Capítulo 28 - Prosopagnosia Umbral Parte 2
Uma tosse, engasgada com a própria saliva, fez seus pulmões doerem. Puxava os próprios cabelos obscuros, de olhos bem fechados.
“Isso tem que ser mentira…”
Era um absurdo incompreensível o que vivia naquele momento. Descobrir que cada uma das incontáveis noites que viveu trancafiada era uma simples ficção trazia um vazio.
Queria desaparecer, seria melhor nem mesmo ter feito tal descoberta. Estava profundamente incomodada com o aspecto de seu corpo, uma consistência líquida e pastosa. A tinta que a compunha fluía lentamente, como cera derretida, alterando constantemente sua forma.
Abriu os olhos, encarando as mãos brancas como gesso, aprofundando seu estranhamento. Grunhiu, a voz rouca e sinistra ecoando nas profundezas. Cada movimento que fazia com os dedos intensificava o sentimento de estar no corpo errado.
E, em meio ao seu pânico, uma nova angústia a paralisou de medo. A sensação de ser observada, não por outra pessoa, mas por si mesma. Um olhar insensível e aterrador, que emanava de dentro. Não fazia sentido, era um abalo ilógico que corroía sua mente.
Ofegante, percebendo-se em desconexão com o próprio corpo, tentou se levantar. E então, ouviu uma voz suave sussurrar ao pé de seus ouvidos.
— Olá…
— Ah? — Olhou ao redor e não achou a fonte daquela voz.
— Lyria, pode confiar em mim… eu posso te ajudar com qualquer coisa… — disse com um tom agradável.
— Quem é você?!
— Meu nome é Circe, sou uma deusa. É tudo que precisa saber. Diga-me, tem algo que gostaria de fazer agora?
“Fazer…?”
Olhou para o livro e sua capa retorcida, havia o deixado cair no chão. A luz esverdeada dos cogumelos iluminava as páginas. Abaixou-se e o pegou, erguendo na altura do peito para ler. Folheava com um olhar incrédulo, buscando uma informação específica.
O olhar perplexo tornou-se de incompreensão e curiosidade. O nome da autora e todas as outras informações não relacionadas à narrativa principal foram riscadas. Podia distinguir algumas letras pontuais, porém, na maioria, nada que desse para decifrar.
— Quem é a autora disso?! — questionou, elevando a voz até sua rouquidão virar um som ainda mais arranhado.
Circe, a deusa, pensou por alguns instantes antes de ceder a resposta que acreditou ser apropriada aos seus planos. Sussurrou com sua efêmera voz na mente de Lyria:
— Posso te contar, no entanto, quero que faça uma coisa por mim: saia dessa caverna. Caso siga minhas ordens, aqueles séculos trancafiada na prisão poderão ser cobrados cara a cara.
“Ela vai trazer minha mãe de volta?”
— T-tá bom! E-eu faço qualquer coisa para entender o que essa desgraçada queria fazer!
O corpo da garota de tinta tomou uma forma mais sólida. A força de seus punhos cerrados, resultantes de sua fúria contra a criadora, fizeram os dedos quebraram e ficarem totalmente líquidos; reconstruíram-se no segundo seguinte.
— Vá.
Lyria deixou o espaço iluminado pelos cogumelos e percebeu que tinha a capacidade de enxergar claramente na escuridão. O breu parecia ser atravessado por seu olhar, como se não existisse. Avançou pelo labirinto cavernoso da montanha sem um destino certo, guiada apenas por seu instinto e pelo acaso.
Ao final de um dos corredores estreitos, ela avistou um brilho intenso: a luz do sol. Dirigiu-se para fora, sentindo seus olhos arderem devido à luminosidade ofuscante do ambiente externo. Após alguns minutos, havia chegado à saída do sistema.
Tapou os olhos por reflexo, evitando momentaneamente a claridade. Quando se acostumou e arriscou olhar, sentiu seu coração acelerar. Era uma novidade, tudo era uma novidade. Seus olhos desejavam ver mais e mais daquele mundo conforme um sorriso eufórico surgia em seus lábios.
— O que é essa coisa azul? — Andou até a beirada da montanha, olhando para cima.
— É o céu.
— Que brilhante… Ahh, isso é tão bonito… — Respirou fundo, deixando o ar puro adentrar em seus pulmões.
“Era disso que os guardas da prisão falavam?”
Estendeu a mão aos céus, querendo tocar o azul distante e sua vastidão. O formato das nuvens era celestial aos seus olhos desejosos. Em toda sua existência, pouco viu fora das sombras e da escuridão total.
Observando à esquerda daquele ponto na montanha, avistou vastas plantações de trigo e de macieiras rodeando uma vila, Harlon. A região era cercada por uma cadeia montanhosa.
O amarelo vibrante do trigo parecia se mexer como ondas com a passagem dos ventos. Com essa distração, ela deu um passo adiante sem olhar para baixo, caindo rumo ao abismo.
Por sorte, agarrou-se em um galho na encosta sem esboçar qualquer medo. Olhou ao redor e avistou um caminho de pedras onde podia se pendurar com relativa segurança. A descida íngrime foi superada em minutos, chegando à base da montanha.
“Nada de mais, só um sustinho…”
Árvores e a vegetação fizeram-na abrir um tímido sorriso. A estrada de terra que levava até a vila, a poeira que pairava no ar por causa do vento. Tudo, pouco a pouco, aumentou aquela alegria radiante.
Caminhou ouvindo o canto dos pássaros e as vozes longínquas que vinham da população. Pegou uma maçã no caminho e mordeu com seus dentes de tinta endurecida.
“Por que eu ainda sinto gostos? Isso é gostoso demais!”
— Circe, qual é o nome dessa coisa? — O entusiasmo em sua voz era palpável enquanto balançava o fruto em suas palmas.
— Uma maçã… Suas vivências realmente foram tão limitadas assim?
— Erhh… Não sei dizer o quão restringida foi minha vida até aqui… Mas depois de ver essas coisas, diria que muito. — Deu outra mordida, encantada pelo sabor. — Na prisão não tínhamos nada disso, era só uma mistura pegajosa e meio sem gosto de farinha e água.
Desfrutou de cada passo até chegar à vila de Harlon. A arquitetura das casas, e a variedade de materiais, maravilharam seus olhos. As surpresas pareciam intermináveis. Perambulava de um lado para o outro, com um sorriso ingênuo nos lábios. Apreciava as construções enquanto comia mais maçãs.
As emoções negativas foram deixadas para trás diante do admirável mundo novo. Aflorou o desejo de explorar aquela região e descobrir tudo que não teve a chance de experimentar na obscuridade do cárcere; um espírito aventureiro que surgiu rapidamente.
Ao percorrer as ruas e admirar as habitações, deparou-se com uma área devastada. Havia escombros por toda parte e móveis chamuscados agrupados no que sobrou de oito moradias arruinadas.
— Interessante — comentou casualmente Circe, dentro da cabeça de Lyria.
A figura de pele branca como gesso e cabelos escuros como a noite se aproximou de um grupo de crianças que conversavam. Os jovens observavam os escombros quando a voz dela ressoou até eles.
— O que aconteceu aqui? — questionou, a voz ingênua.
Mal teve tempo de entender o que aconteceu, uma dor intensa levou sua mão à bochecha. A tinta, que simulava o sangue, gotejava bizarramente no chão. Uma vontade de chorar subiu dos pés à cabeça, fazendo seu corpo se contorcer.
“Por quê? O q-que eu fiz de errado?”
As gotas absorviam a luz e lentamente ocultaram os pés dela numa enorme escuridão. Sua consciência se esvaía à medida que concentrava-se na dor da pedrada que recebeu de uma das crianças. Viu o pavor nos olhos deles e entendeu que era sua aparência a fonte de medo.
Então… Lyria perdeu o controle do corpo.
Madallen retornara há pouco de uma missão nas proximidades da vila, e agora observava seu pai inconsciente na cama de casal de seus pais. Enfaixou o olho direito do médico e evitou arriscar fazer alguma intervenção para não piorar as coisas.
“Que droga… isso não seria um problema se ele fosse forte o suficiente para se regenerar. Oh, velharada pacifista e acomodada.”
A jovem de longos cabelos laranjas removeu a armadura e ficou somente com suas vestimentas de baixo, roupas bem simples. Sentou-se ao lado da cama, aguardando uma pessoa.
“Minha mãe tá demorando… Espero que ela me ouça melhor quando voltar. Quase me deu uma pancada por falar bem do meu véio.”
Ela fechou os olhos e sentiu a sonolência vindo. Tomou a decisão de que seria melhor dormir até Maria chegar, mas em poucos segundo ouviu um barulho na porta da frente. A mulher chamou por Madallen, e seguiu até o quarto.
A mãe, com o braço enrolado por bandagens, segurava uma sacola de papel. Ela se sentou na beirada cama e encarou a filha, aguardando que ela falasse algo.
— Oi…?
— Olha, precisamos ter uma conversa séria.
Madallen notou uma estranha escuridão repentina e pensou que fosse coisa de seus olhos, esfregando-os para ter certeza.
“O que tá acontecendo aqui?!”
A escuridão se adensava, sufocando gradativamente a luz. Piscava os olhos, tentando fixar a imagem de sua mãe em sua mente. A memória do rosto dela se esvaía toda vez que o breu ficava mais próximo. Tentou falar, mas sua voz estava tão baixa quanto os sussurros de um enforcado.
Tudo foi silenciado com exceção de uma coisa, um ruído persistente de arranhar que vinha do lado de fora da casa. O rosto de Maria havia sido manchado com um vazio indecifrável aos olhos da filha, um enigma proibido que não importava o quanto tentasse solucionar.
O som externo se tornou o barulho desarmonioso de raspar de um quadro negro. E então, um silêncio sepulcral, quebrado apenas pela frenética batida do coração descontrolado dela. Seus olhos mal conseguiam distinguir as formas naquela penumbra, mas se arregalaram.
“É…”
A parede branca começou a fluir como tinta, escorrendo para cima. Um longíssimo par de mãos negras atravessou a parede, mergulhando para dentro. Surgiu, quase na altura do teto, uma cabeça humana sem mandíbula e face, um enorme buraco repleto de girassóis negros que se contorciam como uma infestação de insetos. Fluía do crânio, infinitamente, um líquido que consumia ainda mais da luz. Fedia.
Nos momentos finais de visibilidade e audição, tentou uma última vez olhar para o rosto da mãe; coberto de girassóis negros. O sangue escorria enquanto uma coroa de flores brotava de dentro para fora do crânio.
Madallen viu a mãe desabar morta e gritou até a garganta doer, porém nada se viu ou se ouviu.

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