pelo uivo da tempestade, mas que perfurava sua mente como ferro em brasa.

    A sombra dele se projetava no branco, alongada, distorcida, como se fosse maior que o próprio corpo. Um fantasma de um homem que já não estava ali.

    Um som sufocado escapou da garganta de Li Wang, rouco, contido, como se estivesse engasgada com a própria alma.

    Os olhos ardiam, mas ela não chorou. Não conseguia. Estava quebrada demais até para isso.

    Tudo aquilo…
    Tudo aquilo era culpa dela.
    Ela sabia.

    O corpo dela permaneceu ereto, rígido como se a própria coluna fosse um poste cravado na neve. Não caiu. Não gritou. As pernas tremiam por dentro, mas não cederam — eram pilares de gelo sustentando uma ferida viva. Seus dedos cerraram-se até as unhas ficarem brancas; o ar parecia afinar dentro do peito, cada respiração um fio que quase arrebentava.

    — Desculpa… — sussurrou, a voz trêmula. — Desculpa.

    A frase foi pouca coisa além de um sopro, uma confissão lançada contra o vento.

    Queria gritar. Queria golpear o próprio peito, arrancar a culpa como se arrancasse roupa molhada. Queria sumir. Mas ali, naquela montanha gelada e cruel, havia apenas o ato mecânico de respirar, inspirar e expirar.

    Ela permaneceu ali, imóvel por alguns instantes que foram eternos. A mente fervilhava de memórias, acusações e rostos, e, ainda assim decidiu que tudo o que podia fazer era continuar.

    Fechou os olhos, tremendo.

    Quando abriu novamente… William havia desaparecido.
    Não havia corda.
    Não havia nada.
    Não restava nada além do branco indiferente da neve. O corpo queimava com um frio que mordia os músculos; nada, porém, doía tanto quanto a culpa que ela carregava, uma dor profunda e permanente que nem o calor de sangue poderia apagar.

    Mesmo assim, com as pernas bambas e o coração carregado, ela puxou o capuz e seguiu em frente.

    Cada passo… como se arrastasse o próprio coração pelo gelo.

    Até que ele surgiu.

    Edward Oscar.

    Seu corpo tomou forma lentamente, como se moldado pela própria neve, pelos ventos gelados do Himalaia.
    Ele estava lá. De joelhos.

    Com o rosto baixo, coberto pelas sombras do capuz de neve. As mãos sujas e trêmulas… eram as de alguém que lutou demais, perdeu tudo… e ainda assim estava ali.

    Li Wang congelou. O coração disparou.

    Por um instante, só um instante, esqueceu o frio, a dor, a escalada, e até mesmo de Azazel.

    Tudo que importava é que era ele. Edward Oscar. Seu pai.
    O homem que se foi cedo demais, sem despedida. O único que a fazia se sentir segura quando o mundo desabava.

    — P… pai…? — sussurrou, sem acreditar.

    Ele levantou o rosto.
    Os olhos eram dele — cansados, feridos, mas vivos.
    — Minha filha… — murmurou, a voz rouca. — Você cresceu…

    Li Wang caiu de joelhos na hora.
    As lágrimas vieram antes que pudesse contê-las.

    Ela sorriu.
    Sorriu.
    Pela primeira vez em dias.
    Talvez semanas.

    — Eu… eu senti tanto a sua falta… — soluçou.

    Edward ergueu os braços, devagar, como quem oferece abrigo. Como nos sonhos de infância. Como nas últimas lembranças boas.
    Ela avançou, instintiva, ajoelhando-se diante dele. As mãos buscaram o calor daquele abraço, querendo perder-se ali, parar de lutar.
    Tocou o rosto dele. Estava quente. Familiar.
    Um leve cheiro de couro molhado e fumaça a invadiu, tão conhecido que quase a fez chorar de alívio.
    — Pai… eu tô tentando… Eu juro… tô tentando…

    Mas então.
    Um detalhe.
    A pele sob seus dedos cedeu mais do que devia, como tecido podre. Um gosto metálico tomou-lhe a boca, embora não tivesse mordido nada.

    Ela ergueu os olhos.
    E viu.

    O rosto se deformava.

    O sorriso se abriu como uma rachadura que não parava de crescer, a boca alongando-se até onde o rosto não comportava.

    Um som estranho escapava daquele arco impossível, não um riso humano, mas o chiado de ar atravessando dentes duros demais.

    Escarnecendo.

    Como se celebrasse a queda.

    Onde havia olhos, agora só buracos que devoravam a luz.

    Não era seu pai.
    Era Azazel.

    O abraço tornou-se prisão.
    As mãos que antes ofereciam conforto agora pareciam garras invisíveis prendendo-a no chão.

    A neve tremeu ao redor, o Everest rugiu como se gargalhasse.

    “Você pensou mesmo… que teria paz?”
    “Continue subindo, Wang… Estou quase livre…”

    Li Wang gritou.
    Não um grito de batalha, como tantas vezes antes.

    O som que escapou dela era antigo, frágil, um eco da menina que ainda morava no fundo do peito.

    — DROGA! — berrou, socando o chão, o sangue pintando a neve endurecida.

    O sorriso hediondo permanecia.
    Inabalável.
    Triunfante.
    Um monumento à sua ruína.

    Azazel riu dentro dela. Um som grave, lento, como pedras sendo esmagadas.
    “Você sentiu esperança… e eu arranquei isso de você.”

    Li Wang soluçou, a voz quase um sopro:
    — Eu… sou fraca… não devia estar aqui…

    Mas mesmo em meio ao colapso…

    Mesmo de joelhos…

    Ela ainda respirava.

    Ainda lutava. Seus olhos estavam turvos e os punhos ensanguentados, mas, ainda assim, forçou-se a levantar, primeiro um joelho, depois o outro.
    Frágil, mas ereta.
    Endireitou o capuz com mãos trêmulas, puxou o casaco contra o vento.
    E caminhou.
    Não porque quisesse.
    Mas porque seguir era a única resposta que restava.

    (Imagem bônus: Lyria Voluptas na neve do Everest. Não, isso não aconteceu na história. Sim, é só fan service. Aproveitem.)

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