Índice de Capítulo

    Dhaha já conseguia ver seus ossos esmagados por aquelas mãos gigantescas, a sombra do colosso escondeu o céu e apagou sua esperança.

    Memórias o acertaram como pequenos cacos de vidro. Ele estava vendo sua vida passar diante dos olhos, um filme mudo e em preto e branco.

    Antes que o amontoado de ossos tocasse o solo para esmagá-lo, um clarão cruzou o campo de visão do garoto.

    O som estridente de metal colidindo com algo sólido atingiu seus ouvidos e o trouxe de volta para a realidade brutal.

    “O que…?”, sua mente estava um caos completo. Seus olhos ardiam com o brilho alvo que emanava da sua frente.

    — Você está bem, herói? — disse Mirena, estendendo o braço esquerdo enquanto o direito ainda brilhava em chamas brancas.

    Não era apenas sua amiga que estava ali, era uma heroína completa. O exato tipo de figura que ele sempre sonhou em ser.

    Dhaha não teve escolha a não ser engolir as palavras de desespero de antes, a realidade o acertou como uma martelada.

    Mirena não precisava ser protegida, ela era o escudo que ele não conseguia mais carregar sozinho.

    — Melhor impossível. — Ele forçou um sorriso, ignorando o gosto de ferro do sangue em sua boca.

    — Estou vendo. Parece que um carro te atingiu, e ele gostou tanto que resolveu passar de novo.

    Ela ergueu o amigo com uma força que ele não sabia que ela possuía. O corpo de Dhaha parecia feito de chumbo.

    — Imaginação sua. — O douradiano alongou os membros o mais rápido que pôde, sentindo os músculos gritarem.

    — Mas então, senhor gênio… qual é o plano para derrubar o prédio de ossos? — ela perguntou, ao recuperar a postura de combate.

    Eles se viraram para o monstro, que agora rugia para recuperar o equilíbrio. Cada movimento dele causava pequenos terremotos.

    — Ele é grande, né? — Mirena começou, ajustando a empunhadura do montante de carma que seu braço direito havia se tornado.

    — Um dos maiores que já vi.

    — Eu não tenho certeza do que faremos. Não achei uma fraqueza óbvia e não temos tempo para fazer picadinho dele.

    — E nem temos energia pra uma luta de resistência. Precisamos de um golpe decisivo.

    Dhaha deu uma olhada rápida pelo corpo do monstro e reavaliou o caminho que havia percorrido segundos antes.

    — Ele ficou totalmente “bilu tetéia” quando eu cheguei perto do cangote. Talvez o ponto vital seja a base do crânio.

    — Bilu… o quê? Enfim, se cortarmos a cabeça fora, essa palhaçada acaba?

    — É… na teoria dos heróis, geralmente isso resolve o problema.

    — Bom, se der errado, o plano B é bater até ele se tornar cal. — Mirena sorriu. — [Caleidogênese]!

    O braço direito dela se moldou novamente com um estalo metálico, transformando o montante em um machado de batalha pesado.

    — Até que aprendeu rápido as gírias de batalha… [Metalóxis]! — Dhaha fez o mesmo, moldando sua arma em um machado idêntico.

    — Um ataca pela brecha… — Mirena começou a avançar.

    — E o outro ataca com o dobro da força! — Dhaha completou o grito.

    Ambos arrancaram na direção do monstro como duas bolas de fogo branco cortando a chuva torrencial.

    Atingiram a perna direita do titã em sincronia perfeita. Dhaha golpeou por baixo, Mirena por cima.

    O monstro urrou, seus joelhos imensos cederam e tocaram o solo lamacento com um impacto capaz de derrubar árvores ao redor.

    Um soco gigantesco veio logo em seguida, tentando esmagar a dupla, mas nenhum dos dois estava lá. 

    Com um salto para trás, escaparam do golpe e usaram o próprio braço do monstro como rampa.

    Eles se impulsionaram pela mão sem dedos do colosso, correndo pelo antebraço esquelético como se fosse um solo estável.

    Cortavam a ulna da criatura enquanto corriam, Dhaha pela esquerda e Mirena pela direita, como se houvesse um espelho entre os dois.

    Escalaram até o úmero. Outra mão tentou atingi-los no alto, mas eles saltaram para as costelas no último milésimo de segundo.

    O monstro soltou um grito de frustração ao golpear o próprio braço com força total.

    — Ai meu Rock!!! — a voz dele ecoou pela floresta, e assustou alguns pássaros a quilômetros de distância.

    — Ele é muito mais burro do que eu imaginei! — gritou Dhaha, saltando de uma costela para a outra.

    Seu machado tornou-se um martelo de guerra e golpeou um dos ossos titânicos da lateral do tórax.

    Mirena veio logo atrás, seu próprio martelo golpeou por baixo do mesmo osso. O impacto combinado foi absoluto.

    A costela imensa se partiu e voou para o meio da floresta, enquanto cortava árvores como se fossem palitos de dente.

    Subiram para o ombro. Saltando, abaixando e correndo, os dois agiam como se soubessem exatamente o que o outro faria, igual uma dupla de dançarinos.

    Cada movimento que Dhaha ameaçava fazer, Mirena copiava como se já tivesse o repetido dezenas de vezes.

    Ela copiava a fluidez dele, mas adicionava a precisão técnica que o douradiano muitas vezes ignorava no calor da luta.

    O monstro girou o tronco violentamente, lançando os dois em pleno ar para tentar se livrar da “infestação”.

    A criatura respirava ofegante, um som seco e assustador, mesmo sem possuir pulmões ou carne.

    — Eu sou do Rock!!! — ele berrou, ao preparar um golpe esmagador para quando eles atingissem o chão.

    Mirena reagiu primeiro: um brilho branco cobriu os céus antes que a gravidade os vencesse completamente.

    Um grande machado fincou-se no ombro oposto do monstro, preso a uma corda de metal.

    — Vamos! — gritou ela, ao puxar a corda e arrastar Dhaha junto no impulso do ataque.

    Voando como pássaros alvos, os dois retornaram para o topo do monstro.

    Suas armas se remodelaram instantaneamente em pares de espadas curtas para o combate em curta distância.

    Executavam cortes em uma sincronia assustadora: quando Dhaha golpeava na vertical, Mirena fechava na horizontal. Quando ele mirava para cima, ela cobria por baixo. 

    Encaixaram as quatro lâminas na junta principal do ombro.

    Com uma explosão repentina de carma e uma mudança de forma para brocas pesadas, romperam o ligamento do titã.

    O ar vibrou com o grito de agonia do monstro e, sem o balanço do braço, o esqueleto colossal tombou pesadamente para o lado.

    O crânio do colosso atingiu o chão com a força de um meteoro, abrindo uma nova cratera na margem do lago.

    O gigante moveu a mão restante de forma descontrolada, na tentativa de afastar os dois sobreviventes que agora corriam pelo seu pescoço.

    Dhaha e Mirena aproveitaram a queda do colosso para avançar, enquanto desviavam dos golpes desesperados antiaéreos

    Usaram o braço que restava como um trilho, deslizando pendurados lado a lado com as lâminas cravadas no osso.

    Quando pousaram sobre as vértebras cervicais, a criatura tentou um último golpe de cima, mas eles repeliram a defesa com o golpe de dois martelos.

    — [Metalóxis]! — Dhaha gritou, concentrando o que restava de sua alma na arma.

    — [Caleidogênese]! — Mirena acompanhou, sua voz soando clara e firme apesar da exaustão.

    Com a criação de dois montantes de proporções exageradas, ambos subiram pelo crânio e saltaram em direção ao pescoço.

    A última coisa que a criatura pôde ouvir foi o som seco de seus ossos partindo-se sob a pressão do metal.

    O crânio despencou no chão como uma rocha imensa, o braço parado e estendido pela lama parou de lutar. O brilho sombrio do necromante finalmente havia se extinguido.

    O corpo da criatura começou a se desfazer em uma nuvem espessa de poeira branca e um leve brilho negro de carma.

    A chuva lavou o sangue dos dois, mas não apagou aquilo que eles haviam perdido.

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