Capítulo 26: O Fardo do Filho parte 1
O sono finalmente venceu Ivar. Não foi profundo, tampouco tranquilo. Assim que seus olhos se fecharam, a escuridão o levou para um lugar familiar… uma memória antiga, gravada a fogo e aço em sua alma.
Ele estava de volta à fortaleza dos Guardiões da Noite.
O vento cortante das montanhas batia contra os muros negros, trazendo o cheiro de neve e ferro. O som dos cascos contra a pedra ecoava pelos pátios, onde homens e mulheres se alinhavam em formação, lanças erguidas, espadas reluzindo sob a luz fria da lua.
A rotina era rígida, quase cruel. Madrugadas em claro, corridas pelo desfiladeiro gelado, treinamento incessante com lâminas que não perdoavam mãos vacilantes.
Ivar se lembrava do peso da armadura em seus ombros, das ordens secas dos comandantes, dos olhos atentos que nunca deixavam falhas passarem despercebidas.
Mas o que mais lhe vinha eram as batalhas.
Monstros emergindo da escuridão da noite, sombras sem nome, bestas deformadas que caçavam os fracos e rasgavam aldeias ao meio.
Os Guardiões eram o escudo entre a noite e os inocentes, e Ivar, jovem e impetuoso, sempre na linha de frente.
O choque de lâminas.
O rugido das criaturas.
O sangue quente que manchava o chão.
E no meio da carnificina, havia aquela sensação ardente em seu peito… a certeza de pertencer, de lutar por algo maior do que si mesmo.
Um grito ecoou em sua memória, a voz de um irmão de armas tombando ao lado dele, o sangue salpicando sua armadura negra.
Ivar se via de joelhos, ofegante, o braço latejando, mas ainda erguendo a espada contra a fera que se levantava diante dele, com olhos vermelhos como brasas… os mesmos olhos que agora, em seu sonho, se confundiam com os das figuras que o espreitavam no presente.
Ele se lembrava da vitória amarga.
E do silêncio após a batalha, quando o vento carregava apenas o cheiro de morte.
Ivar abriu os olhos de súbito, o coração pesado, como se tivesse realmente voltado de uma patrulha interminável.
A noite ao redor estava quieta, exceto pelo farfalhar das árvores e o correr distante do rio.
Ainda deitado, respirou fundo.
As memórias dos Guardiões eram um lembrete cruel… de disciplina, de perda, e de uma vida antes de tudo isso.
A diferença é que agora… o monstro é ele mesmo.
Ivar permaneceu em silêncio por alguns instantes, ainda deitado, os olhos fixos na escuridão da clareira.
O eco de sua lembrança pulsava em sua mente, como se a batalha tivesse acontecido apenas algumas horas atrás.
A fogueira, agora quase extinta, exalava apenas brasas fracas, iluminando de vermelho os contornos do rosto de Nyara, que se mantinha atenta à vigília.
Seus olhos percorriam cada canto da mata, e a lâmina curta repousava em seu colo, pronta para ser usada a qualquer instante.
Delilah dormia encolhida sob uma manta, o cajado deitado ao alcance de sua mão. Mesmo adormecida, seus dedos o tocavam como quem teme perdê-lo.
Seus cabelos loiros se espalhavam pela manta como fios dourados, refletindo levemente a luz das brasas.
Elara repousava próxima à carroça, o capuz caído ao lado, revelando parte de seus cabelos carmesins, agora suavizados pelo sono.
Sua respiração era calma, mas mesmo no descanso havia uma tensão discreta em sua expressão, como se nem nos sonhos conseguisse relaxar totalmente.
Ivar se ergueu devagar, apoiando-se sobre a espada cravada no solo. Nyara notou o movimento e ergueu o olhar.
— Sonhos ruins? — perguntou em voz baixa, sem desviar os olhos da floresta.
Ele apenas assentiu.
— Do tipo que não me deixam em paz.
O silêncio se prolongou entre eles, quebrado apenas pelo coaxar distante de sapos e pelo farfalhar das árvores sob a brisa fria.
— Vou dar uma volta… — disse Ivar, pegando sua mochila e caminhando para longe.
Nyara apenas assentiu, mas seus olhos acompanharam o guerreiro até que sua silhueta fosse engolida pela sombra das árvores.
A clareira parecia ainda mais silenciosa após a partida dele, como se até mesmo os insetos noturnos houvessem decidido calar-se.
As brasas lançavam lampejos vermelhos sobre o rosto atento de Nyara, e ela pensou em seguir Ivar, mas conteve o impulso. Ele precisava de espaço.
Ivar caminhou alguns minutos pela trilha estreita, o som das folhas úmidas se amassando sob suas botas.
O ar da madrugada era frio, carregado de névoa, e cada respiração formava pequenas nuvens diante de seu rosto.
Ele parou à beira do rio próximo, onde a correnteza murmurava em um ritmo constante, refletindo a pálida luz da lua que ainda resistia no céu.
Ele abre a mochila e vê o núcleo do cultista que havia enfrentado no subsolo da biblioteca em Thirel.
Por um momento pensou em pegá-lo, mas desiste e estende a mão até o cantil, se ajoelhando para enchê-lo, deixando que a água escorresse entre os dedos.
— Não vai usar seu presente, meu filho. — uma voz surge da névoa.
— O que você quer, pai? Ou melhor Vallfen, Deus do Caos.
A névoa se adensou ao redor, como se o próprio rio exalasse fumaça.
A superfície da água distorceu, e dali uma silhueta começou a emergir. Não era carne, nem espírito por completo, mas algo entre os dois. Olhos como fendas brilhando em chamas multicoloridas, um sorriso largo demais para ser humano.
— Ah… então você finalmente me chama de pai com mais facilidade. — disse Vallfen, sua voz oscilando como um trovão abafado misturado ao sussurro de mil vozes. — Achei que nunca aceitaria.
Ivar se levantou devagar, firme, embora a mão no cabo da foice tremesse levemente.
— Não confunda palavras com aceitação. Você não passa de uma sombra que corrompe.
O deus do Caos gargalhou, e a floresta estremeceu em resposta.
— Corromper? Hah! Eu liberto, transformo! Foi a lei dos deuses que ceifou tua filha. Foi a obediência aos Guardiões que te fez perder tudo. Eu apenas mostrei a verdade.
Ivar cerrou os dentes.
— Minha filha morreu por minha fraqueza. E não vou justificar isso culpando o destino ou a balança dos deuses.
— Fraqueza… — Vallfen repetiu a palavra como se saboreasse um vinho raro. — Talvez. Mas você já provou que pode ser mais do que “homem”. Os corações arrancados, os exércitos despedaçados… ah, como você me lembra dele.
Ivar estreitou os olhos.
— De quem está falando?
O deus sorriu mais fundo, e as árvores ao redor se contorceram como se tentassem escapar daquela presença.
— Do primeiro. Do Aasimar Carmesim, aquele que ousou beber da noite e da luz ao mesmo tempo. O teu destino e o dela — apontou para a direção onde Elara dormia, na clareira — estão ligados por mais do que acaso.
Um frio cortante percorreu a espinha de Ivar.
— O que você quer de mim?
— Quero o mesmo que você… — respondeu Vallfen, sua forma oscilando na bruma. — …que a balança se quebre. Que a morte seja apenas um véu a ser rasgado. Que possamos mudar as leis que os outros deuses criaram. Você busca o artefato nas Montanhas Muralha… mas sem mim, ele não passará de uma simples bijuteria.
Ivar ergueu a foice, a lâmina refletindo o pálido luar.
— Eu nunca serei teu servo!
Vallfen não recuou. Pelo contrário, avançou até que o rosto deformado e belo ao mesmo tempo estivesse a poucos palmos do dele.
— Servo? Não, filho. Você já é meu legado, queira ou não. E essa foice… Ela é antiga, provávelmente mais antiga que eu mesmo. Ela me parece familiar, até demais… O poder nela está contido, mas consigo sentir…
— Legado? E por que eu? Como assim ela pode ser mais antiga que você? O que quer dizer?
— Tenho que ir agora, filho. Essa forma que estou agora não dura muito. Fique mais forte, filho… nos encontraremos novamente em breve…
A névoa explodiu em uma ventania súbita, apagando por completo a lua refletida no rio. Quando o vento cessou, Vallfen havia desaparecido. Apenas a água corria, calma, como se nada tivesse acontecido.
Ivar permaneceu de pé, o peito arfando, até finalmente apoiar a foice no chão. O peso da revelação, das palavras daquele deus, pressionava-lhe os ombros mais do que qualquer armadura.
Ele olha novamente para o núcleo dentro da mochila, o pega e o observa. Ele pulsa, e Ivar consegue sentir poder dentro dele.
Então com um impulso irracional ele engole o núcleo.
Imediatamente ele sente como se todo o seu corpo estivesse derretendo…
E então, Ivar se vê diante de um mundo completamente disforme e nojento, com mãos para todos os lados, milhares de gritos ao longe. E em sua frente… Phobos, o Deus do Pavor.
— Olá, Ivar. Finalmente nos encontramos. Sejamos breves, você está no meu plano e não poderá falar, mas não se preocupe. Aquele idiota do seu pai me pediu um favor, eu lhe dei uma forma de obter uma benção minha, você tem três opções…
Phobos estendeu as mãos… ou o que pareciam ser mãos … em direção a Ivar. Cada uma das extremidades tremia e se contorcia, gotejando algo como sombra líquida.
As vozes do plano de Pavor zuniam, como ossos sendo roídos no escuro, tornando impossível para Ivar distinguir o que era dentro ou fora de sua cabeça.
As pupilas de Phobos eram dois vórtices que giravam lentamente, puxando a visão para dentro deles.
— Três escolhas, filho do Caos — a voz reverberava como um sussurro atrás do crânio, não no ar. — Mas depois, não haverá volta.
As “mãos” se abriram. Três fragmentos pairaram no ar diante de Ivar. Cada um emanava uma presença distinta, quase intolerável:
🔹 Primeiro fragmento – Uma taça de vinho feita de carne viva.
— “Vinho da Mente” — Beba do medo dos outros. Sua presença se tornará uma lâmina invisível. Nenhum coração resistirá ao seu olhar, e todos tremerão diante da sua presença. Mas sua sanidade será o preço, e você jamais saberá se as vozes são suas ou… minhas.
🔹 Segundo fragmento – Um coração feito de vidro vermelho, que pulsava lento, como se fosse um tambor no peito de um gigante.
— “Coração dos Mil Ecos” — Podes absorver a coragem ou o pavor dos outros, transformando-os em tua força. Mas cada medo absorvido deixará em ti uma cicatriz que não some.
🔹 Terceiro fragmento – Um dente de fera, longo e curvo, coberto de runas vivas. O ar ao redor dele fedia a sangue antigo.
— “Mandíbula do Caçador” — Phobos rosnou. — Quando morderes o destino, não haverá mais leis nem véus. Serás puro instinto, poder bruto. Mas cada uso te devorará por dentro.
As vozes em torno aumentaram, gritando e rindo, chorando e implorando. Phobos inclinou a cabeça para o lado, o sorriso se alargando além do possível.
— Escolhe, filho do Caos. O olho que tudo vê. O coração que tudo sente. Ou o dente que tudo devora. Não há como fugir do preço.
Ivar sentia o núcleo ainda queimando dentro dele, a foice no plano espiritual tremendo como se reagisse àquelas presenças.
Seu corpo inteiro latejava; apesar de não poder falar, ele sabia que o gesto que fizesse agora… estender a mão para um dos fragmentos …definiria o que ele se tornaria.
A respiração de Ivar acelerava, mesmo sem pulmões ali para inflar. O plano de Phobos distorcia-se em ondas, como se o próprio espaço esperasse sua decisão.
Cada fragmento vibrava em frequências diferentes, mas a foice em seu espírito parecia reagir mais forte ao coração de vidro vermelho.
O Vinho da Mente sussurrava em sua direção… vozes doces, promessas de controle absoluto sobre todos que ousassem confronta-lo. Por um instante, Ivar viu imagens de Reis se ajoelhando, exércitos fugindo sem que ele erguesse sua arma. Mas as vozes eram altas demais… e não paravam. Uma parte dele sabia: se escolhesse aquilo, talvez nunca mais reconhecesse o silêncio.
O Coração dos Mil Ecos pulsava devagar, como se estivesse sincronizado ao seu próprio batimento. Cada pulsar ecoava pelo seu peito, como um tambor chamando à guerra. Ele sentiu o calor da coragem perdida de homens mortos, o peso dos terrores que devoraram cidades. Poder equilibrado, mutável… mas custoso, cada vitória deixando marcas invisíveis em sua alma, a consumindo.
O Dente do Caçador exalava selvageria crua. Quando ele olhou para aquele fragmento, viu-se dilacerando heróis, rasgando a realidade com as próprias mãos. Era puro poder, brutalidade sem filtro. Mas junto disso, sentiu o nada… a certeza de que cada uso o deixaria mais próximo de se perder completamente, de virar um mostro, e que isso poderia fazê-lo esquecer de sua busca.
Phobos se inclinou, os “olhos” girando como redemoinhos famintos.
— O tempo escorre… — Ele disse. E Ivar sentiu como se cada palavra fosse um prego entrando em seu crânio. — Escolhe, ou os três devorarão a ti.
Seu corpo tremia. Seu peito queimava. A mente de Ivar estava em chamas. Ele estendeu lentamente a mão, pronto para tocar um dos fragmentos…

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