Índice de Capítulo

    Sob o véu tênue do sol que mal tocou o horizonte, Kevyn se ergueu com um impulso sóbrio dos lençóis frios que ainda carregavam o aroma da última lavagem. O ar rarefeito roçou sua pele; pele cada vez mais parecida com a de sua mãe.

    Sem hesitar, cruzou o quarto em passos leves até o banheiro. Escovou os dentes com rapidez. Com um gesto curto, formou uma bolha d’água nas mãos e a lançou contra o rosto. A água flutuou como sua idealização, lavando todas as impurezas de sua pureza.

    Guelras sutis surgiram em suas bochechas, absorvendo parte da água como se ele respirasse através delas. Diante do espelho, encontrou o vazio familiar nos próprios olhos; não havia esperança a esse ponto, mas também não temia mais. Apenas ele mesmo, como sempre.

    Virou-se. E, num movimento decidido, saiu do quarto e desceu as escadas com pressa de quem precisava se mover antes que o mundo viesse atrás dele. Já na cozinha, mexeu nas panelas com precisão. Em pouco tempo, os utensílios estavam prontos; contrapostos sobre o fogão, como empecilhos vindos de seu lindo tabuleiro, peças breves a serem mexidas.

    “Preparação!”, a ausência de sua parceira doía, mas fazia ele ser ele mesmo. Encarregado da vida, a casa parecia mais viva, por mais de toda solidão. Ele sabia que ela voltaria; era uma razão sem noção para seu coração, mas ele acreditou naquilo.

    Ideia na mente, corpo dormente.

    Do lado de fora da casa, o príncipe permaneceu imóvel, os pés afundando levemente na grama úmida, viva. Seus olhos, marcados por tons que já não distinguem o mundo, que nunca puderam ver de verdade. Captando apenas o traço de energia das coisas; não cores, não formas, mas a dança vibrante de mana, magia e moléculas. Tudo ao seu redor pulsava, mas ele via beleza até na mais profunda estrutura.

    Então ergueu a mão devagar. O sangue escorria do nariz em um fio fino, silencioso e quente. Seu corpo implorou para que parasse, mas, se o “rei” ordenou, obedeceria e não parou.

    Seu mundo catalisou.

    O ar se dobrou como folhas ao redor de seus dedos, girando em espiral como lâminas invisíveis. Estava moldando metal; criado a partir de — o respondeu assim e arrancou por pura força. O céu, até então silêncio, se revolveu em giros lentos e pesados, carregados da sua vontade, como se acompanhasse a criação que nasceu abaixo dele.

    Sem chuva, as nuvens choram em silêncio, densas, comprimidas.

    No centro de tudo, forjada milhões de vezes pela mente de seu rei, pela dor, pelo amor, surgiu uma armadura pela mais pútrida amargura desse príncipe; armadura ao vento surgiu. Não como uma peça? Era seu mais novo peão, mas também reflexo de si.

    Linda. Precisa. Fatal.

    Perfeita como ele criou e imaginou.

    — Dyaron! — gritou, enquanto dava um passo à frente. Tirou diversos núcleos de mana de sua bolsa dimensional e continuou: — vinte e dois núcleos de ferro e três de transmutação, armadura viva vinda do meu sangue, minha filha, desperte!

    Canalizando o sangue em sua mão, o príncipe sentiu o calor vital entre seus dedos. Então, com um gesto firme, envolto de intenção pura, ele centralizou a abjuração; não como feitiço, mas como mana, superando a matéria, transformando o mundo.

    Por um instante, tocou o capacete ainda adormecido da sua filha diante de si.

    E então, tudo mudou.

    O toque quebrou as barreiras do mundo físico. Tua apologia encarnada em magia, que o sangue carregue a sua vontade, romperás as moléculas para que se tornem tuas.

    No lugar do barulho, o nada: Dyaron despertou.

    A armadura carmesim se ergueu com seus estalos metálicos, quebrando o ar com nitidez, rompendo os séculos que não viveu por aguardar esse chamado único. Não eram apenas placas de metal, mas uma alma. Viva. Uma arma?

    Da poeira suave que a brisa da manhã levantou, outra presença se revelou. Familiaridade. Carregador de memória e significado. O príncipe virou, e ali estava ele: Humbra, ajoelhado em silêncio, como uma sombra que sempre soube seu lugar.

    Do outro lado, Dyaron se moveu com solenidade ancestral. O som metálico, quase um lamento, percorreu o vazio e cobriu o véu do espaço. A armadura, agora despertada, se ajoelhou também.

    Ambos em reverência.

    O garoto observou seus dois filhos; criações distintas, mas igualmente suas, dobradas perante algo que não era apenas poder, mas também seu legado. Cerrou os olhos, sentindo o peso daquele momento repousar sobre seus ombros… não como fardo, mas teu próprio mundo a se carregar.

    Mesmo ainda sendo tão frágil.

    E então falou, com a voz baixa, porém firme, como quem declara algo que não pode mais ser desfeito:

    — Bem-vindos ao mundo, meus generais.

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    Com a cozinha recebendo o calor tímido do sol, a guarda real estava junto ao seu rei em um breve e cotidiano café da manhã.

    Reunidos em uma ceia tão especial para ambos, a armadura ainda parecia confusa com seus minutos de vida, olhando para tudo e todos com curiosidade, mesmo não tendo olhos.

    Na alma de seu criador há tanto tempo, Humbra levou seus dedos esqueléticos até a mesa para abaixar a cabeça hesitante sobre sua própria pergunta. Recordando o estado atual de seu mestre, o grande general fechou o punho com força e indagou, com a vontade de mil montanhas:

    — Como você está? E por que finge estar bem?

    — Humbra, vocês são os únicos que podem sentir as dores da minha alma, os únicos que realmente estão ligados a mim. Não por sangue, não por laços invisíveis, mas por alma. Então por quê? Por que eu deveria demonstrar fraqueza, mesmo quando vocês já sabem de tudo? Não pense que só por ser um garoto eu vou quebrar na frente de meus soldados. Se eu não puder me manter inabalável, eu vou acabar perdendo tudo de novo. Eu não quero isso, isso… não de novo, nunca mais.

    Vendo seus olhos tão vazios, o esqueleto abaixou a cabeça mais uma vez e refletiu: “Depois de tudo o que aconteceu, eu ainda não consigo entender tão bem.” De pupilas dilatadas, mais uma vez perguntou:

    — Mas você precisa mudar quem é para ser inabalável?

    Fechando a cara por completo, respondeu: — Acha que eu deveria mostrar fragilidade?

    — Não, mas, se somos suas criações, precisa ficar tanto na defensiva?

    Suspirou e desviou o olhar de maneira calma. — Olha, Humbra, eu só não estou passando por um bom momento…

    — … Está tudo bem… meu senhor.

    — Não, não está.

    — Sua vida importa. Você é o que mais importa, então seja bem-vindo. — Frase sem nexo, era disfuncional, mas fazia sentido.

    Levemente, Kevyn inclinou sua cabeça e suspirou enquanto a apoiava sobre a própria mão. — Tudo bem, então.

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