Índice de Capítulo

    Sentado em uma pedra na margem oposta do lago, Dhaha ergueu a cabeça bruscamente ao ouvir o rugido sobrenatural.

    Sua respiração ainda oscilava pelo ataque de pânico. Sua mente ainda estava assombrada pelas sombras sob a água.

    Ele se sentia um covarde por estar ali, seguro na grama, enquanto seus amigos enfrentavam o inferno abaixo dele.

    O estrondo veio do fundo do lago, o tremor de terra foi tão forte que quase o derrubou da pedra onde descansava.

    — Ei, o que é isso? O que tá acontecendo lá embaixo? — o douradiano exclamou, vendo a água começar a borbulhar.

    As águas do lago começaram a girar em um redemoinho frenético. O nível abaixou rapidamente, sugado para dentro da caverna aberta.

    E então, o colosso se ergueu. Lento, imenso e aterrorizante. Ele era maior que a maioria besta mágica descrita nos livros.

    — Que droga é essa?! — Os olhos de Dhaha arregalaram-se. 

    Era um gigante do tamanho de um prédio e feito de ossos.

    — Mirena! Cucca Beludo! — ele gritou, o desespero tomando o lugar do medo da água.

    Seu corpo explodiu em chamas brancas, ele correu ao redor do lago o mais rápido que suas pernas feridas permitiam.

    A alabarda em suas mãos se moldou sob o efeito do Metalóxis, tornando-se uma grande espada de duas mãos imbuída de carma.

    — O que você fez com eles?! — o grito de Dhaha foi um desafio lançado ao próprio céu.

    O garoto avançou como um raio pálido. O titã se movia lentamente, ainda com os efeitos da prata que Mirena cravou nele.

    Dhaha aproveitou a lentidão e começou a escalar a perna do monstro antes que a mão colossal pudesse alcançá-lo no chão.

    “Ela tem que estar viva!”, ele pensava, cravando a espada nas fendas dos ossos.

    — [Metalóxis]! — um pulso de carma emanou de seu corpo, tornando suas veias salientes sob a pele negra.

    A espada moldou-se em uma lança pesada. Ele a cravou no fêmur como uma estaca de alpinista e saltou em direção ao pescoço.

    — Cai dentro, escoliose de cem metros! — ele provocou, desferindo um golpe que fez lascas de osso voarem como estilhaços.

    Não muito longe dali, Mirena havia escapado por pouco do desmoronamento. Aproveitou as pedras caídas como escada e foi para a superfície

    Cucca estava em suas costas, pálido e inconsciente. Ela havia feito torniquetes improvisados, mas o líder estava em choque profundo.

    Ela se virou para o gigante e viu o brilho familiar nas costas da criatura. Dhaha estava lutando sozinho contra o impossível.

    — Dhaha… — ela sussurrou, sentindo uma pontada de culpa.

    O colosso girou o tronco ao tentar alcançar o garoto em suas costas, mas seus braços eram desajeitados demais para o ângulo.

    Mirena percebeu que o titã ainda estava debilitado pelos seus tiros de prata. Era a única chance de vitória que eles tinham.

    Com uma última olhada em Cucca, ela partiu na direção do monstro. Suas pernas tremiam, mas não de pânico, e sim de exaustão.

    Dhaha alcançou o pescoço, sua lança moldou-se em um martelo de guerra imenso. Ele desceu o golpe com toda a fúria que possuía.

    O impacto foi brutal, mas a força de rebote foi igualmente severa. Os ossos de Dhaha tremeram sob a pressão do próprio golpe.

    — Argh! — Ele cuspiu sangue e sentiu as costelas reclamarem. Seu corpo ainda não estava recuperado das lutas anteriores.

    — Rock!!! — o urro da criatura abafou o grito de dor do garoto. O titã uniu as mãos e golpeou o chão com força total.

    Em um ato de desespero, Dhaha saltou das costas do titã, mas outro grito o alcançou no alto. O chão abaixo de Mirena se partiu em pedaços e ela caiu para dentro da caverna.

    — Mirena! — Sem pensar, Dhaha se lançou.

    A garota já podia se ver esmagada pelas pedras, seu sangue gelou e suas mãos se estenderam para os céus. Ela não sobreviveria à queda.

    Um choque elétrico passou por seu corpo a partir do braço esquerdo. Dhaha a agarrou no ar e usou o carma para amortecer a queda.

    — Você está bem? Consegue se mexer? — ele perguntou, ofegante, colocando-a no chão firme enquanto o gigante se virava.

    — Sim, eu… — ela parou. O titã havia se levantado novamente, agora com um olhar de fúria cega fixo neles.

    A realidade esmagou a esperança de Dhaha. A criatura era grande demais e, se não a parassem, Eldon seria varrida do mapa.

    — Mirena, saia daqui agora. Leve o Cucca e corra para a cidade — ele disse, sem olhar para ela.

    — Mas o gigante está mais fraco. Temos como derro…

    — Não! — o grito de Dhaha a calou. Foi a primeira vez que ele falou com aquela autoridade cortante. 

    A garota perdeu o ar com a resposta, esperava isso de qualquer um, menos Dhaha.

    — Você não tem mais sua arma, nem os chifres de prata. — O garoto abaixou a cabeça, suas mãos tremiam. 

    Ele olhou para o colosso e depois de volta para a amiga.

    — Você mal conseguia correr, eu vi. Eu entendo… porque eu também tô com medo.

    Houve um silêncio pesado entre eles, apenas quebrado pelos passos sísmicos da abominação de ossos.

    — É difícil admitir isso, mas eu não consigo vencer sozinho — ele disse, cuspindo mais um coágulo de sangue.

    — Então por que está indo?! — a voz dela quebrou em um soluço. — Vai morrer para nada?

    — Se eu não fizer isso… ele vai pra Eldon. E eu sou um herói, lembra?

    Mirena sentiu a raiva subir. Ela odiava ser a protegida, odiava ser a garota que apenas observa enquanto os outros sangram.

    — Vai até a cidade e chama ajuda da guilda, eu vou segurar essa coisa o quanto conseguir. Com sorte, eles chegam a tempo.

    Mas então, como se quisesse quebrar aquele momento e não ouvir mais alguma palavra:

    — [Metalóxis]! — o carma de Dhaha explodiu em chamas pálidas. 

    Ele avançou novamente contra o gigante, manco e ferido.

    “Não…”, a ardenteriana pode apenas observar, como uma garota indefesa.

    Mirena socou o chão com tanta força que seus punhos sangraram. As lágrimas de frustração misturavam-se à lama.

    — Por que você não me ajuda, [Caleidogênese]!

    Outro soco, e outro, e mais um, socou o chão até seus punhos sangrarem. As lágrimas escorriam com o peito apertado, sabia que não chegaria na cidade a tempo de salvar o amigo, não conseguiria salvar ninguém.

    — Se eu fosse… sniff… forte como ele… — murmurou a garota, com a voz engolida pelos rugidos da criatura. — Se eu fosse mais parecida com o Dhaha!

    O céu enegreceu de repente. Nuvens carregadas colidiram, trazendo uma chuva torrencial que lavava o sangue da grama.

    Com o estrondo de um raio, o titã golpeou o garoto e o arremessou ao chão.

    “Droga…”, pensou Dhaha, ofegante. “Mal consigo acompanhar”.

    O titã ergueu o punho fechado sobre o corpo caído de Dhaha. O garoto fechou os olhos.

    “Acho que… eu fui um bom herói. Né, mãe?”.

    Mirena sentiu algo romper dentro de si. Um nó apertado demais que finalmente cedeu sob a pressão da dor e da ambição.

    — Não — ela disse, baixo.

    Suas pupilas contraíram e suas veias pulsaram com um brilho pálido sob a pele. Ela correu na direção do monstro.

    — Se eu fosse como Dhaha — disse ela

    “Fraca”, uma voz sussurrou em sua mente.

    — Se eu fosse forte como ele…

    “Fraca”.

    — Se eu pudesse fazer o que ele faz…

    “Fraca”.

    — Se eu pudesse ser a heroína.

    O choque ressoou pelo seu braço esquerdo, espalhando-se por todo o tronco. Era a mesma sensação da corrida, mas controlada.

    Mirena entendeu. Ela queria ser como os outros, ela precisava ser como os outros. Precisava ser como Dhaha.

    Uma explosão de chamas brancas iluminou a chuva, mas não era Dhaha. Como um raio pálido, a nova heroína avançou sobre a criatura, seu braço direito, agora na forma de um grande montante curvado, reluzia ao brilho dos trovões.

    — [Caleidogênese]! — ela gritou, saltando e decepando dois dedos imensos da criatura com um único corte de luz.

    O titã recuou com um rugido de dor real. Mirena pousou na frente de Dhaha, a espada de carma brilhando como um sol.

    — Você está bem, herói? — ela perguntou, estendendo a mão para o amigo.

    Desta vez, Mirena não precisava ser protegida por alguém.

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